4 Heróis Românticos que Eu Não Queria na Minha Vida nem Pintados de Ouro (Parte 2)

A desconstrução de nossas visões distorcidas de romantismo continua.

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*contém spoilers

Há um tempo atrás escrevi a parte um desse texto, com quatro personagens do cinema que tiveram seus comportamentos invasivos, manipuladores e/ou abusivos açucarados em prol do romance. Integraram aquela lista os indefensáveis Henry Roth (Como Se Fosse a Primeira Vez); Noah Calhoun (Diário de uma Paixão); Edward Lewis (Uma Linda Mulher); e por último, mas não menos assustador, Edward Cullen (o vampiro que brilha no escuro, de Crepúsculo).

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Como o Halloween está chegando e não tem nada mais assustador do que um relacionamento abusivo disfarçado de romance, resolvi fazer esta continuação com mais quatro personagens que nos fizeram suspirar, mas que na verdade são mais do que questionáveis (e, em alguns casos, indiscutivelmente criminosos).

Mas por quê, Lara???!!!! Céus, deixe nossos personagens preferidos em paz!! É SÓ UM FILME!! – posso ouvi-las gritando ao fundo.

Pois é, só que não. Não é ‘só’ um filme, pessoal. Não é ‘só’ um seriado. Não é ‘só’ uma propaganda (falando nisso: se mídia não influenciasse comportamento, o que seria da publicidade?). Eu sei que eu já citei a Nanette Braun, da ONU Mulheres, algumas milhares de vezes aqui no blog, mas a fala dela é exatamente o que precisamos entender:

“A mídia cria uma visão de mundo que se entranha profundamente na percepção das pessoas de como as coisas são”.

E no caso dos romances e comédias românticas, a visão de mundo que recebemos é de que tudo bem um cara te perseguir, te manipular e te assediar, porque afinal de contas, ele só faz essas coisas porque te amaaaaa!

Nem um pouco perturbador.

 

Sim, todos sabemos que a vida não é como num filme. Sabemos diferenciar a realidade da ficção. Mas mesmo assim esses filmes acabam moldando nossas percepções e expectativas em relação ao amor romântico na vida real. Para homens, os grandes “gestos românticos” do cinema acabam reforçando a noção (machista e bem real) de que mulheres são coisas a serem “conquistadas”, e de que ‘não’ na verdade significa ‘você não está tentando o suficiente’. E para mulheres, o fato de todos esses gestos serem tão açucarados com caras dreamy e finais felizes pode nos fazer relevar comportamentos abusivos dos nossos próprios parceiros românticos na vida real.  

Aliás, existe um estudo que buscou analisar exatamente o quanto a nossa percepção é alterada por romances ficcionais. Com um título bastante apropriado  (Fiz isso porque te amo – Os efeitos de representações midiáticas de buscas persistentes em crenças sobre stalking (perseguição), o estudo encabeçado por Julia Lippman, doutora em Comunicação da Universidade de Michigan, concluiu que mulheres ficaram mais propensas a endossar mitos sobre stalking depois de assistir comédias românticas que as encantaram. Mitos como “Muitas vítimas de stalking na verdade estão apenas se fazendo de difíceis e mudam de ideia mais tarde” e “um indivíduo que chega a stalkear alguém deve ser muito apaixonado”.

Então, não, definitivamente não é ‘só’ um filme. Eu sei que muitos de nós amamos esses filmes (e eu me incluo entre essas pessoas, acredite), mas precisamos lembrar que eles encantam porque foram feitos para ser encantadores. O que precisamos nos perguntar é: será que na vida real esses caras seriam tão incríveis assim? Caras como…

Sam Coulson (Nunca fui beijada)

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A História

Josie é editora em um jornal quando recebe sua primeira missão como repórter investigativa: se infiltrar em uma escola secundária como estudante para descobrir todas as atividades ilegais que os jovens estariam praticando. Enquanto pena para se adaptar e fazer amizade com os jovens populares (descobrimos logo no começo que Josie foi extremamente impopular na escola quando jovem, e continua impopular depois de adulta), rola uma química forte entre ela e o sr. Coulson, professor de literatura na escola.

O Horror

Sim, eu adoro esse filme. Sim, eu o assisti cerca de 27 vezes. Mas nada disso muda o fato de que o sr. Coulson é um professor adulto que se apaixona por uma de suas alunas adolescentes. Ok, é verdade que a Drew Barrymore não é uma adolescente de verdade.

Mas ele não sabe disso!

E isso é bem assustador. Principalmente quando lembramos que homens entre 20 e 30 anos são pais de 39% dos filhos das mães adolescentes de 15 anos.

