Masterchef Profissionais e o Machismo na Gastronomia

Para quem acha que o que aconteceu em Masterchef Profissionais não tem nada a ver com machismo.

masterchef

Nas últimas semanas, as redes sociais explodiram a cada novo episódio do reality Masterchef Profissionais, da Band. Além da empolgação natural em torno de competições culinárias (juro, não sei por que isso é tão legal, mas é!), teve também muitos episódios de arrogância e machismo por parte de vários competidores, que turbinaram as discussões online. Felizmente, o público pôde finalmente comemorar essa semana, com a vitória de Dayse Paparoto.

masterchefParece que o jogo virou não é mesmo?

 

Dayse foi a única mulher que ficou para a final, e frequentemente teve de aguentar ser inferiorizada, subestimada ou ignorada pelos outros competidores.

Em um determinado momento em que ela reclama que não a estão deixando fazer nada em uma prova em grupo, um dos competidores a manda varrer o chão (e ainda completa dizendo que é mais difícil trabalhar com mulheres porque somos “mais frágeis”). Em outro, o grupo ignora suas falas e acaba se dando mal por isso. Em vários, o conhecimento e talento dela é subestimado, como quando vários competidores a taxam como a que tem menos chances de chegar à final, ou quando o competidor que ficou em segundo lugar canta vitória antes da hora, quando só restam os dois na competição. Vale lembrar que outras competidoras também foram alvo de machismo ao longo do programa.


Este vídeo traz uma compilação de alguns momentos machistas do programa.

 

Mas agora Dayse ganhou, então está tudo certo, né? Bom se fosse. Além de questionarem o resultado do programa, sugerindo que ela só ganhou porque o público estava do seu lado (ou pior, por ser mulher), muitas pessoas estão negando que houve qualquer machismo por parte dos participantes, confundindo o que aconteceu no programa com simples arrogância.

E é aí que eu entro.

Sim, meus caros, cá estou eu para explicar exatamente por que gritamos machismo. E tal qual nossa querida Hermione faria, para me ajudar eu trago dados, declarações e números sobre, você adivinhou!, machismo na gastronomia.

Comecemos então com alguns números. Dos 50 melhores restaurantes do mundo em 2016, eleitos pela premiação anual 50 Best, dois são chefiados por mulheres. Na América Latina, apenas sete dos cinquenta escolhidos têm mulheres na chefia, e dos nove restaurantes brasileiros que integram a lista, apenas dois tem mulheres como chefs.

Ora, mas isso não quer dizer simplesmente que homens cozinham melhor? – alguém aí está perguntando.

Bem, se as oportunidades e o tratamento dado a homens e mulheres dentro da indústria fossem os mesmos, isso seria verdade. O problema é que não são (e a premiação reflete isso). Não é à toa que mulheres brilham apenas na frente editorial (bestsellers culinários escritos por elas é o que não falta). Existe algo de podre na própria cultura de trabalho de cozinhas profissionais. Para ficar mais fácil de entender, elenquei abaixo cinco fatores apontados por diversos profissionais da área como os responsáveis por influenciar a balança e afastar ou apagar as mulheres da alta gastronomia. Todos, de uma forma ou de outra, tem um link direto com machismo.

Longas e inflexíveis jornadas de trabalho

A duração e falta de flexibilidade das jornadas de trabalho na cozinha profissional acabam penalizando as mulheres, porque ainda somos as mais cobradas pela criação dos filhos e pelas tarefas domésticas. Isso acaba obrigando as mulheres do ramo da gastronomia a fazer uma escolha quando têm filhos, e a pressão para assumir o papel de mãe e esposa em detrimento do papel de profissional é muito maior. Esse é um problema que as mulheres enfrentam em praticamente todas as profissões, mas o fato de as jornadas serem especialmente longas em restaurantes e da estrutura de trabalho ser bastante militarizada acaba fazendo com que ele seja bem sério em cozinhas profissionais. O que nos leva ao próximo ponto.  

