7 Estereótipos Masculinos que Hollywood Precisa Parar de Usar

Estereótipos femininos e masculinos no cinema e na televisão ajudam a criar tanto vítimas como agressores. 

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Atualmente, no Brasil, uma mulher é vítima de violência doméstica a cada 4 minutos, um estupro ocorre a cada 11 minutos (lembrando que a taxa de subnotificação para esse tipo de crime pode chegar a 90%), e 50,3% dos homicídios de mulheres são cometidos por familiares da vítima (33,2% por parceiros ou ex-parceiros). Mundialmente, 15% de todos os assassinatos resultam de violência doméstica, e os índices de depressão entre mulheres dobraram na última década, sendo que em 2014 o suicídio foi a principal causa de morte entre garotas adolescentes em todo o mundo. Elas também são as que mais sofrem com distúrbios alimentares e depressão.

Por outro lado, 80% das vítimas de homicídio no mundo são homens, e são eles também os que mais cometem suicídio – em 2012, eles foram 77% das vítimas de suicídio no Brasil. Além disso, de acordo com uma pesquisa da USP, meninos são mais propensos a repetir de ano ou a abandonar a escola do que as meninas, e tem, em média, uma probabilidade 12% maior de fracasso escolar do que as meninas.

Isso não significa, no entanto, que machismo e misoginia sejam mentiras ou exageros imaginados por feministas vitimistas, como tantos homens gostam de vir me dizer. Pelo contrário – muito da violência física e psicológica que homens sofrem é apenas mais uma faceta de um sistema machista que atinge todos nós. Os próprios dados perturbadores mencionados acima, sobre mortalidade e desempenho escolar masculino, têm a ver com noções machistas de nossa sociedade, que associam masculinidade à violência, agressividade, dominância, dinheiro e poder. Tudo isso faz com que meninos e homens corram mais riscos, se envolvam mais em conflitos, sejam menos propensos a buscar ajuda quando deprimidos, menos bem-sucedidos dentro do rígido ambiente escolar, e mais psicologicamente vulneráveis a crises econômicas.

No entanto, embora sejamos todos atingidos dentro do sistema patriarcal machista, é importante perceber que as implicações e consequências disso são fundamentalmente diferentes para homens e mulheres. Pois se por um lado as construções culturais de gênero reforçam a objetificação, a inferiorização e a submissão das mulheres na sociedade – e, portanto, não as beneficiam de forma alguma -, por outro elas classificam os homens como superiores, trazendo-lhes, assim, inúmeras vantagens e privilégios que os mantêm em posição de poder.

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É no mínimo digno de um levantar de sobrancelha o fato de que, mesmo indo pior na escola e frequentando menos a universidade, homens ainda ganham mais do que as mulheres, e ocupam a grande maioria das posições de poder em instituições, governos, empresas e corporações. [O gráfico acima é do Banco Interamericano de Desenvolvimento, referente a toda a América Latina].

 

Por causa disso, apesar de também sofrerem com o machismo, os homens ainda assim são os opressores nesse sistema.

Para ajudar a entender essa questão, pense no seguinte: homens são 80% das vítimas de homicídio no mundo, certo? Mas 95% dos autores de homicídios no mundo também são homens. Da mesma forma, as pressões e violências psicológicas que os homens sofrem decorrentes de noções machistas de masculinidade são reforçadas por uma mídia, por instituições e por indústrias diversas (a de brinquedos infantis é um bom exemplo) que são, também, controladas por homens.

Isso faz com que homens e mulheres tenham algo em comum na violência que sofrem: ambos têm homens como seus agressores. O sistema machista, portanto, produz homens que agridem mulheres, e homens que agridem homens, numa lógica que às vezes pode até ser dolorosa para eles, mas que traz muitos benefícios.

Já passou da hora, no entanto, de os homens perceberem que o custo desses benefícios é alto demais. As mulheres lutam todos os dias através do feminismo, questionando e desafiando as noções machistas de gênero, que limitam nossas vidas em todas as esferas. Quando é que os homens vão parar de fingir que o problema não é com eles e fazer, também, a sua parte?


Aqui olha, assiste esse TED Talk com o Jackson Katz, por favor, nunca te pedi nada.

