Dua Lipa Traz Mensagem de Sororidade em seu Clipe New Rules

Superar aquele boy embuste com a ajuda das amigas é o tema do clipe de nova aposta do pop.

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Quem nunca teve que superar aquele famoso “embuste”? Em New Rules, o sétimo clipe da cantora Dua Lipa, é mostrada a importância de mulheres se apoiarem para saírem de uma situação como essa. Com coreografias, performances teatrais e uma fotografia com palheta de cores pastéis, a cantora de 21 anos ensina suas regras. Pelo Twitter, Dua confessou que esse foi o melhor clipe que já gravou em sua vida.

A cantora

Dua Lipa é uma cantora britânica de origem albanesa. Seu nome é uma palavra de origem albanesa que significa amor. Nascida em Londres, em 1995, Dua é cantora, compositora e modelo, e começou a fazer sucesso cantando covers no YouTube de artistas como P!nk e Nelly Furtado. Em 2015 ela assinou com a Warner Bros Records, e em 2017 lançou seu álbum de estreia de mesmo nome que a cantora. O single New Rules faz parte deste álbum.

Em entrevista para o New York Times, a cantora revelou que quando está compondo suas músicas ela acaba escrevendo sobre o que fica mais tempo em sua mente:

“Todas as coisas tristes que acontecem são as que ficam mais tempo na minha cabeça, são as coisas que eu sinto que quero escrever. Mas ao mesmo tempo eu gosto de dançá-las.”

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Segundo o site A Gambiarra:

“O mais interessante em Lipa, é ver que seu conjunto, que tem tudo para não funcionar, acaba resultando em um produto irrepetível. A voz grave a coloca em uma caixa diferente das cantoras pop comuns. Nada de high notes desnecessários, só momentos roucos deliciosos de ouvir no fone de ouvido”.

Sororidade x Rivalidade Feminina

Em seu texto Precisamos falar sobre Sororidade feminina na TV para a revista Pixel, a jornalista Stefanie Lima relata que ao longo de sua adolescência nos anos 90, ela maltratou e foi maltratada por muitas meninas:

“Tive comportamentos dos quais não me orgulho, mas levei um tempo considerável para descobrir isso. Afinal, eu até gostava de bancar a menina malvada”.

Apesar de ter vivido a adolescência uma década mais tarde, eu também me identifico com esse relato e acredito que muitas mulheres e jovens também. Não é coincidência que em 2004 foi o ano de lançamento do filme Meninas Malvadas, o já clássico pop estrelando Lindsay Lohan. Apesar da mensagem final do filme ter uma boa intenção.

“Como eu posso começar a explicar Regina George?” – trecho de Meninas Malvadas (2004)

 

Como apontou Danielle Maciel para o jornal Oito e Meia:

“Desconheço ouvidos femininos que escapam de frases como ‘amizade de mulher é falsa’, ‘você está linda, melhor que suas amigas’, ou ‘mulher se veste para competir com outras mulheres’. Comentários como esses, repetidos à exaustão no cinema, publicidade, novelas e rodas de conversa, incentivaram (e ainda incentivam) gerações de mulheres a se lançarem numa rede de discórdia cruel que só serve para depreciar o valor feminino”.

Contudo, nos últimos anos mensagens como “Lute como uma garota”, “Juntas somos mais fortes”, “Vamos Juntas”, “Mexeu com uma, mexeu com todas” tem viralizado através das redes sociais e começaram a ser apropriadas pela cultura pop. Desse modo, a balança que pregava a rivalidade feminina começou a ser virada e os produtos culturais que consumimos começam a mostrar essa mudança de paradigma.

Filmes de heroínas, princesas Disney sem par romântico, cantoras pop empoderadas, mensagens feministas estampadas em roupas, campanhas publicitárias que enaltecem o amor próprio e a diversidade… Como dizem: está na moda ser desconstruído.

