Personagens Não-Brancos em Filmes de Fantasia – Vilões, Monstros ou Figurantes

Se existe um gênero de filme que realmente reflete os ideais racistas da nossa sociedade, esse gênero é o da fantasia.

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Poucas coisas são tão certas quanto o fato de que a representação de pessoas negras e de outras etnias em Hollywood é escassa e estereotipada. Nos últimos meses o problema tem sido amplamente debatido, principalmente depois que pelo segundo ano consecutivo tivemos uma edição do Oscar somente com atores brancos indicados ao prêmio.

não-brancosAs atrizes indicadas a Melhor Atriz Coadjuvante parecem, inclusive, a mesma garota-propaganda para supremacistas brancos em estágios diferentes da vida.


O racismo é estrutural e, no caso da indústria cinematográfica, ele se manifesta principalmente através da ideia de que o ser humano padrão é branco e todo o resto é, bem…resto. Isso faz com que prevaleça na telona a presença de protagonistas brancos, restando para atores e atrizes de outras etnias escassos papéis fortemente estereotipados. Na concepção de Hollywood, atores negros, por exemplo, só podem ser escalados para interpretar papéis especificamente escritos para pessoas negras.

não-brancosTambém por causa do racismo – que faz com que consideremos a história e experiências de pessoas negras menos importantes – esses papéis são escassos, secundários e, na maioria dos casos, terrivelmente estereotipados.

A quase inexistência de personagens não-brancos no cinema é bem documentada estatisticamente, mas apenas recentemente isso foi demonstrado de modo que até alguém com o entendimento seriamente comprometido pelo racismo nosso de cada dia conseguisse entender. Através do Tumblr Every Single Word Spoken (by a person of color in film) – que traduz para Cada Palavra Dita (por uma pessoa não-branca em filmes) – o ator e roteirista Dylan Marron vem postando desde junho do ano passado filmes editados para mostrar apenas cenas em que personagens não-brancos tem alguma fala. Os filmes escolhidos contam histórias e experiências humanamente universais, que poderiam ser vividas na telona por pessoas de qualquer etnia, mas mesmo assim oferecem poucos segundos de espaço para pessoas não-brancas.

O ganhador do Oscar desse ano teria apenas 27 segundos se mostrasse apenas as falas desses personagens.

Foi então que, navegando por esse tumblr (e sendo terrivelmente nerd) eu não pude deixar de pensar sobre a presença de personagens não-brancos em filmes de fantasia. Ou melhor – sobre a quase inexistência de personagens negros e de outras etnias nessas produções. Sim, pois se existe um gênero de filme que reflete ideais racistas da nossa sociedade, esse gênero é o da fantasia.

não-brancosSeguido de perto por comédias românticas, que só não lidera esse ranking por causa do Will Smith.

 

Agora, calma, que eu acho que sei o que você vai falar.

“A maioria desses filmes é baseado em livros! Eles só estão sendo fiéis ao material”.

E até certo ponto, você tem razão. A maioria desses livros faz um péssimo trabalho em incluir personagens não-brancos. Há quem diga que isso é culpa de Tolkien, autor de Senhor dos Anéis, que criou um padrão de livros de fantasia para as gerações posteriores em que, qualquer que seja o mundo inventado, os personagens nele devem viver em cenários medievais, ter características físicas européias e falar com sotaque britânico.

não-brancosPeter Dinklage é um dos únicos atores americanos em Game of Thrones, e mesmo ele forja um sotaque britânico. Detalhe: o autor dos livros também é americano.

 

Tolkien em si era um homem branco britânico em uma época de forte propaganda racista e machista, por isso não surpreende que ele tenha escrito livros em que os heróis são todos brancos como leite e apenas duas mulheres têm falas. Mesmo assim, me parece forçar a barra falar que os filmes que se seguiram estavam apenas sendo fiéis ao material ao não incluir atores não-brancos.

Uma porque a maioria das adaptações de livros para o cinema parecem cagar para o material original.

não-brancosA história original nunca impediu Hollywood de escalar brancos para interpretar egípcios, árabes, latinos, orientais e afrodescendentes negros (tem um texto inteiro sobre isso aqui)

 

E outra porque estamos falando de mundos inteiramente inventados, em que a cor de pele dos personagens não faz diferença nenhuma para a trama (com exceção de alguns livros, como As Crônicas de Nárnia, por exemplo, que são descaradamente racistas). Ou seja, dragão pode, fogo verde pode, gente voando em vassoura pode, personagem branco ser interpretado por ator negro CLARO QUE NÃO, MAS QUE ABSURDO, O LIVRO É INSPIRADO NA EUROPA MEDIEVAL, NÃO VIAJA!

