Que que tá acontecendo no sertanejo?!

Uma retomada do que aconteceu no sertanejo pra você que dormiu no barulho da sofrência. Vamos refletir um pouco mais sobre a crítica de arte direcionada às mulheres.

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Era um dia tranquilo de uma mina paulistana dando rolê na 25 de março. Arrochas e sofrências de todas as linhagens eram a trilha sonora daquela tarde. Ela entra numa loja e, com prudência, está segurando um brinco, avaliando se precisa mesmo dele, se vai usar, já que era um tanto colorido demais pro seu estilo gótica suave… é quando um vibrato sem precedentes, na voz de uma outra mina, a interpela pelas caixas de som, num volume altíssimo na loja. O que era aquilo exatamente? Uma música sertaneja? Não se sabia com certeza, mas certamente era uma cantora virtuosa em muitos aspectos. E o que era aquela letra, senão uma expomacho maravilhosa? Largou o brinco e prestou atenção na música até o final. Grata surpresa.

A mina do rolê era eu. A mina do vibrato era a Marília Mendonça. E a música era “Infiel”.

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Há sete anos, eu estudo música informalmente, canto popular pra ser mais precisa. Há quatro anos e meio destes sete anos, eu trabalho diretamente com cultura. E tenho que afirmar com todas as letras que tem sido sim uma grata surpresa ver uma mulher como a Marília Mendonça adentrando o mainstream da música sertaneja no cenário pop nacional.

Na mesma tarde em que ouvi “Infiel”, compartilhei insistentemente meu entusiasmo com a miga que me acompanhava no rolê do centro. Tive que buscar a música no Google. Tive que saber quem era a dona da voz que tornara conhecida aquela letra. E descobri que ela também a compôs. E descobri que ela é uma linda mulher que não atende aos padrões estéticos magros tidos como esperados às cantoras pop. Descobri que Marília Mendonça, como muitas mulheres no campo das artes no Brasil, existe e resiste.

Essa existência/resistência é inteiramente nova? Não. Muitas a precederam no histórico da canção pop brasileira. Outras ainda são contemporâneas de Marília, em mais linguagens musicais, como a MC Carol, a Ellen Oléria, e a lista só cresce. Mas se olharmos para o histórico da canção sertaneja do Brasil, em especial, temos uma significativa novidade na apropriação da linguagem pelas mulheres. E é importante que isso seja dito clara e abertamente para dimensionarmos melhor nosso raio problematizador, tanto do ponto de vista da militância feminista, como do ponto de vista da crítica da arte.

Mesmo não sendo especialista, nem consumidora de música sertaneja, vou tentar fazer um rascunho desse panorama histórico, num remember saudoso, e ver se conseguimos juntas entender melhor o que está acontecendo.

Quem, como eu, nasceu no fim dos 80, cresceu nos 90 e adolesceu nos anos 2000, lembra bem da cara do sertanejo, que era essa daqui:

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Uma cara lida como branca, de homens migrantes de origens pobres nos interiores do Brasil. Reservadas as devidas proporções do contexto, do preconceito e das superações destes homens nas suas relações com a indústria cultural brasileira naquele momento, precisamos destacar aqui como as mulheres foram subjugadas nas letras de suas canções.

O centro do diálogo com o público era o sofrimento romântico do homem hétero quanto a uma mulher que, na maior parte das narrativas das canções, foi vilanizada. E ela era a vilã, motivo único de uma profunda angústia, porque traíra ou abandonara o homem protagonista e vitimizado, deixando apenas um injusto fio de cabelo como triste recordação. Ou ainda porque era irresistivelmente sensual aos olhares masculinos, deixando o umbiguinho de fora na sua calça “saint-tropez”.

Mulheres né, essas sirigaitas, traidoras de juras de amor, e irresistíveis. Como pode ter um cara que jura por ele mesmo, por Deus e pelos pais que vai amar uma mulher, e ela ainda não está lá lambendo o chão que ele pisa? Que dó, gente. #sqn

O amor romântico aparece, nesse auge do sertanejo dos anos 80-90, como a súplica – sofrida e insistente – de um homem a uma mulher.

