Estupro como Recurso Narrativo: o Ontem, o Hoje e o Exemplo de Game of Thrones

O problema não é mostrar a violência em si, mas sim a forma como ela é retratada.

Como tratado no texto da Lara para a Ação Nerd Feminista para o Dia Internacional Luta pelo Fim da Violência contra a Mulher do ano passado, a forma como a violência contra a mulher é retratada pela cultura pop acaba perpetuando imagens prejudiciais e nocivas que dificultam o combate da mesma.

Entre os problemas elencados no texto estão a sexualização da violência, o uso da violência sexual como “recurso narrativo” com a finalidade de desenvolver personagens masculinos (ou até moldar o caráter de personagens femininas), e ainda a propagação de mitos relacionados à temática – como a falsa ideia que o estuprador é um desconhecido que aborda uma mulher violentamente em um lugar ermo, mesmo quando já demonstrado por dados recentes que na verdade 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou conhecidos da vítima e acontecem em sua própria residência.

O impacto dessas representações

Em seu texto Socialização, o psicólogo social Sal Zerilli explica que as pessoas adquirem muito do seu conhecimento do mundo social dos meios de massa. Essa relação chega a tal ponto que alguns estudiosos acreditam que até a distinção entre a ficção e a realidade fica comprometida. Desse modo, segundo Sal, “as relações das pessoas com a realidade são fundamentalmente alteradas pelas imagens mediadoras de televisão, cinema, Internet e meios impressos” e que o consumo de televisão, revistas e música reforça imagens irreais, negativas ou estereotipadas de gênero, sexualidade, cor e etnia”.

recurso narrativo

Esses estudos têm demonstrado que o consumo dos produtos culturais “leva homens e mulheres a desenvolverem imagens distorcidas, muitas vezes não-saudáveis, de seus próprios corpos, bem como dos corpos e eus dos outros”. Além disso, como o contato com os meios começa desde cedo, as crianças também ficam expostas à sua mensagem: “crianças não só aprendem valores, atitudes, e comportamentos ao assistirem televisão, mas que eles, também, imitam muitos desses comportamentos televisados”.

Há ainda estudos que relacionam as imagens de violência propagadas pelos meios de comunicação ao fato de “alguns espectadores se tornarem, eles próprios, agressivos e violentos”. Um bom exemplo é o caso da violência contra a mulher mostrada em games. Um estudo recente da universidade de Ohio concluiu que jogos violentos e sexistas que intensificam a masculinização (agressividade, dominação, força, competitividade e independência) tem potencial de reduzir a empatia masculina em relação a mulheres vítimas de violência no mundo real. E esse estudo não foi o único que chegou a esse tipo de resultado. Em 2008, cientistas do Lenior-Rhyne College nos EUA observaram que estudantes do sexo masculino expostos a imagens de personagens masculinos e femininos estereotipados em jogos se mostraram mais tolerantes ao assédio sexual, por exemplo.

Esse bombardeio de informações é uma introdução necessária quando se pretende falar sobre como as representações de violência na mídia ajudam a moldar o comportamento dos indivíduos e sua visões de mundo, dos outros e sobre si mesmos. Dito isso, fica evidente a necessidade de um olhar crítico sobre o que assistimos, lemos e consumimos de outras formas. A máxima “não é só um filme” – mote deste site que vos fala – representa exatamente isso.

Mais do mesmo

Episódios recentes nos relembram diariamente como é urgente rever a representação da violência na mídia para ajudar a quebrar esse ciclo de perpetuação da violência fora da ficção.

Tivemos, por exemplo,  o caso de assédio sexual e estupro (lembrando que qualquer ato libidinoso sem consentimento configura crime de estupro de acordo com o artigo 213 do Código Penal Brasileiro) cometido pelo ator Zé Mayer contra uma figurinista da Rede Globo e a tentativa de amenização do corrido; a capa da Revista Veja que tratou sobre assédio sexual sofrido por várias profissionais da mídia brasileira e os comentários de ódio que a publicação gerou, inúmeros culpabilizando as vítimas; e o recém  saído do forno caso de agressão e abuso psicológico ocorrido no BBB17, que mesmo filmado e transmitido para todo o Brasil ver ainda foi questionado por pessoas que culparam a vítima e colocaram em dúvida os abusos cometidos por Marcos, gerando até a absurda hashtag no twitter: “Força Marcos”.