Vejamos algumas falas e momentos problemáticos do sr. Coulson (sim, eu vou chamá-lo de sr. Coulson até o final pra que ninguém esqueça que além de mais velho ele é uma figura de autoridade):

  • Quando ele fala “quando você tiver a minha idade, os caras vão fazer filas que dão a volta no quarteirão por você”, quando os dois estão inapropriadamente sozinhos em uma roda-gigante, à noite, fora do ambiente escolar.
  • Quando ele faz essa cara de decepção e coração partido ao ver a Josie dançando com outro cara no baile de formatura:romântico
  • Quando ele diz: “Não consigo olhar pra você da mesma forma” de forma decepcionada, assim que descobre que a Josie não é uma adolescente. Mas pera, ele não devia se sentir aliviado com essa revelação???

Pra ser justa, o sr. Coulson tinha outros motivos para estar chateado no final, mas eu esperaria que todos eles se tornassem irrelevantes quando ele percebesse que “viva, então quer dizer que eu estava me sentindo atraído por uma adulta! Não sou um predador sexual! Yay!”. Não?!

Enfim, é uma situação delicada. Afinal, fazer o que ele faz no final – ir beijá-la no campo de futebol na frente da escola inteira – também não foi legal, pois confirmou que sim, ele se permitiu se apaixonar por uma aluna. Na real, o que o sr. Coulson devia ter feito era ir buscar uma terapia.

Mas isso não ia dar um final digno de comédia romântica, né.  

 

OBS: O sr. Coulson não é o único creep desse filme. O irmão da Josie (também adulto) também entra na escola infiltrado como estudante, e leva uma aluna para o baile de formatura. E a própria Josie também não é inocente, dado que ela tem vários momentos semi-românticos com o babaca e popular aluno Guy (menor de idade). Enfim, o filme é todo errado.

Jake Perry (Doce lar)

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A História

Melanie é uma estilista de sucesso em Nova York prestes a se casar com Andrew, filho ricaço da prefeita da cidade (interpretado pelo McDreamy Patrick Dempsey). Mas tem um problema: ela já é casada com seu amigo de infância, Jake, que nunca assinou os papéis do divórcio. Melanie, então, volta para sua cidade natal no Alabama para encontrar Jake e fazê-lo assinar os papéis (sem que o McDreamy saiba que esse é o real motivo de sua viagem). No entanto, quando ela o reencontra velhas emoções ressurgem.

O Horror

Conforme o filme se desenrola, vamos descobrindo aos poucos como a separação de Melanie e Jake aconteceu. Vou resumir aqui pra você: entre atribulações como uma gravidez inesperada e um casório super precoce, o casal brigava tanto que chegou ao ponto de Melanie sentir a necessidade de ir embora do Alabama para Nova York. De lá, Melanie passa sete anos enviando papéis de divórcio para Jake assinar, mas sempre os recebe de volta em branco.

Por quê?

Mais tarde descobrimos que Jake chega a ir para Nova York para pedir desculpas a Melanie, mas se sente intimidado pela cidade e volta para casa sem nunca encontrá-la. Ele então resolve que vai “se tornar alguém” antes de tentar conquistá-la de novo. Por isso se recusa a assinar os papéis de divórcio até que isso aconteça.

Serião, amigo? Quer dizer que você decidiu unilateralmente que merece outra chance, e por isso acha que tudo bem empacar a vida da moça durante anos, até que você se sinta preparado para fazer uma nova tentativa? Meus caros, Jake Perry é um exemplo clássico do cara que só se preocupa com o próprio umbigo. Imagina isso na vida real: você quer se divorciar – passa ANOS tentando – mas o bonito se recusa. DURANTE ANOS!

E o pior de tudo é que eles acabam juntos no final. Já é ruim o suficiente o Jake-Escroto-Perry achar que a Melanie não tem autonomia nenhuma para tomar uma decisão, mas a coisa só se agrava quando o próprio filme endossa isso ao fazer com que eles acabem juntos. Sério, como isso é romântico?

OBS: Assim como em Nunca Fui Beijada, o mocinho de Doce Lar não é o único babaca do filme. Na verdade, a maioria dos personagens é detestável, desde os pais de Melanie, que nunca conseguem ficar felizes com o sucesso da filha, até a própria Melanie, que além de se achar a rainha da cocada, ainda faz bullying com os amigos, larga o McDreamy no altar, e dois segundos depois anuncia pra galera que vai usar a mesma festa pra comemorar a sua re-união com o Jake.

Bônus 1

Severo Snape (Harry Potter)

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A História

Severo Snape é amigo de infância de Lílian Potter e apaixonado por ela. Mas Lílian acaba se casando com Tiago Potter e, ao ter um filho com ele, se torna alvo de Voldemort, que acredita que a criança significaria o seu fim. Quando Snape – então um comensal da morte seguidor de Voldemort – descobre isso, ele oferece seus serviços a Dumbledore em troca da proteção de Lílian Potter. Mesmo depois que ela morre, Snape permanece fiel a Dumbledore, ajudando-o a proteger o filho de Lílian e se sacrificando para ajudá-lo.