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Além disso, na maioria das vezes a cor de pele dos personagens é tão insignificante para a história que ela nem chega a ser mencionada nos livros. Prova disso é a possibilidade de se escalar uma atriz negra para interpretar Hermione Granger, que nunca teve sua cor de pele descrita nos livros e foi imaginada como negra por milhares de leitores muito antes de Noma Dumezweni ser escalada para o papel na peça que será lançada esse ano. Mesmo assim, na maioria dos casos os produtores dos filmes nem cogitam a possibilidade de contratar alguns atores e atrizes negros para papéis de destaque.

Em suma, por mais que autores de livros de fantasia deixem muito a desejar no quesito diversidade, os responsáveis por adaptá-los para o cinema têm a opção de fazer diferente, mas tanto não o fazem, como muitas vezes tomam decisões que deixam a história mais branca ainda do que o material original respalda. E pior: muitas vezes optam por manter caracterizações de personagens que trazem implicações inegavelmente racistas.

não-brancosComo escalar os únicos atores não-brancos em três filmes inteiros para interpretar aliados de Sauron e orcs sanguinários comedores de gente.

 

De fato, parece que – com uma ou outra exceção – só há três papéis possíveis para atores não-brancos em filmes de fantasia: monstros, vilões e figurantes.

Os exemplos disso são vários. Como já mencionado, em Senhor dos Anéis o elenco principal é todo branco, restando para pessoas negras e de outras etnias os papéis de monstros e vilões. Em O Hobbit, somente depois de muita controvérsia (incluindo uma mulher que foi recusada como figurante por ser de origem paquistanesa) a produção incluiu alguns figurantes negros e asiáticos entre hobbits e anões. Em Crepúsculo, atores de descendência indígena foram escalados para interpretar os personagens lobisomens da família Quileute (um povo indígena real, diga-se de passagem), mas curiosamente esses atores só descobriram que eram descendentes depois de terem sido contratados para o filme. E não ajudou em nada também o fato de a história retratar esses personagens como selvagens e primitivos em comparação com os vampiros brancos, ricos e classicamente europeus.

não-brancosEles literalmente se transformam em animais. Preciso dizer mais?

 

Já em Harry Potter, uma atriz asiática foi escalada para interpretar Cho Chang (que nos livros também é asiática), mas atores e atrizes negros foram escalados, em sua maioria, apenas como figurantes ou personagens secundários também já descritos como negros nos livros, como Dino Thomas, Lino Jordan, Angelina Johnson e Kinsgley Shaklebolt. E pior: a personagem Lilá Brown (que não tem sua cor de pele descrita nos livros) foi interpretada por atrizes negras até o sexto filme, quando o papel passou para uma atriz loira de olhos azuis. Curiosamente, é no sexto filme que Lilá finalmente tem falas e se torna o interesse amoroso do melhor amigo do protagonista.

não-brancosCurioso, muito curioso.

 

Em As Crônicas de Narnia, também vemos personagens negros apenas como figurantes, secundários ou tão fantasiados que nem se percebe que são negros, como no caso dos minotauros Asterius e Otmin. Pessoalmente, estou curiosa para ver como o próximo filme da série (se sair) vai lidar com o racismo gritante do livro que pretende adaptar, que descreve os calormanos – os vilões da história – como um povo do deserto de pele escura, com espadas curvas, turbantes, comida apimentada e cultura obviamente islâmica. Ah, e eles são também cruéis e gananciosos, e têm o costume de sacrificar pessoas para um deus satânico.

não-brancosEm contraste com os civilizados heróis brancos, com seu Jesus Cristo em forma leão.

 

Game of Thrones faz um trabalho um pouquinho melhor, com um punhado mais expressivo de atores e atrizes secundários negros. A série inclui até atrizes asiáticas, um dos grupos mais subrepresentados do cinema. O único problema é que essas atrizes foram escaladas para personagens notoriamente descritas como tendo pele escura nos livros, com caracterização claramente árabe/africana. Aparentemente, para os produtores da série, todas as etnias que não a branca são intercambiáveis entre si. O engraçado é que nessas horas a galera purista que justifica a falta de representatividade com argumentos como “Mas Westeros é tipo a Europa, os produtores só estão sendo fiéis aos livros!” não fala nada. Obviamente, para eles a série só tem que ser fiel para garantir o protagonismo a atores e atrizes brancos.

não-brancosTodo o resto é “mimimi”.

 

Que fique claro que essa reflexão não tem a intenção de demonizar essas produções e as pessoas por trás delas. Como disse Dylan Marron, o criador de Every Single Word Spoken:

“Nós como sociedade somos tão bem treinados para identificar pessoas racistas. (…) Mas não temos as ferramentas para falar sobre racismo sistêmico. Não estou dizendo que esses filmes são racistas. Não estou dizendo que esses cineastas são racistas. Estou dizendo que o sistema para o qual eles contribuem tem práticas profundamente racistas”.

O racismo é estrutural. Ele está impregnado no tecido da sociedade e uma das formas pelas quais ele se mantém e é passado para as novas gerações é através da mídia. É através de filmes, e séries, e livros, e músicas. Cabe a nós exigir algo diferente.

Não é só um filme.

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