Livro x Filme: Sansa Stark e a (des)caracterização que a Levou de Vítima a Assassina

A transformação de Sansa traz novamente à tona a lógica Violência = Poder que a série reforça de uma forma ou de outra temporada após temporada.

sansa

*Contém spoilers de todos os livros e temporadas. 

Dando sequência na nossa série de textos Livro x Filme sobre as mudanças que personagens femininas da literatura sofrem quando são adaptadas para as telas, eis que trago uma reflexão sobre ninguém menos que Sansa Stark.

Sim, eu sei que estou monotemática e que dos outros três textos da série, dois são sobre personagens de Game of Thrones. Mas entenda, todos os cinco livros juntos têm mais de 3000 páginas! Seria um desperdício tirar esses toletes da prateleira para analisar só um personagem. Então resolvi já aproveitar e escrever sobre todas as personagens cuja adaptação me incomoda, pra ser prática. Ok, tem também o fato de eu estar obcecada por Game of Thrones. Mas a razão principal é que eles são muito pesados mesmo, cara!

Eu a cada novo texto.

 

Mas de verdade, a adaptação de As Crônicas de Gelo e Fogo para a telinha é um prato cheio para uma jornada como essa, porque a série acaba endossando muito das opressões e violências do mundo que retrata ao ignorar elementos que permitem que Martin as critique com sucesso em seus livros. Um desses elementos, surpresa!, é a forma como ele constrói seus personagens.

sansaInfelizmente, frequentemente ele precisa matar esses personagens.

 

As Crônicas de Gelo e Fogo são divididas por capítulos de ponto de vista. Isto é, cada acontecimento é narrado a partir do ponto de vista de um dos personagens principais. Essa estrutura de narrativa é importante não só porque nos permite ter um amplo conhecimento sobre o que se passa na cabeça de cada personagem, mas também porque traz uma implicação pra lá de significativa: o ponto de vista sob o qual um acontecimento nos é apresentado importa. E importa principalmente porque nos ajuda a entender como os acontecimentos afetam os personagens e como eles se adaptam e se desenvolvem a partir deles.

É com isso em mente que eu quero trazer a primeira grande mudança entre a Sansa-livro e a Sansa-série: o início definitivo do seu relacionamento com Sandor Clegane, o Cão de Caça.

“‘Havia um braseiro na sala. Gregor não disse uma única palavra, limitou-se a me colocar debaixo do braço e a enfiar o lado da minha cara nos carvões em brasa, deixando-me lá enquanto eu gritava sem parar. Viu como ele é forte. Mesmo naquele tempo, foram preciso três homens fortes para afastá-lo de mim. Os septões pregam sobre os sete infernos. Que sabem eles? Só um homem que já tenha sido queimado sabe realmente como é o inferno. Meu pai disse a todos que meus cobertores tinham pegado fogo, e o nosso meistre nos deu unguentos. Unguentos! Gregor também recebeu seus unguentos. Quatro anos mais tarde, ungiram-no com os sete óleos, recitou seus votos de cavaleiro e Rhaegar Targaryen bateu em seu ombro e disse: ‘Erguei-vos, Sor Gregor.’

A voz áspera extinguiu-se. Ficou acocorado em silêncio na frente dela, uma pesada silhueta negra envolta na noite, escondido de seus olhos. Sansa ouvia a respiração irregular do homem. Compreendeu que se sentia triste por ele. De algum modo, o medo tinha desaparecido.

O silêncio prolongou-se durante muito tempo, tanto que começou de novo a sentir medo, mas agora seu medo era por ele, não por si própria. Encontrou o massivo ombro dele com a mão.

– Ele não era um verdadeiro cavaleiro – sussurrou-lhe.”

Antes de toda a merda atingir o ventilador na vida dos Stark, Sansa teve essa interação pra lá de significativa com o Cão de Caça, um homem que a aterrorizava por prazer ao mesmo tempo que a protegia, do seu próprio modo bruto. Essa conversa é importante não só porque nos dá um vislumbre da vulnerabilidade de Sandor Clegane, mas também porque é a primeira vez que Sansa é obrigada a sair de seu mundo de fantasia povoado por cavaleiros galantes e belas princesas. É a primeira vez que ela rompe com sua ilusão infantil sobre as pessoas e precisa reconhecer que aparência não dita caráter. E é a primeira vez que temos realmente uma noção de como ela é empática e tem a capacidade de se sentir triste e dizer palavras gentis até mesmo para quem lhe mete o terror.