Ambiente de trabalho militarizado e ênfase em técnica

A estrutura militarizada de uma cozinha de restaurante, baseada em hierarquia e disciplina, serve de justificativa pra muita gente que, baseado em estereótipos machistas de gênero, defende que as mulheres “não aguentam” o trabalho – tanto física, como emocionalmente.

masterchefDayse só ri.

 

Pensando aqui com os meus botões no fato de que cozinhar sempre foi uma função feminina dentro de casa, talvez não seja absurdo imaginar que quando os homens assumiram esse trabalho em restaurantes criou-se uma cultura completamente oposta a tudo que fosse considerado feminino. E o que poderia ser mais masculino do que o exército, não é? Mas sei que as cozinhas industriais são em grande parte herança de períodos de guerra, então esse parágrafo fica apenas como uma divagação.

Bem, além da estrutura militarizada, temos também a enorme importância dada à técnica, ao racional. Essa foi uma crítica que um dos competidores fez contra Dayse: “ela não tem técnica nenhuma”. O fato de a técnica ser tão valorizada na cozinha profissional (e isso também é algo que a afasta completamente da cozinha praticada pelas mulheres em casa) acaba sendo ruim para nós, porque de acordo com os estereótipos, somos mais “intuitivas, emotivas, sensíveis”, enquanto os homens seriam mais “racionais”. Sobre isso, lembro uma fala de Fernando Point, considerado o pai da cozinha francesa moderna: “Somente os homens tem a técnica, disciplina e paixão capazes de transformar o ato de cozinhar em arte”.

O que nos leva aos famigerados…

Estereótipos de gênero

Estereótipos de gênero, gente. Tem que extirpar isso do mundo. Em restaurantes, eles atuam contra as mulheres de várias formas.

“Mulheres são mais fracas, mais sensíveis, menos racionais, mais delicadas, mais vaidosas. Ah sim, e também são melhores para limpar coisas. E não se esqueça de que elas têm que ser cordatas, meigas e agradáveis, claro!”.

Todos esses estereótipos e expectativas em relação a mulheres acabam fazendo com que elas sejam consideradas menos competentes, menos capazes, menos resistentes, menos respeitadas e menos levadas a sério. Ah sim, e mais hostilizadas quando se comportam de forma durona – que é exatamente o que a rígida e hierarquizada estrutura de uma cozinha profissional exige. Tudo isso acaba restringindo a atuação das mulheres. De acordo com a chef britânica Margot Henderson, a elas são geralmente delegadas as tarefas consideradas inferiores ou menos prestigiosas.

“Chefs homens preferem ter mulheres preparando vegetais ou doces e sobremesas. Ela realmente precisa lutar se quiser lidar com coisas como carnes e peixes”.

A chef brasileira Lisandra Amaral faz coro a Margot, em uma entrevista à Fórum:

“(…) o discurso é de que as mulheres são mais delicadas e por isso são boas confeiteiras ou doceiras e finalizam bem um prato. (…)  A cozinha profissional é bastante machista e espera-se que sejamos sempre gentis e polidas com nossa equipe, enquanto aos homens chefes é permitido que gritem e se exaltem e por isso são mais respeitados.”

Lisandra ainda comenta que às mulheres sempre foi permitido o trabalho nas pias e complementando os serviços de faxina (que também incluem panelas pesadas e trabalho braçal) sem nenhuma restrição.

Coerência, não se vê por aqui. 

 

Hostilidade e abuso

Levando tudo isso em consideração, não chega a ser uma grande surpresa descobrir que restaurantes são alguns dos locais de trabalho mais hostis para mulheres em termos de abuso e violência de gênero. Nos EUA, o ramo de restaurantes é a maior fonte de denúncias de assédio sexual. Em um artigo do The New York Times, o jornalista Alan Richman escreve:

“Dada a escolha entre promover um homem ou uma mulher, os chefs homens geralmente escolhem um homem – ele se sentirá humilhado se for superado por uma mulher. (…) Chefs e cozinheiras mulheres sempre foram tratadas de forma absurda. Inclua aí assédio sexual – mais verbal do que físico, na lista de transgressões. Então não é surpresa nenhuma que poucas entrem na indústria, quanto mais cheguem ao topo.”

