O que Estrelas Além do Tempo Pode nos Ensinar sobre Privilégio Branco

Um aspecto importante do filme é o retrato de algo que a maioria das pessoas brancas têm muita dificuldade em reconhecer: privilégios.

privilégio

Contém spoilers.

No comecinho de 2017 estreou no Brasil o esperado Estrelas Além do Tempo, um filme que é resultado de um longo trabalho de resgate do papel das mulheres na ciência e na tecnologia. No caso, o sucesso de bilheteria e indicado ao Oscar de Melhor Filme conta a história verídica de como os EUA conseguiram enviar um astronauta em órbita ao redor da Terra com a ajuda de três mulheres negras: Katherine Johnson – responsável por todos os cálculos para o lançamento histórico de John Glenn; Dorothy Vaughan – especialista em computação e em programação FORTRAN; e Mary Jackson – a primeira mulher negra a se tornar engenheira da NASA.

privilégioOlha elas aí!

 

Se você for como a maioria das pessoas, provavelmente ficou embasbacado pelo fato de nunca ter ouvido falar dessas mulheres na vida, dado a importância que tiveram. Essa foi, aliás, a mesma reação que Margot Lee Shetterly teve ao ouvir a história de Katherine Johnson contada por seu pai, um cientista. Sua pesquisa a levou a escrever o livro no qual o filme foi baseado, com um título que lança uma luz no fato de que essa é uma história que foi durante muito tempo ignorada pelo resto do mundo: Hidden Figures, que pode ser traduzido como “Figuras Escondidas” ou “Números Escondidos” (infelizmente, o título do filme em português não captou a crítica presente no título original).

Pessoalmente, eu estava doida para assistir Estrelas Além do Tempo desde o começo de 2016, quando descobri o papel enorme que mulheres – e mais especificamente, mulheres negras – tiveram na corrida espacial (e escrevi um texto sobre isso).

Felizmente, o filme não decepcionou e nos apresentou de forma maravilhosa a história dessas três mulheres que tiveram que enfrentar a dupla opressão do machismo e do racismo para viver suas vidas e trazer conquistas estrondosas para a humanidade. E como não podia deixar de ser com uma história bem contada, o filme se apresenta como um veículo para as reflexões das mais diversas. A colaboradora Mariana Jansen já deixou sua resenha  aqui no Nó de Oito, e a Anne Caroline Quiangala escreveu duas reflexões imperdíveis sobre o filme no seu Preta, Nerd e Burning Hell (aqui e aqui).

De minha parte, como uma mulher branca, pensei em focar a minha reflexão em algo que o filme traz que a maioria das pessoas brancas têm muita dificuldade em reconhecer: privilégios. Para fazer isso, dei uma boa olhada nos personagens brancos do filme, que são a base de praticamente todos os obstáculos e constrangimentos enfrentados pelas protagonistas (lembrando que a história é contextualizada em época de segregação racial aplicada por lei nos EUA). É óbvio, mas vale sempre pontuar: racismo é um problema criado e perpetuado por brancos.

Toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a linha de chegada de lugar. Toda vez.

 

Pois bem, entre os personagens brancos temos como destaque Al Harrison, Vivian Mitchell, Paul Stafford e o juiz que interage com Mary Jackson (esse último em posição secundária, eu sei, mas ainda assim significativa).

Além deles, como não poderia deixar de ser, temos muitos personagens brancos terciários e figurantes bem posicionados para nos dar um contexto do privilégio e poder desfrutados por pessoas brancas naquele momento. A mulher na biblioteca que constrange Dorothy Vaughan e seus filhos; os cientistas que trabalham no time de Al Harrison e não economizam olhares de desprezo para Katherine Johnson; os estudantes homens que encaram Mary Jackson na sua primeira aula para se tornar engenheira; Ruth e sua descontraída e desconcertante resposta à uma pergunta que deveria ser muito simples.

privilégio

É na interação do trio principal com todos esses personagens brancos que vemos o exercício constante de enfrentamento, questionamento e resistência ao racismo que elas precisam praticar diariamente para atingir os seus objetivos. Esse exercício e os resultados que se seguem me chamaram muita atenção, principalmente por serem bem marcados imageticamente no longa. É mais de uma cena que mostra o momento em que um personagem branco cede após embates com as protagonistas, mas para mim a que mais marcou é essa aqui:

privilégio

Essa imagem mostra o momento em que Al Harrison, diretor do Space Task Group, entrega a Katherine Johnson um pedaço de giz para que ela possa fazer os cálculos de reentrada na atmosfera da cápsula espacial de John Glenn na presença do próprio e de outros figurões do programa espacial.

É um momento emblemático no filme por muitos motivos. Temos o desconforto que os homens na sala sentem ao ver que Katherine vai participar da reunião (na época, essas reuniões eram proibidas a mulheres, quanto mais mulheres negras). A maneira como ela arrasa naquela lousa. O espanto da galera frente a uma capacidade intelectual tão poderosa em um molde e cor, para eles, tão improvável.