O Horror

Ok, adicionei o Snape como bônus porque ele não é exatamente um herói romântico, né, e nem foi vendido como tal. Também sei que a discussão sobre isso é acirrada – e por isso mesmo optei por falar dele. Porque, por algum motivo, muita gente o coloca num pedestal, mesmo que os próprios livros não endossem isso.

Gente, tem um motivo pra Lílian ter se casado com outra pessoa. O Snape era uma pessoa detestável. Tanto no passado, como na época dos livros. E não só por causa do seu passado como comensal da morte, ou porque ele era abusivo com os alunos e parecia um morcegão.

Ele não tinha culpa de não ser estiloso.

 

O problema é que o próprio amor dele pela Lílian era problemático. Senão vejamos:

  • Ele era possessivo.

Quando crianças, ele a afasta de sua irmã Petúnia e interfere o tempo todo no relacionamento delas. Mais tarde ele tenta mantê-la afastada de seus colegas babacões da Grifinória (Tiago e cia, na época) ao tentar convencê-la que eles são tão ruins como seus amigos metidos a comensais da morte.

  • Ele chegou a destratá-la e a dar sinais de ser controlador

Em um momento de raiva, Snape xinga Lílian de sangue-ruim, uma palavra discriminatória e extremamente ofensiva usada contra bruxos nascidos trouxas. Além disso, ele dá sinais de querer controlá-la em uma de suas discussões sobre o Tiago Potter:

– Salvou? Salvou? Você acha que ele estava bancando o herói? Ele estava salvando o próprio pescoço e o dos amigos também! Você não vai…eu não vou deixar você…

– Me deixar? Me deixar?

Os vivos olhos verdes de Lílian se estreitaram. Snape retrocedeu na mesma hora.

E além disso, ele inferniza a vida do Harry simplesmente porque o garoto é filho do Tiago. Anos se passaram, mas o Snape nunca consegue amadurecer o suficiente pra relevar isso.

Pessoalmente, acho que o amor do Snape pela Lílian tem todos os requintes de uma obsessão. Até porque ele parecia incapaz de amar ou se importar com outras pessoas.

– Se ela significa tanto pra você – disse Dumbledore – certamente Lord Voldemort irá poupá-la, não? Você não poderia pedir a ele misericórdia para a mãe em troca do filho?

– Pedi…pedi a ele…

Você me dá nojo – disse Dumbledore, e Harry nunca ouvira tanto desprezo em sua voz. Snape pareceu se encolher um pouco. – Você não se importa, então, com as mortes do marido e do filho dela? Eles podem morrer desde que você tenha o que quer?

O cara estava disposto a deixar a moça sem filho e marido só porque era obcecado por ela.

Super romântico. #sqn

 

Claro que tanto sua história como seu fim são trágicos e que podemos, sim, admirá-lo. Afinal, ele acaba se redimindo no final ao se sacrificar pra salvar o mundo bruxo (mesmo não acreditando realmente nos ideais contrários aos do Voldemort). Mas não vem tentar me convencer que Severo Snape é um santo feito de amor, porque nem a própria Lílian engoliu essa (ainda bem). Sigamos.

Bônus 2 – Escolha das Leitoras

Christian Grey (50 Tons de Cinza)

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Então, quando eu escrevi a primeira parte desse texto, não tinha lido e nem assistido 50 Tons de Cinza, por isso não incluí o Christian Grey na lista.

Bem, eu ainda não li e nem assisti 50 Tons de Cinza (e, pra ser bem sincera, provavelmente não o farei), mas como eu já li um monte de texto perturbador sobre o personagem e um monte de gente esperta falou que ele merecia estar aqui, me sinto bem segura de adicioná-lo à lista. Só que né, como eu não vi com os meus próprios olhos, vou poupá-los de qualquer observação mal-informada minha e, ao invés disso, direcioná-los ao texto abaixo:

*ATENÇÃO: contém spoilers dos livros que trazem detalhes dos comportamentos abusivos do personagem, incluindo manipulação psicológica, controle, estupro e agressão física*

Cinquenta Momentos Abusivos em “Cinquenta Tons de Cinza”

O texto foi traduzido pela Não me Kahlo, e traz uma análise dos dois primeiros livros, se não me engano, feita pela Emma Tofi (o original você encontra no blog The Rambling Curl).

Aproveitem a desconstrução!

*Editado em 21/10/16 para incluir o aviso sobre o texto da Emma Tofi. 

Leia também 4 Heróis Românticos que Eu Não Queria na Minha Vida nem Pintados de Ouro (Parte 1).