Claro, estou fazendo um recorte do que estava na superfície, daquilo que está no amplo imaginário até hoje. Pois havia também as duplas caipiras com temáticas mais bucólicas, além das várias mulheres invisibilizadas na cena sertaneja mainstream noventista.

Podemos citar aqui a Sula e a Roberta Miranda, de quem vocês devem se lembrar. Ambas ficaram legadas a um espectro mais restrito, nas margens do sucesso e das estrondosas vendas de discos. A Sula, por exemplo, foi muito objetificada em cartazes nas oficinas mecânicas por aí, como a “musa dos caminhoneiros”.

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Ou seja, mesmo fazendo um recorte superficial desse período, não vejo como e quem consiga relativizar a predominância da temática romântica e machocentrada, quando vamos lembrando ainda do que se seguiu nas paradas sertanejas: Chrystian e Ralf, Gian e Giovani (como não citar o “Convite de casamento?” #lágrimasdesangue), Daniel… e, mais recentemente, na reverberação infinita dessa onda, Bruno e Marrone que até dormiram na praça pensando nela #socorro.

Mas o que estava ruim pras mulheres na cena sertanejo/sofrência, parece que piorou nos anos 2000-10, com o chamado sertanejo universitário. Embora as duplas masculinas sejam um formato persistente, com Jorge e Matheus, por exemplo, os temas parecem ter ganho uma conotação atualizada do lirismo machista anterior.

O aumento do número de artistas masculinos solo, como Gusttavo Lima, Luan Santana, Michel Teló e Weslei Safadão (lembrando que a cena do Safadão está mais vinculada ao arrocha/forró, mas compartilha o público do sertanejo), não deixou totalmente de lado o amor romântico como ideal. Entretanto, colocou o homem protagonista da narrativa das letras não mais em uma posição de vítima das mulheres, mas sim no posto de agente, muitas vezes agressivo e, até mesmo, vingativo na relação com elas. A balada, a fugidinha, o camarote, o boteco, a bebedeira e a ostentação fazem parte do conjunto de prerrogativas para esfregar na cara de uma mulher – ou de várias – a potência deles, o sucesso deles, a superação deles.

As mulheres ainda são (óbvio) a causa e a cura para o sofrimento do homem na cena sertaneja masculina. Mas, na virada do sertanejo universitário, a elas também ficou atribuído um valor menor: são diminuídas, humilhadas e facilmente superáveis. O interessante é que nem o surgimento de duplas sertanejas mistas de homens e mulheres, com alguma notoriedade (como Maria Cecília e Rodolpho, Thaeme e Thiago), suplantou minimamente o sucesso mais amplo dos hits sobre a noitada machocentrada.

Soma-se a tudo isso, o extremo ódio misógino à Paula Fernandes, que foi um dos poucos destaques femininos contemporâneos ao início dessa mudança da temática no sertanejo. Quem acompanhou, mesmo de relance, a enxurrada de comentários de ódio à cantora no contexto do show do Andrea Boccelli sabe do que eu estou falando (se não sabe, saiba aqui, aqui e aqui). Se fosse um cantor homem, naquele errinho rápido, ridículo e indolor, o negócio jamais teria tomado as proporções que tomou, sabemos bem.

Bom, mas vamos, enfim, pra parte que nos interessa: apesar de todo este panorama do mainstream sertanejo no Brasil, Marília Mendonça apareceu na minha vida no meio da 25 de março <3. E na vida de muitas mulheres que, diferentes de mim, estão ligadas a este universo musical. E não só Marília, a galere tem aí uma mulherada relevante pra ouvir: Maiara e Maraísa, Naiara Azevedo, Simone e Simaria, Paula Mattos. É muito provável que a lista seja maior, mas meus parcos conhecimentos não chegam lá no fim da lista, nem de longe.

