The Good Wife: Protagonismo Feminino e Muito Girl Power

Não se deixe enganar pelo título. The Good Wife definitivamente não é uma série sobre a esposa perfeita.

Imagem da personagem Alicia Florrick, da série The Good Wife.

The Good Wife é uma série dramática que conta a história de Alicia Florrick, advogada que tinha decidido virar dona de casa para criar os dois filhos, mas tem que voltar a trabalhar depois que o marido político, Peter Florrick, é preso por corrupção. A partir daí, Alicia tem que lidar com escândalos sobre sua vida pessoal, a competição no trabalho e os dramas na família.

Pelo título, é possível que muita gente ache que The Good Wife é desinteressante ou até mesmo meio machista. Alicia Florrick, no entanto, prova o contrário. Temos aí uma protagonista muito bem construída, complexa e, para fechar com chave de ouro, uma mulher já nos seus quarenta anos de idade (o que sabemos que é uma raridade em Hollywood).

Gif da personagem Diana poderosíssimaE ela não é a única na série.

 

Para além de sua protagonista, The Good Wife mistura muito bem o estilo procedural-legal com dramas políticos e familiares. Cada episódio traz uma história diferente dos clientes da firma de advocacia que Alicia trabalha, sem deixar de lado a narrativa da personagem principal. Com isso, The Good Wife consegue discutir temas muito relevantes – de religião, racismo e o movimento Black Lives Matter à supervigilância dos governos e grandes empresas sobre o que os usuários de redes sociais fazem online. E tudo isso de forma inteligente e sensível.

Uma das coisas que eu acho mais legal é que ao longo da série vemos como o título é irônico e muito bem pensado. A intenção não é que Alicia seja a “mulher perfeita”, que consegue trabalhar fora, cuidar dos filhos e ter controle sobre absolutamente tudo. Muito pelo contrário: a produção não é tímida em mostrar os erros e defeitos dela também.

Alicia é uma personagem que sai de casa para beber e se divertir, tem uma vida sexual, e possui desejos e vontades próprias. Ela rompe com expectativas de gênero, tanto nas telas como na vida real (especialmente quando falamos de mulheres com mais de 40 anos, e que ainda por cima são mães).The Good Wife quebra todos esses estereótipos.

Eu juro, se você começar a medir o tanto que estou bebendo, vou fazer shots. 

 

No papel principal, Julianna Margulies apresenta uma performance incrível e vencedora de vários prêmios (incluindo dois Emmys e um Globo de Ouro), e faz com que amemos e odiemos a personagem ao mesmo tempo. Como disse Daniel Fienberg, em um artigo no The Hollywood Reporter, podemos colocá-la junto dos grandes anti-heróis da televisão, como Tony Soprano, Walter White e Don Draper. Personagens que amamos, mas às vezes também amamos odiar. Alicia não é boa nem má, mas sim uma pessoa falha, como todos nós. E no final, The Good Wife é simplesmente a história dela, tentando ser dona da própria vida e controlar o próprio destino. Segundo os seus criadores, a série é sobre a educação e o crescimento de Alicia Florrick.

Outro ponto positivo de The Good Wife é que ela foi criada por um casal, Robert e Michelle King, e o envolvimento de uma mulher na concepção da história faz, a meu ver, muita diferença. A série traz muitas mulheres em papéis centrais e passa facilmente e com todos os méritos no teste de Bechdel. Suas personagens são interessantes e bem escritas, e conseguem representar bem mulheres da vida real.

As relações entre as personagens femininas são um grande foco da série, e é incrível ver como essas interações entre elas são desenvolvidas de forma autêntica. É raro ver em uma mesma série de TV mulheres de gerações, histórias e ambições diferentes terem todas o seu espaço. É muita mulher poderosíssima na mesma série.

O movimento feminista é outro elemento super presente e bem representado na série, tanto de forma explícita (tem até uma aparição do ícone Gloria Steinem!), quanto de maneira mais sutil. Diane, advogada muito bem-sucedida que escolheu não ter filhos e não se casar, levanta a bandeira sempre, mas a própria jornada de autodescobrimento e busca por autonomia de Alicia é libertadora e faz refletir sobre a condição da mulher e as desigualdades de gênero.

Sobre esse ponto em especial, há um diálogo bem interessante entre Alicia e Diane sobre uma advogada na empresa, muito bem estudada, que resolve largar o emprego para ser esposa e mãe. Diane diz algo como “não acho que o teto de vidro foi quebrado para isso”, ao que Alicia rebate: “eu acho que foi”. O diálogo levanta uma discussão muito relevante sobre as obrigações e expectativas que ainda são colocadas sobre nós. Antes esperava-se que a mulher fosse dona de casa, enquanto agora espera-se que sejamos donas de casa e profissionais. As expectativas mudaram, mas ainda nos deixam sem opção ou poder de escolha.

E falando em Alicia e Diane, é lindo ver como, ao invés de rivalidade entre as mulheres da série, existem momentos de conexão e sororidade. The Good Wife apresenta amizades e apoio entre suas personagens, que são mulheres que fizeram escolhas de vida diferentes mas que aprendem a conviver e a se respeitar. Diferentes relações são exploradas entre mulheres da série: a de Alicia com sua filha e com sua sogra; a dinâmica de mentora que se estabelece com Diane; a cumplicidade entre ela e Kalinda. Para mim, The Good Wife é uma dessas séries que ainda é raridade, mas que gostaríamos que fosse norma.

Mas não é perfeita, é claro. Se é raridade para mulheres brancas, sabemos que é ainda mais difícil encontrar séries que são protagonizadas por mulheres negras. Infelizmente, é aí que The Good Wife peca. É uma série que, apesar de trazer discussões importantes e ter grande parte do elenco composto por mulheres de todas as idades, ainda é majoritariamente branca. Como seria incrível ver cada vez mais histórias de mulheres diversas sendo contadas. E de forma que, mesmo no mundo surreal das séries dramáticas de TV, ainda conseguisse ser relevante e autêntica.

Gif da Alicia Florrick dizendo "Estou dentro"Estamos dentro.

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