Que Horas o Cinema Nacional Vai se Posicionar?

Fazer cinema também é um lugar político.

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“O cinema não muda a realidade, mas tem o potencial de incluir o excluído, de dar visibilidade ao invisível, de relembrar o esquecido, de dar imagens e palavras aos que não as tem. E essa é a principal mudança” – Stefan Kaspar Grupo Chaski Comunicación Audiovisual Cinema Comunitário – Peru. 

O filme começa mal. Nesse momento, o país dá sinais tímidos de um despertar para as discussões sociais. Logo esse Brasil, tristemente mantido sob as bases escravocratas, que sente na pele as consequências da exclusão, da segregação e da escassez de oportunidades perpetuadas na sociedade do pós-abolição. É sintomático abster-se de tratar o tema “trabalho doméstico” em conjunto com a temática racial. Não fosse o inegável talento e sensibilidade da já reconhecida cineasta, e a postura feminista que me cabe e me induz a prestigiar a ocupação de espaços com histórico excludente no tocante a gênero e raça, nem sairia de casa para ver o filme. Mas, nesse caso, a sensibilidade e o talento foram ofuscados pela postura típica do branco nacional, que como bem pontuou o saudoso Milton Santos em 1987, ao ocupar o centro do Roda Viva, não dá sinais de interesse em abordar a questão racial com seriedade.

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Bem sabemos que boa parte do contingente de mulheres que exercem essa profissão é da raça negra. Isto posto, devemos também considerar um número alto de não brancos que também trabalham nessa profissão, o que salta como justificativa para a escolha de Regina Casé, não obstante, uma Global. E eis que a emissora chega a exibir o filme, o que também é sintomático, devido ao contexto político em que essa emissora se situa. Curiosamente, a Rede Globo, através de sua teledramaturgia, alimenta sem nenhuma crítica ou culpa o estereótipo de subalternidade da raça negra, ao alocar atrizes negras quase que exclusivamente no papel de empregada doméstica. Como bem exemplifica a filósofa Djamila Ribeiro, mulheres negras ocupam exclusivamente o papel de empregada doméstica, exceto quando esse papel é também protagonista. Cinismo?

O trabalho doméstico no país foi fundamentado na cultura escravagista e é sabido que SEMPRE houve precariedade e ausência de direitos básicos garantidos pela lei; ou seja, o ofício manteve sua ligação com as origens traçadas ainda no cerne da antiga Casa Grande. A condição trabalhista da mulher negra no Brasil também mantém vínculo com esse capítulo da história. Logo, todas as aberrações que patrões praticavam e praticam ainda hoje contra suas empregadas derivam da temática racial. Ontem sinhá, hoje patroa. Ontem mucama, hoje doméstica ou “do lar”.

Fossem brancas a maioria das empregadas domésticas, as coisas seriam bem diferentes. A opção em não abordar isso torna o filme inverossímil e provoca desconfiança. Estamos em um momento histórico em que a responsabilidade social deve estar em todas as instâncias, inclusive nas artes. Chega a dar saudades do tempo em que artistas mantinham posturas e engajamento. Certamente, essa morosidade em expressar posicionamentos políticos em todas as vertentes artísticas é nossa sombria herança da censura. As pessoas ainda mantêm um receio em dizer exatamente o que pensam sobre as principais questões que direcionam a vida coletiva. E quando dizem é de maneira desastrosa, denunciando outra herança dos tempos de repressão da livre expressão: o déficit educacional que não permite que a escola ensine o que é mais útil para a vida de um cidadão, o pensar.

Dizem por aí: não sabe brincar, não desce pro play. Isso também vale pro cinema.

A sétima arte, que agonizou durante muito tempo no leito king size do descaso nacional com a cultura, começou a dar sinais de recuperação em meados da década de 90. A partir de 2000, os pernambucanos entraram na briga, trazendo uma dose convincente de originalidade, carisma e jovialidade, o que obviamente acabou varrendo para o tempo cronológico que lhe cabe a figura mítica de Glauber e seus correligionários talentosos do Cinema Novo.