Depois disso, o Cão de Caça está sempre presente de alguma forma nos capítulos de Sansa, seja em pessoa ou em seu pensamento. Apesar de nunca ter deixado de aterrorizá-la, ela logo aprende que ele é um dos seus únicos aliados na Fortaleza Vermelha, alguém que a protege sempre que possível, mesmo que lhe dirija palavras duras e sarcásticas que a fazem se envergonhar de sua ingenuidade e questionar suas crenças.

A série, por outro lado, apesar de ter construído uma relação entre Sansa e Clegane, pecou ao eliminar a interação acima do roteiro. Sansa é uma personagem difícil de adaptar porque 90% dos seus capítulos acontece dentro da sua cabeça – primeiro, porque a cortesia faz com que ela raramente fale o que realmente quer; e depois porque sua sobrevivência depende de ela fazer e dizer apenas o que querem que ela diga e faça.

Sou leal ao Rei Joffrey, meu único amor. 

 

Por isso, ao mudar o ponto de vista da história do Cão de Caça fazendo com que ela fosse contada à Sansa pelo Mindinho e se tornasse um recurso de caracterização somente de Clegane, a série perdeu uma oportunidade de ouro de mostrar ao público quem ela é e como as coisas a afetam. Essa ausência é ainda pior quando percebemos que ao longo das duas primeira temporadas, a série parece retratar Sansa quase 100% do tempo apenas reagindo aos acontecimentos à sua volta, o que não nos permite ter uma noção muito clara do desenvolvimento da personagem.

Enquanto isso, nos livros, temos amostras constantes da força de sua empatia, de sua apurada percepção sobre as pessoas e sua situação, de sua resistência, e dos questionamentos e mudanças que operam dentro dela.

“Obrigou-se agora a olhar para aquele rosto, olhar realmente. Era uma cortesia, e uma senhora nunca podia se esquecer das cortesias. A pior parte não são as cicatrizes, nem sequer a maneira como a boca se retorce. São os olhos. Nunca tinha visto olhos tão cheios de ira.” 

“- Ajudem-no – ordenou Sansa a dois dos criados. Um deles limitou-se a olhá-la e fugiu, com o jarro de vinho e tudo. Outros criados também saíam do salão, mas ela não podia impedi-los. Juntos, Sansa e um criado puseram o cavaleiro ferido em pé. – Leve-o ao meistre Frenken –  Lancel era um deles, mas de algum modo ainda não conseguia desejar que morresse. Sou branda, fraca e burra, tal como Joffrey diz. Devia estar matando-o e não ajudando.” 

“- Outra lição que devia aprender, se tem esperança de se sentar no trono ao lado de meu filho. Se for branda numa noite como esta, terá traição estourando por toda a sua volta, como cogumelos depois de uma chuva forte. A única maneira de manter seu povo leal é assegurando-se de que a temem mais do que ao inimigo. 

– Vou me lembrar, Vossa Graça – Sansa respondeu, se bem que sempre tivesse ouvido dizer que o amor era um caminho mais seguro para a lealdade do povo do que o medo. Se chegar a ser uma rainha, farei com que me amem.” 

“- Tem alguma ideia do que acontece quando uma cidade é saqueada, Sansa? Não, não pode ter, não é? Tudo o que sabe da vida aprendeu com os cantores, e há uma escassez muito grande de boas canções de saque.

– Verdadeiros cavaleiros nunca fariam mal a mulheres e crianças.  – as palavras soaram-lhe ocas logo no momento em que as proferia.” 

“Venha esta noite ao bosque sagrado se quiser ir para casa.

As palavras na centésima leitura eram as mesmas que tinham sido na primeira, quando Sansa descobriu a folha de pergaminho dobrado debaixo do travesseiro.(…)

O que aquilo poderia significar? Deveria levar a mensagem à rainha para provar que estava sendo boa?” 

