Mulan é o Filme da Disney que nos Trouxe o Vilão mais Aterrorizante de Todos: Machismo Sistêmico

O verdadeiro desafio de Mulan não é derrotar os hunos, mas sim o machismo impregnado na estrutura da sociedade em que vive.

mulan

Demorou, eu sei. Mas cá estou para falar de um dos filmes mais incríveis e subestimados da Disney. Pessoalmente, eu sou apaixonada por Mulan desde sempre e confesso que sempre fiquei um pouco tensa de voltar a assisti-lo com o raio problematizador ligado. Porque né, a gente sabe os estragos que isso pode fazer (meu clássico de natal favorito que o diga).

Felizmente, pela graça do universo, posso agora respirar aliviada porque Mulan não me decepcionou. Na verdade, nessa minha última assistida (que deve ter sido a 14354ª da vida) consegui não só comprovar as percepções que eu já tinha antes, como identificar outros elementos que contribuíram pra mensagem do filme ficar ainda mais forte.

E que mensagem é essa? Seria a de que mulheres podem ser tão fortes quanto homens? Ou a de que mulheres também podem lutar na guerra? Não, não, não! A verdadeira mensagem do filme é a de que machismo sistêmico é uma bosta.

Seu pior pesadelo, na verdade.

 

Mas me adianto. Antes de mais nada deixa eu resumir rapidinho a história: Mulan conta a história de uma garota que se finge de homem para lutar no exército chinês no lugar do pai debilitado. Depois de enfrentar muitos obstáculos, Mulan consegue se tornar um soldado e derrota os hunos, se tornando uma heroína. A história é baseada na lenda chinesa de Hua Mulan.

Bom, logo de cara a impressão que dá é que o grande vilão do filme são os hunos – o exército que invade a China e tem a maior cara de mal.

mulanMeda.

 

Mas desde o começo vamos entendendo que os hunos são só um detalhe, e que o vilão principal nessa história é o machismo que permeia toda a estrutura da sociedade em que Mulan vive, e estabelece rígidas noções do que significa ser homem ou mulher.

A primeira cena de Mulan no filme já nos mostra logo de cara quais são as expectativas dessa sociedade para jovens mulheres. Em uma longa sequência musical, nossa protagonista é arrastada para lá e para cá enquanto é embonecada para encontrar a casamenteira. Nessa hora, já entendemos a importância daquele evento para o futuro de Mulan, e ouvimos com ela as orientações de como uma mulher deve ser para receber um bom par e trazer honra para a família.

A moça vai trazer a grande honra ao seu lar / Achando um bom par / Com ele se casar / Mas terá que ser bem calma / Obediente / E ter vigor / Com bons modos e com muito ardor / Traz mais honra a todas nóóóós!

 

É importante notar que quem canta toda essa sequência são as mulheres da vila, a mãe de Mulan, sua avó. Pessoas boas, que só estão fazendo o que acham que devem fazer. E isso é perfeito, porque é exatamente assim que o machismo opera – estamos falando, afinal, de uma opressão sistêmica, que está por trás de todo o funcionamento da sociedade. Mesmo Mulan, por mais deslocada que se sinta, não questiona o fato de estar ali, de ter que fazer tudo aquilo e cumprir todas aquelas expectativas bizarras.  

Só que aí o filme faz algo importantíssimo e materializa esse sistema horrível em uma personagem igualmente horrível: a casamenteira. Com isso ele faz com que a gente simpatize imediatamente com a Mulan e identifique nessa personificação caricata de todo o ritual machista que acabamos de assistir como a primeira vilã do filme. Ou seja, o filme retrata uma opressão, mas não a endossa.

Você nunca trará honra para a sua família!