Yes, nós temos cinema. Sempre tivemos talento. E a roteirista e diretora de “Que horas ela volta” é um desses casos. Já é um ato de bravura por si só a luta por sobrevivência nessa área ainda carente de atenção e cuidados financeiros. Quando quem entra nessa briga, ainda, é uma mulher, deve-se aplaudir ainda mais. Sendo o machismo uma mancha social onipresente, porque sua sujeira escaparia dos bastidores (e das telas) cinematográficas?

Mas, se por um lado devemos aplaudir, na certeza de termos talentos inegáveis, também devemos provocar, justamente porque sabemos intuitivamente que esses talentos podem ir além. Cinema transforma, provoca, debocha, expõe e mexe nas raízes da sociedade muito mais do que as pessoas gostam de admitir. Cinema influencia a moda, a música, o comportamento e tudo mais à aquele que a ele tem acesso ou não. Fazer cinema também é um lugar político. Tudo bem que existe (e deve existir) espaço para puro entretenimento. Mas quando se toma para si a possibilidade de transpor para as grandes telas um assunto que é essencialmente social, não dá para fugir – houve um comprometimento e ele vai ter que ser explícito e informativo.

O filme de Anna Muylaert, a despeito da qualidade técnica e da direção que mantém um ritmo moderado, soa tedioso, porque não dizer fantasioso, ao não definir a crítica e se colocar como mero contador de estórias tristes, simplista como uma fanfiction de esquerda deslumbrada.

Essa atitude confortável deixa o público com a ilusão de que tudo aquilo, embora triste e mais ou menos perturbador segundo o roteiro sugere, não faz parte do seu cotidiano, não habita a realidade de suas famílias abastadas. Devemos considerar que o público que consome cinema é em sua grande maioria, elitizado e letrado. É justamente a representação real daqueles coadjuvantes. Eles não podem simplesmente se entristecer com essa situação que muitos vivenciam. Eles precisam se revoltar a ponto de se mobilizarem a, pelo menos, lavarem os próprios copos após beberem água.

Tem-se ai uma prática recorrente da classe média nacional: a cínica auto isenção da responsabilidade pelos problemas decorrentes da desigualdade e da má distribuição de recursos e oportunidades. A insistência em fechar os olhos para os próprios privilégios. O privilégio de nem se dar conta de que é privilegiado. O filme perde a credibilidade ao permitir que o público se isente da responsabilidade de repensar as relações trabalhistas, ainda com fortes traços coloniais, que se apresentam no cotidiano das famílias da classe média brasileira.

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Faltam no roteiro os conflitos e as incertezas reais que se apresentam nas relações que se desenvolvem entre patroa e empregada. Falta alma. Não há passividade ou resiliência na empregada para com a patroa, há necessidade de manter o emprego. O roteiro sinaliza outra conclusão nesse caso. A subserviência em geral é claramente por medo de perder seu posto e não porque as empregadas acreditam que são “quase da família” como o filme sugere. A filha da empregada é tão morna e indefinida quanto o traço psicológico da personagem, cuja rebeldia se manifesta contra a própria mãe e não exatamente contra quem condiciona a ausência de sua genitora no desenrolar de sua vida: o sistema.

A ingenuidade diante do assédio, bem como a desenvoltura com que se relaciona com o patrão da mãe, fazendo com que num dado momento ela pareça patroa também é surreal e gera margens para uma perversidade que toda mulher enfrenta nessas situações de assédio, a culpabilização. A atitude da patroa não é exatamente contra a permanência dela ali e sim com o efeito que ela tem sobre a mentalidade patética do marido fracassado. Mais uma vez, perde-se o viés social em que a questão está naturalmente envolvida. A relação da filha da empregada com a patroa fica confinada a uma mera guerra entre mulheres pelo domínio do espaço doméstico e da atenção masculina. Sutil como só as ações advindas de opressões estruturais sabem ser, reforça também o velho mito da ninfeta que seduz o patrão e coloca em risco o “brilho” da mulher mais velha.

E, por fim, o tiro que sai pela culatra, pois, no desenrolar da suposta crítica social, o roteiro esbarra na romantização que alimenta o falso conceito da meritocracia. Dificilmente Jessica passaria no vestibular sem cotas ou pelo menos sem o auxílio do sistema Enem/Sisu. E isso não tem nada a ver com mérito, tem a ver com nossa precária estrutura de ensino. A USP é um verdadeiro celeiro de meninos inseridos no tipo que o personagem Fabinho representa, que são preparados a vida inteira para única e exclusivamente passar na Fuvest.

