De Sonsa a Sansa: Como Fomos Criadas para Odiar Sansa Stark

Odiávamos Sansa por ver ali escrachado na nossa frente a caracterização da mulher padrão. Um dia fomos Sansas. E hoje sabemos.

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Aviso: Contém spoilers dos últimos episódios de Game Of Thrones!

Eu duvido muito que, como fã de Game of Thrones, você já não tenha odiado nem que seja um pouquinho a personagem Sansa, vivida por Sophie Turner, uma das sobreviventes da casa mais amada da série, os tão sofridos Starks.

Sansa, uma menina extremamente sensível e feminina, criada pela mãe e família como uma flor frágil e bela, que deveria seguir fielmente submissa e delicada para arranjar um casamento que favorecesse sua casa. Ao contrário de sua irmã, a tão amada e idolatrada Arya Stark, Sansa não tinha habilidades ou aptidões para atividades “tipicamente masculinas”. Sansa bordava muito bem, falava muito bem, mas não manejava espadas, brincava de luta ou coisas do tipo. Sansa era uma menina padrão, criada para ser uma mulher padrão e só. Com uma criação do tipo, Sansa se mostrava mais superficial a nós, espectadores. Almejava o casamento dos sonhos com algum homem poderoso e se preocupava com questões simples como vestidos e tranças no cabelo. O motivo? Bom, nunca lhe apresentaram outra alternativa.

Isso te lembra alguma coisa? Lembra que desde pequenas nos ensinam que precisamos, como mulheres, ser lindas? As mais belas? Nos ensinam que precisamos nos encaixar nesse modelo padrão para que possamos conseguir um bom casamento, com um bom homem de status, e boa situação financeira. Eu duvido muito que você nunca tenha ouvido frases como “tem que aprender a cozinhar pra casar” ou “desse jeito nunca vai arrumar um homem que te queira“. Sansa sempre ouviu isso. E por questão de sobrevivência, ela entendeu que era esse seu papel.

Vamos aos fatos:

A verdade é que costumamos achar (na nossa inocência e machismo enraizado) que seríamos guerreiras natas como Arya. E posso lhe dizer, moça: não seríamos. Seríamos SANSAS.

Somos, na grande maioria, criadas como Sansas. Nós somos criadas para almejar casamentos e parceiros, status social, beleza, “habilidades femininas” e só. Somos criadas para sermos Sansa e por muito tempo acreditamos que não passávamos disso e que não podíamos passar.

Então por que a odiávamos tanto?

Ao mesmo tempo que somos criadas para obedecer a essa cartilha pronta sobre o que é ser mulher, as mesmas características que nos impõem são desvalorizadas pela sociedade. Nos dizem que precisamos ser delicadas e belas, mas tratam mulheres delicadas como frágeis e incapazes, e mulheres bonitas como fúteis e burras. Ao mesmo tempo que nos exigem habilidades na cozinha, na costura e em atividades semelhantes, nos resumem a apenas isso, fazendo com que acreditemos que não podemos ser tão brilhantes em outras áreas. Ao mesmo tempo que nos impõem a pureza e a busca pelo casamento com um homem de status e dinheiro, nos tratam e categorizam como interesseiras ou preguiçosas. A verdade é que as características “femininas” são e sempre foram DESVALORIZADAS e LIMITADAS. Ser feminina é obrigatório e ser subestimada por isso vem no pacote.

Odiamos Sansa porque ela faz parte desse combo de exigências que lá no fundinho sabemos bem que às vezes ainda seguimos e almejamos. Que os erros e escolhas não nobres da bela Stark são analogias de erros e escolhas erradas que podemos cometer ou já cometemos. A inversão de valores em prol do que nos é tão cobrado é real. Odiávamos Sansa por ver ali escrachado na nossa frente a caracterização da mulher padrão. Um dia fomos Sansas. E hoje sabemos.

Amamos Arya porque nos disseram que características dela são masculinas e que somente as habilidades categorizadas assim são as que tem valor. Nos disseram, nos dizem, e nós às vezes, seguimos acreditando.

Por que estamos amando a nova fase de Sansa?

Seríamos Sansas atualmente também. Porque somos sobreviventes e nos identificamos como tal. Seríamos Sansa porque ao longo dos anos (e da série) entendemos que nosso lugar e missão no mundo é muito maior do que nos ensinaram. Que podemos fazer muito mais do que nos limitaram a fazer e que podemos SIM chefiar famílias, ganhar batalhas, sermos estrategistas. Aprendemos, assim como SANSA que não precisamos e nem vamos nos calar. Aprendemos com Sansa que não precisamos segurar espadas para ganhar uma guerra. E que tudo bem ser feminina e poderosa ao mesmo tempo.

Eu realmente adoro quando donzelas indefesas que são odiadas por terem características impostas a elas, resolvem o que tem pra resolver, sobrevivem, entendem seu lugar e valor e viram a rainha da p**** toda.

Foi-se o tempo em que esperávamos o príncipe em seu cavalo branco. Hoje nós lutamos por nós mesmas e ai de quem tente nos parar. Soltamos os cachorros, tomamos o nosso norte e, vocês sabem… O Norte se lembra.

E nós também.

*Texto publicado originalmente em Atlântida. **Ilustração do topo por Kaol Porfírio

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