Serão os Filmes da Disney Acometidos da Síndrome do Machista de Esquerda?

Uma reflexão sobre a fachada apaixonante e progressista da Disney e o seu longo histórico de acertar as coisas pela metade. 

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Ah, filmes da Disney! Se imprimíssemos todas as discussões sobre eles, seria possível chegar à Lua só escalando a pilha infinita de sulfite que teríamos como resultado. Os filmes passam mensagens positivas ou negativas para as meninas? Suas princesas são bons exemplos ou reproduções de expectativas machistas sobre mulheres? Devo queimar ou amar a minha fita VHS de A Bela e a Fera?

Essas perguntas não são fáceis e não há um consenso sobre as suas respostas. As discussões são acirradas e ambos os lados trazem bons argumentos. A questão é que os filmes da Disney costumam acertar bonito em algumas coisas, mas errar feio em outras. Não estando lá nem cá, eles causam uma confusão danada na cabeça de qualquer um que tente responder as perguntas acima.


É fofo? É cretino? EU NÃO SEI!!

 

Pessoalmente, acho que isso acontece porque o estúdio age como se fosse um malabarista muito doido, sempre acrescentando novas bolas progressistas no jogo, mas tomando o cuidado de nunca derrubar a bola do machismo. E a coisa fica ainda mais complicada, porque não parece que essas bolas progressistas são inseridas no jogo de má vontade. Existe uma vontade clara de acertar, mas parece nunca haver um comprometimento completo para que ele possa acertar de verdade. É quase como se a Disney quisesse ser feminista, mas não tanto.

O que inevitavelmente me fez pensar: serão os filmes da Disney acometidos da síndrome dos machistas de esquerda?

Agora, calma. CALMA! Me escuta antes de qualquer coisa.

Primeiro deixa eu explicar o que são machistas de esquerda. Bem, um machista de esquerda acha a ideia do feminismo maravilhosa – e anuncia isso para quem quiser ouvir -, mas na prática ele nunca chega a abrir mão de seus privilégios e a realmente desconstruir o machismo dentro de si.

Ele pode, por exemplo, super concordar que o padrão de beleza feminino é nocivo, mas não se questiona por que só vai atrás de mulheres dentro desse padrão. Ou então ele pode super defender a liberdade sexual feminina (até porque isso é bom pra ele, né?), mas mesmo assim julgar negativamente mulheres que tiveram vários parceiros. Pode adorar mulheres que se posicionam, mas é condescendente com elas. Pode amar a ideia de namorar uma feminista, mas desde que ela deixe que ele lhe ensine feminismo e não seja uma “feminazi”. Pode concordar com a divisão de tarefas domésticas, mas raramente lava uma louça e, quando o faz, fica chateado quando a companheira não reconhece a sua “ajuda”.

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Porque no discurso ele parece muito desconstruído, o machista de esquerda costuma ser apaixonante à primeira vista. Não é raro nos apaixonarmos por eles. Mas basta uma olhada mais de perto (ou um relacionamento abusivo depois) para bater a decepção. Sim, o machismo é forte ali também.

Enfim, basicamente o machista de esquerda super concorda com o feminismo, mas nem tanto. Soa familiar? Pois é.

Agora que já esclarecemos isso, vem comigo e me ajuda a responder aquela pergunta lá do título. Vamos começar olhando o histórico da Disney.

Foi a partir de A Pequena Sereia, lançado no longínquo ano de 1989, que o estúdio deu uma guinada na maneira de escrever as suas princesas. Agora, é verdade que A Pequena Sereia é um filme cheio de falhas (mas cheio mesmo, olha, dava pra escrever livros com tudo que esse filme tem de errado), mas mesmo assim ele foi muito aclamado na época do seu lançamento justamente por trazer uma quebra explícita no padrão de princesas que o estúdio havia criado até então. Ao contrário de Branca de Neve, Aurora e Cinderela, Ariel era uma personagem com autonomia (embora sem voz, hê hê), chegando ao ponto da rebeldia.

A Pequena Sereia marcou, portanto, o início do que ficou conhecido como a época de Renascimento da Disney. Antes disso, tivemos a época dos Clássicos, e atualmente vivemos o que foi denominado como o 2º Renascimento do estúdio.

E o malabarismo continua.

 

Então, foi a partir do primeiro Renascimento que começaram a surgir heroínas mais independentes e cujas características iam além da beleza e simpatia. E isso teve a ver com o surgimento dessa vontade do estúdio de se atualizar e se alinhar com as mudanças sociais que a segunda onda feminista trouxe. Depois de Ariel, por exemplo, veio Bela, criada para ser justamente um exemplo feminista na época (A Bela e a Fera foi escrito por Linda Woolverton, a primeira mulher roteirista de um filme animado da Disney).

Pocahontas, Mulan, Tiana, Rapunzel, Anna, Elsa, Merida (essa última escrita por uma mulher com o objetivo declarado de quebrar estereótipos de princesas). Todas trazem elementos que desafiam, de uma forma ou de outra, aquele estereótipo feminino clássico das primeiras princesas da Disney. Mesmo assim, com poucas exceções (Merida e Mulan, eu vou defendê-las!), há muito o que criticar no desenvolvimento e história dessas personagens.

