4 Tipos de Personagens Femininas que Marcaram as Comédias Românticas dos Anos 2000

Uma breve reflexão sobre os tipos de mulheres que nos foram apresentadas para amar, admirar ou se identificar em comédias românticas das últimas duas décadas.

Dizem as más línguas que a comédia romântica tradicional está para morrer. Ou não tão más assim, porque sejamos honestas: quem ainda tem estômago para as clássicas histórias de amor-à-primeira-vista, ou de amor-que-acontece-depois-de-muito-ódio, ou de amor-pegadinha-que-vira-amor-de-verdade, ou mesmo de amor-que-transforma-um-cretino-no-cara-dos-sonhos? Eu não tenho, gente. Eu já não tenho faz tempo, pra falar a verdade.  

E pelo jeito, não sou só eu. De acordo com profissionais da indústria, não há mais nenhum interesse por comédias românticas tradicionais, nem por parte dos estúdios, nem por parte do público. Também pudera – o tanto que abusaram de fórmulas batidas de romance nas últimas duas décadas não é brincadeira.

Zero paciência.

 

Na verdade, já há alguns anos temos observado as comédias românticas tradicionais serem destronadas por produções que trazem narrativas menos convencionais. Filmes como Juno, 500 Dias Com Ela e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças se tornaram cada vez mais frequentes na última década, trazendo novas versões de velhos e cansativos ideais românticos.

Em termos de representação feminina, algumas coisas melhoraram, outras nem tanto. Mas o meu objetivo nesse texto não é falar sobre as novas representações de mulheres em histórias de romance, e sim recordar aquelas que marcaram a geração dos que estão hoje entre seus vinte e trinta anos. Que tipo de mulher nos foi apresentada para admirar, se apaixonar, ou se identificar? Será que elas tem alguma coisa em comum, além de serem todas brancas e (quase) todas dentro do padrão?  Vem pensar comigo.

A Garota da Makeover

Esse tipo de personagem foi muito popular durante a minha pré-adolescência. Não dava pra ligar a TV sem dar de cara com algum filme em que a protagonista patinho feio passava por uma transformação física que a transformava em um lindo e desejado cisne.

Como eu já disse antes, eu não sou contra dar um trato no visual, e até acredito que cuidar de si pode dar uma melhorada na autoestima e tals. O problema é que, na maioria dessas histórias, a makeover era a principal responsável por desencadear mudanças profundas na vida da protagonista (culminando no objetivo final: arrumar um homem). Ora, pode ser que os filmes com makeovers tenham minguado há muito tempo, mas o seu sucesso desencadeou a produção de inúmeros reality shows cuja única premissa é espremer mulheres dentro do padrão de beleza e dizer a elas, no final, que agora sim elas serão felizes.

Nem a Mayim Bialik, atriz e neurocientista bem-sucedida, escapou de um deles. 

 

Como eu já disse em outro texto, pior ainda era o fato de que a suposta “feiúra” das protagonistas costumava ser era apenas um embuste, cuidadosamente criado com óculos, aparelho nos dentes, mau gosto para se vestir e cabelos desgrenhados. Para uma criança e adolescente feinha e desengonçada como eu fui, esses filmes não contribuíram em nada para o meu bem-estar psicológico, não só porque reforçavam ainda mais a ideia de que beleza é a coisa mais importante na vida de uma mulher, mas também porque os padrões de beleza a que somos sujeitadas são tão rígidos, que “ficar bonita” não é apenas uma questão de tirar os óculos, soltar os cabelos e colocar um vestido bonito.

A Cool Girl

Essa é a clássica mulher que “não é como as outras garotas”. É aquela personagem que é praticamente um dos caras – bebe cerveja, joga videogame, transa a qualquer hora, em qualquer lugar e de qualquer jeito, nunca faz drama, e é sempre muito gostosa.

A Cool Girl quase sempre existiu na cultura pop, sempre se adaptando aos diferentes gostos e interesses dos protagonistas masculinos, mas foi só em 2012 que ela caiu na boca do povo com o sucesso do livro Garota Exemplar, em que a personagem Amy a descreve minuciosamente:

“Naquela noite na festa no Brooklyn eu estava interpretando a garota que tem estilo, a garota que um homem como Nick quer: a Garota Legal. Os homens sempre dizem isso como o elogio definidor, não é? Ela é uma garota legal. Ser uma Garota Legal significa que eu sou uma mulher gostosa, brilhante, divertida, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga video game, bebe cerveja barata, adora ménage à trois e sexo anal e enfia cachorros-quentes e hambúrgueres na boca como se fosse a anfitriã da maior orgia gastronômica do mundo ao mesmo tempo em que de alguma forma mantém o manequim 36, porque Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas. Garotas Legais nunca ficam com raiva. Apenas sorriem de uma forma desapontada e amorosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, me sacaneie, eu não ligo, sou a Garota Legal.”