                                                – Não existe protocolo para a participação de mulheres na reunião.                                                                                          – Também não existe protocolo para um homem em órbita em volta da Terra, senhor. 

 

Mas o motivo principal, para mim, é esse giz passando de uma mão para a outra, que mesmo sem uma palavra nos diz tanta coisa. É um momento em que Al Harrison cede; o momento em que ele abre mão de seu privilégio de ser a voz mais importante naquela sala e dá a oportunidade que Katherine Johnson precisava para brilhar.

O mesmo acontece em outros momentos do filme, com outros personagens. Paul Stafford, depois de muito antagonizar Katherine, aceita sua presença, sua participação e o nome dela ao lado do seu nos relatórios. O juiz que decide o caso de Mary Jackson abre mão de sua posição cômoda de não-desafio à leis segregacionistas para permitir que ela estude para se tornar engenheira em uma escola só para brancos. Vivian Mitchell abre mão de sua posição de superioridade hierárquica sobre Dorothy Vaughan (que ela detém exclusivamente devido a privilégio racial) ao trazê-la para trabalhar nas máquinas da IBM e aceitar suas demandas.

E não podemos esquecer também dos momentos em que personagens negros homens abrem mão de seus privilégios machistas para benefício das protagonistas. Quando o marido de Mary vê que ela permanece inflexível no seu sonho de se tornar engenheira mesmo com seus (des)incentivos e suas críticas por não ser uma mãe que fica em casa com as crianças, ele revê sua postura e a apoia nos seus objetivos. E podemos inferir que o mesmo processo de revisão de conceitos se passa internamente com o Coronel Johnson quando ele é confrontado por Katherine e mais tarde decide pedi-la em casamento.  

privilégioLevi recapitulando e presenteando Mary com lapiseiras para a sua primeira aula.

 

E o melhor de tudo, uma das coisas que tornam Estrelas Além do Tempo um filme tão importante, é o fato de que nenhum desses personagens é retratado como um herói ou um salvador das protagonistas. Muito pelo contrário. O filme nos traz um retrato muito preciso de como funciona o racismo e do quanto ele exige de pessoas não-brancas. Porque, sejamos francos, nenhum dos personagens que eu citei nos parágrafos acima abriu mão de seus privilégios pela bondade pura de seus corações.

Dorothy Vaughan precisou de muita resistência e perseverança – e de um pequeno furto de um livro de uma biblioteca  – para se tornar indispensável para a NASA e ter como negociar com Vivian Mitchell. Mary Jackson precisou enfrentar o marido e um tribunal inteiro para conseguir convencer o juiz a lhe conceder o direito de se tornar uma engenheira. E Katherine Johnson teve que questionar e resistir aos ataques sutis e não sutis de seus superiores diariamente para conseguir fazer o seu trabalho. E mesmo assim, é só quando ela consegue colocar um homem no espaço que Paul Stafford permite que ela assine os relatórios em co-autoria – ilustrando bem como mulheres negras precisam fazer não só o dobro, mas quase o impossível para serem aceitas e levadas a sério.

privilégio

Nisso, pego emprestado um trecho de um dos textos da Anne Quiangala sobre o filme:

“‘Estrelas além do tempo’ não deixa passar nenhum dos modos de racismo. Sim, todos os brancos do filme são racistas porque o sistema os constrói assim, porque é mais confortável viver a ficção de superioridade. Da sutileza dum olhar, ao desprezo expressado em alto e bom som, tudo passa por um claro comentário retórico. Não há salvadores, não há uma consciência benevolente. Existem negociações que abrem caminho para afetos, compreensão e reconhecimento. Como não é um filme para aliviar subjetividades brancas, as cenas de violências são abordadas sem gatilhos, e sim, como denúncia.” (grifos do Nó de Oito)

Anne fala que todos os brancos do filme são racistas porque o sistema os constrói assim, e é um grande mérito do filme o fato de que ele não tenta ocultar isso. Com exceção da cena em que Al arranca a placa do banheiro segregado (que pode ser lida como uma exaltação desnecessária do personagem, dado que isso nunca aconteceu na vida real), todas as cenas com personagens brancos mostram como eles são acometidos por alguma forma de racismo. Al, afinal, só se irrita com o fato de os banheiros serem segregados quando isso interfere com o trabalho de sua equipe.

“Ah, Lara, mas antes disso ele nem sabia que a Katherine tinha que ir a um banheiro segregado a um quilômetro de distância!” – alguém aí está provavelmente dizendo.

Sim, e isso é genial porque retrata bem como o sistema racista depende tanto dos privilégios de que os brancos usufruem, como da nossa acalentada ignorância em relação a eles.

