Gordofóbica, Eu? Sobre Moda, Autoestima e Gordofobia

É necessário discutir o espaço de pessoas gordas e repensar como a indústria os veste e a propaganda os representa.

Foi uma cena comum. Minha amiga veio de encontro em um barzinho e a primeira coisa que notei foram seus braços maiores, seu rosto mais gordo. Conversamos a noite toda. Falamos sobre a procura por trabalho, sobre a área, rimos de muitas coisas e pessoas, mas mesmo assim a pulguinha ainda estava ali. Volta e meia pensava:

“Por que será que ela engordou?”

“Será que anda ansiosa e comendo bastante?”

“Deve ter tacado o foda-se.”

Veja, ela estava feliz, se divertindo, mas meu inconsciente não conseguia absorver o porquê de ela estar tão satisfeita consigo mesma, saindo com diversos boys, sendo que engordou aproximadamente 10 quilos. Foi aí que percebi que a autoestima de pessoas gordas incomoda uma pessoa magra. Mesmo eu, pessoa empoderada, negra, que sofre inúmeras hiperssexualizações, me incomodei com a autoestima dela. Porque, querendo ou não, ainda tenho um biotipo padrão.

Quantas vezes não deixamos de postar uma foto por estarmos com a barriga um pouco maior? Quantas vezes reclamamos de uma foto dizendo que o rosto ficou muito ”grande”? Quantas vezes você já não exaltou aquela sua amiga que perdeu peso ou que ficou mais fitness? Ninguém quer ser gordo e, além disso, ninguém quer admitir que não gosta da autoestima do gordo. Aliás, ninguém quer admitir nenhum tipo de preconceito, sendo que, ao fazer isso, é fechado um compromisso de desconstrução, autoavaliação e, principalmente, autocrítica.

“Gordofobia é a forma de opressão, a pessoas com mais tecido adiposo no corpo, é a desqualificação e inferiorização dessas pessoas, baseada em critério único de que essa maior quantidade de gordura no corpo, incapacita, invalida, enfeia e emburrece essas pessoas”. – Milly Costa

O discurso contra obesidade e má alimentação ainda é válido, mas estamos unicamente preocupados com a saúde do gordo ou somente com sua estética? Pra mim, 90% ainda é preocupação estética.  Alguns meses atrás fui elogiada por amigos por ter perdido cerca de 8 kilos, mas o que ninguém sabia era: estava sem apetite, me alimentando de forma infantil (amendoins, refrigerantes, trocando refeições por frutas e sucos), perdendo unha, cabelo, tendo que passar inúmeras maquiagens pra tampar o estrago que tinha se tornado a minha pele. Mesmo assim, me sentia linda, até o dia em que me pesei e percebi que estava ‘’gorda’’. Lembro que pensei ”por que você está se sentindo linda sendo que ainda é gorda?”. Sim, essa foi eu sendo gordofóbica e me depreciando.

Se vemos uma pessoa magra comendo dois lanches do Burguer King sem engordar uma grama, rimos, exaltamos e até invejamos. Agora, se uma pessoa gorda come dois lanches do Burguer King, automaticamente viramos esquadrões da saúde e falamos que aquela pessoa precisa se cuidar mais, se amar mais. Só que ser magro não é necessariamente ser saudável, e nem é sinônimo de beleza.  Milhares de brasileiros magros possuem diabetes, carências nutricionais gravíssimas e até mesmo hipertensão. A diferença é: não é algo visível. Como vamos julgar o que não vemos?

Pensamos sempre no remédio que não engorda (sempre perguntamos sobre o quanto os anticoncepcionais influenciam o peso, por exemplo, quando na verdade, deveríamos estar preocupadas com os efeitos colaterais), a roupa que emagrece, a barriga ‘’grande’’ que sempre tentamos esconder com roupas justas, a celulite que fazemos procedimentos para tirar ou aquela reclamação sobre peso que é sempre feita no banheiro para as amigas. Você já elogiou uma parte mais magra do seu corpo e se perguntou como alguém que não a possui se sente bonita? Na verdade, quando vemos mulheres gordas se amando é como se fosse um tapa, porque pensamos ”sou magra e não tenho coragem de colocar um cropped, fazer fotos nuas, enquanto uma pessoa que é ridicularizada e tida como feia, faz um ensaio peladíssima e sorrindo?”. Uma pessoa magra só se sente bonita com mais facilidade porque ela é padrão, porque ela é aceitável. A autoestima de pessoas não gordas é uma mentira, porque se engordamos alguns quilos, ela desaparece.

Beyoncé compartilhou a primeira imagem oficial após ter ganhado gêmeos e a internet surtou com a magreza que ela já demonstrava. Sabemos que, na vida real, uma mulher após ter um filho geralmente ganha peso, estrias, celulites e flacidez – coisa bastante comum, já que o corpo sofre inúmeras mudanças. O que fica é a autoestima baixa e muitas vezes a falta de sensibilidade do parceiro, familiares e amigos, que logo taxam as consequências do parto como relaxo. Eu mesma me vi dizendo que só iria parir se fosse pra ficar com o corpo da Bey, até que assisti o vídeo de uma conhecida gravida, que desabafava sobre a preocupação que sofre com o ganho de peso que terá depois de ter o bebê, já que foi taxada como gorda, sebosa e suja na infância (apelidos que ainda doem). A gente escorrega e reproduz gordofobia. Conversei com ela – além de pedir desculpas é claro. Sei que o vídeo não foi uma indireta, mas sim um relato sincero de quem sempre sofreu com a ditadura da magreza e foi muito ridicularizada por isso.

As fotógrafas Alile Dara Onawale e Renata Martins criaram um ensaio para exaltar a beleza e romper os estereótipos em relação a mulheres gordas. A modelo escolhida foi Jéssica Ipólito, do site Gorda e Sapatão.

