Livro x Filme – Por que Catelyn Stark não pode se Tornar um Zumbi com Coração de Pedra?

Em As Crônicas de Gelo e Fogo, Catelyn Stark continua viva (er, mais ou menos). Por que a Senhora Coração de Pedra foi cortada de Game of Thrones?

catelyn

Contém spoilers das primeiras três temporadas e livros.

Muito que bem, cá estou novamente com mais uma reflexão sobre alguma personagem feminina da literatura que foi transformada para se adequar às expectativas…er…restritas do cinema e da televisão. Como eu expliquei na semana passada, tive a ideia de começar essa série de textos quando percebi que muitas vezes as produções optam por aderir a fórmulas cansativas na adaptação de personagens femininas em obras literárias. Fórmulas baseadas em estereótipos de gênero e invisibilidade feminina.

catelynPor enquanto, já tem texto sobre a Cersei Lannister e a Gina Weasley, veja lá!

 

Bom, essa semana eu resolvi trazer mais uma reflexão sobre algo que, confesso, virou meio que uma obsessão pra mim: Game of Thrones. Se você já acompanha o blog, pode pular esse parágrafo, porque eu vou repetir algo que já disse várias vezes antes: apesar de gostar muito da série, eu fico realmente chocada com a forma como os seus produtores conseguiram passar por cima da mensagem anti-machista e anti-violência da obra de George R.R. Martin para criar um seriado que muitas vezes reforça uma mensagem contrária à original (mesmo que essa não seja a intenção).

Objetificação feminina desenfreada, cenas de violência gratuita sem sentido para a narrativa, estupros mil (também sem sentido para a narrativa), enfim – tudo isso já faz com que a gente levante a sobrancelha lá no alto. O que mais impressiona, no entanto, são as mudanças dos livros para a série na caracterização e trajetória de muitos personagens, que nos mostram que as pessoas responsáveis por Game of Thrones têm algumas concepções de mundo meio problemáticas, tanto em relação a mulheres, como em relação a homens. E a gente precisa falar sobre isso.

Vamos lá!

 

Como eu já falei da Cersei em outro texto, vamos passar para a segunda personagem de As Crônicas de Gelo e Fogo que, na minha opinião, mais sofreu transformações ao ser adaptada para a telinha: Catelyn Stark.

catelynOlha ela aí!

 

Pois bem, se você já leu os livros, ou se acompanha alucinadamente as discussões sobre a série na internet, provavelmente já sabe qual é a mudança mais gritante em relação a matriarca Stark, não é? Sim, estou me referindo ao fato de que, nos livros, Catelyn – tãn, tãn, TÃN – não morreu no Casamento Vermelho.

Quer dizer, minto. Ela morreu, mas uns três dias depois seu corpo foi encontrado perto do rio pelo grupo do Beric Dondarrion, que lhe deu o beijo da vida e a ressuscitou. Só que a ressurreição de Catelyn não foi igual a do Jon Snow, que voltou à vida tão belo e puro como quando se foi. Na verdade, a criatura que ressurgiu tem tão pouca semelhança com a mulher que morreu no Casamento Vermelho que tem até outro nome: Senhora Coração de Pedra.

“Os fora da lei afastaram-se quando ela avançou, sem dizer palavra. Quando abaixou o capuz, algo se apertou no peito de Merrett, e por um momento não conseguiu respirar. Não. Não, eu a vi morrer. Ela esteve morta durante um dia e uma noite antes de despirem-na e atirarem seu corpo no rio. Raymund abriu a garganta dela de orelha a orelha. Ela estava morta.

O manto e o colarinho escondiam o golpe que a lâmina do irmão tinha feito, mas seu rosto estava em estado pior ainda do que ele se lembrava. A carne tornara-se esponjosa na água e tomara a cor do leite coalhado. Metade dos cabelos tinha desaparecido, e o resto ficou tão branco e quebradiço como o de uma velha. Sob o couro cabeludo destroçado, o rosto era feito de pele rasgada e sangue negro, nos locais em que a cortara com as próprias unhas. Mas os olhos eram aquilo que tinha de mais terrível. Os olhos viam-no, e o odiavam.

– Ela não fala – disse o homem grande do manto amarelo. – Vocês, malditos bastardos, cortaram a garganta dela fundo demais para isso. Mas ela lembra-se. – Virou-se para a morta e disse: – O que diz, senhora? Ele participou?

Os olhos da Senhora Catelyn não o deixaram por um instante. Assentiu com a cabeça.

Merrett Frey abriu a boca para suplicar, mas o nó corredio afogou suas palavras. Seus pés deixaram o chão, enquanto a corda cortava profundamente a carne mole por baixo do seu queixo. Subiu, esperneando e torcendo-se, subiu, subiu, e subiu.”

