Kindred – Os Horrores, Dilemas e Contradições do Período Escravagista em Forma de Ficção Científica

Kindred – Laços de Sangue é o primeiro livro de Octavia E. Butler – dama da ficção científica – a ser publicado no Brasil.

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Quando eu era adolescente, as aulas de que mais gostava na escola eram as de Literatura e Português. De fato, entre as poucas coisas que ficaram na memória daqueles longos e sofríveis anos de ensino médio estão alguns ensinamentos passados adiante por duas mulheres maravilhosas que tive o prazer de ter como professoras na minha adolescência. O mais marcante de todos: prenda a atenção do leitor logo na primeira frase.

Felizmente, vira e mexe eu leio livros que fazem com que eu me lembre com saudosismo desse detalhe tão importante da escrita criativa. Alguns trazem primeiras frases reflexivas, que deixam aquele gostinho de quero mais. Outros apostam em aberturas intrigantes, que não podem ser entendidas por si só. Já a rainha Octavia E. Butler optou por começar Kindred com um soco bem no meio da fuça do leitor com a seguinte abertura:

“Perdi um braço na minha última volta para casa. Meu braço esquerdo.”

HEIN? (Gif chocado).

 

Para além das boas práticas da escrita criativa, é muito apropriado que Butler tenha optado por começar a sua história dessa forma, pois esse é apenas o primeiro de muitos outros socos e chacoalhões figurados que o leitor receberá ao longo de sua leitura.

Kindred – Laços de Sangue foi publicado em 1979 e desde então se tornou um dos livros mais importantes da literatura americana. Sua edição brasileira – levada a cabo pela Editora Morro Branco e lançada na semana passada – é um marco, não só porque é a primeira vez que Octavia E. Butler é publicada no Brasil, mas também porque sua história é especialmente relevante para os leitores brasileiros.

Narrado em primeira pessoa, Kindred nos traz Dana Franklin no papel de protagonista, uma jovem escritora de vinte e seis anos que tenta publicar seus contos e romances enquanto trabalha em empregos temporários variados para se manter. Um belo dia – o dia do seu aniversário, por sinal – ela e seu marido Kevin estão desencaixotando seus pertences na casa para a qual acabaram de se mudar quando Dana sente uma tontura e, de repente, desaparece.

Quando ela dá por si, está no meio de uma mata na beira de um rio, onde um garotinho ruivo está se afogando. Sem pensar, ela entra na água e salva o garoto, mas curiosamente é tratada com hostilidade pela mãe da criança. Quando o pai aparece e aponta uma espingarda na sua cara, Dana reaparece novamente na sala de sua casa, encharcada e enlameada, para surpresa do seu marido. O choque não vai passar tão rápido, no entanto, pois logo as tonturas voltam e ela é levada novamente.

Logo, Dana descobre que está voltando no passado, para um sul dos EUA escravista, pré-guerra de secessão. Mulher e negra, ela logo aprende na prática que viagens para o passado só guardam promessas de maravilhas e aventuras para homens brancos. De fato, Butler faz questão de deixar isso bem claro quando Kevin, o marido branco de Dana, é levado com ela em um determinado momento.

“- Esta época poderia ser ótima de se viver. – disse Kevin, certa vez. – Fico pensando que seria uma grande experiência permanecermos nela…irmos para o Oeste, para vermos a construção do país, ver quanto da mitologia do Velho Oeste é verdade.

– No Oeste – digo com amargura – é onde fazem com os indígenas o que fazem aqui com os negros!” (pg. 157)

A cada vez que Dana volta no passado, é sempre para a mesma fazenda em Maryland, para ajudar o mesmo garotinho ruivo – filho do dono da fazenda – em diferentes momentos de sua vida. Logo no começo, ela descobre que o garoto é um de seus antepassados e que a sua sobrevivência depende da sobrevivência dele.