Momentos como esses – momentos que mostram Sansa em uma posição diferente da de vítima – fazem muita falta na série, e essa persistente ausência se torna ainda mais sentida na terceira temporada, quando a personagem dá a primeira grande guinada para longe de sua contraparte literária.  

Nesse momento, Sansa é liberada do compromisso de se casar com Joffrey, e com os Tyrell surge a possibilidade de finalmente escapar de Porto Real através de um casamento. Na série, seu pretendente é Loras, mas nos livros Sansa se torna secretamente prometida a Willas Tyrell, um irmão de Loras e Margaery que ela não conhece porque ele não pode sair de Jardim de Cima, devido a uma deficiência física. A antiga Sansa talvez tivesse um problema com isso, mas tendo vivido tudo o que viveu em Porto Real e aprendido que aparência não quer dizer nada, Sansa se permite ficar feliz com o arranjo.

Mesmo assim, esse não é um período mais tranquilo para ela. Ela ainda sofre com a perda de sua família, os abusos de Joffrey e os perigos de suas idas frequentes para o Bosque Sagrado, a fim de tramar sua fuga de Porto Real com Sir Dontos (nos livros, somente depois que ela foge é que descobre que Mindinho estava por trás de tudo).

Por isso, a forma como ela é retratada na série nessa fase causa muito estranhamento, porque vemos ela rindo com Margaery e se encantando com Loras, mesmo ele lhe demonstrando tão pouco interesse. Aliás, o seu comportamento com Loras é bem problemático, porque descarta uma de suas principais características nos livros: a facilidade com que ela saca as pessoas. Só para ter uma noção da diferença, essa é uma interação que Sansa tem com Loras nessa fase:

“- Eu me lembro – disse Sansa. – Cavalga maravilhosamente, sor.

– A senhora é amável por dizer tal coisa. Quando foi que me viu montar?

– No torneio da Mão, não se recorda? Montou um corcel branco, e sua armadura era feita de uma centena de diferentes espécies de flores. Você me deu uma rosa. Um rosa vermelha. Nesse dia atirou rosas brancas às outras mulheres. – Falar daquilo fazia-a corar. – Disse que nenhuma vitória possuía sequer metade da minha beleza.

Sor Loras dirigiu-lhe um sorriso modesto.

– Disse apenas uma verdade simples, que qualquer homem com olhos pode ver.

Ele não se lembra, compreendeu Sansa, sobressaltada. Está só sendo gentil comigo, não se lembra de mim, da rosa ou de qualquer outra coisa.”

Cada vez mais desconfortável, ela dá um fora atrás do outro, até que decide simplesmente ficar quieta para não passar mais vergonha. Sansa sabe que Loras não tem interesse nenhum nela.

Mas o seu comportamento bizarro com a Margaery e o Loras na série quase passa despercebido quando comparado com outra interação totalmente transformada na telinha: o seu casamento com Tyrion.

A Kylie, do tumblr GoT Gifs & Musings, gosta de falar que a Sansa pode ser definida por seus pequenos atos de resistência, e eu concordo bastante com ela. Na primeira e segunda temporadas, a série até traz isso em vários momentos.

Dizem que meu irmão Robb luta onde a batalha é a mais feroz. – Sansa zoando com a cabeço com o Joffrey.

 

Mas na terceira vemos que o seu maior pequeno ato de resistência em Porto Real foi completamente cortado da trama, quando ela voluntariamente se ajoelha em seu casamento com Tyrion.

Deixa eu refrescar a sua memória. Durante a cerimônia, Tyrion precisa jogar um manto sobre os ombros de Sansa. Só que ele é um anão, ela é alta pra caramba, e o bocó do Joffrey deu um sumiço no banquinho que o tio ia usar para cumprir o seu dever. Depois de um momento de embaraço, ele balbucia para Sansa se ajoelhar e ela, sem hesitação, simplesmente se ajoelha.

A Sansa-livro faz diferente. Em primeiro lugar, nos livros Sansa é pega completamente de surpresa por esse casamento – ela é informada que vai se casar com o Lannister literalmente no dia da cerimônia. Então Sansa vê de repente todos os seus planos de se livrar dos Lannister e de Porto Real descerem pelo ralo e obviamente não fica nem um pouco feliz de se unir à família que acabou com a sua. Por mais gentil que Tyrion seja, ele ainda assim é um Lannister.