 

Recentemente, a Netflix lançou o filme O Mínimo Para Viver, em que Lilly Colins interpreta uma anoréxica que ao longo da trama tenta superar o distúrbio com a ajuda da família. Para conseguir o papel, Lilly teve que perder muitos quilos e se assustou com os elogios que começou a receber, decorrentes de sua magreza excessiva. A atriz já teve problemas com distúrbio alimentares, e percebeu o quanto é presente o culto da magreza excessiva e o quanto isso é relacionado à beleza.

“Eu estava saindo de casa esses dias e uma mulher que conheço há muito tempo, da idade da minha mãe, olhou para mim e disse ‘Uau, olhe para você!’. Eu tentei explicar que estava emagrecendo para um papel e ela disse ‘Não! Eu quero saber o que você está fazendo, você está ótima!’. Depois disso, entrei no carro da minha mãe e disse ‘É por isso que esse problema existe”.

Na moda, um dos maiores ícones de estilo e responsável pelo renomado programa americano Project Runway, Tim Gunn, falou sobre o assunto recentemente em uma carta aberta para o Washington Post, com o título Designers se recusam a fazer roupas que vestem a mulher norte-americana. É uma desgraça” sobre como o mercado de vestes vem tratando mulheres grandes. De acordo com ele:

“Eu amo a moda norte-americana, mas ela tem muitos problemas, e um deles é a forma como ela virou as costas para muitas mulheres”, escreveu Tim. “A mulher norte-americana comum veste tamanhos entre 44 e 46, segundo uma pesquisa da Universidade de Washington. Existem mais de 100 milhões de mulheres que se enquadram no mercado plus-size nos Estados Unidos e, nos últimos 3 anos, elas aumentaram o seu poder de compra mais rápido do que as demais. Mesmo assim, muitos designers – pingando desdém, com falta de imaginação ou muito covardes para se arriscar – ainda se recusam a fazer roupas para elas”.

Segundo o estilista, o número de roupas produzidos para mulheres gordas ainda é pequeno, sendo apenas 8,5% dos vestidos oferecidos na NordsTrom (loja de departamento) este ano vinham em tamanhos grandes, por exemplo.

Garotas plus size podem tudo!

 

É comum em lojas brasileiras ver um espaço dedicado apenas para mulheres gordas, numa tentativa de dizer ‘’Olha, também vamos vender para você, olha como somos legais’’, ao invés de deixar diferentes tamanhos nas araras, sem segmentar a moda do gordo para o magro. Em relação a formatos, são sempre os mesmos: largos, com estampas ora infantilizadas ora maximizadas, sem valorizar busto, pernas, quadris, nem tonalidades de pele – algo muito pobre para um país com 56% de pessoas acima do peso, segundo dados do IBGE de 2013.

Existe uma carência muito grande, para além da representatividade. Algo real, palpável, não só para as poucas modelos Plus Size, mas para as mulheres reais, de classes mais baixas que sofrem com o sobrepeso e baixa autoestima.  É fazer essas pessoas compreenderem que roupa vai além de algo para cobrir o corpo nu, mas sim para trazer história, valorizar ancestralidade, personalidade, com tecidos dignos que não rasguem na primeira agachada.

Em muitos setores da sociedade é necessário discutir o espaço de pessoas gordas e repensar como a indústria veste, a propaganda os representam e ambientes de trabalho incentivam o crescimento profissional. Além de entender o perfil das relações afetivas. A solidão é real, e ela tem recortes de cor e gênero. A mulher gorda está no fundo do que é pregado como algo bom: não é homem, se for negra, é o dobro de preconceito, não é tida como bonita. E então, como subverter algo que o mundo grita e que você vivencia desde o nascimento? Como mudar nosso pensamento e repulsa com pessoas gordas?

Queria eu ter as respostas, mas acredito que o primeiro passo é cada um olhar para dentro de si, do seu cotidiano e rever atitudes gordofóbicas. Não por dó, mas para ser um ser humano menos babaca e condescendente com a dor alheia. Converse com a sua amiga gorda, tente saber como ela se sente em ambientes de trabalho, familiar, se tem saído com alguém, e se sim, como está sendo tratada. Não hiperssexualize (principalmente se for preta), e não estou dizendo isso por puro puritanismo, mas sim porque muitos homens tem a visão de que ‘’gordinhas’’ até ‘’servem’’, mas só na cama. A sexualidade de uma mulher vai além de ser bem vista por um homem. É ela amar do cheiro da sua vagina à barriga que possui. É tirar a roupa na frente do espelho e sentir que é desejável, que merece gozar e dormir sozinha ou com quem bem entende.

‘’Gênero pode ser lido em todos os corpos, mas alguns corpos são mais sofridos e mais marcados por violência e exclusão do que outros.  Demandas feministas por equidade sempre partiram dessa premissa. Que os corpos marcados por violência e exclusão sejam aqueles a ocupar espaços exigindo justiça…’’ – Joanna Burigo

Não adianta nada fazermos patrulha no Facebook contra os comentários para a garota que fez fotos nuas e sofreu gordofobia se ainda reproduzimos os mesmos preconceitos nivelados no cotidiano. Insistir nisso é injusto e hipócrita. O problema da gordofobia não é do gordo, somos de nós magros que os depreciam e, principalmente, do sistema que ensina que felicidade, amor, beleza não nasceram para ser do gordo.

Nossa relação com a comida precisa ser revista, assim como com o espelho. É necessário se posicionar, reconhecer qual o fruto de nossa autoestima e de que modo podemos servir de reflexo para outras mulheres. Nosso corpo é um campo político e ele não só deve, como possui inúmeras possibilidades de mostrar a que veio e quais as nossas escolhas de mundo.


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