Em outro artigo do The New York Times, Jen Agg também falou sobre a hostilidade e o assédio que as mulheres enfrentam em restaurantes.

“Eu nunca trabalhei como chef, mas possuo e gerencio restaurantes há quase vinte anos, e as coisas que já vi – às vezes no meu próprio restaurante, com certos chefs – nunca deixam de me chocar. Vai muito além do machismo diário que todas temos que enfrentar como mulheres, para o que é, inegavelmente, assédio e violência.

Tapas com pinças de cozinha, puxões de sutiã, agarrões incansáveis – chefs mulheres logo aprendem a se agachar, nunca se curvar, para pegar uma panela. Uma mulher que conheço, que trabalhou como cozinheira em um grupo de restaurantes conhecido em Toronto me contou histórias de horror de um chef que fazia coisas como colocar a refeição dela em uma tigela de metal no chão da cozinha porque ‘é ali que os cães comem’. (…)

masterchefAgg escreveu o artigo quando Kate Burnham, uma chef de confeitaria de um popular restaurante em Toronto abriu uma denúncia de assédio verbal e físico no Tribunal de Direitos Humanos de Ontario. O caso acendeu o debate sobre o machismo na indústria no Canadá.

 

Agg afirma que a maior parte das denúncias feitas oficialmente vêm de mulheres em posições transitórias, como garçonetes, que não tem nenhum plano de construir carreira na indústria. Já as mulheres que trabalham na cozinha e tem a esperança de chegar a ser chef ou sous chef algum dia preferem continuar em silêncio para não criar inimizades e se prejudicar. Para ela:

“Embora tenha muitas mulheres talentosas saindo das escolas culinárias, não é nenhuma surpresa ter tão poucas no topo da indústria. Apologistas dirão que elas não aguentam. A realidade é que mulheres só podem se sentir desinteressadas em um ambiente de trabalho que não só não é convidativo, como também obviamente as degrada”.

Parcialidade da mídia

E por último, mas não menos importante, alguns profissionais da indústria apontam uma parcialidade da mídia a favor de chefs homens. De acordo com Amanda Cohen, chef do restaurante Dirt Candy em Nova York:

“A realidade é que tem muitas mulheres na cozinha profissional, e sempre teve, mas por alguma razão, a imprensa opta por não cobri-las. (…) Se eu fosse um investidor escolhendo entre um chef homem e uma mulher, os dois igualmente talentosos, faria mais sentido escolher o homem todas as vezes, porque ele receberia mais cobertura da imprensa, o que renderia mais prêmios, e atrairia mais clientes”.

A isso eu só gostaria de acrescentar que o prêmio 50 Best, que julga os melhores restaurantes e chefs em todo o mundo, tem um prêmio específico para “Melhor Chef Mulher”.

masterchefPor que alguns pratos só dá pra fazer com a vagina? EU NÃO SEI.

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Levando tudo isso em consideração (ok, nem precisava de tudo isso, mas eu me empolguei), é fácil ver como muito do que aconteceu no Masterchef Profissionais tem, sim, machismo como base. Em um nível bem leve, o programa acabou mostrando o que muitas mulheres enfrentam na indústria todos os dias simplesmente por serem mulheres.

Vale notar que essa não é a primeira vez que machismo vira assunto em um Masterchef. Polêmicas parecidas também aconteceram na versão americana, britânica, espanhola e australiana. Infelizmente, ainda precisamos falar muito sobre isso.


Fontes: The New York Times, The Guardian, Food&Wine, The World’s 50 Best Restaurants, Revista Fórum, The Week, M de Mulher, Nexo Jornal, The Globe and Mail

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