4 Lições Feministas que Frozen Deveria ter Aprendido com Lilo e Stitch

Tramas mirabolantes e subversões bombásticas não necessariamente fazem de um filme feminista. 

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Tenho uma confissão a fazer: demorei séculos para assistir Frozen. Não sei se perdi o bonde quando o filme foi lançado, ou se todo o let it go desafinado que eu ouvia por aí fez com que eu perdesse o interesse. Fato é que apenas recentemente sentei para assistir essa aventura congelante.

Achei legal. Bem, eu não o colocaria entre as minhas animações favoritas, mas consigo enxergar por que agradou tanto – principalmente as mulheres. Aliás, vários elementos da história parecem ter sido escritos justamente para desafiar estereótipos de gênero que cansamos de ver em filmes da Disney. Só para constar, para mim as principais contribuições do filme no sentido de quebra de padrões machistas em animações são:

  • Como o filme trata como um absurdo a Anna resolver se casar com um cara que acabou de conhecer.
  • O fato de ela escolher se sacrificar pela irmã.
  • O fato desse sacrifício ser o ato de amor verdadeiro necessário para resolver todos os problemas no final, ao invés de um beijo romântico.
  • Como a Elsa é coroada rainha sem a necessidade de um consorte (e sem isso ser o ponto central da trama).

Com isso, o filme foi amplamente celebrado como um pináculo feminista, uma obra-prima rara que finalmente coloca as relações românticas em segundo plano e, acima de tudo, retrata com louvor a famigerada sororidade na relação entre as irmãs Anna e Elsa.

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Agora, acalmemo-nos. É claro que o filme tem um grande valor por apresentar subversões significativas de estereótipos femininos. Mas também não é para tanto.

Em primeiro lugar, questiono principalmente a alegação de que o filme é um retrato de sororidade. Será que dá para chamar de sororidade quando as personagens que supostamente a estão praticando são literalmente irmãs? Sororidade é acima de tudo conseguir sentir empatia e apoiar principalmente aquelas mulheres mais diferentes de nós próprias. No caso de Elsa e Anna, elas são da mesma família, com realidades muito similares.

lilo e stitchElas têm até a mesma cara.

 

Nesse sentido, vejo a relação entre elas não tanto como uma representação de sororidade, mas como algo que a Disney faz bastante em seus filmes: a valorização das relações familiares. Não precisa nem ir muito longe para ver que a Anna não é a primeira personagem a se sacrificar por um familiar amado. O Mufasa se sacrifica pelo Simba. A Mulan se sacrifica pelo pai. A Bela também. Por isso, por mais que eu reconheça a importância e o poder da mensagem de uma mulher se sacrificando por outra, não acho que dá para classificar o que acontece em Frozen como um ótimo exemplo de sororidade. É um ótimo exemplo de irmãs que se amam, apenas isso.

Talvez por isso tenha sido impossível para mim assistir ao filme sem lembrar de outra história da Disney com uma proposta muito parecida de amor fraternal.

liloA Disney tem um outro filme sobre duas irmãs órfãs que se amam.

 

Segunda confissão do texto: eu amo Lilo e Stitch. Amei da primeira vez que assisti, em meados de 2003, e ainda amo hoje em dia. Por isso, logo que comecei a ver a aventura congelante de duas irmãs protagonistas que perdem os pais, as irmãs havaianas Lilo e Nani me vieram imediatamente à mente. E a partir daí, Elsa e Anna foram perdendo terreno. Porque quando inevitavelmente comecei a comparar um filme com o outro, percebi que para realmente merecer todos a celebração feminista que recebeu, Frozen teria que ter aprendido com Lilo e Stitch algumas lições essenciais. Lições como…

Ter mulheres protagonistas não significa que todos os outros personagens do filme precisam ser homens

Aí vai uma informação interessante: apesar de Frozen ter duas mulheres como protagonistas, mais da metade das falas no filme são ditas por homens. Isso acontece porque além das protagonistas Anna e Elsa, não há mais nenhuma personagem feminina no filme todo.

 

liloAqui está um apanhado de falas em vários filmes da Disney, para sentir o drama.

 

Confesso que eu não sei qual a porcentagem de falas de homens e mulheres em Lilo e Stitch, mas o filme certamente apresenta uma série bem variada de personagens femininas coadjuvantes além de suas protagonistas. Temos a alienígena presidente da galáxia, as amiguinhas de Lilo, a dona do canil, a senhorinha dona da quitanda, uma mulher de meia-idade dona de um Café, a salva-vidas que quase dá um emprego pra Nani. Todas elas têm falas e momentos memoráveis no filme. Enquanto isso, Frozen nos apresenta duas protagonistas que mais interagem com homens variados ao longo do filme do que uma com a outra.

liloMulheres-token. (Atente-se também para a variedade de rostos dos homens).

 

Cadê as mulheres de Arendelle? Como pode termos apenas duas mulheres que falam num reino progressivo governado por uma rainha solteira?

Mulheres podem ter vários tipos de corpo

Antes mesmo de assistir Frozen, a estética das protagonistas já me incomodava. Como sempre, a Disney optou por personagens femininas magérrimas, além da tendência atual dos olhos gigantes e pés, mãos e narizes minúsculos.

liloA fôrma é tão igual que Anna, Elsa e a mãe morta são praticamente a mesma pessoa.