É tudo bem aterrorizante. Desde que foi ressuscitada, a Senhora Coração de Pedra lidera o grupo de Dondarrion, e seu principal objetivo é matar Freys e qualquer pessoa que tenha participado do Casamento Vermelho – tenha ela alguma culpa ou não. Infelizmente, como todos sabem, a personagem foi cortada da série. De acordo com Alex Graves, diretor recorrente na série:

“Bom, ela nunca ia fazer parte. Eu sei que estavam falando bastante na internet, e as pessoas realmente começaram a acreditar que ia. Acho que no fim tinha tanta coisa acontecendo, pelo menos do meu ponto de vista, que não era pra entrar nisso porque, sabe, estamos falando de pegar Michelle Fairley, uma das melhores atrizes atuais, e transformá-la em um zumbi que não fala e sai por aí matando pessoas, qual a melhor maneira de integrar isso na série?”

Esse seria um ponto super válido, acho, se não estivéssemos falando de uma produção que não só inventou duas personagens do zero (Ros e Talisa), como vira e mexe escreve cenas completamente inexistentes em bordéis usando mulheres peladas como decoração. Ah sim, e ainda deu um jeito de adicionar dois estupros de personagens principais que nunca acontecem nos livros (Cersei e Sansa).

Mas que coisinha, não?! 

 

Na verdade, analisando as mudanças de livro para televisão feitas na caracterização e trajetória da Catelyn, eu proponho a teoria de que talvez nunca tenhamos visto a Senhora Coração de Pedra simplesmente porque ela não se encaixa muito bem na construção que David Benioff e Dan Weiss fizeram da personagem.

Pois bem, e quem é Catelyn Stark na série? Bom, Catelyn Stark é acima de tudo uma mãe disposta a tudo para proteger sua família. Quando o rei pede a Ned que deixe Winterfell para ir servi-lo como Mão em Porto Real, Catelyn pede ao marido que não vá. Sua súplica fica ainda mais forte quando eles descobrem que a última Mão foi assassinada, o que colocaria Ned em perigo. Mais tarde, ela se junta ao filho Robb nos seus esforços de guerra contra os Lannister. Ela dá a Robb alguns bons conselhos (“não deixe Theon ir encontrar o pai”; “não quebre seu juramento com os Frey se casando com essa mina nada a ver aí”), mas o que ela realmente quer fazer é voltar para Winterfell, para seus filhos mais novos, Bran e Rickon.

Não zoa com o Walder Frey, moleque. 

 

Ela fica bastante nos arredores de Robb e executa a ideia dele de tentar uma aliança com o Renly. Lá pelas tantas, ela liberta Jaime Lannister com a esperança de conseguir suas filhas de volta, e Robb lhe dá um esporro e a deixa “de castigo” por isso. Na sua cabeça, todas as coisas ruins que acontecem à sua família tem a ver com o fato de ela nunca ter conseguido amar Jon Snow como um filho.

No fim, quando Robb morre, ela morre também e nunca mais aparece (em forma de zumbi, ou de qualquer outro jeito).

Certo. Mas então como é a Catelyn nos livros?, você pergunta. Bom, assim como na série, a função principal de Catelyn em As Crônicas de Gelo e Fogo é a de mãe. George R.R. Martin inclusive a criou pensando nisso. De acordo com ele:

“Bem, eu queria criar uma personagem mãe forte. A representação de mulheres em fantasias épicas tem sido problemática há muito tempo. Esses livros são geralmente escritos por homens, mas mulheres também os leem, em grandes números. E as mulheres na fantasia tendem a ser mulheres muito atípicas…Elas tendem a ser mulheres guerreiras ou princesas rebeldes que se recusam a aceitar o que seus pais ditam, e eu tenho esses arquétipos nos meus livros também. Mas com Catelyn tem algo a se resgatar de Leonor d’Aquitânia, a figura da mulher que aceitou seu papel e suas funções em uma sociedade restrita e mesmo assim consegue exercer um poder, influência e autoridade consideráveis, embora aceitando os riscos e limitações dessa sociedade. Ela é também uma mãe…então, uma tendência que se vê muito em outras fantasias é a de matar a mãe e retirá-la de cena. Ela está normalmente morta antes que a história comece.”

A diferença, no entanto, entre os livros e a série é que Martin coloca Catelyn no centro da narrativa (ela é um personagem de ponto de vista, e é através dela que acompanhamos todo o arco do Robb) e cria uma mãe com todas as nuances e contradições que faria sentido ou seria esperado de uma personagem na situação de Catelyn. E acima de tudo, ele não aniquila outras partes da personagem para favorecer uma versão estereotipada do que supostamente se entende sobre mulheres e maternidade.

Martin nos oferece um amplo entendimento de Catelyn – sua história, sua relação com sua família Tully, sua relação com Ned, seus medos, anseios, resoluções, intuições, ideias e valores. E como uma personagem complexa, que não é de forma alguma limitada por sua maternidade, a Catelyn dos livros faz algumas coisas de forma bem diferente da Catelyn da série.

Em primeiro lugar, logo no começo, ela não implora ao marido que fique em Winterfell. Pelo contrário – é ela quem precisa convencê-lo a ir para Porto Real, pois teme uma represália por parte do rei e dos Lannisters caso Ned recuse. Já aí Catelyn demonstra que tem uma grande capacidade de prever as consequências de determinados atos. Às vezes parece que não – como quando ela captura Tyrion -, mas mesmo nessa situação ela tomou a melhor decisão possível naquelas circunstâncias. Se não tivesse capturado o anão, sua viagem secreta teria sido descoberta de qualquer jeito, e Ned correria um perigo ainda maior se ela não tivesse um Lannister como refém.

