Rogue One – Estamos no caminho certo, mas ainda não chegamos lá

Rogue One trouxe muitos acertos, mas ainda deixou a desejar em termos de representatividade feminina.

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*Contém spoilers.

Apesar de ter gostado muito do Episódio VII – O Despertar da Força, assim que os trailers de Rogue One foram sendo divulgados, minhas expectativas gradativamente foram diminuindo.. Tenho a impressão que isso aconteceu porque a quantidade de personagens que vi ao longo dos trailers era relativamente grande para ser explorada apenas em um filme, e a protagonista (uma das poucas mulheres que tinham aparecido até então) pareceu perfeita demais, o que geralmente tende a me desagradar.

Sobre o Filme

Com direção de Gareth Edwards, a história do filme, que se passa antes do Episódio IV – Uma Nova Esperança, começa mostrando Jyn Erso (Felicity Jones) ainda criança, sua mãe Lyra Erso (Valene Kane) e seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen), um engenheiro importante para o Império que se recusa a continuar desenvolvendo a Estrela da Morte. Após quinze anos, Jyn é resgatada de uma prisão e recebe uma proposta irrecusável: fazer parte de um grupo da Aliança Rebelde para encontrar Saw Gererra (Forest Whitaker)  – um antigo membro da Aliança – em troca de liberdade. Além de encontrá-lo, o grupo liderado por Cassian Andor (Diego Luna) também encontra Galen Erso e enfrenta uma missão suicida com o propósito de obter os planos da Estrela da Morte visando a salvação da galáxia.

O filme me surpreendeu positivamente de várias formas, mas como nem tudo são flores, deixou a desejar em alguns pontos. Vem comigo que eu explico.

Desmistificando o maniqueísmo

Nos filmes anteriores sempre nos deparamos com o bem contra o mal, o lado da luz contra o lado negro da força. Em Rogue One é feita uma tentativa de quebrar esse tipo de idealizações que não existem na vida real, mostrando, por exemplo, que até personagens pertencentes à Aliança, como Cassian Andor e outros rebeldes, passaram por situações em que suas decisões estiveram longe de ser “coisa de mocinhos”. Outro bom exemplo é Saw Gerrera, ex-membro da Aliança que decide travar suas batalhas contra o Império de maneira extremista e só. Afinal, ninguém é unicamente bom ou mau.

rogue oneParece totalmente confiável? Sabe de nada, inocente.

Representatividade étnica

Outra questão interessante que contou positivamente para o filme foi a diversidade dos personagens em questão de representatividade étnica, uma vez que do grupo dos seis principais, cinco são humanos e desses, quatro são não-brancos.

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Para quem não viu o filme ou assistiu e teve alguma dificuldade pra identificar a etnia ou origem de alguns atores, eu ajudo: Diego Luna (Cassian Andor) é mexicano, Felicity Jones (Jyn Erso) é britânica, Donnie Yen (Chirrut) e Jiang Wen (Baze) são chineses e Riz Ahmed (o piloto) é inglês de família paquistanesa. Além disso, fora do grupo principal, Forest Whitaker (Saw Gererra, na imagem abaixo) é afro-americano e fez um personagem com um potencial enorme, mas que foi, infelizmente, pouco explorado. Além disso, por mais que tenha gostado muito da Jyn de Felicity Jones, acredito que fica uma lacuna enorme enquanto a franquia não possuir protagonistas e coadjuvantes relevantes negras.

rogue oneUm excelente ator que apareceu em poucos minutos do filme.

Muitas referências

Uma coisa que nenhum fã da saga pode reclamar é a riqueza na ambientação das cenas e a quantidade de referências muito bem feitas no filme. Esses detalhes realmente fizeram uma grande diferença e tornaram a experiência de assistir Rogue One ainda mais agradável. Dentre as várias referências que foram percebidas (por mim ou não), vou pontuar as que mais se destacaram.

