O Corpo é Resistência: Insurgências Estéticas

Quando a nudez desnuda mais do que podemos ver.

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“Então, esta noite, antes de ir pra cama, tire sua roupa em frente ao espelho e aprecie seu corpo, suas curvas, suas dobrinhas, sua cor, estrias e tudo que seu corpo tem de único. Faça uma celebração antes de adormecer! Cada uma tem a chave para a própria revolução.”

– Jéssica Ipólito, blogueira e feminista

A blogueira paulistana Jessica Ipólito, fundadora do site Gorda e Sapatão (que aborda assuntos inerentes ao universo de mulheres lésbicas entre outras vivências e informações) foi protagonista de uma amostra muito significativa acerca dos efeitos da estética como mote para o posicionamento político. Dentro do movimento negro, atualmente, há uma discussão sobre os efeitos do corpo da pessoa negra como corpo político. O corpo político é o corpo indesejado, provocativo, inadequado, que subverte a lógica estabelecida e invoca a resistência nos espaços em que ocupa. Nesse sentido, o corpo da mulher é um corpo político. O corpo LGBTQ é um corpo político.

O corpo da blogueira virou insurgência viva e sua nudez foi usada para falar aquilo que ninguém ousa dizer, nem vestido. Ela postou em sua página nas redes sociais uma foto nua, acompanhada de um texto onde incentivava mulheres a gostarem de seus corpos, independente do que o padrão atual considera como belo.

“Do momento em que eu acordo e saio da cama até o momento em que volto a dormir, tudo ao meu redor diz que eu não sou desejável. Serei invisível, ignorada, debochada, patologizada, ofendida, degradada, humilhada e odiada: por ser uma negra&gorda que se recusa a ser definida assim, de forma ruim. Eu sou linda, gostosa, saudável, repleta de coisas boas em meu ser e estou lutando por um mundo onde cada mulher saiba que é importante e que seu corpo não é feio ou errado como costumam pregar por aí.”                

– Jéssica Ipólito na sua releitura-inspiração de Krista Smtih

Em menos de 24 horas, uma avalanche de interações favoráveis e desfavoráveis foram se aglomerando em comentários, compartilhamentos e curtidas ou likes. Pouco mais de 7000 pessoas, quantidade bem expressiva, prestaram apoio, fora os comentários positivos. Até aí, normal, pois qualquer corpo nu sempre desperta curiosidades e opiniões, seja da pessoa que está dentro ou fora dos tais padrões que a sociedade tem como definição de bom e belo.Mas a comoção fica por conta das manifestações contrárias. Essas disseram nas entrelinhas, muito mais do que as próprias pessoas que disseram têm consciência ou coragem de pensar e admitir.

É evidente que todas as pessoas que enfrentam as intempéries de se desafiar o senso comum se deparam com hostilidade e repúdio vindo de pessoas conservadoras e de mentalidade rígida, inflexível. Mas no caso da blogueira, o que se observou foram manifestações de ódio, um ódio que vale a pena ser decifrado, sob pena de toda e qualquer pessoa futuramente se sentir acuada havendo uma inversão de papeis, onde a força dos odiadores pode acabar por minar a força dos odiados atingindo em cheio o lugar que justamente se quer fortalecer: a autoestima.

Jéssica é uma mulher gorda. E já pedindo licença para invadir o local de fala que não me pertence, posso afirmar que a gordofobia é uma das distorções mais naturalizadas pela sociedade. Pessoas de todos os tipos acham que o corpo gordo passa uma informação de pouca saúde, pouca higiene, pouca beleza, pouco poder de sedução, pouca disposição para o trabalho, entre outras coisas. São centenas de piadas e personagens humorísticos construídos em cima da imagem da pessoa gorda. Todos os meios de comunicação reforçam isso, diariamente. Recentemente tivemos inclusive uma propaganda de lingerie que trazia uma modelo magra como “plus size”. O manequim da modelo não passava de 40, o que gerou polêmica, sendo que ficou claro que há uma indução da mídia para que mulheres sejam cada vez mais magras, em um retorno bizarro à cultura da anorexia propagada na década de 90.

corpoModelo “plus size”, de acordo com sociedade gordofóbica.

 

Isso por si só já merece questionamento rigoroso. E essa informação puramente estética que o corpo gordo indica se potencializa quando quem porta esse corpo é uma mulher. O homem gordo é tolerável, pouco cobrado, permanece com o aval silencioso da sociedade que sempre tem uma justificativa para o aumento de peso. A mulher não. Mesmo após a gravidez já é cobrada sobre o tempo que levará para voltar a forma antiga. Até Kate Middleton, duquesa de Cambridge, foi alvo de comentários maldosos sobre seu peso ao sair da maternidade onde, pasme, acabara de dar à luz ao segundo filho.

corpoEla havia dado à luz no dia anterior.

 

Isso devidamente abordado pode-se definir aí uma dobradinha de opressões ou, quem sabe ainda, a repulsa pelo corpo feminino gordo seja um produto direto do machismo. Sim, porque uma das ferramentas de manipulação da supremacia masculina é o controle do nosso corpo. Tal mecanismo age da seguinte forma: eu desqualifico esse corpo, atingindo a autoestima dessa mulher. Uma vez que, atualmente, o conceito de aceitabilidade está atrelado primeiramente a estética, essa mulher que se sente inadequada pela sua aparência, adquire uma fragilidade que produz a aceitação de toda e qualquer migalha emocional que se possa oferecer.

