Animais Fantásticos e Onde Habitam – Erros, Acertos e Expectativas para o Futuro

Há muito o que comentar, celebrar e criticar na nova franquia do universo de Harry Potter.

animais fantásticos

*Contém pequenos spoilers. 

Semana passada finalmente assisti o filme mais esperado do ano entre os potterheads (oi!), Animais Fantásticos e Onde Habitam. Lamento dizer, no entanto, que não fui com muita boa vontade. Assim como milhares de fãs de Harry Potter, eu estava bem animada até sair a notícia de que Gerardo Grindewald, personagem de destaque nos próximos filmes da franquia, será interpretado por Johnny Depp, ele próprio personagem central em um caso de violência doméstica na vida real.

Em geral, em casos como esse, eu sou a favor de boicote, pois penso que os estúdios precisam de uma mãozinha (ou de um tapão na orelha mesmo) para entender que o público não aceita mais ter de prestigiar artistas e profissionais da indústria envolvidos em casos de violência contra a mulher. Como eu disse em um texto recente, ao continuar empregando esses profissionais, Hollywood nos prova como esse tipo de violência é naturalizado. Apenas como um contraponto, pensemos em Winona Ryder, que ficou mais de década sem conseguir trabalho depois de ser presa por roubar itens de uma loja de departamento. Por que foi tão mais fácil para Hollywood (e para o público) fazer vista grossa para o estupro de menores (Polanski) ou o estupro de uma atriz em cena (Bertolucci e Brando) do que para os roubos de Ryder?

animais fantásticosApenas alguns dos artistas envolvidos em casos de violência contra a mulher que continuam (ou continuaram) trabalhando, sem danos às suas reputações.

 

Entretanto, mesmo sendo a favor de boicote, alguns fatores pesaram na minha decisão de assistir ao filme. O primeiro foi o apego sentimental por Harry Potter. O segundo foi o fato de eu ter um blog como o Nó de Oito, onde discuto exatamente esse tipo de coisa e preciso estar por dentro do que acontece em blockbusters como esse. E por último, o fato de Depp ter sido escalado muito antes do seu histórico de abusador vir à tona. Devido ao curto intervalo entre a denúncia de Amber Heard e o lançamento do filme (cerca de cinco meses), imagino que mesmo se quisessem substituir o ator, teria sido impossível.

No fim das contas, cabe a cada um decidir, individualmente. Mas independente da decisão, uma coisa é certa: falar sobre isso e mostrar a nossa insatisfação, como público, é fundamental. A comoção recente causada pelo ressurgimento de um vídeo do Bertolucci admitindo o abuso de Maria Schneider em câmera em O Último Tango em Paris é prova do que somos capazes quando erguemos nossas vozes. Roteiristas, diretores e produtores começam a, lenta mas firmemente, rejeitar o estupro como recurso narrativo.

Pois falemos, então! E falemos muito, porque Johnny Depp pode ter apenas duas falas nesse filme, mas o longa apresenta muita coisa a ser comentada, celebrada ou criticada. Vamos a elas.

A História

Animais Fantásticos e Onde Habitam traz uma história do universo de Harry Potter, só que cerca de 60 anos antes da saga do menino que sobreviveu. Escrito pela J.K. Rowling, o filme tem Newt Scamander como protagonista, um magizoologista britânico que estuda animais mágicos e viaja aos EUA para libertar uma espécie endêmica do país, que ele encontra acorrentado em suas andanças. Junto com ele, está sua mala mágica, que é muito maior do que parece e abriga diversos viveiros para os seus animais.

Mas muito maior.

 

Newt desembarca em Nova York e pretende seguir viagem, mas é impedido quando acaba acidentalmente trocando sua mala com o trouxa Jacob – ou no-maj (não-bruxo) -, o que acaba liberando inúmeros animais fantásticos pela cidade.

Ao mesmo tempo, vários fenômenos estranhos e sobrenaturais estão acontecendo na cidade, colocando o MACUSA (o Congresso Mágico dos EUA) em alerta. Por causa de uma paranóia bem violenta de caça às bruxas por parte de grupos fanáticos como os Segundos Salemianos, os bruxos americanos operam em regime de completo sigilo e segregação em relação aos no-maj.

Newt não concorda: “Não é permitido casar com eles, o que me parece um absurdo”.

 

Quando Newt e seus animais chegam à cidade, o MACUSA acaba culpando-o pelos eventos que colocam em risco o sigilo do mundo mágico nos EUA, embora eles não sejam a causa da perturbação. A partir disso, a história se desenrola.

