Garotas Beatnik – O Apagamento Feminino no Movimento Literário Beat

Como a desmitificação de um movimento literário que pregava a quebra de padrões conservadores revelou um ostracismo feminino.

beatnik

Num desses finais de semestre que pilham a gente até o limite, eu e meus amigos ficamos de produzir um seminário sobre o movimento beat e suas influências no surgimento da contracultura dos anos 60. Pra quem não conhece, o movimento beat foi responsável por uma das maiores revoluções literárias e culturais da segunda metade do século 20, sendo responsável por artistas como Bob Dylan, Patti Smith, o surgimento dos hippies e de obras como On The Road, Big Sur, O Uivo e Almoço Nu, escritas por autores como Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg, além de influenciar caras como Alexander Supertramp e Hunter S. Thompson (aquele jornalista gonzo que apanhou dos Hell’s Angels e foi interpretado pelo Johnny Depp no filme Medo e Delírio em Las Vegas).

beatHunter S. Thompson sobre Jack Kerouac: “Kerouac me influenciou bem mais que um pouquinho”.

 

Fazendo o trabalho, em meio a vários artigos acadêmicos, teses de mestrado e publicações de revistas, percebemos o óbvio: o movimento beat se limitava apenas a escritores homens. Claro que existiram mulheres, pensamos. Sylvia Plath era contemporânea a eles, então deve ter existido alguma escritora dentro desse período que escrevia nessa linha. Entretanto, nenhum artigo que achamos sequer citava que houveram escritoras mulheres. Talvez o único material a que tive acesso durante a produção desse seminário que lembra de uma dessas escritoras foi a introdução de uma das edições de On The Road, feita por Eduardo Bueno, que cita Joyce Johnson, mas apenas como “a jovem escritora com quem Jack Kerouac vivia na época em que On The Road foi lançado”.

Como vocês devem saber, depois que se entra no mundo da problematização a tendência é ir sempre ladeira abaixo, então como bons estudantes de comunicação que somos, decidimos apelar para a internet pra ver se achávamos algum resquício de mulheres que não fossem citadas apenas como amantes ou esposas histéricas dos tais caras geniais dentro desse período. E achamos. Mas antes vamos fazer uma retomada histórica do período e do movimento.

O movimento beat surgiu nos Estados Unidos com força pouco depois do fim da Segunda Guerra, em meio a um contexto histórico de início de Guerra Fria e avanço do comunismo. A sociedade americana da época passava por um aumento surreal na pregação do estilo way of life consumista e por uma retomada de valores conservadores. Nessa situação, muitos jovens se sentiam descontentes, consternados e até mesmo frustrados e deslocados. Então, foram buscar respostas para essas questões no existencialismo francês, no niilismo de Spangler, Nietzsche e Dostoievski, no som do jazz bebop e em escritores como Henry Miller. Até que, em meio a essa rebeldia pungente, surgiram os três escritores mais conhecidos do período: Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg. Praticamente a santíssima trindade beat.

beatWilliam Burroughs (à esquerda) e Jack Kerouac.

 

E é engraçado ressaltar que uma das especulações acerca do surgimento da palavra beat foi a vontade de Kerouac de relacioná-la com beatitude, que era a condição que ele e seus colegas desejavam alcançar. Algo praticamente canônico.

beatParecem beatificados? (Da esquerda para a direita: William Burroughs, Lucien Carr e Allen Ginsberg).

 

Mas voltando.

Imagino que vocês devem estar se perguntando, “ok, e as autoras que você vem prometendo desde o início?”. Calma lá, logo chegamos nelas. Primeiro quero contextualizar bem por cima a situação feminina da época.