Em suma, a Cool Girl é uma fantasia alucinada saída da cabeça de roteiristas homens – não a garota que joga videogame, bebe cerveja barata e gosta de sexo anal, claro, mas sim aquela que aceita com naturalidade e um sorriso descontraído no rosto qualquer merda que um cara faça. Porque essa é a essência da fantasia da Cool Girl, aquele que é o seu verdadeiro atrativo: o fato de ela estar sempre de boa com tudo. Aliás, a tradução de Cool Girl devia ser Garota De Boa ao invés de Garota Legal.

Infelizmente, de todos os tipos de personagens descritos nesse texto, a Cool Girl parece ter sido a que mais conseguiu sobreviver aos novos tempos, com algumas adaptações. Mas isso é assunto para outro texto.  

A Manic Pixie Dream Girl

Ah, a Manic Pixie Dream Girl! Esse tipo de personagem integra alguns dos filmes que mais marcaram a minha adolescência e ingresso na vida adulta. Eu gostava tanto delas – adoráveis e esquisitinhas com suas roupas de brechó, excelente gosto musical e aquela imbatível alegria de viver que encantava até o mais melancólico dos caras. Eu queria saber mais sobre elas, mas qualquer tentativa de entendê-las dava numa parede em branco, porque, surpresa! As MPDG eram apenas um acessório para tirar o protagonista do seu estado de inércia depressiva.

Até seus métodos eram obscuros.

 

Isso mesmo. A Manic Pixie Dream Girl não é importante. Ela não tem história, interesses ou objetivos. Sua única função é auxiliar no desenvolvimento do protagonista. Como descreveu o crítico Nathan Rabin, que cunhou o termo em 2007:

A Manic Pixie Dream Girl existe unicamente na imaginação febril de roteiristas-diretores sensíveis para ensinar jovens homens profundos, cismados e sentimentais a aproveitar a vida e seus infinitos mistérios e aventuras.”

Como eu já disse em outro texto, a MPDG nada mais é do que o ideal ‘bela, recatada e do lar’ revestido de uma roupagem moderninha, mais atraente para as novas gerações (particularmente para os machistas de esquerda, que concedem às mulheres alguns direitos, mas não todos). Por mais encantador que pareça, é mais do mesmo, pois continua apresentando a mulher como um acessório masculino.

OBS: Escrevi um texto inteiro sobre a Manic Pixie Dream Girl – aqui ó.

A Bridget Jones

Não, eu não estou falando de um tipo de personagem como a Bridget Jones. Eu estou falando especificamente da Bridget Jones.

(Uma observação: não vi o terceiro filme ainda – e não quero ver – então tudo que eu disser aqui será em referência aos dois primeiros livros e filmes.)

Bem, Bridget Jones foi uma das personagens mais queridas da minha adolescência. Eu vi o primeiro filme no cinema quando tinha quatorze anos, e gostei tanto que logo em seguida comprei os livros. Devo inclusive ter uma foto em algum lugar do dia em que fui “fantasiada” de Bridget em algum evento da escola (a fantasia consistia em uma minissaia e uma balança que surrupiei do banheiro dos meus pais).

Eu sei que você está impaciente aí, provavelmente dizendo “tá, mas e agora depois de adulta? Quando você vai começar a falar dos horrores de ver Bridget com o raio problematizador ligado?”.

A questão é que…eu não vou. Porque miraculosamente a minha opinião sobre a Bridget não mudou muito. E não, não estou possuída por sentimentalismos – deus sabe que eu não me intimido na hora de problematizar meus filmes favoritos.

Descanse em paz, Simplesmente Amor.

 

Na verdade, apesar de todos os pesares, foi um alívio ter uma Bridget para enfrentar todas as Garotas Makeover, Manic Pixie Dream Girls e Cool Girls que Hollywood jogou na minha cara na minha adolescência. Porque Bridget é (gritantemente) imperfeita, e apesar de não ter as mesmas imperfeições que ela, eu conseguia me identificar com isso. Sim, sua história gira em torno do namorado que ela quer muito e da sua obsessão pouco saudável com seu peso, mas também em torno de todas as expectativas que ela acha que tem que preencher, e em como ela falha na maioria das vezes, porque né. Não é fácil, cara. E tudo isso em uma comédia romântica, um reino em que o maior defeito que uma protagonista pode ter é “ser desastrada” (vide o fato de Bridget ser a sua própria categoria nessa lista – simplesmente não existem muitas como ela).

comédias românticasSem contar que o filme traz uma inversão da síndrome dos caras “feios” com minas gatas na cultura pop. Bridget tem uma aparência normal, enquanto o Mark é…bem, o Colin Firth.

 

Não, Bridget Jones está longe de ser uma personagem feminista, disso eu não tenho dúvidas. Mas será que ela precisa ser? Penso que às vezes basta ser uma beberrona incorrigível com um bom coração para ser capaz de nos proporcionar aquele bom e raro suspiro de alívio de vez em quando.


Leia mais em Será a Manic Pixie Dream Girl a Versão Moderninha de Bela, Recatada e do Lar?