Também aqui já tratamos no texto Violência Midiática – O Papel da Imprensa na Manutenção da Cultura do Estupro como a imprensa contribui para perpetuar e legitimar a chamada cultura do estupro – algo que foi muito bem resumido no Blog Lugar de Mulher:

“Um resumo bem didático sobre o que é a cultura do estupro? Uma estrutura onde a mulher é culpada por qualquer constrangimento sexual que venha a passar. Uma sociedade que acha normal uma mulher ser constrangida na rua por uma cantada; normal uma mulher ser estuprada por estar bêbada ou usando roupas curtas; normal uma mulher ser forçada a fazer sexo com o companheiro, afinal, ele é seu marido ou namorado; normal uma mulher ser vista apenas como objeto para satisfazer as vontades alheias; normal uma mulher ser intimidada por homens heterossexuais quando é lésbica, porque na verdade ela tem que aprender a gostar de homem.”

Um reflexo do passado

Até agora tratamos de apontar como a imprensa, a mídia e os produtos da cultura pop perpetuam e reiteram a violência contra a mulher e a culpabilização da vítima. Ao contrário do que alguns podem pensar, no entanto, essa realidade não é uma característica exclusiva da atualidade, mas sim uma continuação de um passado de banalização e romantização desse tipo de violência.

Primavera, de Botticelli – “À direita na pintura é possível ver Zefiros, a divindade dos ventos, assediando a ninfa Chloris. Segundo narrado por Ovídio em Fastos, Zefiros se casa com Chloris após violentá-la.” (Minas Nerds)

 

O texto “A glamourização do estupro na arte clássica e sua influência na sexualidade atual”, do blog Minas Nerds, demonstra como a romantização do estupro está presente desde os primórdios da arte ocidental:

“Wolfthal conclui sua pesquisa afirmando que a influência do imaginário do estupro heroico na arte clássica se perpetuou até a arte moderna e contemporânea, e insiste na importância de considerarmos as imagens medievais e renascentistas ao analisar produções mais recentes, para um trabalho adequado de contextualização de imagens de violência contra mulheres.”

Ainda é importante ressaltar que o impacto da romantização do abuso faz com que muitos sequer consigam separar e diferenciar o crime de estupro de um ato sexual (aquele em que há consentimento e capacidade de consentir de ambas as partes). Como lembra Nádia Lapa:

Estupro não é sexo. Sexo é a relação consensual entre dois adultos, que sabem exatamente o que estão fazendo, sem haver qualquer coerção para isso. Estupro, por outro lado, não tem como fim o prazer sexual. É um crime de poder, uma forma de controle social, em que a submissão do outro é o que importa. Se fosse questão de excitação e prazer, há incontáveis formas de se atingir o orgasmo. Ninguém precisa obrigar outra pessoa para se satisfazer sexualmente.”

É preciso não perder de vista que vivemos em uma sociedade patriarcal, na qual homens vem subjugando mulheres a sua vontade há séculos através do medo, da violência e também por meio do controle ideológico.

O caso GoT

Esse texto é escuro e cheio de spoilers. (Gif: huffingtonpost)

 

Como não citar Game of Thrones em se tratando de representações para lá de equivocadas (e no mínimo irresponsáveis) de estupro? A produção da HBO é um dos maiores fenômenos da cultura pop da atualidade, batendo o recorde de 10,7 milhões de espectadores em sua sexta temporada, e é constantemente lembrada pela violência de sua trama.