 

Bem, depois que Mulan é expulsa pela casamenteira e vai para casa triste e cabisbaixa, vemos outra consequência do machismo sistêmico na sequência em que ela canta a música Reflection. Nessa hora, Mulan está em conflito consigo mesma, porque ela vê que não corresponde ao que a sociedade quer que ela seja, e percebe que talvez tenha que mudar quem é para se adequar. É uma cena de cortar o coração, não só porque a música é linda e a Christina Aguilera marcou minha adolescência, mas porque Mulan acha que o problema está nela, e não no sistema podre que rege a sua vida. E quem de nós nunca passou por algo parecido?

Quando a imagem de quem sou vai se revelar?

 

Mas não dá muito tempo de ela pensar sobre isso, porque logo em seguida soldados imperiais aparecem no vilarejo para convocar os homens para a guerra contra os hunos. Um homem de cada família precisa ir, mas na família de Mulan só tem seu pai, um homem mais velho e debilitado, que já lutou em outras guerras. Quando Mulan intervém para tentar liberá-lo do dever, vemos novamente machismo hostil personificado em mais um personagem: o conselheiro imperial Chi-Fu, que em vários momentos do filme é quem verbaliza claramente todas as noções grotescas sobre mulheres naquela sociedade. No entanto, fiel no seu propósito de não endossar o machismo que está retratando, o filme faz com que Chi-Fu seja um dos personagens mais odiados da trama, tanto pelo público, como pelos outros personagens.

mulanOlha ele aí.

 

No fim, Mulan não consegue nada com sua intervenção além de trazer desonra para a família. Na sequência, ela tenta se rebelar durante o jantar, mas nessa hora aprendemos que justiça significa praticamente nada em uma sociedade em que os papéis de gênero são tão rigidamente definidos. Seu pai está disposto a morrer para cumprir o que se espera dele, e espera que Mulan também faça sacrifícios para ocupar o lugar que lhe cabe.

Mas Mulan não está disposta a engolir isso. Talvez por causa de seu senso de justiça, ou por dedicação e amor à sua família, ou por querer se provar, ou por desconfiar que tem algo de muito errado no sistema em que vive, ou talvez por todos os motivos anteriores, Mulan rouba a armadura, a espada e a convocação de seu pai, corta os cabelos, e foge com seu cavalo para se apresentar para o exército fingindo ser um homem.

Se até então tivemos uma boa visão de como são as expectativas para as mulheres no mundo de Mulan, a partir desse momento somos apresentados ao que significa ser homem naquela sociedade. Em uma sequência musical chamada, pasme, Homem Ser, aprendemos que o que é exaltado é uma masculinidade tóxica, que preza o poder, a força e a habilidade física – coisas que nem Mulan, nem nenhum dos homens naquele batalhão possui naturalmente.

Eu acho essa cena genial, porque não é uma sequência de treinamento que ensina Mulan a ser homem, mas sim um treinamento que ensina pessoas a se adequarem a uma ideia muito restrita de masculinidade.

Aqui temos o filme novamente retratando uma noção machista, mas não endossando-a. Afinal, todo o discurso da música é destruído pela simples presença de Mulan, uma mulher que está fazendo tudo o que supostamente faz de alguém um homem. E a cereja no bolo é que é ela quem consegue cumprir uma das tarefas mais difíceis usando a sua inteligência – uma característica que não é considerada nem naturalmente feminina e nem naturalmente masculina nesse contexto.

Isso é outra coisa que eu amo nesse filme e que fica bem claro em toda essa sequência do Homem Ser: Mulan não é uma heroína masculinizada. Não é porque ela não se encaixa no estereótipo feminino de sua época que ela o despreza, ou que ela é automaticamente boa de luta e tem habilidades físicas incríveis. A personagem não transita entre essas duas versões estereotipadas de gênero, mas é alguém que, como qualquer pessoa, não pode simplesmente ser enfiada dentro de uma caixinha rosa ou azul. O fato de ela evoluir no treinamento exatamente na mesma velocidade que os outros soldados e se destacar por habilidades que não são estereotipicamente masculinas ou femininas também reforça essa mensagem.

Coisa que acontece…
em vários outros…
 momentos do filme.