 

Mas não em Lilo e Stitch. Além de lindos cenários em aquarela, o filme apresenta mulheres com corpos totalmente fora do molde-Disney, que se aproximam muito mais das proporções reais de uma mulher. Nani, por exemplo, é uma mulher magra, sim, mas tem quadril e pernas grossas – algo praticamente inédito entre personagens de filmes do gênero.

liloIsso sem contar a grande variedade étnica que o filme apresenta.

 

Suas protagonistas não precisam ter poder (ou super-poderes). Basta que elas sejam bem construídas

Você pode até gostar da música, ou mesmo do figurino deslumbrante da Elsa, mas não dá para ignorar o fato de que as personagens de Frozen são mal construídas. Na verdade, se os outros personagens também não fossem tão rasos, eu teria sérias dúvidas se elas são de fato as protagonistas. A Anna, por exemplo, não tem desenvolvimento nenhum. Ela simplesmente personifica o clássico estereótipo da mocinha fofa, mas desastrada.

liloSer desastrada: a falha feminina mais adorável e preguiçosa da ficção.

 

O triste é que a Anna tem potencial para ser uma ótima personagem, mas o traço que poderia lhe dar um pouco mais de profundidade – o fato de ela ser carente de afeto e companhia – nunca é realmente desenvolvido. Deduzimos que esse é o motivo de ela querer casar com um cara que acabou de conhecer, mas ela mesma nunca faz uma autoanálise e reconhece que isso é algo ruim. Tanto que dois dias depois ela já está apaixonada por outro cara.

Elsa, por outro lado, tinha um potencial imenso para ser uma das personagens mais complexas da Disney. O problema é que ela quase nunca aparece. Ao invés disso, somos obrigados a ver Anna tropeçar trama afora por boa parte do filme. E quando Elsa aparece, o seu desenvolvimento como personagem também é cheio de falhas. A questão central do filme, que é o fato de ela não saber controlar seus poderes, nunca é desenvolvida. Ela é a mesmíssima personagem do começo ao fim, até que no final tem uma epifania e descobre em um segundo como controlar os tais poderes.

Lilo e Stitch, por outro lado, tem um conjunto de personagens maravilhosamente complexos. Elas não tem qualquer poder ou dilema íntimo para dificultar a vida, mas mesmo assim passam por transformações e desenvolvimentos nítidos ao longo da história, que vão desde a adaptação de Nani no papel de irmã e mãe, até a transformação de Lilo de zangada e rebelde a uma criança cada vez mais consciente do drama que se desenrola ao seu redor. Lilo, aliás, é provavelmente o personagem-criança mais bem construído da Disney.

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Além disso, até os personagens coadjuvantes em Lilo e Stitch são bem construídos. A presidente da galáxia é uma mulher rígida e correta, mas demonstra sentir o peso de suas decisões. Já o assistente social Cobra pode ser um cara durão fazendo um trabalho cruel, mas fica claro que ele entende o drama de Nani e sente empatia por ela. Aliás, o fato de os personagens possuírem essas complexidades faz com que o Lilo e Stitch seja um filme praticamente sem vilões. O que nos leva à nossa última lição…

Nem sempre vilões são necessários

Uma das coisas que faz com que as protagonistas de Frozen deixem a desejar em termos de profundidade é o quão tumultuada a trama é. Tem tanta coisa acontecendo, que não há tempo para as personagens se desenvolverem. Na verdade, só os poderes da Elsa e a sua relação conturbada com Anna já seriam trama suficiente para um filme todo. Ao invés disso, somos “presenteados” com intriguinhas sem sentido de um duque de peruca, um boneco de neve irritante que tem muito mais falas do que deveria, e a revelação completamente despropositada de Hans como um vilão.

liloSim, isso acontece.

 

Não me entenda mal – eu acho interessante o fato de ele se revelar vilão. O problema é que essa reviravolta é desnecessária. Já tem coisa demais acontecendo em Arandelle. Acho que colocaram isso lá como um reforço da mensagem “não case com o primeiro homem que aparece”, mas todo o esforço é inútil, pois Anna mal reflete sobre a situação e no dia seguinte já está apaixonada por outro.

A questão é que nem sempre vilões são necessários. Frozen tinha a chance de ser um filme excelente sem vilão nenhum, mas não a aproveitou. Por outro lado, Lilo e Stitch não apresentou nenhum vilão, preferindo focar nas complexidades, dramas e dificuldades da vida real. Na sua simplicidade, alcançou a excelência.

Que fique claro que o ponto desse texto não é contestar a qualidade de Frozen, mas sim mostrar que mesmo ele, que tem uma intenção clara de fazer justiça a personagens femininas, falha em pontos muito simples. Histórias mirabolantes e uma ou outra subversão bombástica não necessariamente fazem de um filme feminista. Uma trama e personagens femininas bem desenvolvidas costumam ser o suficiente. Lilo e Stitch demonstrou isso onze anos antes de Frozen. E merece ser celebrado.

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