Durante a Segunda Guerra, com os maridos e os pais fora de casa, as mulheres saíram para trabalhar. Daí que vem aquele pôster clássico do We Can Do It, que virou símbolo de empoderamento feminino. Mas assim que a guerra acabou, cada uma dessas mulheres voltou para seus respectivos lares, com suas respectivas funções como mães e donas de casa, como se nada tivesse acontecido. É interessante ressaltar a quantidade absurda de propagandas frisando a importância das mulheres ficarem em casas cuidando do marido e dos filhos, exaltando as funções do lar e limitando a condição feminina à maternidade e aos serviços domésticos.

beat“Mostre para ela que é um mundo de homens” – Acho que não precisa nem falar nada.

 

Também é importante lembrar que a lobotomia e o internamento de mulheres que fugiam desses padrões em hospitais psiquiátricos eram práticas muito comuns na época. Guardem isso, vai ser importante logo mais.  

Em meio a esse contexto não é nada surpreendente que as escritoras beats tenham sido, quiçá propositalmente, deixadas ao ostracismo ou lembradas apenas como as namoradas dos escritores. É aquele ditado, disappointed but not surprised.

Outra questão a ser levantada antes de tudo: a falta de material traduzido para o português sobre essas mulheres. A maioria das informações que achei foram em blogs e na graphic novel Os Beats, a qual recomendo fortemente. Ainda ontem pedi o livro Memórias de uma Beatnik, da Diane di Prima, talvez um dos únicos materiais dessa escritora traduzido para o português e disponível aqui.

Agora vamos ao que interessa, três escritoras beats que você PRECISA conhecer (e materiais que mencionem elas ou a misoginia dentro do período).

Diane Di Prima

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Diane nasceu no dia 05 de agosto de 1934, e além de poeta e escritora beat é militante feminista e pelos direitos humanos. Em 1969 Diane publicou o livro Memórias de uma Beatnik, em que narra suas experiências com sexo, drogas e os primeiros passos da cena beatnik em Nova York, da qual participou. Em sua escrita é muito notável as críticas que Diane faz à sociedade, e a sua forma livre, sutil e erótica de tratar do sexo, se livrando de estereótipos heteronormativos. Abaixo um trecho do livro Memórias de uma Beatnik, no qual Diane traça uma crítica ácida à pílula anticoncepcional:

“Bom, vocês podem se vangloriar, isso é coisa do passado, as garotas sortudas de hoje têm a pílula e podem fazer o que quiserem, são tão livres quanto os homens etc. etc. A pílula, a pílula, a pílula! Estou cansada de ouvir falar da pílula! Deixe-me contar algumas coisas sobre a pílula. Ela engorda, a pílula. Ela dá fome. Deixa os seios doloridos, com um ligeiro enjoo matinal; condena a mulher, que evitou a gravidez, a viver em um estado perpétuo de início de gravidez: debilitada, nauseada e propensa a cair no choro. E – ironia suprema – deixa a mulher, que finalmente alcançou a liberdade total para transar, muito menos propensa a transar, diminuindo o desejo sexual. A pílula já cansou.”

– Memórias de uma Beatnik, pg. 123

Joyce Johnson

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Joyce Johnson, nascida em 1935 é sempre lembrada como a namorada do Kerouac, como citei acima. Entretanto, Joyce foi muito além do que a namorada de Jack Kerouac. Ela escreveu um livro com o título Minor Characters (Personagens Menores) que ilustra bem essa característica secundária dada às mulheres do período e dentro de um movimento que se julgava libertário e destruidor de padrões.

“Eu vejo a garota Joyce Glassman, vinte e dois anos, com o cabelo comprido passando dos seus ombros, vestida tudo de preto como Masha no livro O Gaivota – meia calça preta, camisa preta, blusa preta – mas a diferença da Masha, ela não está de luto por sua vida. Nem poderia,  nessa cadeira na mesa no exato centro do universo, este lugar de meia noite onde tanta coisa converge, o único lugar na América que está vivo.  Como fêmea, não pertence completamente a esta convergência. Um fato que ela ignora, sentada na sua excitação enquanto as vozes dos homens, sempre dos homens, sobem e descem de tom apaixonadamente, e seus copos de cerveja acumulam  a fumaça dos seus cigarros sobem rumo ao teto e seguramente a cultura morta está despertando. Simplesmente estar nesse lugar, isso em si – ela o diz a si mesma- é suficiente” – trecho de Minor Characters.