Logo no primeiro episódio na cena da noite de núpcias do casamento de Daenerys, a personagem é despida chorando e colocada de quatro por Khal Drogo. Uma abordagem muito diferente do livro, no qual ela coloca os dedos do Khal dentro dela demonstrando consentir a relação e marcando um momento de transição da personagem, no qual ela começa a retomar o controle de sua vida das mãos de seu irmão abusivo. Uma justificativa levantada por alguns era que essa cena parecia fazer sentido com o que os produtores do programa queriam mostrar: uma Dany ainda frágil, perdida e temerosa nas mãos de um bárbaro desconhecido, e começar seu desenvolvimento daí.

Trecho do livro em questão, julguem por si mesmos:

“Pareceu que se passaram horas antes que as mãos dele se dirigissem por fim aos seus seios. Afagou a suave pele da base até deixá-la num torpor. Rodeou os mamilos com os polegares, beliscou-os entre o polegar e o indicador, depois começou a puxá-los, muito levemente a princípio, depois com maior insistência, até que enrijeceram e começaram a doer. Então parou, e puxou-a para o seu colo. Dany estava corada e sem fôlego, com o coração a palpitar no peito. Ele envolveu seu rosto nas mãos enormes e ela o olhou nos olhos. – Não? – disse ele, e ela soube que era uma pergunta. Tomou-lhe a mão e a dirigiu para a umidade entre as coxas. – Sim – sussurrou ao introduzir o dedo dele dentro de si.”

1. Jaime, aqui não, por favor. 2. Pare, você está arruinando o seu desenvolvimento como personagem! 3. Não está certo! Isso não aconteceu no livro, porra. 4. David Benioff e D.B. Weiss não se importam. 

 

Novamente na quarta temporada temos o estupro da Cersei, que também não existia no livro. Porém, nesse caso ficou bem mais difícil de defender os produtores da série. Muitas fãs inclusive deixaram de assistir a partir desse episódio específico, inclusive uma das administradoras do site Game of Thrones Brasil. Em sua carta de justificativa a redatora do site fez uma importante análise da postura dos produtores da série:

Eu sempre considerei as mulheres como pessoas. 

 

“George R. R. Martin acredita que mulheres são gente, por isso há tantos pontos de vista femininos e complexos em seus livros, enquanto em Game Of Thrones, as mulheres aparecem com objetivo de atrair a atenção do público masculino, que fetichiza esse tipo de violência misógina para servir de pano de fundo do jogo de tronos, que é conduzido pelos homens. Todo mundo sabe que vivemos em um mundo violento, em que mulheres estão sujeitas a todo tipo de crime torpe e cruel. Porém, ao banalizar esse tipo de violência David Benioff, DB Weiss, Bryan Cogman e tantos outros roteiristas e diretores de Game Of Thrones, estão apenas explorando a já conhecida cultura do estupro.”

Quando eu digo ‘não, significa ‘não’. 

 

No episódio, Cersei verbaliza várias vezes que não quer fazer sexo com o irmão, contudo ele não para suas investidas. Mais uma vez, no livro o estupro não existiu. Embora Cersei demonstre achar que aquilo não era exatamente uma boa ideia, eles acabam transando ali mesmo de maneira consensual. O público se posicionou na época e o diretor do episódio chegou a se justificar dizendo a um site que “a cópula do casal se tornou consensual, no fim”. Esse posicionamento fez com que muitas pessoas questionassem a própria compreensão do que é um estupro por parte dos produtores da série.

Coagir alguém a praticar atos sexuais tem nome. É estupro. Porém, infelizmente, desconsiderar o consentimento feminino é algo comum em nossa sociedade. Quantas vezes uma mulher não foi coagida a beijar um cara numa festa porque ele não a deixava em paz, muitas vezes até a impedindo de deixar o local? Quantas vezes uma mulher não estava com vontade de transar com um parceiro mas teve que ceder? Isso não é consentimento, é coerção.