Pontos Fortes

De forma geral, eu gostei do filme. Achei divertido e gostei muito do pano de fundo dark da história, que trouxe consigo temas clássicos também centrais em Harry Potter, de perseguição e segregação. Abaixo os pontos fortes principais:

– Tina e Queenie Goldstein

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As irmãs Goldstein (sim, a J.K. Rowling confirmou que elas são parentes distantes do monitor da Corvinal, Antônio Goldstein!), são uma ótima adição ao rol de personagens de Rowling que quebram estereótipos femininos ao meio. Ambas fazem parte do elenco heróico central do filme (composto também por Newt e pelo trouxa Jacob) e têm papel central no desenvolvimento da história.

Pessoalmente, gostei muito da enorme diferença entre as duas: enquanto Tina é uma mulher focada na carreira, que usa calças e roupas práticas em pleno 1926, Queenie é toda doce e feminina. E embora fosse completamente esperado que elas caíssem nos estereótipos da Mulher-Fria-de-Negócios-Que-Só-Precisa-de-um-Homem-para-ser-Feliz e da Linda-mas-Cabeça-de-Vento, respectivamente, isso não acontece.

Tina me lembrou muito Hermione. Apesar de ter um cargo alto e durão no MACUSA, ela é bastante emotiva e sensível (e sofre as consequências por isso). Já Queenie parece ser cabeça-de-vento (confesso que me encolhi quando vi a primeira cena dela, flertando loucamente com o Jacob), mas acaba subvertendo essa expectativa com sucesso ao longo do filme. O fato de ela ser tão segura em sua sexualidade, ao invés de ridicularizar ou objetificar a personagem, a fortalece.

– Seraphina Picquery

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Seraphina Picquery é presidente do MACUSA. A personagem foi muito celebrada pelos fãs por ser uma mulher negra em posição de poder, e eu me junto alegremente às celebrações. Ter não somente uma mulher, mas uma mulher negra – um dos grupos mais subrepresentados e estereotipados do cinema – interpretando essa personagem é realmente maravilhoso. Picquery é uma figura forte e respeitada, parece ser muito correta e ter muita firmeza em suas convicções. Infelizmente, vemos muito pouco dela ao longo do filme. Veja mais sobre isso lá embaixo, nos pontos fracos.

– Uma mulher como (uma) vilã

Mary Lou Barebone é líder dos Segundos Salemianos, uma organização trouxa contra a bruxaria. Fanática e violenta, Mary Lou odeia bruxos e adota crianças com algum histórico em bruxaria para “curá-los”. Ela também usa crianças pobres para distribuir panfletos da organização.

E procura nelas o sinal do demo, quer dizer, de bruxaria.

 

Mary Lou é uma figura detestável que abusa fisicamente de seus filhos adotivos. Fiquei muito feliz pelo filme apresentar uma mulher nesse papel. Como eu sempre digo, somos seres humanos tão complexos quanto os homens, tanto para o bem, como para o mal.

– Um excelente retrato de abuso e dos perigos do ódio e da repressão

A trama de Mary Lou com seus filhos adotivos já é por si só um bom retrato de abuso, mas o filme realmente brilha nesse ponto na relação entre o auror Graves e o garoto Credence. Tanto Ezra Miller como Colin Farrel estão incríveis nos papéis de Credence e Graves, e oferecem algumas das cenas mais fortes do filme. Além disso, o filme apresenta os custos e riscos que a repressão e o ódio podem nos trazer, e é uma clara propaganda do poder dos relacionamentos e da importância da integração.

– Newt e os animais fantásticos

Sim, está bem claro que eu gostei muito mais da parte dark do filme, mas isso não significa que Newt e os animais fantásticos não tenham conquistado meu coração. O Eddie Redmayne está, como esperado, perfeito no papel de Newt – um introvertido clássico, com mais jeito para lidar com animais do que com gente. E aquele pelúcio, gente! Nostalgia total daquela aula de Trato de Criaturas Mágicas em que eles enterram moedas de leprechaun no canteiro do Hagrid e competem para ver qual pelúcio acha mais moedas no final. O Rony ganha. 🙂

– Implicações para a série Harry Potter

Gostei muito de como o filme provocou a memória dos potterheads trazendo algumas informações novas que tem implicações claras no nosso entendimento da história de um dos personagens da franquia original. Pra não dar spoilers, vou falar só um nome que quem viu o filme já vai sacar: Ariana Dumbledore.

Pontos Fracos

Infelizmente, nem tudo são flores. O filme também apresenta algumas falhas que eu realmente espero que sejam corrigidas nos próximos longas.

Duração e ritmo

Embora eu tenha me divertido no geral, teve horas que achei o filme meio lento e com alguns problemas de ritmo e profundidade. Acho que a palavra certa é inconsistente. Me parece que não conseguiram casar bem a história leve do Newt e dos animais fantásticos e a história dark da caça às bruxas e da segregação dos no-maj. Como resultado, a impressão que eu fiquei é que assisti dois filmes separados, ligados por um ou outro ponto. Além disso, achei o filme longo demais, e embora eu tenha gostado das partes dos animais, acho que elas poderiam ter sido um pouco mais curtas em favor do desenvolvimento dos personagens. O que nos leva ao próximo item.