Termos como sororidade e empoderamento estão fazendo cada vez mais parte do vocabulário das mulheres. Debates sobre sexualidade, autoestima, padrões de beleza, diversidade racial, maternidade compulsória estão cada vez mais presentes até mesmo na mídia tradicional, que vem historicamente e categoricamente não só ignorando estas temáticas, mas fazendo campanhas contra elas. Basta dar uma olhadinha no nosso texto sobre os mais de 100 anos de propaganda anti-feminista para ter uma ideia.

dua lipa“As sufragistas nunca foram beijadas” (Postcard. John Hassall, 1912) – a semelhança com dizer que “feminista é mal comida” não é coincidência.

 

Para Stefanie Lima, embora conceituar Sororidade seja difícil, é fácil dizer o que ela não é: “competir, denegrir, agredir, desrespeitar, julgar outras mulheres”. Ela explica que se trata de uma palavra que “simboliza a irmandade entre meninas e mulheres e que as vê como aliadas e não rivais”. A jornalista aponta que, a princípio, entender a lógica dessa palavrinha mágica é difícil, afinal “fomos criadas pelo patriarcado e pelo machismo, que além de desmerecerem o poder feminino, colocam em xeque as relações femininas e as ditam como rivalidade”. Saiba mais sobre rivalidade feminina e sororidade aqui.

Letra de New Rules

Dito isto, podemos analisar a letra de New Rules de Dua Lipa.

Na primeira estrofe Dua descreve como está envolvida na relação com seu par amoroso.

Falando dormindo à noite/ Me fazendo ficar louca/ (Fora da minha cabeça, da minha cabeça)/ Escrevo e leio/ Esperando que isso me salve/ (muitas vezes, muitas vezes)/ (Talkin’ in my sleep at night/ Makin’ myself crazy/ (Out of my mind, out of my mind)/ Wrote it down and read it out/ Hopin’ it would save me/ (Too many times, too many times)/).

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Mas, apesar de todo esse sentimento envolvido da parte dela, ela sabe que ele não a ama:

Oh, ele me faz sentir como ninguém/ Ninguém/ Mas amor, ele não me ama/ Então digo a mim mesma, digo a mim mesma/ (Oh, he makes me feel like nobody else/ Nobody else/ But my love, he doesn’t love me/ So I tell myself, I tell myself).

Em seguida, a cantora descreve as regras para superar aquela relação que está lhe fazendo mal:

Um/ Não pegue o celular/ Você sabe que ele está ligando/ Porque está bêbado e sozinho (One/ Don’t pick up the phone/ You know he’s only calling/’Cause he’s drunk and alone)

Dois/ Não o deixe entrar/ Você tem que expulsá-lo de novo (Two/ Don’t let him in/You have to kick him out again) 

Três/ Não seja amiga dele/ Você sabe que vai acordar/ Na cama dele de manhã/ E se você estiver por baixo dele/ Você não vai superá-lo (Three/Don’t be his friend/You know you’re gonna wake up/In his bed in the morning/And if you’re under him/ You ain’t getting over him).

Na próxima estrofe, Dua diz que conta com suas novas regras…

Eu tenho novas regras, eu conto com elas/ Eu tenho que dizê-las para mim mesma (I got new rules, I count ’em/I gotta tell them to myself).

…ficando evidente que embora o processo por que está passando seja difícil, ela está decidida a seguir seu plano.

Adiante, ela descreve como tem recaídas e precisa se lembrar das regras para conseguir mudar o círculo repetitivo em que se envolveu:

Eu empurro para frente/ Mas ele me puxa para trás/ (Sem lugar para mudar, de jeito nenhum)/ (Sem lugar para mudar, não)/ Agora, estou de volta/ Finalmente vejo o padrão/ (Nunca aprendo, nunca aprendo)/ Mas amor, ele não me ama/ Então digo a mim mesma, digo a mim mesma/ Eu digo, digo, digo (I keep pushin’ forwards/ But he keeps pullin’ me backwards/ (Nowhere to turn, no way)/ (Nowhere to turn, no) / Now I’m standing back from it/ I finally see the pattern/ (I never learn, I never learn)/ But my love, he doesn’t love me/ So I tell myself, I tell myself/ I do, I do, I do).