Contudo, desde os primórdios de nossa civilização isso é romantizado, inclusive colocando a resistência feminina como algo nobre e que faz parte da conquista, como mostrou o texto do blog Minas Nerds:

Você sabe como homens são. Eles acham que ‘Não’ significa ‘Sim’ e que ‘Cai fora’ significa ‘Eu sou toda sua’.

 

“O estupro fantasiado de ‘sedução’ […] é exaltado como demonstração de virilidade masculina e triunfo sobre a resistência da mulher. E conseguimos encontrar indícios importantes disso na história da arte, principalmente na arte renascentista e de inspiração clássica, que tem um papel fundamental na formação do imaginário da sociedade ocidental”.

Esse resgate histórico demonstra como expressões de hoje tão utilizadas, como “fazer doce” e a crença de que o ‘não’ feminino é ‘sim’, está enraizada em nossa sociedade. É necessário aqui tangenciar também como a indústria pornográfica contribui hoje para a propagação e banalização da violência sexual, ensinando meninos e homens a obterem prazer na violência contra a mulher, e meninas e mulheres que esse é o tipo de prazer que elas devem buscar.

E com o uso indiscriminado da internet, os jovens têm acesso a essa cultura de violência cada vez mais cedo. Um estudo recente chegou a conclusões alarmantes: um quarto das jovens britânicas de 13 á 17 anos relataram ter sofrido violência física como tapas, socos ou surras do parceiro. Das entrevistadas, 90% disseram serem ativas sexualmente e destas, uma em seis disse ter sido pressionada pelo namorado para ter relações sexuais e uma em 16 disse ter sido estuprada. Mas, esse é um assunto para ser explorado em profundidade em outro texto.

Seguindo com o raciocínio como destacou José Abrão em sua crítica Game of Thrones: a cena que não deveria ter existido, todo o background da deterioração da relação de Jaime e Cercei e a crise de identidade de Jaime por ter se tornado alguém que não queria ser poderia “ser percebida na mesma cena, com sexo consensual”, como foi percebido no livro. Então qual foi a finalidade do estupro? Em sua carta, a redatora do site Game of Thrones Brasil foi direta ao ponto:

“Ao ser usado de forma banal, sem propósito e sem críticas, com um roteiro raso e cheio de falhas, o clichê do estupro como instrumento no roteiro se torna ainda mais problemático em Game Of Thrones. Não há uma única temporada em que a violência contra mulheres não tenha sido usada apenas para desenvolver personagens masculinos. Sexo não é um problema, violência não é um problema, pessoas nuas não é um problema. O público alvo de Game Of Thrones é adulto, sexo e nudez são coisas naturais. O problema está em um roteiro que se apoia em mutilar, estuprar, agredir e violar mulheres sumariamente apenas para desenvolver seus personagens masculinos.”

A redatora ainda aponta que não consegue assistir tal produção despida de seus valores críticos e o que ela enxerga é uma adaptação mal feita da obra de George R. R. Martin, que está sendo “escrita por homens que tem uma visão fetichista e objetificadora de mulheres para um público alvo que pensa da mesma forma”. Afinal, mesmo com tais cenas as audiências de Game of Thrones não deixam de crescer – inclusive muitos advogam que esse tipo de violência faz parte da estética da série.

O que você acha que ele fez?

 

E agora chegamos no terceiro estupro emblemático da série: Sansa Stark. Mais uma vez o estupro não existia nos livros, e desta vez todo o enredo da personagem foi mudado para que essa cena acontecesse. Como foi bem lembrado no texto “O problema do estupro na ficção” do blog Ideias em Roxo, não se tratou de uma relação consentida:

“No sexto episódio da quinta temporada de Game of Thrones, Sansa é estuprada por Ramsay. Não, ela não “aceita”, não é “sexo violento”, é estupro. Ela obviamente não estava consentindo, havia vários indícios no episódio que ela não queria estar ali e que estava apavorada com Ramsay, mas de acordo com certas pessoas (a maioria delas homens cis! Oh! Que surpresa!) não foi estupro porque ela “não lutou” e “eles estavam casados”. Estupro acontece dentro do casamento também, viu? O casamento não é sinônimo de “posso fazer sexo com minha mulher quando eu quiser independente da vontade dela”. Além disso, vocês acham mesmo que Sansa não teria sofrido muito mais se tivesse resistido? Ela sabia disso. E sinceramente, no episódio seguinte quando ela estava toda machucada e infeliz, vocês ainda acham que não era estupro? Sério?”.