Desenvolvimento dos Personagens

Mesmo eu tendo encontrado várias coisas positivas sobre os personagens, ainda assim acho que o elenco central foi pouco desenvolvido. O próprio Newt mostrou muito pouca complexidade, tendo sido completamente apagado ao lado do carismático no-maj Jacob. Quero muito que ele volte nos próximos filmes, porque um alívio cômico esperto, complexo e cativante não se encontra todo dia.

Jacob é todos nós.

 

Também acho que o filme pecou ao não aprofundar a relação das irmãs Goldstein, ou mesmo mais das suas histórias. Não fosse por algumas poucas cenas, Queenie teria caído no estereótipo da loura tontinha e sensual. Aliás, uma coisa que me deixou bem confusa foi a identificação da Queenie como legilimens. Quem leu os livros do Harry Potter sabe que essa é uma habilidade adquirida. É uma arte que exige aprendizado e prática. O fato de Queenie ser tão displicente e, sinceramente, ingênua, ao usar esse poder, nos dá a impressão de que ela simplesmente nasceu sabendo fazer isso. E isso é meio broxante, porque meio que minimiza os poderes e habilidades da personagem, principalmente para quem não sabe como legilimência funciona.

Como eu disse ali em cima, de repente se tivessem moderado um pouco mais a duração das cenas com os animais, tanto a Queenie como os outros personagens poderiam ter sido melhor desenvolvidos.

Ausência de Personagens Não-Brancos

Sim, sim, eu sei que a Seraphina Picquery é uma mulher negra. E concordo que isso merece ser celebrado. Mas apesar de Seraphina ser uma ótima personagem, o seu tempo de tela é bem limitado e se restringe ao seu papel oficial dentro do MACUSA. Não temos Seraphina como um personagem completo, com história e motivações pessoais.

Além disso, dificilmente uma única personagem negra, que nem no núcleo central de personagens está, poderia ser considerado o suficiente, né? E dessa vez ninguém pode dizer que é por causa do contexto histórico…porque naquela época….. blablabla. Estamos falando de Nova York da década de 1920. Nessa época, a cidade não só transbordava de imigrantes europeus (representados pelas irmãs Goldstein, como judias, e em Jacob Kowalski, de origem polonesa), como também foi palco do que ficou conhecido como Renascimento do Harlem, um movimento cultural liderado por artistas e intelectuais negros. Newt era um intelectual e inclusive tem uma cena em um speakeasy – um dos famosos bares clandestinos da época da Lei Seca, cuja trilha sonora era quase sempre, isso mesmo, jazz. Alguém me explica como é possível que a única pessoa não-branca que este homem encontrou em Nova York tenha sido Seraphina Picquery?

Mas minto, porque teve também uma cantora duende no speakeasy, para o que eu sinceramente não tenho nem o que falar. Ei Hollywood, uma pergunta. Por que essa mania de colocar atores e atrizes negros para interpretar seres não-humanos?

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Não basta ter figurantes não-brancos (e o filme tem um ou outro). Não basta ter um personagem não-branco secundário em um mar de personagens brancos protagonistas. E definitivamente não faz sentido nenhum não ter nenhum protagonista não-branco em uma história que é claramente sobre segregação e racismo.

J.K Rowling respondeu às críticas iniciais à falta de personagens não-brancos nos dizendo para ter paciência, porque a série é longa e ainda vamos conhecer muitos personagens. Certamente há esperança, porque a personagem de Leta Lestrange será interpretada por Zoe Kravitz, e já foi confirmado que ela terá um papel central na série. Mas por que não podíamos ter mais personagens não-brancos neste filmes, Jo? O próprio Newt ou a Tina poderiam ser negros, dado que nos seus escritos pós-Harry Potter Rowling descreve o neto deles, Rolf Scamander, como alguém swarthy (isto é, de pele escura).

Adoro você, Eddie, mas podia ter sido outro.

 

Rowling já errou ao usar de apropriação cultural em seus escritos sobre Ilvermorny, a escola de magia e bruxaria americana (ainda vai ter texto aqui no Nó de Oito sobre isso, aguarde). Apesar de eu saber que ela não tem realmente poder de escalação, espero que a autora lute e consiga influenciar na escolha de um elenco realmente inclusivo nos próximos filmes. Não posso esperar outra coisa de alguém que não só nos trouxe tanta alegria, como também uma Hermione negra (embora tardiamente). 


E você, o que achou do filme? Diga nos comentários!

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