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Então, as regras são repetidas (é o refrão, rs). E ela diz novamente que conta com suas regras para mudar e, no meio disso, a cantora lembra si mesma que a prática leva à perfeição até para educar seu coração:

Prática leva a perfeição/ Ainda tentando aprender no meu coração/ (Eu tenho novas regras, conto com elas)/ Comer, dormir, e respirar/ Treinar e repetir porque eu/ (Tenho novas, tenho novas, tenho novas…) (Practice makes perfect/ I’m still tryna’ learn it by heart/ (I got new rules, I count ’em)/ Eat, sleep, and breathe it/ Rehearse and repeat it ’cause I/ (I got new, I got new, I got new…).

Ao fim, depois de tanto trabalho duro, ela termina a música dizendo que está superando aquela relação:

“Não o deixe entrar, não o deixe entrar/ Não, não, não, não/ Não seja amiga dele/ Não, não, não, não/ Você está superando ele” (Don’t let him in, don’t let him in/Don’t, don’t, don’t, don’t/ Don’t be his friend, don’t be his friend/ Don’t, don’t, don’t, don’t/ You gettin’ over him).

Com essa letra poderosa de superação, Dua mostra que apesar de não podermos controlar nossos sentimentos, podemos controlar quem faz parte da nossa vida, e assim ela consegue escapar de uma relação sem amor. Com suas regras ela consegue disciplinar seu coração, pois sabe que a pessoa por quem se apaixonou lhe faz mal: “Ainda tentando aprender no meu coração”.

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Podemos ver ao longo da música que não é um processo fácil: “Eu empurro para frente/ Mas ele me puxa para trás”. Quem nunca tentou superar alguém e quando quase estava conseguindo, a pessoa reapareceu e teve que voltar à estaca zero? Mas como diz a cantora: “A prática leva à perfeição” para você sair de um relacionamento tóxico.

O Clipe

Ao analisarmos a letra isoladamente parece que a luta de Dua para se libertar de uma relação em que o parceiro não a ama é solitária. Mas no clipe essa impressão é invertida.

O clipe começa mostrando um hotel em Miami. Depois são mostrados os corredores desse típico hotel da região. Ou seja, se apresenta o cenário onde a história acontecerá.

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Em seguida, apesar desse cenário paradisíaco, Dua aparece deitada em sua cama em um dos quartos e começa a cantar. Contudo, sua expressão é triste. Neste momento, a câmera mostra que ela não está sozinha nessa viagem: ela está com suas amigas que a puxam para fora da cama. Fica claro que as amigas estão lá para ajudá-la a superar aquele “embuste” que não a ama.

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O clipe tem performances teatrais que envolvem Dua desenhando um coração no espelho e as amigas o apagando, ou ela tentando pegar o telefone (presume-se para ligar para o tal embuste) e as amigas a impedindo. Ao longo do clipe vários momentos de apoio são mostrados, como quando as amigas se maquiam e penteiam os cabelos uma das outras, demonstrando como elas estão unidas para amparar Dua nesse momento.

Num primeiro momento Dua está sofrendo, logo depois ela vai se recuperando gradativamente com a ajuda de suas regras e suas amigas. Até então Dua é a principal do clipe, mas na segunda metade do clipe acontece algo inesperado: agora é Dua que está ajudando uma de suas amigas de seu Squad a passar pela mesma situação. A mensagem de sororidade é evidente: uma ajuda a outra no momento de necessidade, não só a “principal” é ajudada. Todas merecem apoio.

A fotografia

Como já destacado, o mais interessante de Dua é seu conjunto. Para além do plot (enredo) do clipe, a fotografia contribui ainda mais para a mensagem da cantora – começar pela sua própria imagem, que subverte padrões femininos consagrados no pop.

Sim, Dua ainda está dentro do padrão de beleza, sobre isso não há dúvidas. Mas apesar de magra e branca para o olhar brasileiro, a cantora tem origem albanesa e usa roupas que poderiam muito bem ser usadas por qualquer mulher em seu dia-a-dia num hotel na California. Além disso, é notável a naturalidade com que o corpo da cantora é mostrado no clipe, com suas gordurinhas e seus seios pequenos com sutiã sem enchimento. Nesse sentido, a cantora acaba se desviando do padrão do corpo feminino perfeito visto no pop e reforçado pela indústria da beleza.