 

Depois da sequência do Homem Ser vemos por um momento qual o destino das mulheres que são bem-sucedidas em suas entrevistas com a casamenteira. Durante a sequência musical Alguém pra Quem Voltar, os homens do batalhão exaltam as habilidades estereotipicamente femininas de suas esposas – isto é, cozinhar, ser bonita e servir o marido. Só que a essa altura do campeonato já estamos completamente aliados a Mulan, e como a reação dela à música é de desconforto e até de desafio, é essa a postura que também adotamos. É essa a postura que o filme quer que a gente adote. De novo: retratar x endossar.

Bom, um tempo depois o batalhão de Shang finalmente vai à guerra, e depois de uma sequência bem incrível em que Mulan mata praticamente todos os hunos de uma cajadada só, chegamos a uma das cenas mais terríveis do filme. Machucada na altura do seio, Mulan acaba sendo descoberta por seus superiores e condenada à morte por traição. Depois de alguma reflexão, no entanto, Shang decide que vai poupar a sua vida, mas abandona-a sozinha nas montanhas, o que provavelmente resultaria na sua morte de uma forma ou de outra.

Aqui vemos mais uma vez o machismo sistêmico em ação. Ninguém nessa cena (exceto Chi-Fu) é essencialmente do mal, mas mesmo assim ninguém se rebela contra a ordem de abandonar uma pessoa que acabou de salvar a vida de todo mundo simplesmente porque ela é uma mulher e não deveria estar ali. Isso mostra como o machismo é forte, porque mesmo que Mulan tenha desconstruído algumas “verdades” na cabeça daqueles homens, ainda assim ela não conseguiu fazer com que eles desafiassem completamente o sistema.   

No fim, apenas a necessidade os obriga a fazer isso. Quando os hunos ressurgem e sequestram o imperador, seus ex-companheiros reconhecem a capacidade de Mulan e não veem outra opção a não ser segui-la. Assim, nossa protagonista – uma pessoa de ótimas ideias – consegue salvar o imperador e a cidade no final, e se torna uma heroína para toda a China.

ALGUÉM ME TRAZ UM LENÇO POR FAVOR

 

Tudo isso nos mostra como o verdadeiro vilão em Mulan não são os hunos, mas sim o machismo sistêmico. O único problema é que o final do filme deixa a dúvida se a Disney fez tudo isso intencionalmente ou não.

Explico.

Depois que o imperador a presenteia com a medalha imperial e a espada de Shan Yu, ele lhe oferece o cargo de conselheiro imperial, mas ela recusa porque o que realmente quer é voltar pra casa. Não vejo nenhum problema na decisão de Mulan – aliás, é totalmente coerente com a personagem -, mas isso enfraquece um pouco a mensagem do filme, porque a sua volta pra casa rumo a um casamento com o Shang provavelmente não trará muitas mudanças na forma como as mulheres são vistas naquela sociedade. No fim das contas, Mulan consegue derrotar o machismo que atua apenas contra si mesma, não contra todas as mulheres. E pra mim a fala que mais evidencia isso é essa aqui:

Não se encontra uma garota como aquela em toda a dinastia.

 

É a velha história: ela não é como as outras mulheres, ela não é estereotipicamente feminina, e isso é bom, isso a torna especial (muito embora sejamos cobradas para ser justamente um estereótipo). Não que Mulan não seja especial, ela é uma pessoa extraordinária. É só que sempre me incomoda o quão rápido mulheres extraordinárias são taxadas como exceções, quando na verdade tudo o que a maioria de nós precisa é de uma oportunidade pra mostrar a que veio. 

Seja como for, intencionalmente ou não, a Disney nos trouxe em Mulan uma história que desafia o patriarcado de frente e alimenta a indignação do público contra ideais machistas. Este é um dos únicos filmes do estúdio (e um dos poucos da vida, na verdade) que faz isso, e merece muito ser celebrado.


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