Como a Falta de Mulheres em Hollywood Contribui para a Desigualdade de Gênero na Vida Real

Não é “só um filme”.

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Hollywood está em polvorosa. Não só o racismo descarado da indústria está ficando cada vez mais difícil de engolir, como o seu machismo gritante está sendo desnudado sem descanso desde o vazamento dos emails da Sony, no final de 2014. Nessa ocasião, o mundo ficou sabendo que a disparidade salarial verificada entre homens e mulheres afeta também as atrizes de Hollywood, com a revelação de que Jennifer Lawrence e Amy Adams receberam significativamente menos do que seus colegas homens por suas atuações no filme Trapaça, de 2013.

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Desde então, as porteiras se abriram e, felizmente, nunca mais se fecharam. Um após outro, estudos e análises foram surgindo, revelando um inegável viés de gênero dentro dos Big Six, os seis maiores estúdios que comandam Hollywood (Paramount, Universal, Walt Disney, Sony, 20th Century Fox e Warner Bros).

E não é pra menos. A esmagadora maioria dos executivos nesses estúdios são homens (brancos, diga-se de passagem, o que explica também a enorme subrepresentação de profissionais negros e outras minorias na indústria). Na Paramount, quatro de cinco alto executivos são homens. Na Sony, são seis executivos homens, para uma mulher. Na Disney, eles são nove de onze. Na Universal, quinze de vinte. Na Warner, eles são seis de oito. E na Fox, são oito de dez.

Tal discrepância se relaciona de forma interessante com inúmeras outras desigualdades dentro da indústria. Embora homens e mulheres estejam igualmente representados nas principais escolas de cinema dos EUA – e as mulheres se saiam muito bem, obrigada, marcando presença e abocanhando prêmios em grandes festivais de cinema independente –  ainda assim elas são ignoradas pelos grandes estúdios, e mesmo cineastas premiadas raramente são convidadas a dirigir filmes dos Big Six. Apenas 11 dos 100 filmes de maior bilheteria de 2014 foram escritos por mulheres, e apenas 19 deles tiveram mulheres como produtoras. De 375 filmes feitos pelos Big Six entre 2010 e 2014, apenas 13 foram dirigidos por mulheres.

 

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As discrepâncias por trás das câmeras, por sua vez, se refletem nas bizarrices que vemos nas telas do cinema. Dos 100 maiores filmes de 2014, apenas 28% dos personagens com falas são mulheres – um resultado ainda pior do que o que a indústria nos ofereceu nos 500 maiores filmes entre 2007 e 2012, quando mulheres representaram 30,8% dos papéis com fala.

mulheresIsso sem contar a forma estereotipada e sexualizada que elas foram retratadas.

 

Da mesma forma, apenas 21% dos 100 maiores filmes de 2014 tiveram mulheres como protagonistas. Lembrando, claro, que além de tudo, os Big Six ou esquecem da existência de atrizes com mais de 45 anos ou as escalam como mães de atores da mesma idade que elas.

Com tantos podres estatísticos vindo à tona, muitas profissionais da indústria começaram a se sentir mais seguras para contar suas histórias e nos dar uma ideia de como Hollywood funciona para mulheres. Ano passado, não apenas jornais e revistas publicaram diversas delas em longos artigos sobre as desigualdades de gênero verificadas tanto na frente como por trás das telas, como a ACLU – União Americana de Liberdades Civis – coletou relatos de mais de 50 diretoras para solicitar a investigação federal de discriminação de gênero nas contratações tanto dos Big Six, como das maiores redes de televisão e agências de talento do país.

Tais entrevistas revelaram um viés de gênero inacreditável na indústria, com produtores ativamente falando para agências não indicarem mulheres, e diretoras tendo que ouvir justificativas como “já contratamos uma mulher essa temporada”; “esse programa não foi feito para uma mulher diretora”; e “nossos atores são muito duros com mulheres” – como se estivessem na verdade “protegendo” as diretoras ao não lhes dar o trabalho.

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De acordo com a roteirista Diablo Cody, vencedora do Oscar em 2007, por Juno:

“Você precisa ser superprotetor e arrogante para dirigir um filme. E essas qualidades são ótimas, mas as pessoas as odeiam em mulheres. Falamos sobre isso o tempo todo. Ouvimos falar de algum diretor homem gritando e jogando coisas e só rimos, porque sabemos que se uma mulher fizesse isso, ela nunca mais trabalharia na vida, não importa quem fosse. Isso ferraria com ela, em todos os aspectos de sua vida. Eu só acho que a sociedade tem uma base profundamente podre. Para mim, isso é simplesmente misoginia”.