Desse fato decorre a maioria dos grandes temas tratados em Kindred. A vida e resistência dos escravizados, a relação entre eles e os brancos, os laços de sangue formados na base da violência e subjugação, os seus efeitos na atualidade, a importância de se reconhecer esse passado.

Com Kindred, Butler levou o gênero da ficção científica a um novo patamar, e inovou também ao trazer uma história sobre o período escravista norte-americano contada em primeira pessoa por uma personagem negra, que vivencia na pele os horrores, dilemas e contradições da escravidão. Aliás, em Kindred Butler também faz um comentário sobre a forma romantizada e sanitizada como o período é muitas vezes retratado na mídia e na literatura. Em uma de suas voltas para casa, Dana busca ler o máximo possível sobre escravidão, mas é em um livro sobre o Holocausto que ela encontra um retrato mais realista do período:

“Li livros sobre escravidão, ficção e não ficção. Li tudo o que tinha na casa, por menos relacionado ao assunto que fosse. Até mesmo E o Vento Levou, ou parte dele. Mas sua versão de negrinhos felizes envolvidos em amor foi demais para mim.

Então, acabei me distraindo com um dos livros da Segunda Guerra Mundial de Kevin: um livro de memórias de sobreviventes de campos de concentração. Histórias de agressão, inanição, imundície, doença, tortura, todo tipo de humilhação. Como se os alemães tivessem tentado fazer, em apenas alguns anos, o que os americanos praticaram por quase dois séculos.” (pg. 189)

Com uma protagonista negra que pertence a 1976, temos um olhar sem filtros de alguém que também experimenta na pele os desdobramentos dos horrores do século XIX na forma de racismo no século XX. Dessa forma, a narrativa oferece ao leitor camadas variadas de reflexão, pois acontece do ponto de vista de quem vê claramente os efeitos da escravidão no nosso próprio tempo.

Outro ponto valioso de Kindred é a construção dos personagens. Além de Dana, conhecemos diversos outros negros escravizados que, ao contrário do que frequentemente acontece em histórias sobre o período, têm cada um a sua própria individualidade e complexidade. Através deles, Butler nos mostra todo o processo experimentado por essas pessoas: a infância inocente, a perda dessa inocência com os castigos violentos, a violência sexual contra as mulheres, a busca por educação, as tentativas de fuga, os sentimentos conflitantes em relação ao senhor branco, as estratégias de sobrevivência.

Além disso, Butler também aproveita para criticar estereótipos racistas clássicos. Dana nota, em determinado momento, que Sarah seria como a clássica Mãe Preta (ou Mammy) – servil e submissa aos senhores brancos (e por isso desdenhada por muitos ativistas de direitos civis do século XX) -, mas a autora subverte o estereótipo ao apresentar Sarah como uma personagem carinhosa, mas cheia de ódio e amargura, subjugada apenas pela ameaça de ter sua última filha vendida.  

Mais importante do que tudo isso, no entanto, é que com Dana e um olhar profundo sobre os personagens escravizados, a autora propõe ao leitor o exercício de se imaginar na situação deles – e de reconhecer, com isso, todo o heroísmo contido simplesmente no ato de resistir.

Por último, é importante notar que Butler também levanta questões complexas com Rufus, o antepassado branco de Dana que ela se vê obrigada a ajudar a sobreviver. Não quero falar muito sobre o personagem para não dar spoilers, mas basta dizer que o livro traz na relação dele com Dana um questionamento importante sobre o poder de influência de um sistema contra o indivíduo, e do quão contraditórios e conflitantes podem ser os nossos sentimentos.

Kindred é um desses livros que poderiam render horas de discussão, e a minha esperança é que agora que foi traduzido para o português muitos brasileiros também sejam instigados por ele a refletir sobre o passado escravista do nosso próprio país. Que as pessoas possam se reconectar com a História, senti-la e reconhecê-la como parte integral da nossa sociedade atual, queiramos ou não. Afinal, é só olhando para o passado que podemos entender e transformar o presente.


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