Por isso é totalmente compreensível que Sansa resista de alguma forma na sua cerimônia de casamento. Essa é a maneira que ela vê como:

“O manto de noiva que segurava era enorme e pesado, de veludo carmesim ricamente trabalhado com leões e debruado de cetim dourado e rubis. Mas ninguém havia se lembrado de trazer um banco, e Tyrion era meio metro mais baixo do que sua noiva. Quando ele se colocou atrás dela, Sansa sentiu um forte puxão na saia. Ele quer que eu me ajoelhe, compreendeu, corando. Ficou mortificada. Não deveria ser assim. Sonhara mil vezes com seu casamento, e em todas elas imaginara o modo como seu noivo ficaria atrás dela, alto e forte, envolveria majestosamente seus ombros com o manto de sua proteção, e a beijaria ternamente no rosto ao debruçar-se para frente, a fim de lhe prender o broche.

Sentiu outro puxão na saia, mais insistente. Não farei isso. Por que devo poupar os sentimentos dele, quando ninguém se preocupa com os meus? (…)

Ela finge não perceber os puxões que Tyrion dá em sua saia, e seu noivo tem então de subir nas costas do bobo para colocar o manto sobre seus ombros, para diversão geral dos convidados.

Quando Sansa se virou, o homenzinho fitava-a, de boca contraída, com o rosto tão vermelho quanto seu manto. De repente, sentiu-se envergonhada por sua teimosia. Alisou as saias e ajoelhou-se diante de Tyrion, para que as cabeças ficassem no mesmo nível.”

Acho importante ressaltar que apesar de ter todos os motivos do mundo para não ceder e ajoelhar, Sansa ainda assim se sentiu envergonhada pela humilhação que causou a Tyrion. Mais uma mostra de sua empatia e do tipo de pessoa que ela é.

Mas na série ela ajoelha, e mais tarde cede à simpatia de Tyrion e até faz piada com ele, o que é definitivamente bem distante do que acontece nos livros.

sansaPodíamos colocar coco de ovelha na cama deles. WTF

 

Da cerimônia de casamento, sua noite de núpcias, até a sua fuga, Sansa nunca deixa Tyrion se aproximar, porque nunca perde de vista que o seu casamento nada mais é do que uma prisão permanente, e o seu marido é também seu inimigo.

“Privada do cenário que atravessavam, escolheu fitar as mãos dobradas, desconfortavelmente consciente dos olhos desiguais do marido. Por que ele está me olhando dessa maneira?

– Amava tanto seus irmãos como eu amo Jaime.

Será isso alguma armadilha Lannister para me levar a proferir traições?

– Meus irmãos eram traidores, e partiram para a sepultura de traidores. É traição amar um traidor. (…)

– A senhora sua mãe acusou-me uma vez…bem, não vou enchê-la com detalhes sórdidos. Acusou-me falsamente. Nunca fiz mal a seu irmão Bran. E não lhe quero nenhum mal.

O que ele quer que eu diga?

– É bom saber, senhor. – Ele queria algo dela, mas Sansa não sabia o que era. Parece uma criança esfomeada, mas não tenho comida para lhe dar. Por que não me deixa em paz?

Todas essas mudanças dos livros para a série, apesar de parecerem pequenas, fazem um enorme desserviço para a personagem, porque privam o público de entender quem ela é e de identificar exatamente quais são as suas maiores qualidades: empatia, intuição, percepção aguçada, e a capacidade de se fazer invisível e insignificante por trás de uma máscara de cortesia. Qualidades que permitem que ela sobreviva e navegue no jogo dos tronos bem o suficiente para começar a jogá-lo.

Algo que acontece também na série, mas é atribuído ao uso de sua sexualidade.

 

Essas mudanças, no entanto, não são nada comparadas com o que acontece com o arco de Sansa na sequência. Ao invés de ficar disfarçada como filha bastarda do Mindinho e participar dos seus planos para herdar o Vale e posteriormente tirar Winterfell dos Bolton, Sansa é enviada diretamente para Ramsay Bolton como noiva, assumindo o papel que nos livros cabe à personagem Jeyne Poole.