A visão de Cody ecoa e é confirmada por outros relatos de mulheres na indústria. Em outubro do ano passado, a atriz Jennifer Lawrence explicou por que não renegociou seu salário para Trapaça – filme que escancarou a disparidade salarial entre mulheres e homens em Hollywood.

“Teve um elemento de querer que gostassem de mim, que influenciou a minha decisão de fechar o negócio sem realmente negociar. Eu não queria parecer ‘difícil’ ou ‘mimada’.”

Um preocupação totalmente válida, dado que isso parece ser exatamente o que acontece se mulheres em Hollywood questionam, resistem ou se distanciam de alguma forma do tipo de comportamento que é esperado delas. Kiwi Smith, roteirista de filmes como Legalmente Loira e 10 Coisas que Eu Odeio em Você relatou algo parecido, em uma situação em que decidiu que não se sentia mais confortável com alguns diálogos que havia escrito para um de seus personagens homens.

“Eu me peguei realmente penando para dizer, tipo, ‘Eu não quero mais que esse personagem diga isso’. Teve muita gente virando os olhos e, em um determinado momento alguém disse, ‘Kiwi, você está sendo sensível demais, nem todas as falas desse roteiro precisam refletir seus objetivos pessoais’. Eles continuaram brincando sobre como era difícil trabalhar comigo. E eu fiquei pensando ‘é mesmo?’. Senti como se fosse uma forma de marginalizar o que eu estava dizendo.”

A cineasta Lexi Alexander, responsável pelo aclamado Hooligans, também diz ter sentido uma atitude similar por parte dos executivos do estúdio responsável por seu filme, Punisher: War Zone. “Eu disse algo sobre marketing”, ela conta. “Eu disse ‘Não queremos lançar esse filme no natal, não é um filme natalino’. Eles olharam para mim como se dissessem ‘Por que é que ela está falando? O que é que ela está dizendo?’. E sem dúvida, depois todos os jornais escreveram ‘Mas por que eles lançaram esse filme durante o natal?’”.

Além de intimidar e podar a participação das profissionais mulheres, esse viés de gênero em Hollywood também se manifesta de outras formas. Mulheres que dirigem fracassos de bilheteria raramente recebem outra chance, o que não é o caso com homens na mesma situação. “Se um filme estrelado, dirigido ou escrito por um homem falha, ninguém atribui o fracasso ao gênero de quem o criou.”, diz Diablo Cody. “É estranho como a culpa sempre cai imediatamente sobre as diretoras mulheres”.

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Da mesma forma, os grandes estúdios frequentemente assumem riscos com diretores homens sem experiência. Já com diretoras, nunca. De acordo com Martha Lauzen, professora na University Estadual de San Diego e especialista em mulheres no cinema, “Eles se sentem mais confortáveis arriscando naqueles que refletem o perfil demográfico da maioria dos seus executivos”.

Tudo isso acontece mesmo não fazendo sentido nenhum financeiramente falando. Mulheres são a maioria do público que frequenta o cinema. Em 2014, foram 119 milhões de mulheres, contra 110 milhões de homens. Da mesma forma, filmes com mulheres protagonistas faturaram em média 19 milhões de dólares a mais do que filmes com homens protagonistas. Mesmo assim, existe essa ideia de que o que vende são filmes sobre meninos e homens – algo que o diretor Paul Feig, que dirigiu Missão Madrinha de Casamento, experimentou em primeira mão. De acordo com ele, muitas de suas ideias para filmes com protagonistas mulheres foram imediatamente descartadas.

“Eu tentava propor coisas com protagonistas mulheres…e quase que imediatamente era recusado. As justificativas eram tipo ‘As pessoas não vão ver, os caras não vão comprar ingresso pra isso, não é vendável, o público internacional não vai assistir filmes com uma protagonista mulher’”.

Existem dois problemas claros com essa ideia. O primeiro deles, como já vimos, é que ela não é verdadeira. Já o segundo diz respeito ao efeito que essa mentalidade tem em nossas próprias vidas. Ao nos soterrar, ano após ano, com histórias sobre meninos e homens e relegar mulheres a meras coadjuvantes fortemente estereotipadas, fortalece-se o ideal machista de que não importa a vida das mulheres. São os homens os protagonistas da história do mundo. Suas vidas, ações, desejos, objetivos são o centro e todo o resto é o OUTRO. E o outro é sempre inferior e menos importante.

Hollywood perpetua essas ideias, mas é claro que não faz todo o estrago sozinha. O que acontece lá é resultado de uma mentalidade profundamente podre – como bem disse Diablo Cody – que há séculos inferioriza e silencia as experiências, as vozes e a própria existência das mulheres. E essa mentalidade influencia (e é influenciada por) não só Hollywood, como grande parte da indústria de entretenimento no mundo, que do berço à vida adulta nos diz que ser mulher é ser a eterna coadjuvante na vida de homens.