É muito fácil ignorar um problema quando ele te traz vantagens. Aliás, o fato de poder ignorar o problema é por si só um privilégio branco. Conscientemente ou não, durante muito tempo Al Harrison e todos os homens de sua equipe tiveram o privilégio de não ter que competir por suas posições prestigiadas e bem pagas com mulheres negras geniais. E mesmo quando Katherine consegue ocupar aquele espaço, a competição é completamente desleal: como uma pessoa negra, ela é automaticamente rebaixada pelo racismo institucionalizado; e como uma mulher, ela tem que lidar com estereótipos e pressões machistas que os homens de sua equipe não vivenciam. Apenas como um exercício rápido, imagine: em um universo paralelo onde nem machismo, nem racismo existem, será que Katherine não seria chefe de Al?

Partiu universo paralelo!

 

Os banheiros segregados eram parte dos benefícios firmemente baseados em racismo e em machismo que os homens desfrutavam, por isso era muito fácil para eles ignorar a sua existência. É só quando Al tem seu próprio trabalho ameaçado, que ele descobre uma situação que agora é inconveniente também para ele. É só quando sua funcionária negra prova ser a sua melhor funcionária, que ele a escuta. É só quando ela se torna imprescindível, que ele lhe passa o giz.

O racismo é sistêmico, e as dinâmicas que vemos no filme acontecem também o tempo todo na vida real, mesmo cinquenta anos depois. Assim como no longa todos os personagens brancos são racistas, também na vida real isso é um fato, seja conscientemente ou por ignorância.  Isso porque não há como usufruir de um sistema racista sem ser um agente dele, e todos os brancos usufruem do racismo de uma forma ou de outra.

privilégioO tipo mais comum de racismo: “não sei e não quero saber”. Só uma observação: ela sabe o motivo.

 

O mais perverso do racismo sistêmico, principalmente o que vivemos no Brasil sob o mito persistente da democracia racial, é que ele está tão entranhado na forma como a sociedade funciona que o privilégio branco só é visivelmente gritante para aqueles que não desfrutam dele.  

Por isso a luta antirracista é impossível sem o protagonismo negro. Uma porque o entendimento das pessoas brancas sobre racismo sempre será limitado, já que não sofremos com ele.  E outra porque a combinação dos privilégios que nos fornecem uma ilusão de superioridade aliados à invisibilização desses privilégios (o que é por si só um privilégio, já que que nos mune do falso argumento da meritocracia e convenientemente nos livra de responsabilidades) faz com que os brancos precisem ser confrontados de alguma forma para mudar de postura ou sair de sua inércia.

É como Anne disse em seu texto. “Não há salvadores, não há uma consciência benevolente. Existem negociações que abrem caminho para afetos, compreensão e reconhecimento.” Estrelas Além do Tempo traz essa realidade mostrando como três mulheres negras confrontaram pessoas brancas exigindo que eles mudassem – seja se tornando imprescindível ao aprender algo que ninguém mais sabe, como Dorothy Vaughan; seja tomando a coragem de enfrentar um tribunal e despertar a empatia (e o ego) do seu juiz, como Mary Jackson; seja reconhecendo o próprio valor e exigindo que ele seja reconhecido também pelos outros, como Katherine Johnson (e jogando na cara do seu chefe um fato desagradável que ele não pode ignorar).

Não há banheiros para negros nesse prédio e em nenhum outro prédio fora da ala oeste, que fica a quase um quilômetro de distância. Você sabia disso?

 

Além delas, o filme também nos mostra outra forma de enfrentamento ao nos dar relances de protestos e falas do Movimento de Direitos Civis, um movimento  protagonizado por negros que acabou com a política de segregação racial nos EUA.

É importante notar, no entanto, que nada disso quer dizer que você deve esperar que uma Katherine Johnson caia no seu colo para cair na real. O confronto de que precisamos pode ser encontrado a toda hora e em todo lugar, pois pessoas negras são 54% da população brasileira, sempre usaram suas vozes e estão sempre lutando. Para ser confrontado basta olhar em volta e escutar.

O racismo foi criado e é perpetuado por nós brancos, mas ele só pode ser vencido em uma luta protagonizada por negros.  Não existem heróis brancos na luta antirracismo, assim como não existem heróis homens no feminismo. Existem apenas aqueles que olham em volta e escutam, e os que convenientemente optam pela ignorância. Aqueles que reconhecem e abrem mão de seus privilégios, e aqueles que não. E é também nisso que reside a importância de Estrelas Além do Tempo, um filme que retrata três computadoras negras na NASA em 1961 exatamente na posição que elas precisam ocupar: a de protagonistas.


Aproveito para evocar aqui o nome de mulheres negras como Joice Berth, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Carolina de Jesus, Letícia Pereira, Alyne Cristine, Suzane Jardim, Nátaly Neri, Anne Caroline Quiangala, Camila Cerdeira, Gabriela Moura, Stephanie Ribeiro, Jarid Arraes, Alice Walker, Angela Davis, Chimamanda Adichie Ngozie, Toni Morrison e muitas outras e outros, cujas vozes me confrontam todos os dias.

Leia também Mulheres na Nasa – A História que Ninguém Conta; e 25 Privilégios de que Brancos Usufruem Simplesmente por serem Brancos. 

Comentários do Facebook