Isso não faz sentido por muitos, mas muito motivos mesmo, mas para não ficar aqui enumerando até amanhã, vou focar somente em um: casar Sansa com Ramsay significou um enorme retrocesso no seu processo de recuperação de autonomia, que até que vinha acontecendo de forma constante até aquele momento, apesar dos pesares.    

De repente, vemos Sansa novamente no papel de vítima, como um novo receptáculo para os abusos e violências de Ramsay. Tanto que no final da quinta temporada, a mesma garota que conseguiu sobreviver a duras custas ao longo de tanto tempo está disposta a morrer nas mãos de Myranda.

sansa– Se vou morrer, que aconteça quando ainda resta um pouco de mim. – Morrer? Quem falou em morrer?

 

Depois disso, vocês já sabem: Sansa consegue escapar com Theon, encontrar Jon Snow e se tornar do nada uma Personagem Fodástica™,  que reúne um exército inteiro na surdina para recuperar Winterfell. O que, como muitos outros fãs já notaram, teria feito muito mais sentido se ela nunca nem tivesse saído do Vale.

Por que, então? Por que Sansa foi arrancada de sua trama no Vale simplesmente para ser estuprada por Ramsay?

O que parece é que os criadores de Game of Thrones são acometidos daquela crença que permeia a cultura pop que diz que estupro faz com que uma personagem feminina fique mais forte e badass.

O que não só é absurdo, como não poderia estar mais longe da mensagem que George R.R. Martin nos passa em seus livros. Em As Crônicas de Gelo e Fogo, estupro nunca é algo que leva a empoderamento, e fica muito claro que as raras mulheres empoderadas que foram estupradas em algum momento não devem nada de sua força à violência que sofreram (muito pelo contrário).

Sobre isso, tem uma interação que eu acho bem representativa da mensagem dos livros sobre estupro, que acontece entre Tyrion e uma escrava sexual em Volantis:

“Rolou de lado e se sentiu mais envergonhado do que satisfeito. Isso foi um erro. Que criatura miserável me tornei.

– Você conhece uma mulher chamada Tysha? – perguntou, enquanto olhava a semente escorrendo para fora dela até a cama. A puta não respondeu.

– Você sabe para onde as putas vão? – Ela não respondeu novamente. As costas dela eram cobertas de cicatrizes. Esta garota é como morta. Acabo de foder um cadáver. Até os olhos dela pareciam mortos. Ela não tem forças nem para me odiar”.

Enquanto isso, na série, vemos Sansa se tornar uma força da natureza depois que é estuprada, motivada por uma fome de vingança totalmente incoerente com a personagem. E o pior: a situação culmina numa cena em que ela exerce finalmente sua vingança da forma mais horrível possível.

Olha, eu não vou fingir que não vibrei quando Ramsay morreu, por motivos óbvios. Mas não dá para ignorar o fato de que aquela mulher que ficou olhando os cachorros devorarem o rosto de um homem e saiu sorrindo tem pouquíssima semelhança com Sansa Stark. Sansa é a pessoa que se sentiu triste pelo Cão de Caça, que ajudou Lancel quando ele foi ferido, e que mesmo quando Joffrey morreu, sentiu mais do que somente alívio e alegria.

“Longe, do outro lado da cidade, um sino começou a repicar. Sansa sentiu como se estivesse num sonho.

– Joffrey está morto – disse às árvores, para ver se isso a acordaria.

Não estava morto quando ela tinha abandonado a sala do trono. Mas estava de joelhos, arranhando a garganta, rasgando a própria pele enquanto lutava para respirar. A cena havia sido terrível demais para observar, e ela virou-se e fugiu, soluçando. A Senhora Tanda também tinha fugido.

– Tem um bom coração, senhora – disse para Sansa. – Não é qualquer donzela que choraria assim por um homem que a pôs de lado e a casou com um anão.

Um bom coração. Eu tenho um bom coração. Um riso histérico subiu por sua garganta, mas Sansa sufocou-o. Os sinos tocavam, lentos e fúnebres. Ressoando, ressoando, ressoando. Tinham tocado da mesma maneira pelo Rei Robert. Joffrey estava morto, estava morto, ele estava morto, estava morto, morto, morto. Estava chorando por quê, se o que queria era dançar?”

