Por Que É Importante Amar o Seu Nariz de Jackson 5 – de Ludmilla, Tássia Reis a Formation

Vivemos em uma sociedade racista que aplaude feições finas e “delicadas”. É necessário respeitar a desconstrução de cada um, com seu tempo individual.

nariz

Eu amo meu nariz de Jackson 5 e esse amor não veio da noite pro dia.

Primeiro, que ele ficou maior por conta de uma cirurgia; segundo, que tem um machucado graças a catapora “tardia” que tive; e terceiro, que ele fica inchado quando a rinite ataca. Não passo maquiagem para afinar, mas já apaguei inúmeras fotos por achar que ele ficou grande demais. Achava que ficaria mais bonito e harmonioso se fosse pequeno como meus olhos, que a boca destacaria mais se não fosse por ele. Eu olhava narizes pequenos e queria que saltassem da TV, revista, que fossem meus, mas não são. Eles não me pertencem. Eu vim ao mundo uma mulher grande, voluptuosa, com sorriso largo e narinas que se mexem a cada piscadela que dou. Esse nariz é o da minha mãe, que puxou do meu avô. É um pedacinho deles em mim.

Hoje, eu olho pra ele e não desejo que fosse de outra forma. Tenho dias ruins, dias em que essa estrutura europeia e “afilada” bate em minha porta e arranha as paredes de autoestima que ergui para ser o que sou hoje.

Não devemos julgar atitudes como as da Ludmilla, que optou por uma cirurgia plástica para afinar o nariz. Vivemos em uma sociedade racista que aplaude feições finas e “delicadas”. Eu realmente espero que ela se sinta bem com o novo nariz, mas torço mais ainda para que ela ame suas raízes e entenda o quanto é linda do jeito que é.

É necessário respeitar a desconstrução de cada um, com seu tempo individual. Vale lembrar que ela foi a única menina negra e brasileira, da periferia do Rio de Janeiro, que aos 18 anos conquistou seu primeiro contrato com uma gravadora de sucesso, lotando shows, frequentando diversos programas de televisão, influenciando estilo e a personalidade de muitas jovens. Ludmilla não pode e nem deve ser julgada por um sistema que é anos luz antes dela.

Imagine conquistar toda fama que ela possui, num país tão racista e elitista como o nosso? Se é difícil para nós, negras comuns, que lutam diariamente com a autoestima e aceitação, para ela o desafio é ainda maior, já que quanto mais você se adentra no universo da fama, mais precisa alcançar padrões financeiros e estéticos para ser bem aceita.

Diversas atrizes internacionais como Rihanna, Tira Banks, Halle Barry, Lil Kim, entre outras, realizaram cirurgia plástica com procedimentos sutis, não notáveis como o de Ludmilla. A questão maior é a de que mulheres negras que sentem-se bem e bonitas incomodam. Estando de cabelo liso, apliques, perucas ou natural, nosso amor próprio é sempre alvo de críticas, já que sempre vivemos às margens e nunca somos consideradas ícones de beleza. É só olhar para a falta de representatividade negra em novelas, revistas, universo musical. São poucas as que resistem e que tem oportunidades.

Um bom exemplo de valorização dos traços e corpo é a cantora de Jacareí/SP Tássia Reis (se não conhece, ouça aqui.) De um talento real, puro como flor e que transparece a força de uma mulher negra do interior, ela me encantou pelo seu timbre, charme, voz e carisma, e mais ainda pelo seu empoderamento e aceitação com o próprio corpo. Dispensando estereótipos e corpo de revistas shapes, é uma mulher que já deixou claro que possui ‘carne’’ e que ama seu nariz grande e boca grande, inspirando mulheres como eu, que possuem um corpo diferente dos que são tidos como bonitos e aprenderam a se amar assim.

Olhando sob uma ótica otimista, avançamos muito na questão de empoderamento estético, mas ainda precisamos de mais aceitação interna e externa, além de apoio, empatia com o processo do outro. Crianças negras devem ser ensinadas a amar suas feições e a resistir/denunciar os prováveis ataques que irá sofrer ao longo de sua vida.

Beyonce levou mulheres negras ao delírio quando cantou na música Formation “I like my negro nose with Jackson Five nostrils” (“gosto do meu nariz negro com narinas de Jackson 5), sendo um grito para a mídia e sociedade racista no geral que criticavam seu empoderamento e atacavam sua pequena Blue, por não possuir seus traços finos. Esse  grito se faz necessário diariamente na frente do espelho, quando me pergunto por que meu nariz é tão largo.

Abraço minha negritude todos os dias e carrego orgulhosamente tudo o que vem com isso, sentindo cada vez mais o apoio e o pertencimento naquilo que me propus a conhecer e a repassar para outras mulheres e homens negros com quem convivo.

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