Ninguém pode me proteger. Ninguém pode proteger ninguém. 

 

E ainda, além da inserção de uma cena de estupro que não existia (mais uma vez), nem mesmo o protagonismo do sofrimento foi dado a personagem, já que o Theon teve que assistir o estupro da sua irmão de criação, coitado! Mais uma vez a violência sexual contra uma personagem feminina foi usada como desdobrar do enredo de um personagem masculino.

Um outro ponto sobre essa escolha narrativa foi mostrado no texto “Livro x Filme: Sansa Stark e a (des)caracterização que a Levou de Vítima a Assassina”, aqui do Nó de Oito. O texto aborda como a violência sofrida por Sansa foi utilizada para definir a personagem dali em diante:

“O que parece é que os criadores de Game of Thrones são acometidos daquela crença que permeia a cultura pop que diz que estupro faz com que uma personagem feminina fique mais forte e badass. O que não só é absurdo, como não poderia estar mais longe da mensagem que George R.R. Martin nos passa em seus livros. Em As Crônicas de Gelo e Fogo, estupro nunca é algo que leva a empoderamento, e fica muito claro que as raras mulheres empoderadas que foram estupradas em algum momento não devem nada de sua força à violência que sofreram (muito pelo contrário)”.

Uma cultura de violência?

Depois de uma das séries mais aclamadas da cultura pop (senão, a mais aclamada nos últimos anos) utilizar as representações de violência contra a mulher de forma fetichista, banalizada, tirando o protagonismo da vítima e transformando relações consensuais em estupro, qual seria a esperança? Vendo desta forma, os dados alarmantes sobre violência contra a mulher parecem cada vez fazer mais sentido: a nossa cultura aclama a violência – ou pior, está cada vez mais imune a ela.

“Mas vocês tem que colocar o feminismo em tudo? Violência acontece com qualquer um, nossa sociedade é violenta, a cultura pop só reflete isso” – alguns poderiam dizer… Há até um meme com o seguinte texto: “O sexismo de Game Of Thrones é desculpável, porque é baseado em como as coisas realmente são”. Claro, tudo que uma mulher espera é ser estuprada para virar uma personagem fodona…

Em uma interessante reflexão do Blog “HQ não é só para o seu namorado”, Aline Lemos discute como as críticas a essa realidade são encaradas como moralismo e como as escolhas narrativas têm impacto político. A autora ainda questiona a estética do abuso como algo a ser contemplado e destaca como isso contribui negativamente para a distinção do que é abuso e do que é sexo consensual:

“Qualquer crítica, porém, é lida como censura ou moralismo. Acredito que, a essa altura, tenha ficado claro que não se trata de não poder mostrar ou falar sobre algo. As formas com que se escolhe fazê-lo, porém, tem consequências e efeitos diferentes. Ora, um ato de violência sexual deve ser diferenciado de um ato consensual – essa é uma diferença narrativa crucial. Representar um ato de violência sexual como fonte de prazer para o leitor é um reforço a cultura de estupro é uma escolha simultaneamente política e criativa. Não acredito na separação dos méritos artísticos e políticos. A objetificação de mulheres – quer dizer, retratar uma personagem apenas em sua “utilidade” para outro personagem ou para o espectador – é uma prática tão pobre e limitadora narrativamente quanto é desumanizadora. Não há mérito nenhum aí”.

Ligando os pontos

Como em Dom Casmurro, em que Bentinho procura ligar o presente ao passado com o objetivo de “atar as duas pontas da vida”, aqui buscamos mostrar como a utilização da violência contra a mulher – e em particular, o estupro – vem figurando como recurso narrativo desde os primórdios da constituição da nossa cultura, ajudando a construir o cenário atual de banalização desse tipo de violência.

