Estrelas Além do Tempo: A Importância das Histórias que são Omitidas de Nós

No filme Estrelas Além do Tempo, três mulheres negras são as protagonistas de um dos períodos mais importantes da história americana: a corrida espacial.

estrelas além do tempo

*contém alguns spoilers*

O jornal Folha de São Paulo publicou essa semana uma pesquisa que me deixou bastante assustada. A partir dos seis anos de idade meninas já não se acham tão inteligentes e muitas vezes desistem de certas atividades por conta dessa percepção. A pesquisa publicada na revista Science descreve que os cientistas chegaram a esses resultados depois de realizar alguns experimentos com crianças na idade entre cinco e os sete anos. De acordo com especialistas, é a partir desse momento que os estereótipos relacionados a gênero passam a se firmar.

O estudo aconteceu assim: os pesquisadores apresentaram às crianças dois tipos de jogos inventados, um deles seria para pessoas “muito, muito inteligentes” e o outro para os “muito, muito esforçados”. Até os cinco anos, crianças de ambos os gêneros se interessaram no primeiro jogo. No entanto, a partir dos seis anos, as meninas mostraram menos interesse no jogo para crianças “muito, muito inteligentes”.

A primeira cena do filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, no título original) mostra a futura matemática Katherine Johnson ainda com oito anos de idade. Os professores explicam aos pais dela que a menina tem um potencial enorme com os números e para isso deve ir para uma escola onde possa explorá-lo de verdade. Alguns anos depois, Johnson aparece como funcionária da NASA, a agência espacial americana. Ela e suas duas colegas, que também são mulheres e negras, contam com o prestígio dos seus empregos para sofrer (um pouco) menos racismo de um policial.

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Estrelas Além do Tempo conta a história baseada em fatos reais de três funcionárias da NASA em meio a corrida espacial com a Rússia e contextualizada no momento em que o estado da Virginia era segregado entre negros e brancos. Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) eram responsáveis por grande parte dos cálculos para os lançamentos espaciais, em uma época em que os computadores ainda não eram uma realidade, nem na agência espacial americana. 

Parte de um grupo muito maior de mulheres negras, que eram consideradas ‘computadores humanos’, por fazerem na mão a matemática por trás das trajetórias dos foguetes, elas trabalhavam em um escritório separado dos homens e das mulheres brancas, seguindo a lógica segregacionista da época. Também usavam banheiros diferentes, transportes diferentes e não frequentavam as mesmas escolas.  Um dos principais indicados ao Oscar em 2017, o longa concorre nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e Roteiro Adaptado.

Mulheres reais, de todas as maneiras

A história foi baseada no livro de Margot Lee Shetterly. A autora é filha de cientistas e ao ouvir a história de Katherine Johnson contada por seu pai, se perguntou por que essas mulheres, tão importantes tanto do ponto de vista científico quanto no protagonismo que tiveram, não estavam nos livros de história. Sua pesquisa a levou a escrever o livro no qual o filme foi baseado, com um título que lança uma luz no fato de que essa é uma história que foi durante muito tempo omitida do resto do mundo: Hidden Figures, que pode ser traduzido como “Figuras Escondidas” ou “Números Escondidos” (infelizmente, o título do filme em português não captou a crítica presente no título original).

Dois anos antes, Margot já havia lançado o the Human Computer Project, com o objetivo de contar as histórias das mulheres que atuaram como computadores humanos na NASA, com o objetivo de inspirar mulheres e outras minorias a buscarem trabalhos nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.  

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Assistindo o filme como uma mulher dentro do mercado de trabalho, o maior mérito de Estrelas Além do Tempo é o perfeito equilíbrio entre os assuntos complicados que trata e a humanidade das suas personagens. Não é preciso entender nem gostar de matemática para apreciar as cenas que mostram Katherine e as outras mulheres trabalhando e em nenhum momento a complexidade do que estava sendo desenvolvido impede a compreensão ou faz com que a narrativa fique difícil.

Ao mesmo tempo, por mais que fossem chamadas de “computadores humanos” na época, a vida pessoal das cientistas é mostrada na medida certa. Elas têm uma casa, filhos e companheiros, mas o papel delas em casa nunca se sobrepõe ao profissional, o que infelizmente é raro de ver em filmes ou séries protagonizados por mulheres. Elas são cientistas primeiro, e isso em nenhum momento faz com que elas sejam mães ou esposas “ruins”, não há cenas de filhos ou maridos exigindo mais atenção. Elas são protagonistas em suas próprias vidas, em todos os âmbitos.  

Nem tudo é perfeito

O elenco, além das intérpretes das três personagens principais, ainda conta com Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons e Mahershala Ali. Costner interpreta o chefe da operação do programa espacial e tem Katherine como parte de sua equipe. E o filme peca quando coloca esse personagem como um responsável pela quebra de paradigmas e assume um papel de “homem branco bondoso”. Essa figura pode parecer muito justa, principalmente quando é constantemente contrastado com outros personagens masculinos e brancos que não tem o mesmo senso de igualdade (como Paul, interpretado por Jim Parsons), que faz com que o cara pareça quase um super-homem em defesa das mulheres negras.

Uma das principais dificuldades geradas pela segregação é que Katherine precisa atravessar o campus da NASA para usar o banheiro para mulheres negras, já que no prédio onde trabalha não existe um. Esse conflito tem sua resolução em uma cena tenebrosa e caricata na qual o personagem de Costner derruba a placa do banheiro para uso de pessoas negras e faz um breve discurso de igualdade. Segundo uma matéria da Vice americana, não só isso nunca aconteceu, mas justamente não aconteceu por que Katherine se recusava a usar os banheiros segregados e sempre usou o banheiro “para brancos”, em seu próprio prédio. A pergunta que fica é: com uma protagonista real e tão segura de si, porque precisa ter um homem branco para “salvar o dia”?

estrelas além do tempoObrigada, Sr. Homem Branco, mas eu dou conta.


Valia antes, vale agora

O filme foi premiado no último domingo, no SAG Awards, por melhor elenco. Taraji P. Henson, a atriz que interpreta Katherine, mandou uma mensagem de unidade em seu discurso na premiação. “Quando colocamos nossas diferenças de lado e nos juntamos como a raça humana, nós vencemos. O amor vence, sempre.”

Estrelas Além do Tempo desbancou grandes blockbusters esse ano, inclusive La La Land e Rogue One. Em 2017, as questões de segregação racial e de gênero são mais atuais do que nunca, principalmente com o retrocesso que significa Donald Trump. Mas independente de quem ocupa a presidência americana, o sucesso de Estrelas Além do Tempo nos mostra como são importantes as histórias que foram por tanto tempo omitidas ou mesmo roubadas de nós. O que elas trazem – principalmente para mulheres negras, mas também para todos nós – não pode permanecer escondido.  


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