Em primeiro lugar, tem a problemática da aparência dessas princesas. Todas, sem exceção, são de uma magreza e constituição que se encaixam como uma luva no ideal gordofóbico do corpo perfeito. Além disso, quase todas são brancas europeizadas, e se encaixam, portanto, no ideal racista de beleza feminina.

disneyPra economizar tempo, a Disney têm simplesmente usado exatamente o mesmo molde para as suas princesas na última década.

 

Em segundo lugar, tem toda a problemática da ideia bizarra de amor romântico que esses filmes trazem, no melhor estilo avistou-gamou-casou (ou então avistou-desprezou-transformou o cara-gamou-casou). Sem contar, claro, que até chegarem Merida e Elsa, a história de todas as princesas quase sempre girou em torno de um cara.

E além de tudo, tem também a descoberta recente de que a maioria das falas na grande maioria dos filmes da Disney são masculinas – mesmo nos filmes de princesas.

disneyAs responsáveis pela descoberta foram as linguistas Carmen Fought e Karen Eisenhauer, que resolveram fazer um projeto para analisar todos os diálogos dos filmes de princesas da Disney.

 

Como você pode ver no gráfico acima, com exceção de Enrolados e Valente, todos os filmes de princesa do Renascimento e 2º Renascimento trazem mais falas para os personagens masculinos do que para os femininos.

Pense nisso.

Esses são filmes que trazem mulheres como protagonistas. A história é sobre elas. Mas mesmo assim, elas têm menos falas do que os homens.

Ah, Lara! – alguém aí está certamente dizendo – Mas nada a ver isso aí. Não é porque um personagem é protagonista que ele tem que falar mais. Tem que ver os outros filmes também, e aí comparar com…

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É, então. Inspirados pelo trabalho de Fought e Eisenhauer, os pesquisadores do incrível site Polygraph – Hannah Anderson e Matt Daniels – resolveram ampliar a pesquisa e analisar mais uma porrada dos principais filmes da Disney/Pixar. E como você pode ver no resultado acima, praticamente todos os filmes com homens protagonistas também apresentam muito mais falas para eles do que para elas. Enquanto isso, quatro filmes trazem equilíbrio de gênero nas falas; e apenas oito trazem mais falas femininas do que masculinas (contando Valente, Enrolados e Cinderela, que foram analisados na outra pesquisa; e Lilo e Stitch, que eu incluí por conta própria como chute).


Claro que tem que dar um desconto pra Mulan, dada o contexto da história, mas por que o Mushu não podia ser uma personagem feminina? Só ele tem 50% mais falas do que a protagonista!

 

Eu sei o que você está pensando: mas gente, as mulheres falam mais nos Clássicos do que nos filmes do Renascimento! Fought e Eisenhauer têm uma ideia do porquê. De acordo com elas, a partir da década de 1990 as animações passaram a trazer elencos muito maiores, e grande parte dos papéis secundários foram (e ainda são) preenchidos por personagens masculinos.  

Pense. De donos de loja, bibliotecários, inventores até vilões e sidekicks (aqueles personagens engraçadinhos que estão sempre com o protagonista), a vasta maioria é homem. De acordo com Eisenhauer isso acontece porque estamos treinados (pelo machismo) a achar que homem é a norma. Por isso, se você já tem uma protagonista mulher, oras, então todo o resto tem que ser homem, claro!

disneyAnna e Elsa são as únicas duas mulheres em Frozen, por isso não surpreende que 59% das falas no filme sejam masculinas.

 

É claro que é falho analisar um filme só pelo número de falas para cada gênero. O resultado sobre os Clássicos – que não têm nada de feministas e mesmo assim se dão bem nessa pesquisa – prova isso.

Mas é problemático, sim, que em pleno século XXI a representatividade feminina ainda seja tão limitada – principalmente em filmes infantis. As implicações disso são várias e têm um impacto negativo na forma como as meninas se enxergam e enxergam o mundo. Não só esse padrão é um problema em termos de representatividade, como também fortalece a ideia de que a trajetória de uma mulher é indissociável dos homens à sua volta. Além disso, ao quase nunca trazer amizades e afetos entre mulheres, enfraquece também o sentimento de solidariedade feminina (lembrando que a manutenção da rivalidade feminina é um dos pilares de força do machismo).

Então, resumindo. A Disney obviamente quer quebrar estereótipos femininos, e isso se reflete de alguma forma em todos os seus filmes de princesas. Mas ao mesmo tempo ela não diversifica a aparência dessas personagens, e constantemente coloca homens no centro de suas histórias, dando mais voz a eles do que a elas na maioria de seus filmes. E por último, mas não menos importante: todos os seus filmes são apaixonantes e super desconstruídos à primeira vista, mas basta um olhar mais atento pra gente ver: sim, o machismo está ali também.

Por esse motivo, tendo a dizer que, no geral, sim – a Disney parece sim sofrer bastante com a síndrome do machista de esquerda.

Mas não esqueço, claro, dos lindos pontos fora da curva.

disneyMulan, Lilo e Stitch e Valente são todos filmes excelentes que, a meu ver, se comprometem por completo a ser diferente. Vejo neles uma prova de que o estúdio tem dentro de si as ferramentas necessárias para descer de cima do muro. Só fica a pergunta: quando é que ele vai descer desse muro de vez?

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