O problema não é mostrar a violência em si, mas sim o modo como ela é mostrada: romantizada, como argumento narrativo para motivar personagens masculinos ou moldar uma nova personalidade de personagens femininos. É urgente que esse assunto seja posto em pauta para que reflitamos como os produtos criativos, e também artísticos, vêm reproduzindo as estruturas de dominação, em vez de questionar e levar a reflexão crítica acerca da realidade.

Dados demonstram que 1 a cada 5 mulheres de até 18 já foi vítima de violência no mundo. A representação adequada das vítimas é importante tanto para gerar empatia e sensibilização do público, quanto para educar sobre o real impacto da violência na vida das vítimas e ainda quais são os procedimentos a se seguir após sofrer algum tipo de violência.

Aqueles que argumentam que os produtos culturais são um espelho da sociedade talvez estivessem mais certos se dissessem que “os produtos culturais são um reflexo distorcido da realidade”. Já que estes propagam justamente estereótipos, tabus, mitos que não são condizentes com a vida real. Além de contribuírem para o reforço desse imaginário baseado em falsas premissas, como a clássica crença que o estuprador é algum desconhecido que te puxa em um beco escuro.

Olhares masculinos

Não é exagero quando constatamos que os produtores de uma série como Game Of Thrones tem uma visão fetichista e objetificadora de mulheres, pois isso está claro em como a obra de Geoge R. R. Martin está sendo adaptada para a televisão. A esmagadora maioria dos filmes, séries, revistas em quadrinhos são produzidos exclusivamente por homens. As personagens femininas são assim criadas a partir de olhares masculinos.

Há estudos que apontam a importância da quantidade de mulheres por trás das câmeras para a criação de personagens femininas melhores e em maior quantidade. Segundo Geena Davis, fundadora do instituto Gênero na Mídia, as mulheres são apenas 7% das diretoras, 13% das roteristas e 20% das produtoras. Contudo, foi descoberto que nas produções que essas profissionais atuam a porcentagem de personagens femininos na tela aumenta, e muitas vezes a complexidade dessas personagens e sua importância nas narrativas também. Assim, podemos supor que melhorar a presença de mulheres compondo os processos criativos ajudaria a quebrar esse ciclo de representações equivocadas, inclusive da violência sexual.

Um momento de reflexão

Entender como a violência como recurso narrativo tem sido usada na nossa cultura ao longo do tempo, e como tem sido explorada para gerar audiência nos dias de hoje, como em Game of Thrones, nos ajuda a ter um panorama melhor do problema e ficar longe de crenças que apontam para a degradação de costumes da atualidade, já que como isso se trata de um processo histórico, não é e não pode ser algo exclusivo do período atual que vivemos.

O hoje é um momento de abertura, onde cada vez mais os questionamentos dos setores subrepresentados na sociedade tem tido espaço para que suas vozes sejam ouvidas. No passado, um texto como este até poderia ser escrito, mas quais seriam as barreiras para ele chegar até você que o lê agora? Tem se conseguido falar sobre pautas que afetam certos grupos e discutir como encontrar soluções e cobrar mudanças. O impacto disso vem sendo percebido a cada dia em pequenas vitórias, mas que não teriam acontecido em outras circunstâncias.

Em pleno 2017 está mais do que na hora que violência sexual pare de ser usada como mero recurso narrativo, um capricho muitas vezes utilizado para chocar sem trazer reflexão e abordar o tema com a complexidade que ele merece e deve ser tratado. Mais uma vez dizemos: não é só um filme. As imagens e histórias que consumimos ajudam a moldar quem nós somos e em que sociedade queremos viver.


Leia também Estupro não Forma Caráter – e Outros 3 Problemas na Representação de Violência contra a Mulher na Cultura Pop; e Livro x Filme: Sansa Stark e a (des)Caracterização que a levou de Vítima a Assassina.