Os tons pastéis do clipe colocam esse momento da personagem, que poderia ser visto como uma fase sombria, sob outra perspectiva. Os tons claros e intimistas levam o telespectador a entender o momento que Dua como um processo, no qual ela tem o apoio das amigas e está lutando contra o sofrimento.

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Outro ponto a ser considerado é a diversidade étnica de suas amigas – negras, latinas, árabes, brancas. Cada uma com suas individualidades, que não ficam apagadas pela presença de Dua, como é comum acontecer em outros clipes do gênero, onde a personagem principal tem todos os holofotes. Essa sutil diferença já quebra nos detalhes uma das características da rivalidade feminina, que é a competição estética entre mulheres, elegendo sempre uma “mais bonita”. No clipe de Dua cada uma tem sua beleza e isso não é o foco (o que é o mais importante).

Para além das escolhas de elenco, vemos também que embora usando pouca roupa e dançando uma coreografia, Dua e suas amigas não são hiper-sexualizadas. As garotas trajam roupas confortáveis em grande parte do clipe e até dançam descalças ou de meias, mostrando tanto o ambiente intimista no qual as mulheres se acolhem, quanto o fato de que o clipe não está direcionado ao olhar de apreciação masculino ou de fetichização do corpo feminino.

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A própria coreografia do clipe traz traços de dança contemporânea performática, casando com a letra e o enredo do clipe, e passando os sentimentos experimentados pelas personagens. Os olhares de compadecimento das amigas, as tentativas de ligação de Dua, a sua retirada da cama do hotel para que elas fossem para a piscina. Vemos, assim, que mesmo trazendo traços do pop tradicional apresentando uma coreografia, os elementos envolvidos vão além da mera dança ilustrativa e pretendem passar os sentimentos envolvidos na música.

Por fim, um dos pontos que mais contempla a mensagem de união e apoio entre as mulheres do clipe é que apesar de Dua ser a cantora, todas as participantes aparecem cantando a música (apenas mexendo os lábios como se estivessem fazendo backvocal de Dua). Ora cantando as segundas vozes, ora assumindo a voz principal, as meninas se revezam para cantar as “Novas Regras”, reforçando mais uma vez a empatia entre mulheres.

Mensagem de amor próprio

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Embora esteja nas entrelinhas, tanto a letra, como o enredo e a fotografia do clipe passam uma mensagem de amor próprio com New Rules. O gasto modelo ficcional que permeia nosso imaginário cultural de fazer tudo para conquistar o amor de alguém que não te ama, colocando a felicidade do outro acima da sua, é subvertido. Além disso, em nenhum momento é sugerido que o amor de Dua irá mudar o comportamento de seu amado – outro estereótipo muito explorado nas narrativas audiovisuais.

Em sua letra, Dua coloca-se em primeiro lugar ao decidir se libertar de uma relação sem amor que a deixa mal, combatendo a ideia de que o amor tem que ser sinônimo de sofrimento – algo muito atrelado à cultura do amor romântico que tudo sacrifica, que tudo aguenta, que muda o comportamento das pessoas. Dua é incentivada pelas amigas a se pôr em primeiro lugar e, além disso, logo depois ajuda outra amiga a fazer o mesmo.

Finalmentes

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Temos assim, uma mensagem de amor próprio somada à mensagem de sororidade feminina – inclusive enaltecendo a amizade feminina, tão estereotipada como já vimos. Assim, para além das regras, para superar um amor que te faz mal, a música da cantora britânica ensina que não devemos aceitar migalhas emocionais, mas sim sair de relações que não tem reciprocidade. Um caminho difícil como a cantora demonstrou, mas não impossível, principalmente se você tiver apoio.

Uma vez uma amiga me disse que a mãe dela não precisou do feminismo em si para sair do relacionamento abusivo com seu pai, mas sim de apoio. New Rules, de uma cantora que promete ser um dos grandes nomes da nova geração do pop internacional, nos mostra que talvez uma nova era esteja começando. Um tempo no qual as meninas não serão incentivadas a competir entre si, mas sim a se ajudar e a colocar suas necessidades e emoções em primeiro lugar, longe do estigma de cuidar e servir, mas para serem vistas como seres autônomos e complexos que merecem respeito.

Ouça Dua no Spotify.


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