É muito válida essa reflexão sobre a secundariedade feminina dentro de movimentos artísticos, musicais e literários. Devido ao estilo de vida repressor em que eram inseridas, às limitações impostas no dia-a-dia, poucas mulheres ousaram almejar a liberdade como essas meninas na época. Aquelas que saíam de casa eram mal-vistas, limitadas a amantes ou musas, deixadas ao ostracismo ou abafadas pelas vozes masculinas, cada vez mais fortes. Joyce retrata essa realidade muito bem em suas memórias:

“No final dos anos 1950, mulheres jovens – poucas, no início – mais uma vez saíam de casa com uma certa violência. Elas também vinham de boas famílias, e seus pais nunca conseguiram entender como as filhas que eles tinham criado com tanta dedicação poderiam escolher uma vida precária. Se esperava de uma filha que ela ficasse sob o teto dos pais até casar, mesmo se trabalhasse um ano, mais ou menos, adquirindo assim um pouco de gosto pelo mundo – mas não muito! Experiência, aventura – estas coisas não eram para mulheres jovens. Todo mundo sabia que as aproximariam do sexo. Sexo era para os homens. Para as mulheres, sexo era tão perigoso quanto a roleta russa; uma gravidez indesejada ameaçava a vida em mais de um sentido. Quanto à arte – as jovens estilosas tinham um lugar como musas e admiradoras.” (…)

“Naturalmente, nos apaixonávamos por homens que eram rebeldes. Caíamos muito rapidamente, acreditando que nos levariam junto nas suas viagens e aventuras. Não esperávamos ser rebeldes por conta própria; não contávamos com a solidão. Uma vez que encontrávamos nossos parceiros masculinos, uma fé cega nos impedia de desafiar as antigas regras do masculino e feminino. Éramos muito jovens e tínhamos dado um passo maior do que a perna. Mas sabíamos que tínhamos feito algo que exigia coragem, algo quase inédito. Éramos as que ousaram sair de casa.”

Elise Cowen

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Vocês se lembram da questão dos internamentos de mulheres que fugiam dos padrões em hospitais psiquiátricos? Isso explica bem a questão da Elise Cowen. Acho que a melhor forma de ilustrar a história dela é começando por essa citação de Gregory Corso, poeta contemporâneo a ela e que participou ativamente do movimento beat.

“Houve mulheres, estiveram lá, eu as conheci, suas famílias as internaram, elas receberam choques elétricos. Nos anos de 1950, se você era homem, podia ser um rebelde, mas se fosse mulher, sua família mandava trancá-la. Houve casos, eu as conheci, algum dia alguém escreverá a respeito.”

Elise Cowen nasceu em 1933 e cometeu suicídio em 1962, antes mesmo de completar 30 anos. Durante a vida, Elise foi poetisa e desenvolveu uma espécie de relacionamento baseado numa completa devoção de sua parte à Allen Ginsberg. Elise foi responsável por datilografar poemas de Ginsberg como Kaddish, e ele foi responsável por introduzir nela o misticismo literário, o budismo e influências poéticas. Entretanto, Elise não veio a ser mais que uma nota de rodapé na biografia de Allen Ginsberg, que era homossexual. Muitos consideram seu relacionamento com Elise uma espécie de “experimento heterossexual”. Após Ginsberg a deixar e ir para San Francisco, Elise voltou para a casa dos pais e arranjou emprego como datilógrafa.

beatAllen Ginsberg e Elise Cowen

 

Elise cometeu suicídio no ano de 1962, após uma série de eventos que levaram sua família a tentar interná-la numa instituição psiquiátrica. Após sua morte, grande parte de seus poemas foram queimados pelos seus vizinhos, graças às temáticas consideradas escandalosas: sexo, drogas, morte e loucura. O pouquíssimo material que sobrou da obra de Elise Cowen foi reunido e editado por Tony Trigilio na obra Elise Cowen: Poems and Fragments.