Mais tarde, com Robb, Catelyn faz uma previsão certa após a outra e se torna a voz mais sensata naquele bando, embora infelizmente não a mais ouvida. Quando Ned é morto, ela é a única que tenta alertar a todos para a futilidade daquela guerra, para o caminho sem volta que é o da vingança. Mais tarde, Robb manda Theon às Ilhas de Ferro contra seu conselho; Edmure dá batalha a Tywin também contra o seu conselho; e Robb pára de manter Vento Cinzento perto de si, mesmo que ela o avise do perigo que isso representa – três ações que, como sabemos, têm consequências desastrosas.

Ao contrário do que acontece na série, é ela também quem tem a ideia de tentar se aliar a Renly, e tenta convencê-lo e a Stannis a fazerem a paz um com o outro (mas ambos estão ocupados demais competindo pra ver quem mija mais longe para dar ouvidos à razão). E é importantíssimo notar também que Catelyn nunca se lamenta ou se culpa por nunca ter sido capaz de amar o bastardo Jon Snow como um filho.

“É tudo porque eu não consegui amar uma criança sem mãe.” What? 

 

Mas a mudança mais gritante pra mim na Catelyn dos livros para a da série tem a ver com a soltura de Jaime Lannister. Enquanto na série ela o solta porque teme que os homens de Robb possam matá-lo (e isso seria o fim para suas filhas), nos livros ela só toma essa decisão depois que recebe a notícia de que Bran e Rickon estão mortos. Entendemos perfeitamente as motivações de Catelyn nessa hora, pois fica muito claro então tudo que ela vinha dizendo até aquele momento: que os mortos não vão voltar e que o único saldo possível de se continuar lutando é mais morte.

Ela então decide racionalmente fazer a única coisa que pode: soltar Jaime, apostando na palavra de Tyrion para soltar suas filhas. Sua estratégia não deu certo, e foi talvez um erro confiar em Jaime, mas foi um erro decorrente de uma linha de raciocínio completamente compreensível (desencadeada pela suposta morte de Bran e Rickon). E o que eu acho mais interessante é que, nos livros, é Robb quem age de forma mais “irracional”. Depois que fica sabendo das notícias sobre os irmãos, ele é “consolado” por uma garota de uma Casa qualquer que havia conquistado. Em um paralelo interessante com seu pai, Robb então decide não desonrá-la e se casa com ela, traindo Walder Frey.

Ah, Robb…

 

Por isso o esporro e castigo que ele dá na mãe na série (sem contar a romantização de seu casamento) nunca chega a acontecer nos livros. Robb inclusive dá um jeito de igualar os dois atos – a soltura de Jaime, e a sua traição do acordo com Walder Frey – para não levar esporro de Catelyn.

“- Basta. – Durante apenas um instante, Robb soou mais como Brandon do que como o pai. – Nenhum homem chama a senhora de Winterfell de traidora ao alcance de meus ouvidos, Lorde Rickard. – Quando se virou para Catelyn, sua voz suavizou-se. – Se pudesse voltar a acorrentar o regicida com a força do desejo, faria isso. A senhora o libertou sem o meu conhecimento ou consentimento…mas sei que fez por amor. Por Arya e Sansa, e por pesar por Bran e Rickon. Já aprendi que o amor nem sempre é sensato. Pode nos levar a grandes loucuras, mas seguimos nosso coração…até onde quer que nos leve. Não seguimos, mãe?

Foi isso que fiz? [pensa Catelyn] (…)

Por todos esses motivos, é tão incrível o fato de Catelyn Stark virar a Senhora Coração de Pedra. Porque nessa transformação, causada pela contínua violência que ela e todos aqueles que ela amava foram sofrendo com o desenrolar da guerra, ela se torna tudo aquilo que mais desprezava e temia. Essa é, inclusive, a grande mensagem de As Crônicas de Gelo e Fogo, que continuamente nos mostra como a guerra é capaz de transformar até a melhor das pessoas em monstros.

Infelizmente, perdemos tudo isso na série porque essa transformação simplesmente não faria sentido para a Catelyn que foi construída na televisão. Assim como aconteceu com Cersei, os produtores, acometidos de uma espécie de machismo-benevolente-idealizador-de-mães, acabaram criando uma versão idealizada e bastante incompleta de Catelyn.

Consequentemente, ela foi sendo deixada às margens (na terceira temporada até Shae e Theon tem mais tempo em cena do que ela). Afinal, mães raramente ocupam o centro, não é? Não importa que Martin tenha subvertido essa expectativa e a colocado exatamente nessa posição em seus livros – na série, Catelyn tem seu papel reduzido e todas as escolhas e subjetividades que fazem ela ser quem é e seguir a trajetória que segue foram ignoradas.

Infelizmente, uma grande perda.


Leia também: A Farsa de Cersei Lannister e o Mito da Mulher-Mãe; e Livro x Filme: O Horror que foi a Adaptação de Gina Weasley para o Cinema. 


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