Como isso aconteceu? Eu não sei, só vi acontecer, estando do lado de fora da cena. Mas minha hipótese é de que só aconteceu na base da luta dessas mulheres artistas. E também na base de público da cultura pop que a ampliação dos debates sobre feminismo no Brasil tem criado nesses últimos anos. As mulheres tem buscado identidade de gênero na arte, as mulheres tem buscado arte feita por mulheres. E isso não é gratuito. Isso não é mágica. Isso tem cheiro de luta. Isso é conquista. É resistência. #vamossejuntarcontraesseshomenssafados

Você pode não gostar da cena pop, da cena sertaneja, da cena funk e de todas as cenas musicais brasileiras até. Mas você, eu, nós mulheres precisamos reconhecer a importância desses espaços artísticos que são também políticos.

A problematização feminista sobre estes espaços e sobre as mulheres nestes espaços tem crescido. E esse crescimento é mais do que importante, indica um aumento de reflexão crítica e coletiva das mulheres como público de arte. No entanto, me causa um profundo incômodo que muitas problematizações desconsiderem um contexto anterior à apropriação destes espaços pelas mulheres. E que, assim, desconsiderem também, as diversas formas de existir e resistir. Não há respiro, não há fôlego da crítica de arte feminista e no campo da esquerda sobre as mulheres no mainstream pop. Se forem negras, então, nem se fala – já não aguentamos mais a problematização anticapitalista que incide APENAS sobre Beyoncé.

Esses dias, li esse texto da Clara Averbuck (sou fã), em que ela problematiza a sofrência da Naiara Azevedo no hit “50 reais”, por conta do trecho “Não sei se dou na cara dela ou bato em você”.

E, bom, realmente foi a problematização mais pertinente e sensível sobre as mulheres no sertanejo que vi até agora. Quase um diálogo direto com a Naiara. Porém, se a gente tenta achar textão e problematização do campo feminista sobre o machismo dos homens no sertanejo, fica mais difícil encontrar.

Isso é sintomático da maneira como a militância feminista tem se organizado no meio online em relação à arte pop: com olhares cada vez maiores, breves e menos generosos para atuação de outras mulheres; e com olhares cada vez menores para os contextos, estruturas e tudo aquilo que as antecede. Por vários motivos, estamos comprando mais a arte de mulheres, mas também estamos reproduzindo mais estruturas de crítica de arte machistas, elitistas e descontextualizadas – sem entrar no mérito aqui das estruturas de crítica racistas e colonizadas porque o sertanejo é um espaço extremamente embranquecido.

Afinal, eu sei que, com certeza, não é nem um pouco legal culpabilizar uma mulher, prostituta ou não, pela traição masculina. Mas eu tenho pelo menos 10 anos de feminismo nas costas. Naiara Azevedo provavelmente nem se considere feminista. E olha esse passado do sertanejo, minha gente, o horror! Vamos colocar em destaque que, num momento de raiva, Naiara fica EM DÚVIDA sobre em quem bater? Adoro problematização, amo textão feminista sobre arte, mas ninguém me convence de que não tem algo errado aí nessas prioridades.

E eu não estou falando em passar pano para o que avaliarmos ser equívocos políticos. A gente precisa fazer a crítica de arte feminista, anticapitalista e antirracista às mulheres artistas, produtoras e curadoras. Eu defendo o texto da Clara e muitos outros textos feministas que eu li sobre a questão das mulheres do sertanejo, o “feminejo”, etc. Mas eu não posso defender que a gente continue a olhar pra atuação das mulheres na arte sem olhar praquilo que veio antes. Senão parece que não há conquistas. Senão parece que não há resistência. Senão parece que não há existência legítima das mulheres artistas que não são – ainda – feministas (aqui, você pode substituir “feministas”, por “antirracistas” ou “anticapitalistas”, por exemplo).

Eu fico com a beleza das respostas artísticas das mulheres ao passado.

Uma pesquisa legal pra entender o machismo no sertanejo:

  • A Voz Delas (apanhando de dados e informações sobre as mulheres no sertaneja 2015-16);

Leia também Musicalidade Negra em Imagem-Movimento: Solange Knowles; e Mulheres no Rock – Apagamento, Desmerecimento e Objetificação.