Após sua morte, Ginsberg escreveu em seu diário o seguinte poema:

“[…] O fantasma de Elise
correndo em pânico sob
os arcos góticos de Bellvue e arrastada
sob a luz do dia por sua família
polícia – O que ela estava
apontando, à noite no Rio Hudson,
as vozes que só ela podia ouvir
– e agora ela é somente esse fantasma
fugindo nas salas escuras de minha
vasta mente com seus olhos fechados.”

Alguns poemas traduzidos de Elise podem ser encontrados facilmente em blogs na internet. Reuni pelo menos dois, já que tão pouco restou de sua vida e seus trabalhos.

“EU TENTEI

Tentei
Tenho tentado
Tentarei novamente
Embora a fraqueza do meu Ser
Não há nada digno
A não ser Deus e você
E Deus foi dormir

(…)”

“QUERO VESTIR E SAIR

Quero vestir e sair e subir em um ônibus pegar um cheque e declarar um
seguro desemprego.
Corpo, porque essa sensação esquisita – pavor
De que –
Morte? Morte tanto desejada?
“Morte da mente” – paz – não a dissolução a sete palmos”

Praticamente tudo que achei sobre essas mulheres foram em blogs e um pouco no capítulo Garotas Beatnik, da HQ Os Beats. Esse capítulo, em especial, toca nessa questão da invisibilidade feminina do período, na misoginia presente, no patriarcalismo e ostracismo dedicado às mulheres. Além de uma intensa e necessária desmistificação de escritores beatificados, que, diga-se de passagem, eram pessoas terríveis.

beatTrecho do capítulo “Garotas Beatnik” da graphic novel Os Beats

 

Inclusive, é sempre bom repetir aquele mantra do “Não é porque gosto de algo que não vou olhar criticamente”. Essa observação se encaixa de forma perfeita não apenas nos escritores do movimento beat, mas em diretores de cinema, atores, professores, músicos, qualquer pessoa que seja.

Uma conclusão final aqui, já que você pode ter pulado toda a parte maneira do texto (que cita a vida e expõe trechos de obras dessas mulheres) e vindo parar aqui: foram mulheres corajosas que, parafraseando Joyce, não esperavam ser rebeldes sozinhas e encontrar junto disso a solidão e o abandono. Era uma época em que se era fácil para os homens aderir a comportamentos rebeldes e transgressores, ao contrário das mulheres, que eram podadas tanto pelas famílias, como pela sociedade. Então, além de corajosas, essas mulheres abriram uma porta para a geração de mulheres que estava por vir, influenciando principalmente a segunda onda do movimento feminista. O que essas mulheres fizeram, viveram e produziram merece muito mais destaque do que notas de rodapé.


Se quiserem saber mais sobre esse período literário e histórico, principalmente do ponto de vista feminino (é escasso o material, mas vamos lá), vou deixar aqui os nomes dos livros e artigos que usei, além dos blogs que consultei.

           

  1. Os Beats – uma graphic novel. (2010). Em especial o capítulo que tratam sobre Diane di Prima e o capítulo Garotas Beatnik
  2. Memórias de uma Beatnik – Diane di Prima. (2013).
  3. On The Road – Jack Kerouac. Considerada a Biblia dos Hippies, é praticamente o livro inicial para entender esse movimento cultural e literário.
  4. Os Rebeldes: Geração Beat e Anarquismo Místico – Claudio Willer.
  5. Elise Cowen (1933- 1962) – Adriano Scandolara 
  6. Mulheres na Geração Beat: O Indizível nos cadernos de Elise CowenEmanuela Siqueira
  7. Nos Bastidores? Joyce Johnson, escritora do círculo beat – Miriam Aldeman 
  8. O Amor e os Amores de Joyce JohnsonMiriam Aldeman

Leia também Mulheres no Rock – Apagamento, Desmerecimento e Objetificação, e Mulheres na NASA – A História que Ninguém Conta. 

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