Musicalidade Negra em Imagem-Movimento: Solange Knowles

Em seu novo álbum, A Seat at the Table, Solange Knowles anuncia nosso lugar à mesa, pelo direito humano de participar dessas cenas e de assumirmos a revolta com o não reconhecimento de nossa imagem, nossa estética e nosso saber. 

solange knowles

Desculpe o trocadilho, mas adoramos uma ironia: o novo álbum visual de Solange Knowles é um tiro certeiro no alvo. A começar pelo título: A Seat at the Table (Um Lugar à Mesa). Especialmente para nós brasileiras negras, é algo a ser muito comemorado, assim como foi e deve ser comemorado o álbum A Mulher do Fim do Mundo de Elza Soares, a Outra Esfera de Tássia Reis, assim como festejamos Lemonade de Beyoncé, tal como amamos É o poder de Karol Conka, e tantas outras. Maravilhosidades de mulheres negras criativas e revolucionárias.

Estamos levantando nossas bandeiras, apesar de nos acusarem de racismo reverso, de agressividade – e a mais nova acusação que poderia ser trágica se não fosse cômica –, de dividir a esquerda. Não estamos mais nos importando com esses rótulos. Queremos ser ouvidas e seremos! Nossas vozes são incríveis, nossas músicas são ótimas, nossa harmonia é refinada, nossas rimas são inteligentes e criticam a perpetuação da anti-negritude. Não estamos conformadas, queremos mudança e começamos por nós mesmas.

Desde a escravidão, o lugar do branco é naturalizado nos espaços sociais, especialmente se forem os de superioridade, de liderança, de representatividade. Os negros, ao contrário, quando chegam em determinadas posições, são estranhados. Alexandra Loras, ex-Consulesa da França no Brasil, do alto de sua elegância, relatou que já foi confundida com empregada pelo simples fato de ser negra. Como resposta, fez um ensaio para a revista Vogue em que provoca uma inversão de papeis, na campanha Vista Minha Pele, chamando a atenção da branquitude para essa sempre suposta superioridade; a violência simbólica, protagonista de uma repetição histórica de inferiorização do povo negro.

Ter empregados domésticos (a maioria mulheres negras) não é algo com que a branquitude se preocupe, de que tenha algum constrangimento. Por nossa vez, nós, mulheres negras quando somos empregadas domésticas não temos nada do que nos envergonhar, pois carregamos nas costas uma sociedade que não se ocupa de limpar a própria sujeira, de fazer sua comida, de cuidar de seus filhos.

O pensamento racista e, indo um pouco além, da anti-negritude (essa nomenclatura refere à problemática do genocídio do povo negro), estão cronificados em nossa sociedade. Isso resulta no impedimento ou em hesitações quanto às políticas públicas de inclusão e de reparação da época do colonialismo escravocrata (presentes em diversos países, especialmente os do continente americano) aos negros, compondo um panorama de reprodução de assassinatos em massa e de processos de exclusão que impedem a ascensão social das pessoas negras, ou que se questiona no sentido de invalidação dessa ascensão.

Mas voltando à Solange, essa diva incontestável, ela anuncia nosso lugar à mesa, nos ajuda a pensar que podemos sim e que temos direito a sentir raiva quanto a essa estrutura paralisante. Faz também uma denúncia muito pertinente, e que para nós brasileiros e brasileiras nos cai como uma luva, a essa sociedade que se dedica anos a fio a expor suas vergonhas nas novelas que vendem uma imagem de família branca e rica. Ela faz alusão à mesa – o que nos convoca a funções sociais a ser exercidas por pessoas negras -, pelo direito humano de participar dessas cenas, de assumirmos a revolta com o não reconhecimento sistemático de nossa imagem, de nossa estética, de nosso saber.

Ela aborda também o assunto crucial da violência policial sobre os negros, velha conhecida nossa, mas muitas vezes silenciada pela seletividade das comoções. Afinal, a nossa sociedade tende a encarar como normal e legítima a eliminação de pessoas negras, sejam elas adultas ou crianças. E deste ponto de vista, Solange faz um resgate também da existência da KKK (fazendo correlação com a atuação da polícia) – grupo fanático e supremacista branco responsável pelo assassinato de imigrantes e especialmente negros nos EUA, que até hoje possui integrantes e simpatizantes.

E também é importante destacar a participação de sua mãe, Tina Lawson, que é objetiva ao afirmar a beleza negra. Além disso, a distinção que a mesma faz acerca da necessidade de falar sobre orgulho negro é precisa (slay).

Don’t touch my hair (Não toque em meu cabelo), para mim é um momento sublime da composição/crítica de Solange e que desde já considero um clássico, uma vez que alude musicalmente à nossa indignação cotidiana de não querermos que nos toquem sem pedir permissão. E a partir do cabelo, que é uma ótima metáfora para raiz. Raiz enquanto radicalidade, que pode ser pensada desde uma intransigência com esse discurso invasor, colonialista. É de uma forma extremamente bela e suave de escutar que Solange vai nos conduzindo a esse pedido.

Não estão sempre acusando as mulheres negras de agressivas? Quantas vezes temos nossos cabelos tocados por mãos brancas curiosas sobre a textura? Não apenas nossos cabelos, mas como ela põe em evidência, nossas almas, nosso soul (que também é musicalidade). É uma curiosidade que não pede licença, simplesmente vai avançando, bagunçando, invadindo, que nem tenta entender as razões pelas quais é uma ofensa. Quantas vezes nossos corpos são atravessados de diversas formas apenas por nos considerarem objetos? Nossa cultura não pára de ser apropriada, perdendo sua identidade, sua ancestralidade. Porém, contradizendo os estereótipos, delicadeza é a palavra para traduzir a poética e a melodia de Solange. Ela nos desmistifica e nos cura. E mais que isso, ela reivindica o orgulho negro, de nós sempre usurpado.

Tantas imagens, músicas a se comentar! Mas esse texto é e se pretende inacabado, pois tenta dialogar com uma obra de arte. E é sempre muito complicado dar interpretação para a arte, ainda mais quando carregada de imagem-movimento-musicalidade. A arte é sempre muito mais subversiva do que o que pode ser transposto em palavras. E as letras e o que elas carregam, ou arrastam consigo, tem uma discursividade própria que dispensariam essa escrita. Mas a alegria por aqui foi tanta que não pude me conter em dizer algumas coisinhas.

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