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Traçando um paralelo entre dois posicionamentos opostos, podemos encontrar em Ousmane Sembéne o que falta em Anna Muylaert: a coragem e firmeza de quem conhece de perto a realidade e não se isenta da função inerente aos grandes cineastas, que é a de provocar, chocar e confrontar.

O senegalês Ousmane Sembéne, primeiro cineasta negro africano, em seu ‘La Noire…’ em português algo como ‘A negra de…’ em inglês ‘Black girl’, que já traz no título original um questionamento fundamental: de quem é a negra? A quem pertence a vida da mulher negra? Diouanna, uma jovem senegalesa cai no conto do vigário de uma família branca francesa, e embarca com eles para trabalhar como “babá” de seus filhos. Cheia de sonhos, ao chegar na residência, se depara com uma realidade de exploração, racismo e abusos de todos os tipos. Por ser analfabeta, não consegue se comunicar com a sua família. Vai se definhando aos poucos, devido as condições precárias de trabalho, até que termina com um desfecho trágico, onde deixa de ser “A negra de…” ou a negra pública, sempre a disposição dos patrões abusadores e racistas.

Sembéne, que filmou a partir de um conto homônimo que escreveu baseado em uma estória real, já expande a possibilidade que a linguagem imagética encerra em si para demarcar o assunto a ser tratado como inerente a questão racial, focando no contraste entre o preto e o branco toda a dramaticidade das relações históricas entre brancos e negros. Há um reforço da ideia do roteiro expressa pela sutileza do recurso que trabalha a favor da mão do diretor.

Observa-se na obra de Sembéne o crescimento cronológico da tensão no ambiente doméstico, que vai se apresentando para a protagonista como uma mentira cruel em que ela foi envolvida e usada, expondo ainda a incursão depressiva em que ela cai ao se deparar com a realidade dura do comportamento racista dos patrões e até do círculo de amigos deles. Nesse meio, o diretor trabalha velhos conceitos que envolvem a estruturação do racismo enquanto cultura, tais como o mito do branco salvador, a hiperssexualização da mulher negra, a reprodução da prática escravagista no contexto trabalhista da empregada doméstica, a crueldade da livre expressão do desprezo que a supremacia branca tem pelos sentimentos das pessoas negras, etc. Sembéne é tão sofisticado que sugere, através de uma metáfora bem dosada, como se deu o rapto de negros do continente africano para ser escravizado pelo europeu. E é essa ousadia que falta no cinema nacional.

A produção brasileira covardemente nem esbarra nesta questão, e parece esquecer que há um universo parecido a ser enfrentado pelo não branco, caracterizado pela figura do nordestino: a xenofobia. Anna toca de leve nas relações de classe, mas esquece que esta está irreversivelmente atrelada à questão da etnia e do gênero. Nordestinos, em sua maioria, são aqueles que fluem entre a branquitude ilusoriamente aceita e a negritude conscientemente (ou não) rejeitada e que carrega a xenofobia e o racismo em igual proporção. Essa visão seria mais aceitável caso fosse abordada com seriedade. A única referência a isso, em todo o filme, é um comentário de Fabinho sobre o sotaque da moça recém chegada do nordeste.

Sembéne é sutilmente imperativo, e se descortina lentamente. Muylaert titubeia, gagueja e parece dizer através das telas: deixa disso!

Talvez por obra do machismo que atinge a confiança de mulheres a respeito de si mesmas. Talvez porque sabe que o brasileiro está pouco disposto a sair de sua casa para refletir sobre nossas chagas mais poderosas dentro das salas de cinema. Ou talvez por falta de interesse próprio. Mas fica a sugestão e o exemplo de Sembéne, que deixa explícito que o fazer cinema pode ser tudo, menos um ato isento de posicionamento. Ele se posiciona, com maestria. Quanto à Anna Muylaert, espero que um dia perca o medo de usar todo seu talento e irrefreável sensibilidade no livre exercício da arte como instrumento de mudança social.

*Texto postado originalmente em Justificando. 

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