3 Lições de Vida Valiosas que Harry Potter nos Ensinou

Em tempos como os nossos, em que a indiferença, o egocentrismo e o egoísmo são premiados, é sempre bom relembrar essas três lições básicas que Harry Potter nos ensinou.

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Eu tinha por volta de doze anos quando comecei a ler Harry Potter. Na época, os três primeiros livros já tinham saído e eu logo me vi devorando todos eles, transbordando tanto de contentamento como de frustração por não ter recebido uma coruja de Hogwarts no meu aniversário de onze anos.

harry potterVocê com tantas, Harry, e eu com nenhumazinha.

 

O tempo passou e, como grande parte dos “potterheads”, eu passei a minha adolescência em estado constante de antecipação. Eu aguardava ansiosamente as datas de lançamentos dos próximos livros. Eu devorava os trechos e pedacinhos de informação que eram lançados com antecedência na internet. E eu me refugiava em Hogwarts frequentemente, lendo e relendo os livros já lançados com constância e dedicação.

Eu tinha vinte anos quando saiu o último livro. Nessa época eu já estava na metade da faculdade e o fim da história do nosso querido Harry Potter marcou para mim o fim definitivo da minha adolescência e o começo da minha vida adulta. Apesar de ter relido Harry Potter e as Relíquias da Morte umas duas vezes ainda nos anos que se seguiram, na maior parte do tempo os livros permaneceram intocados, guardados com carinho em uma prateleira de casa, aguardando o meu retorno. Ah sim, porque eu retornaria. Como bem disse J.K. Rowling, emocionada na ocasião da estréia do último filme da série, “as histórias que amamos vivem em nós para sempre. Então quando você voltar pelas páginas ou pelos filmes, Hogwarts sempre estará lá para recebê-lo em casa”. E não demorou muito, afinal, para que eu sentisse saudades de casa.

Dessa vez, eu fiz a coisa como tinha de ser. Reli toda a série na ordem certa, do começo ao fim, sem grandes intervalos entre um livro e outro. E descobri que Rowling, afinal, não mentiu: lá estava Hogwarts me esperando como sempre, e a bela história do menino que sobreviveu mais uma vez me encantou e enlevou na mesma intensidade – se não mais ainda – que da primeira vez que eu a conheci. Dessa vez, no entanto, sabendo um pouco mais da vida do que eu sabia então, eu pude apreciar melhor ainda algumas lições que Harry Potter me ensinou e a sua relevância inegável nos tempos que vivemos hoje. Lições que parecem simples, clichês ou até óbvias, mas são tão facilmente ignoradas e esquecidas. Lições como…

Nós precisamos uns dos outros

harry potter

Vivemos hoje uma cultura individualista do eu. Desde pequenos nós somos ensinados a acreditar cegamente no mito do self made man – o indíviduo que vence sozinho todas as adversidades e, ainda sozinho (sempre sozinho), alcança o sucesso com o próprio caráter, o próprio trabalho, o próprio esforço. A ideia por trás do self made man é a de que depender de alguém é algo que deve ser evitado a todo custo e que o sucesso verdadeiro é aquele alcançado pelas próprias mãos.

É verdade que ninguém gosta de depender dos outros. E também é verdade que algumas coisas nós temos que fazer sozinhos. Mesmo assim, fato é que dificilmente uma pessoa é capaz de alcançar a tranquilidade moral e a generosidade de espírito de uma alma enlevada e tranquila sem a ajuda de outras pessoas. Oh, claro, talvez seja possível, sim, alguém construir uma vida do zero e com as próprias habilidades alcançar o sucesso material que é tão celebrado e almejado. Mas de que adianta chegar ao topo do poder e da riqueza se no fim da vida você perceber que alcançou poucas das qualidades que realmente importam: bondade, coragem, generosidade, lealdade, justiça, sabedoria…De que adianta chegar ao topo e no fim da vida perceber que você nunca realmente amou ninguém?