Um exemplo especialmente preocupante é o entretenimento e literatura voltados para o público infanto-juvenil, que – seguindo no encalço da bilionária (e machista) estratégia de segmentação de marketing da indústria de brinquedos (que provoca seus próprios estragos, diga-se de passagem) – cada vez mais atua com base em segregação de gênero. O resultado são livros infantis com marketing voltado exclusivamente para meninas, por exemplo, ou a bizarrice que aconteceu com a autora de Harry Potter, J.K. Rowling, que teve seu primeiro nome suprimido da capa dos livros, porque a editora achou que o fato de ela ser mulher faria com que os meninos não se interessassem pelos livros.

mulheresMas que idiota.

 

Ano passado, a autora de livros infanto-juvenis, Shannon Hale, falou a respeito desse viés de gênero também no marketing da literatura infantil. De acordo com ela:

“Porque eu sou mulher, porque alguns dos meus livros têm meninas na capa, porque alguns dos meus livros têm a palavra ‘princesa’ no título, eles são classificados como ‘apenas para meninas’. (…) Escrevi sobre uma princesa ninja, super heroína que luta contra monstros, porque eu sabia que não tinha nada ali que um menino também não gostaria. E mesmo assim, pais, críticos, bibliotecas e livrarias o classificaram como ‘para meninas’. (…) Já ouvi centenas de vezes sobre Jogos Vorazes: ‘Meninos, apesar de ser sobre uma menina, vocês vão gostar!’. Apesar de. Nunca vi, nenhuma vez, dizerem ‘Meninas, apesar de Harry Potter ser sobre um menino, vocês vão gostar!”.

O desabafo da autora veio durante a turnê de divulgação de sua série Academia de Princesas, quando, em uma das escolas visitadas, apenas meninas receberam permissão para ver a palestra. A autora conta que, depois da apresentação, uma professora disse a ela que havia conseguido uma permissão especial para um de seus alunos, que era muito fã de sua série Spirit Animals, mas que ele ficou com vergonha de comparecer.

– Porque a direção já tinha dado a entender que a minha apresentação seria apenas para meninas? – Hale perguntou.

– Sim”

Alguns anos antes, o mesmo já tinha acontecido em outra escola, mesmo depois de Hale ter pedido explicitamente para a direção deixar tanto meninas como meninos participarem da palestra. Nada feito. Somente meninas puderam ouvi-la falar. Para a palestra de autores homens, no entanto, todos os alunos puderam participar.

A ideia de que meninos só conseguem se interessar por histórias sobre meninos é problemática tanto porque não é verdadeira, como porque perpetua na cabeça desses meninos a noção de que meninas são seres tão diferentes deles próprios que não há como sentir empatia ou identificação pelas suas histórias. Elas são o Outro, e esse Outro só pode ser inferior – até porque se acontece de um menino gostar de algo “de menina” ele é impiedosamente ridicularizado e humilhado. De acordo com Hale:

“A crença de que meninos não vão gostar de protagonistas femininas; a humilhação que acontece – de colegas, pais, professores – quando eles gostam; a ideia de que meninas devem ler sobre meninos e entendê-los, mas meninos não precisam ler sobre meninas; o fato de que ninguém espera que meninos entendam e sintam empatia com a população feminina no mundo…tudo isso leva diretamente a uma cultura que diz a meninos e homens: ‘Não importa como uma garota se sente ou o que ela quer. Você não precisa saber. Ela está aqui para te agradar. Ela está aqui para fazer o que você quer. Ninguém espera que você sinta empatia por meninas e mulher”.

Esse poder que a mídia tem de afetar a desigualdade de gênero no mundo é algo que a própria ONU já reconheceu e discutiu vezes sem conta. A organização vêm pressionando Hollywood desde 1995 sobre a maneira como a indústria retrata meninas e mulheres em seus filmes. De acordo Nanette Braun, da ONU Mulheres:

“A mídia cria uma visão de mundo que se entranha profundamente na percepção das pessoas de como as coisas são. A maneira como as mulheres são retratadas perpetua atitudes discriminatórias e sexistas e a noção de que meninas e mulheres ‘não contam’”.

A mídia afeta as nossas vidas e é, sim, responsável pela podridão que perpetua. Não adianta dar de ombros e ficar repetindo “é só um filme!”. Não é só um filme. E quanto antes percebermos isso e começarmos a cobrar mudanças concretas, melhor será para todos.

Fontes: The New York Times, Chicago Tribune, LA Weekly, Huffington Post, Blog Oficial da autora Shannon Hale.

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