Esse mecanismo não atua só sobre o peso das mulheres. A indústria de cosméticos, por exemplo, sabe bem disso, pois esse nicho econômico que só cresce foi pautado a partir da busca feminina pela aparência aceitável. E, nesse caso, o aceitável é nada menos que o perfeito, ou o desprovido de defeitos e imperfeições visíveis. Sendo assim, como a perfeição não existe, sempre estaremos em débito ou déficit, cerceando nossa aparência, condicionando nossa aceitação e nosso amor próprio. Sabemos disso, mas é algo tão internalizado que poucas conseguem se libertar ou ao menos questionar. Muitas mulheres adoecem física ou emocionalmente por isso.

Existe de maneira escancarada no comportamento masculino uma necessidade em usar e abusar desse recurso de controle da mulher através da estética. E isso tem funcionado há anos. Temos a prova pelas revistas femininas, dessas que enchem as bancas do Brasil e do mundo, com um conteúdo informativo pobre e reducionista e que abre um espaço farto para tudo que se refere a “beleza feminina”. São páginas que dizem o que vestir, o que fazer para se manter magra, qual a maquiagem que realça ou disfarça imperfeições e até comportamentos que camuflam a falta de beleza. Mulheres competem entre si pelo olhar masculino, que seria o troféu de todo esforço empregado e de todo investimento financeiro gasto. Concursos de misses ainda hoje são o centro da vida de muitas mulheres de várias idades e o sonho de ser modelo ainda está de maneira equivalente ligado ao dinheiro e ao sonho de ser a mais bela. É um dos maiores trunfos do patriarcado para manutenção de seus privilégios e de sua supremacia. E nossa maior prisão, maior labirinto.

Então nos deparamos com uma mulher que vira as costas para tudo isso. Que pratica descaradamente sua insurgência e segura entre os dentes a sua liberdade de ser quem é. Sem constrangimento, sem dúvidas e sem medo. Pode o homem, ou ainda, as mulheres colonizadas por essa ideia que vem atravessando gerações, intacta, aceitar esse contraponto?

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Uma mulher gorda que se vê acuada, deprimida e lutando para se enquadrar nesses padrões de controle desperta “pena”. Vemos sempre pessoas se referindo a mulheres gordas da seguinte forma: “Que pena, tem o rosto tão bonito!”. Mas aquela que debocha dos escravos mentais da estética manipulada é repudiada. Violentamente. E sempre será, assim como toda e qualquer mulher que ousar contrariar a lógica estabelecida, porque representa uma ameaça latente, uma afronta viva, que desfila pelo mundo sua altivez e seu amor próprio. E pior, comete o atrevimento de se deixar registrar em fotografia, desnudando a sua poética insuportável e o erotismo que contraria a mentira que ouvimos desde cedo: a de que o erótico é necessariamente magro, e que o magro é, além de desejado, perfeito.

Isso constitui uma revolução, porque não só desafia “verdades”, mas nos obriga a olhar para nós mesmos e buscar o verdadeiro amor e a verdadeira beleza que guardamos por baixo dos nossos rótulos e camuflagens diárias. Imagina um mundo onde aquela mulher que tem celulites, estrias, manchas ou características tidas como imperfeição ou limitador da beleza, começa a se amar loucamente? Esse amor, devemos ressaltar, não é essencialmente pela estética em si, mas por sua verdadeira persona. Quem busca se adequar ao conceito de beleza construído está muito longe de se amar verdadeiramente. Quando muito, se apaixona temporariamente pelo que vê em frente ao espelho ou pelo o que os outros dizem de sua imagem. Amor próprio não tem a ver com estética, embora a liberdade que advém da aceitação de sua imagem seja um reflexo do conforto que sentimos dentro da nossa pele, com todas as imperfeições que ela carrega.

Quem se ama é erótico de alma, como bem sugeriu Adélia Prado em um poema. Essa mulher, amante de si mesma, vai exigir a qualidade que merece nas relações sócioafetivas, e vai rejeitar a busca pelos padrões de perfeição e redesenhar sua história, passando para futuras gerações de mulheres, que serão lindas e perfeitas, cada uma a seu modo. Isso é poder pessoal.

Essas pessoas que insultaram a blogueira sabem disso intuitivamente e, no seu interior apequenado pela falta de qualidade assustadora da qual eles sabem que são portadores, não conseguem suportar que alguém cultue a si mesmo, independente de seus conceitos ultrapassados.

Só quem tem muito a oferecer ao mundo, de dentro para fora, pode sentir a segurança de desafiar a visão dos outros sobre si mesmo. E essas pessoas que foram terrivelmente hostis, na maioria homens, não tem essa segurança e poder ainda, e sabem disso. Não aprenderam que também podem partilhar da mesma qualidade emocional que a blogueira possui, pois isso é construído, tijolo por tijolo. É muito ódio direcionado a Jéssica, mas esse ódio não é por ela, ou pelo corpo dela ou ainda pelo que a nudez dela representa para a reconstrução de paradigmas mais que obsoletos e recalcados. É um auto ódio que habita o interior dessas pessoas e que se forma no vazio que eles sentem ao não ter coragem de expor seus próprios medos e sua própria inconformidade com esses padrões que, no fundo, aprisionam mulheres como Jéssica, mas não só elas: todos nós.

No fim das contas, o ódio dessas pessoas é pela terrível sensação de podridão que sentem ao constatar o envoltório preconceituoso em que se encontram, porque a blogueira, ao se despir, despiu a todos. Mas apenas a nudez dela era florida. A dignidade da nudez da blogueira denunciou o temor da descoberta da verdadeira essência feia de quem se incomodou com o conforto que ela sente em ser quem é. Essa nudez, com toda a sua insurgência e posicionamento político, disse mais sobre a sociedade atual do que essas pessoas suportam. Disse que, no fundo, temos medo de nós mesmos.

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