Nada disso é possível sem um certo grau de dependência humana. Todos nós precisamos de ajuda quando se trata de lutar contra a apatia, a ganância, o preconceito, o egoísmo e o orgulho (nossos e dos outros). E Harry Potter nos mostra isso. No fim da história, é o Harry quem desfecha o último golpe que liquida Voldemort, mas de forma alguma ele vence a luta sozinho. Ao longo de toda a história a força, o apoio, as habilidades, os conhecimentos e as competências de outras pessoas (estejam elas presentes ou não) complementam e sustentam de forma indiscutível os esforços de Harry. E mesmo no momento em que ele supostamente está sozinho e se dirige à Floresta Proibida para entregar a própria vida para salvar aqueles que ama, ele é sustentado pela presença, o amor e o conforto daqueles que já partiram, mas significaram tanto para ele, para fazer o que precisa ser feito:

“Uma brisa gelada que parecia emanar do coração da Floresta ergueu os cabelos na testa de Harry. Sabia que eles não o mandariam ir embora, que isto seria uma decisão dele.

– Vocês ficarão comigo?

– Até o fim – respondeu Tiago.

– Eles não poderão vê-los?

– Somos parte de você – disse Sirius. – Invisíveis a todos os outros.

Harry olhou para a mãe.

– Fique perto de mim. – disse baixinho.

E ele começou a andar. O frio dos dementadores não o envolveu; atravessou-o com seus companheiros, e eles produziram o efeito de Patronos, e unidos marcharam entre as velhas árvores que cresciam muito juntas, seus ramos emaranhados, suas raízes repletas de nós e torcidas sob seus pés. Naquela escuridão, Harry segurou a capa bem junto do corpo, se embrenhando cada vez mais na Floresta, sem fazer idéia do lugar exato em que estava Voldemort, mas certo de que o encontraria. Ao seu lado, quase sem fazer ruído, caminhavam Tiago, Sirius, Lupin e Lílian; a presença deles era a sua coragem e a razão pela qual era capaz de pôr um pé à frente do outro.”

Com isso, Voldemort, que nunca foi capaz de entender o real poder das relações humanas e cuja única sustentação era o ódio aliado a um medo profundo da morte, estava em profunda desvantagem em relação a Harry Potter – apesar de todo seu poder, talentos e habilidade mágicas superarem em muito os do garoto.

E já que estamos falando de coisas que Voldemort não era capaz de entender…

 

Ser capaz de sentir nos torna mais fortes, não mais fracos

harry potter

Além de aprender desde cedo que depender dos outros é uma coisa ruim, nós também somos incentivados a acreditar que a nossa bolha individualista também tem que ser à prova de balas – forte, implacável, indestrutível. Isso significa que tudo que possa de alguma forma nos tornar mais vulneráveis é visto como algo que nos deixa mais fracos. Ao entendermos a vulnerabilidade como fraqueza, nós entendemos também que ao nos permitirmos sentir nossas emoções, estamos consequentemente abrindo um rombo perigosíssimo na nossa bolha de proteção.

Afinal, existe algo que nos deixa mais vulneráveis do que sentir?

A associação de sentimentos com fraqueza é forte na nossa sociedade. Chorar é vergonhoso, explodir de alegria é constrangedor, amar é perigoso. Abaixe a cabeça, não se deixe abalar, se apegue menos. No entanto, é a vulnerabilidade que os sentimentos nos trazem que permite que nós façamos conexões significativas com as pessoas com quem compartilhamos nossas vidas. É ela que nos torna receptivos para o amor, para a alegria, para a empatia. E é permitindo que nós nos engajemos profundamente em nossas relações humanas, que nós criamos uma base sólida na qual podemos nos apoiar. Contra todas as expectativas, é isso que nos deixa mais fortes, não mais fracos.

Através de Harry Potter, Rowling faz uma grande campanha em favor da força do amor. Toda a história é tecida em cima dela e é ela, no final, que garante a vitória de Harry Potter sobre Voldemort. No começo, Harry é incapaz de enxergar como ser capaz de amar é um poder mais forte do que qualquer um que Voldemort possa ter. Mas, em tempo, ele entende a real dimensão desse poder. É o poder do amor, afinal, que não permite que Voldemort possua o seu corpo no Ministério após a morte de Sirius…

“Cego e moribundo, cada parte do seu corpo gritando por alívio, Harry sentiu a criatura usando-o mais uma vez…

– Se a morte não é nada, Dumbledore, mate o garoto…

Faça a dor passar, pensou Harry…faça ele nos matar…acabe com isso, Dumbledore…a morte não é nada em comparação…

E reverei Sirius.

