4 Heróis Românticos que Eu Não Queria na Minha Vida nem Pintados de Ouro (Parte 1)

Precisamos redefinir nossa ideia do que é romântico.

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Hollywood é mestre em transformar comportamentos altamente perturbadores em gestos românticos encantadores. Com uma boa trilha sonora, um personagem que não ficaria nem um pouco deslocado como o principal suspeito em um episódio de Law&Order de repente vira o herói romântico por quem todo mundo no cinema vai sair suspirando. “Heróis” como…

Henry Roth (Como se fosse a primeira vez)

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A História:

Henry, interpretado por Adam Sandler (o que já deveria te deixar cabreiro em aceitá-lo como “herói romântico” logo de cara), é um veterinário mulherengo que se apaixona por Lucy (Drew Barrymore). Tudo seria perfeito, não fosse o fato de que Lucy sofre de um tipo de amnésia que faz com que ela esqueça tudo o que aconteceu no dia quando vai dormir. Dia após dia ela acorda sem lembrança do que aconteceu no dia anterior, sendo que toda a sua memória se resume à sua vida até o momento em que ela sofreu o acidente de carro fatídico que causou a sua amnésia. Trágico.

O Horror:

Nada disso desanima o Adam Sandler. Ele realmente se apaixona e, romântico como só ele, está disposto a ficar com essa mulher que nunca mais vai conseguir aprender nada na vida e que todos os dias vai precisar ser relembrada da existência e do amor dele.  Não está conseguindo entender por que isso é tão terrível? Ele se casa e tem uma filha com ela. E como se não bastasse, a leva com ele num barco para fazer pesquisas no Ártico, longe de tudo que a pobre coitada conhece.

românticoComo o choque de acordar todos os dias ao lado de um homem desconhecido no meio do Ártico nunca a matou é um milagre.

 

Ah, mas ele grava um vídeo que conta a vida deles e faz ela assisti-lo todas as manhãs. Não é tão ruim assim – algum romântico por aí vai dizer.

Ah, sim, uma fita de vídeo com certeza apaziguaria o meu pânico ao de repente acordar grávida de nove meses, ao lado de um homem que se diz o amor da minha vida, mas cujos métodos estão mais para os de um serial killer em um filme ruim da sessão da tarde (presa num barco nos confins do planeta, fita de vídeo assustadora com o título aparentemente inofensivo, mas ainda assim medonho: “Bom Dia, Lucy”).

românticoSe esse fosse um filme de terror – como deveria ser – essa seria a última coisa que a Lucy veria na vida.

 

Droga, Adam Sandler! Essa mulher tem uma deficiência neurológica séria e você acha que é uma boa idéia engravidá-la e mantê-la cativa em um barco longe de tudo que ela conhece?! Não é à toa que existe um thriller psicológico (Antes de Dormir, com a Nicole Kidman) com exatamente a mesma história.

 

Noah Calhoun (Diário de uma Paixão)

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A História:

Ícone atual entre filmes românticos, Diário de uma Paixão conta a história de Allie e Noah – ela, de uma família abastada, e ele, um pobre coitado. Depois de um apaixonado romance de verão, a família de Allie põe um basta na relação e eles se separam e seguem suas vidas. Mesmo assim, eles nunca esquecem um do outro, e acabam juntos, em um final digno de Shakespeare. #ficaadica.

O Horror:

Oh, sim, é uma história linda. Não fosse o fato de ela ter se iniciado por pura coerção, quando o romântico Noah ameaça se suicidar se Allie não aceitar sair com ele. A cena vai mais ou menos assim:

1) Allie está em uma roda gigante com outro carinha.

2) Noah (até então, um completo desconhecido) decide que quer sair com ela. Então, como qualquer bom psicopata faria, ele se pendura no alto da roda gigante e ameaça se jogar se ela não aceitar sair com ele.

romântico“Você não me deixa outra escolha” – a desculpa número um de maridos abusivos e sociopatas em todo o mundo.

 

3) Ah é, e não pára por aí. Quando ela aceita – obviamente apenas para não ter que viver com o peso na consciência pela morte dele depois – ele não se dá por satisfeito e faz ela gritar que quer sair com ele para todo mundo ouvir. Ela obedece. Porque ele está ameaçando se matar. Super romântico.

No fim das contas, a Allie teve sorte, porque apesar de ser um babaca, mais tarde o Noah prova ser de boa e, de quebra, o amor da vida dela. Mas as coisas poderiam ter acabado muito, muito pior.

 

Edward Cullen (Crepúsculo)

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A História:

Edward é um vampiro centenário sanguinário. Bella é uma adolescente humana. Eles se apaixonam.

O Horror:

Ok, só a pequena descrição acima já deveria fazer seus pelinhos da nuca se arrepiarem, e não de um jeito bom. O cara é um século mais velho que a moça. Isso aí por si só já é tenso o suficiente. Mas não é nem isso que é o mais assustador dessa história toda. Repetidamente, o Edward dá provas – e quando eu digo “dá provas”, eu quero dizer “ele FALA” – que sente uma vontade muito forte de se esbaldar no sangue dela. Isso não é uma metáfora para algum truque sadomasoquista picante. Ele é um vampiro, caramba! Quando um vampiro diz que quer rasgar o seu pescoço, ele definitivamente está sendo literal.

românticoEsse parece um cara que liga pra metáforas e eufemismos?

 

Tamanho é o poder vampiral manipulativo e romântico de Edward, que mesmo tendo apenas dezessete anos Bella resolve que quer que ele se esbalde no sangue dela para que ela possa se transformar e eles possam viver juntos eternamente. Taí uma adolescente com sérios problemas de abandono, se viver para sempre ao lado de um vampiro sanguinário que a persegue na rua e entra no seu quarto sem convite para encará-la durante o sono é tudo o que ela mais quer. Bella, querida, você precisa é de terapia, não de um vampiro stalker que brilha no escuro.

Edward Lewis (Uma Linda Mulher)

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A História:

Edward (Richard Gere) é um milionário que, depois de passar uma noite com a prostituta Vivian Ward (Julia Roberts), a contrata para acompanhá-lo em compromissos sociais durante uma semana. Depois de uma fantástica makeover que elimina todos os traços de origem simples de Vivian de vista, eles se apaixonam.

O Horror:

Parece uma história do tipo “o amor supera todas as barreiras, blablabla”, mas na verdade essa é uma história sobre a obsessão paternalista de um homem de “salvar” uma linda mulher (opa, olha só o que eu fiz!) comprando roupas novas e jogando dinheiro em cima dela. Vivian até tenta recusar os seus avanços românticos – porque, né, quando uma das partes está te pagando para fazer sexo, você automaticamente perde a voz no relacionamento – mas no final, tudo o que ela quer é ser “salva” mesmo. Como na maioria dos enredos românticos hollywoodianos, o filme não mostra como é a relação deles no futuro, mas como o maior valor de Edward parece ser ‘ter muito dinheiro’, acho que é seguro supor que depois que a chama da paixão apagou, Vivian vendeu as roupas caras que Edward comprou pra ela e foi embora concluir a sua educação, como era o seu plano originalmente. Pelo menos é isso que eu gosto de imaginar. Nem gosto de pensar na outra possibilidade.

românticoDroga, Vivian, tenho que te lembrar sempre que sem mim você não é nada? Que você deve tudo a mim? Agora vai lá comprar um vestido novo. Já faz dois dias que você não sai pra fazer compras.  

 

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