  • Grão-Moff Tarkin

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O personagem interpretado por Peter Cushing apareceu pela primeira vez em Uma Nova Esperança, em 1977. Na hierarquia do Império Galático, Tarkin era governador e comandante da Estrela da Morte enquanto Vader era braço direito do imperador Comandante Supremo da Frota Imperial, portanto, ambos precisavam pelo menos respeitar um ao outro pela política de boa vizinhança. A presença de Tarkin foi possível devido à recriação digital de seu rosto a partir da atuação de Guy Henry. O trabalho ficou tão bem feito a ponto de que precisei lembrar o quão antigo era o Episódio IV para perceber que Tarkin estava ali graças à computação gráfica.

  • Ponda Baba e Dr. Cornelius Evazan

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Rapidamente, Jyn e Cassian acabam cruzado com Ponda Baba e Dr. Cornelius Evazan, os mesmos que posteriormente encontram Luke e Obi-Wan na Cantina de MosEisley, no Episódio IV.

  • Bail Organa

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Interpretado por Jimmy Smits, o pai adotivo de Leia Organa não só aparece em alguns momentos de Rogue One como também afirma para Mon Mothma que conhece um jedi confiável que pode ajudar: no caso, Obi Wan. A primeira vez que vimos Bail Organa na telona foi no Episódio II, em 2002.

Essas foram as referências que mais me chamaram atenção, mas você pode dar uma olhada em uma lista com dezenas de itens aqui.

Representatividade feminina

Na questão de representatividade feminina acredito que houveram tanto acertos como erros. O lado positivo é Jyn Erso, que após ficar sob os cuidados de Saw Gerrera, tornou-se um dos melhores soldados sob o comando de seu protetor. Depois de certa hesitação bem justificada e contundentes questionamentos à Aliança Rebelde, Jyn entra  na missão de corpo e alma, tanto quando vai à procura de seu pai, como na viagem para Scarif, determinada a derrotar o Império.

Como não amar essa mulher?

 

Por outro lado, tenho uma certa inquietação por ver que Jyn é branca, jovem e culturalmente bonita. Além disso, noto também que a (quase inexistente) construção da personagem se dá em torno de seus laços familiares, mais especificamente, de Galen Erso. Compreendo a necessidade de história para embasar um personagem, mas produtores usam com muita frequência a perda (ou morte) de familiares como causa para que o personagem principal se torne o que vemos no filme, como se uma pessoa não pudesse se desenvolver, estudar, treinar por outro motivo ou simplesmente por querer. A partir disso, pergunto: o que seria de Jyn se o seu pai não fosse o engenheiro responsável pela Estrela da Morte? Deixo o questionamento e a certeza de que a Disney poderia ter feito uma Jyn igualmente tão foda apenas sendo ela própria.

Outra questão importante é que, mesmo o longa passando no Teste de Bechdel, a conversa de Jyn e Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) – uma liderança feminina decorativa e pouco explorada, da mesma forma que aconteceu em Animais Fantásticos e Onde Habitam com a Seraphina Picquery – não é o suficiente para chamar nem de satisfatória a representação feminina no filme. Além das conversas entre as duas, temos apenas a Senadora Pamlo (Sharon Duncan-Brewster) fechando o trio de mulheres presentes na reunião em que Jyn se esforça para convencer os líderes a enviarem tropas para Scarif. Já no esquadrão que se coloca à disposição rumo ao complexo de segurança imperial não vemos nenhuma mulher e, durante a batalha, conhecemos apenas duas pilotos que nem nome receberam, só os codinomes “Blue Three” e “Gold Nine.”

Apenas melhore.

 

E por último, é claro que não tenho como deixar de celebrar:

  • O maravilhoso e chocante último momento em que Darth Vader aparece.

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  • A emocionante batalha em Scarif.

  • E KS2O <3 – o personagem mais carismático do filme que roubou a cena até dos personagens humanos.

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Rogue One mais acertou do que errou em vários aspectos (ex. representação étnica) mas, em outros realmente deixou à desejar (ex. representação feminina). Houve evolução da Disney e Lucasfilm mas acredito que ainda falta o pessoal aprender  algumas lições sobre representatividade de minorias. Além disso, achei excessiva a quantidade de personagens e missões para os 133 minutos de filme, o que acabou tornando-o mais superficial. Porém, de forma geral, é um ótimo longa, cheio de emoção e referências para os amantes da saga que tiveram um gostinho agradável do universo que só dará as caras novamente no Episódio VIII, no final de 2017.

E você? O que achou do filme? Fala lá nos comentários!


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