 

A mídia, de forma geral, é uma das grandes responsáveis por reproduzir estereótipos de gênero que reforçam esse padrão de violência em homens. Hollywood, sendo particularmente machista, faz isso diariamente. Como mulher, levo essa questão muito a sério, pois os estereótipos de gênero masculinos me afetam tão diretamente como os femininos. Ambos trabalham no sentido de me inferiorizar e desumanizar aos olhos da sociedade, e ajudam a fazer com que eu e todas as mulheres nos tornemos alvos certos de abuso e violência. Por isso, na esteira de outros posts sobre estereótipos femininos em Hollywood, resolvi escrever também sobre alguns estereótipos masculinos que Hollywood precisa urgentemente parar de usar. Estereótipos como…

O Herói de Ação

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Grande, forte e cheio de habilidades físicas, o herói de ação é aquele personagem que resolve todos os problemas literalmente lutando, pulando, explodindo e matando. Mas entenda, nada disso faz com que ele seja ruim. Muito pelo contrário – afinal, ele é o herói! Para provar isso, o filme vai mostrar logo no começo que esse homem tem motivações nobres por trás de suas ações (talvez ele precise salvar o mundo ou alguém importante), e vai nos mostrar bem mostrado que violência é a solução. Normalmente, filmes com o Herói de Ação costumam revezar os clássicos estereótipos femininos da mulher em perigo e da femme fatale (independente de qual seja o escolhido da vez, a mulher em questão muito provavelmente aparecerá seminua).

Dentro do universo do estereótipo dos Heróis de Ação, podemos observar várias subcategorias, sendo que as principais são:

  • O Herói Sedutor

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Sempre no comando, competente, hábil em lutas e com armas, esse tipo de herói não costuma falar muito, a não ser que seja para distribuir sarcasmo e frases de efeito contra seus inimigos. O fato de ele ser tão blasé e não demonstrar muito seus sentimentos contribui para mostrar para o público que ele é “um homem de verdade”, pois ser sensível é supostamente um sinal de fraqueza. Ah, e já ia me esquecendo – todas essas características elegantemente másculas fazem com que ele seja um sucesso com as mulheres.

  • O Herói Sanguinário

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O Herói Sanguinário é a versão turbinada em testosterona do Herói de Ação. Ele é tão macho, mas tão macho, que frequentemente vemos cenas explícitas dele matando inimigos com selvageria, muitas vezes até com as próprias mãos.

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Drogo e seu troféu: uma língua (que eu preferi cobrir com passarinhos fofos, porque né).
 

O Pegador

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O Pegador é aquele personagem charmoso que sempre consegue a mulher que quiser – e ele sempre quer muitas mulheres. Ainda que no começo algumas demonstrem resistência, é muito raro ele não conseguir dormir com elas – seja por causa do seu charme, seja porque ele usa truques e mentiras para conquistá-las. Mesmo tratando mulheres como coisas a serem usadas e jogadas fora, normalmente vemos várias delas se apaixonarem por essa figura, reforçando a crença que diz que mulheres “gostam mesmo é de um canalha”.

O Eterno Adolescente

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Cada vez mais frequente no cinema e na televisão, esse personagem é sempre um homem adulto que se comporta como um hilário adolescente imaturo e irresponsável. Porque se você não pode ser um galã ou um herói de ação, é bom que seja engraçado, certo? Isso sem contar que dá muito menos trabalho. Apesar de não parecer, o Eterno Adolescente também incorpora e reproduz ideais machistas de masculinidade: ele é impulsivo, vive se envolvendo em atividades de risco, é obcecado por sexo e costuma ser rodeado de vários outros Eternos Adolescentes, que também estão sempre prontos para fazer besteiras e tratar mulheres como objetos.  

Curiosamente, não é raro que eles acabem ou já sejam casados com uma mulher que é muita areia para o seu caminhãozinho.

masculinosEm todos os sentidos.

 

O Pai Trapalhão

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Uma subcategoria do Eterno Adolescente, o Pai Trapalhão é uma criatura infantilizada verdadeiramente imbecil, que se mete em confusões mais imbecis ainda e depende completamente de sua esposa no âmbito doméstico. Em oposição à imbecilidade exagerada do marido, esta costuma ser sensata, competente e linda, é claro. Esse é um dos estereótipos masculinos que eu mais detesto, pois ele reforça a ideia de que o trabalho doméstico e de criação dos filhos deve ser exercido pela mulher. Afinal, elas são tão boas nisso, né!

masculinosDetesto tanto que escrevi um texto inteiro sobre isso.

 

O Stalker Romântico

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O Stalker Romântico é aquele personagem cujo comportamento abusivo e perturbador é sempre retratado como romântico e encantador. Muito comum em romances, é um dos grandes responsáveis romantizar o abuso que mulheres sofrem em relacionamentos na vida real, e acham que tem que aguentar porque “ele faz isso porque te ama!”.

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Eu já disse e repito: não é “só” um filme.

Leia também 6 Estereótipos Femininos que Hollywood Precisa Parar de Usar (Parte 1); e 7 Estereótipos Femininos que Hollywood Precisa Parar de Usar (Parte 2).

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