E o coração de Harry se encheu de emoção, as espirais da criatura se afrouxaram, a dor desapareceu; ele estava deitado de borco no chão, sem óculos, tremendo como se estivesse deitado sobre gelo e não madeira…”

É o poder do amor que lhe dá forças para se entregar a Voldemort para fazer o que precisa ser feito…

“Dumbledore sabia, tal como Voldemort, que Harry não deixaria ninguém morrer por ele, uma vez que descobrisse que estava em seu poder impedir isso. As imagens de Fred, Lupin, e Tonks deitados, sem vida, no Salão Principal tornaram a invadir sua mente, e por um momento ele mal pôde respirar: a Morte se impacientava…”

É o poder do amor que faz com que Narcisa Malfoy minta para Voldemort, para poder voltar ao castelo para procurar o filho…

“- Você – disse Voldemort, e houve um estampido e um gritinho de dor. – Examine-o. Me diga se está morto.(…)

Mãos, mais leves do que imaginara, tocaram o seu rosto, ergueram uma pálpebra, se introduziram sob sua camisa e sentiram seu coração. Ele ouviu a respiração rápida da mulher, seus longos cabelos fizeram cócegas em seu rosto. Harry sabia que ela ouvia a pulsação ritmada da vida contra suas costelas.

– Draco está vivo? Está no castelo?

O sussurro era apenas audível; os lábios dela estavam a meros centímetros do seu ouvido, sua cabeça tão curvada que a cabeleira protegia seu rosto dos espectadores.

– Está – sussurrou ele em resposta.

Harry sentiu a mão em seu peito se contrair; as unhas o espetaram. Então, ela retirou a mão. Sentara.

– Está morto! – anunciou Narcisa Malfoy para os Comensais.”

É o poder do amor  que faz com que Snape arrisque tudo para protegê-lo depois da morte de Lílian Potter, mesmo que o professor não compreenda a força redentora desse poder…

“- Eu gostaria…gostaria que eu é que estivesse morto…

– E que utilidade isso teria para alguém? – perguntou Dumbledore, friamente – Se você amou Lílian Evans, se você a amou verdadeiramente, então o seu caminho futuro é cristalino.

Snape parecia espiar através de uma névoa de dor, e as palavras de Dumbledore levaram um longo tempo para alcançá-lo.

– Como…como assim?

– Você sabe como e por que ela morreu. Empenhe-se para que não tenha sido em vão. Ajude-me a proteger o filho de Lílian.

– Ele não precisa de proteção. O Lorde das Trevas se foi…

– O Lorde das Trevas retornará, e Harry correrá um perigo terrível quando isso ocorrer.

Fez-se uma longa pausa e lentamente Snape recuperou o controle, normalizou sua respiração. Por fim, disse:

– Muito bem. Muito bem. Mas jamais, jamais revele isso, Dumbledore! Isto deve ficar entre nós! Jure! Não posso suportar…particularmente o filho de Potter…Quero sua palavra!

– Dou a minha palavra, Severo, de que jamais revelarei o que você tem de melhor. – Dumbledore suspirou, olhando para o rosto feroz e angustiado de Snape. – Se você insiste…”

E é o poder do amor que o salva ainda bebê e inúmeras outras vezes ao longo da história, quando no começo de tudo sua mãe se interpõe entre seu berço e Voldemort e se oferece para morrer em seu lugar. A capacidade de Harry Potter e de outros de sentir intensamente é o que os fortalece e o que fecha o cerco contra Voldemort, que nunca foi capaz de sentir nada por ninguém, além de ódio e desprezo.