Mesmo com Joffrey, um cara que a torturou incansavelmente, Sansa foi capaz de ficar abalada pela forma horrível que ele morreu, a ponto de misturar em seu sonhos a sua imagem com a de seu irmão Robb.

“Naquela noite, Sansa quase não dormiu; em vez disso agitou-se e virou-se como fizera a bordo do Rei Bacalhau. Sonhou com a morte de Joffrey, mas quando ele arranhou a garganta e o sangue escorreu por seus dedos, Sansa viu com horror que era o irmão Robb.”

Por isso, igualar Sansa a Ramsay, fazendo com que ela sentisse prazer com a morte horrenda que ele sofreu é bastante incoerente. Simplesmente cortar a cabeça do dito cujo seria tão satisfatório quanto, e não custaria a caracterização inteira de uma personagem (ou mesmo de dois, já que Jon também devia saber dos cachorros). Acho importante lembrar que Jon e Sansa são filhos de Eddard Stark, um cara pra lá de justo e correto, e que o seu senso de justiça foi herdado por seus filhos.

“- Assustar gente o alegra?

– Não, o que me alegra é matar gente – sua boca retorceu-se. – Enrugue a cara o quanto quiser, mas poupe-se dessa falsa piedade. É cria de um grande senhor. Não me diga que Lorde Eddard Stark de Winterfell nunca matou um homem.

– Era o seu dever. Nunca gostou de fazê-lo.”

Mas mais ainda do que ser incoerente, a transformação de Sansa em uma assassina vingativa e o fato disso representar o ápice de seu empoderamento traz novamente à tona a lógica Violência = Poder que a série reforça de uma forma ou de outra temporada após temporada (mesmo que isso seja o oposto da mensagem que os livros trazem). Felizmente, nessa última temporada, tivemos menos desse reforço por causa de várias outras situações e personagens, mas no caso de Sansa a vitória é amarga porque se por um lado ela não se viu presa a cansativos estereótipos femininos, por outro suas ações se encaixam no outro extremo disso. 

Em outro texto eu manifestei preocupação por personagens como Arya e Cersei, por causa dos atos de extrema violência que elas praticaram nessa última temporada e pelo fato de Martin normalmente punir esse tipo de comportamento em seus livros. Agora pensando, deveria ter incluído também Sansa e Daenerys. Mas a verdade é que a série se distanciou tanto dos livros, e parece ser motivada por ideais e concepções de mundo tão diversas, que é bem provável que os roteiristas tenham incluído os atos de barbárie na trajetória dessas mulheres justamente porque acreditam que é esse o tipo de coisa que faz com que uma personagem feminina seja fodástica.

De certa forma, é aquele velho ideal machista. Para ser foda, seja como um homem, sendo que ser como um homem significa ser violento e conseguir as coisas pela força ou pela lógica da guerra (de acordo com a nossa ideia tóxica de masculinidade). Claro que existe valor nessa inversão, principalmente porque o fato de mulheres também usarem a lógica da Violência = Poder com sucesso nos mostra que não é preciso ser homem para jogar por essas regras. Mas ao mesmo tempo, é triste que Sansa tenha sido jogada nesse balaio, porque é muito claro que ela foi escrita por Martin como um contraponto a isso, mostrando ao leitor o valor e a efetividade de qualidades normalmente desprezadas como empatia, intuição, percepção e pensamento analítico.

Não à toa escrevo sobre a Sansa depois de escrever sobre sua mãe, Catelyn. Apesar de bastante diferentes uma da outra, ambas são personagens que se distanciam bastante da lógica westerosi de empoderamento e que mesmo assim resistem, persistem e conseguem exercer alguma influência. Ambas sofreram mudanças enormes na sua adaptação para as telas, assim como a maioria das personagens femininas em Game em Thrones (e masculinos também, diga-se de passagem). Sim, vai ter mais textão. As próximas na lista? As Serpentes de Areia.

sansa

Que o Universo me ajude, que esse vai dar gastura.


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