E por último…

 

Nossas escolhas são muito mais importantes do que as nossas qualidades e habilidades

harry potter

Para finalizar, há de se falar sobre a importância desmesurada que a nossa sociedade coloca sobre as nossas qualidades e habilidades em detrimento da qualidade das nossas escolhas. Além de nos falar que temos que nos tornar bolhas auto-sustentáveis implacáveis para alcançar o sucesso, desde muito cedo a sociedade tenta nos ensinar quais são as habilidades e estratégias necessárias para chegar lá. Aprenda outras línguas, tire as melhores notas, passe na melhor faculdade. Mesmo as atividades criativas, artísticas e esportivas são muitas vezes incentivadas apenas para facilitar o nosso caminho rumo ao sucesso profissional. Praticar um esporte faz com que você aprenda a trabalhar em equipe – isso será vantajoso quando o Junior começar a trabalhar! Aprender a tocar um instrumento melhora a memória e aumenta sua capacidade organizacional – opa, a Mariazinha precisa disso se quiser subir na carreira!

Da mesma forma, as nossas qualidades inatas entram na mesma onda e logo são categorizadas de acordo com os benefícios que podem nos trazer no futuro. Se o Junior se destaca como um líder nato nas aulinhas de futebol, significa que ele vai ser CEO. Se a Mariazinha é ótima em matemática, então ela vai ser uma grande engenheira. Ninguém discute, no entanto, que tipo de CEO e que tipo de engenheira eles serão, porque isso não importa. Independente do que eles farão com as suas qualidades e habilidades, desde que alcancem o topo, nada mais importa.

Isso não só é triste, como também é perigoso. Precisamos nos lembrar que qualquer habilidade e qualquer qualidade é tão boa quanto a finalidade para a qual ela será usada. De que adianta ser um pessoa brilhante e acabar fazendo o mal ao invés do bem? E é aí que entra a importância das nossas escolhas. Para o afortunado leitor de Harry Potter, essa é uma lição que nós aprendemos logo no começo da história, mas é importante sempre relembrá-la, pois o mundo tenta a todo custo nos convencer do contrário.

“- Voldemort deixou um pouco dele em mim? – disse Harry, estupefato.

– Parece que sim.

– Então eu deveria estar na Sonserina – disse, olhando desesperado para Dumbledore. – O Chapéu Seletor viu poderes de Slytherin em mim, e…

– Pôs você na Grifinória – completou Dumbledore, serenamente. – Ouça, Harry. Por acaso você tem muitas das qualidades que Salazar Slytherin prezava nos alunos que selecionava. O seu dom raro de falar a língua das cobras, criatividade, determinação, um certo desprezo pelas regras – acrescentou, os bigodes tremendo outra vez. – Contudo, o Chapéu Seletor colocou você na Grifinória. E você sabe o porquê. Pense.

– Ele só me pôs na Grifinória – disse Harry com voz de derrota – porque pedi para não ir para a Sonserina…

– Exatamente – disse Dumbledore, abrindo um grande sorriso. – O que o faz muito diferente de Tom Riddle. São as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.”

Ao longo de toda a série, nós observamos os personagens fazerem escolhas que acabam definindo-os o tempo todo. Apesar de todas as perdas, de todo o abandono e de todo o potencial para fazer o mal escondido na alma fragmentada que Voldemort deixou dentro dele, Harry escolhe lutar contra o lorde das trevas, ao invés de se aliar a ele. Dumbledore, apesar de seduzido na juventude pela idéia dobem maior’, escolhe abandoná-la e se dedicar ao bem. Pedro Pettigrew escolhe servir o mal, embora possua dentro si as qualidades necessárias para fazer o bem (e são elas, no final, as responsáveis pelo seu próprio fim). Snape, apesar de ter todas as qualidades para o mal, escolhe virar a casaca a favor do bem, quando Voldemort tira dele a única pessoa que ele amava. Os exemplos são vários e todos provam repetidamente a importância das nossas escolhas e a dimensão única que elas dão às nossas qualidades e habilidades.

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Como eu disse lá no começo do texto, essas três lições (entre tantas outras que Harry Potter nos ensinou) podem parecer óbvias, clichês e até batidas. Mas em um mundo como o nosso, que premia a indiferença, o egoísmo, o egocentrismo e o status pelo status, é muito fácil esquecê-las ou jogá-las para escanteio. Felizmente, eu tenho a minha coleção Harry Potter para relembrá-las sempre que preciso. E quando isso acontece, a minha Hogwarts está sempre lá. Pronta pra me receber de volta em casa.

*Texto postado em 04/2015 e editado (e repostado) em 09/2016. 


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