Game of Thrones T07E01 – Um Possível Resgate dos Temas Centrais da Obra de George R.R. Martin?

O primeiro episódio da sétima temporada de Game of Thrones trouxe alguns momentos inesperados que aproximaram a série de sua contraparte literária.

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*Contém spoilers.

Certo. Começamos no domingo mais uma temporada de Game of Thrones, aquela série que ora nos faz querer arrancar os cabelos com sua concepção machista de empoderamento feminino (cortesia dos roteiristas D&D), e ora nos deixa doidas na ponta da poltrona, com uma história de tirar o fôlego que envolve política medieval, dragões e zumbis de gelo (cortesia do autor dos livros, George R.R. Martin).

Como muitos sabem, eu sou apaixonada pela obra na qual a série é baseada, e também curto muito a série, apesar dos pesares (sobre os quais eu escrevo avidamente, na nossa seção Livro x Filme). Por isso, estava ansiosa para o início dessa sétima e penúltima temporada e, apesar de temerosa em relação aos possíveis disparates que D&D podem trazer nas mangas, liguei a televisão no domingo, pronta para mais uma rodada de alegrias e tristezas.

Estou pronta.

 

No geral, achei bom esse primeiro episódio (com algumas exceções) e me permiti até ficar um pouco esperançosa com a expectativa de um possível resgate de temas centrais da obra de George R.R. Martin, como a crítica à guerra e à violência. Por isso, sem mais delongas, vamos mergulhar de cabeça com Daenerys no episódio Dragonstone, núcleo por núcleo.

Arya

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“Diga a eles que o Norte se lembra. Diga que o inverno chegou para a Casa Frey”.

O episódio começa com um ‘cold opening’ – isto é, com uma cena antes da abertura – com a nossa queridinha Arya Stark usando o rosto de Walder Frey e envenenando um salão cheio de Freys como parte de sua vingança pelo infame Casamento Vermelho. De brinde, ganhamos mais uma atuação de David Bradley na pele do detestável Frey, mas dessa vez sabemos que tem algo errado, porque ele morreu no último episódio da sexta temporada da maneira mais chocante. A desconfiança de que essa não é uma cena de flashback se confirma quando o velho começa a falar das atrocidades cometidas no casamento vermelho e anuncia, para delírio geral dos telespectadores, que eles não mataram todos os Stark, e que “se você deixa um lobo vivo, as ovelhas nunca estarão seguras”.

dragonstoneOvelhas morrem na sequência.

 

Tendo poupado as mulheres do envenenamento, a cena termina com Arya dizendo a elas que o Norte se lembra, e sai do salão like a boss.

A cena em si é uma delícia de assistir, porque odiamos os Frey e amamos a Arya, mas reforça o meu temor de que a garota está cada vez mais perdendo sua humanidade e se afastando totalmente de sua contraparte literária ao prosseguir firme no seu propósito de vingança. Vingança é um tema fortemente criticado em As Crônicas de Gelo e Fogo e me preocupa que a série o traga de forma quase festiva e sem consequências para os atos de extrema violência da personagem. Nos livros, existe uma personagem consumida pelo desejo de vingança – a Senhora Coração de Pedra – e ela é mais uma criatura maligna do que um ser humano propriamente dito.

A próxima cena com a garota Stark aprofunda os meus temores. A cavalo, ela encontra um grupo de soldados Lannister (um deles, curiosamente, é o Ed Sheeran), que a convidam para comer com eles.

dragonstoneSai Ed, tá acabando com o clima!

 

Ela aceita e depois de anunciar que está a caminho de Porto Real, ouve as impressões desfavoráveis dos rapazes sobre a cidade e sobre a guerra. Durante a cena toda não sei se fiquei mais tensa pela Arya ou pelos rapazes. Quem faria mal a quem ali? No fim, ninguém fez mal a ninguém e vemos algumas expressões interessantes por parte da garota, que é lembrada que o povo só quer viver em paz ao invés de ficar lutando em guerras que não lhes dizem respeito. Esse é um dos momentos do episódio que resgatam a essência anti-guerra de As Crônicas de Gelo e Fogo e que encheram o meu coraçãozinho de esperança.

A cena acaba, no entanto, com Arya anunciando que está indo para Porto Real para matar a rainha.

O que eu mais quero nessa vida é que a Arya vá para o Norte encontrar seus irmãos. E aí ela me anuncia que vai para o Sul prosseguir na carnificina, ainda mais depois de ouvir os rapazes falando sobre o quanto queriam estar com suas famílias? Durante toda a cena parece que a garota se sentiu impactada pelo o que os soldados estavam falando, então eu realmente espero que ela ainda mude de ideia.

Essa teria sido também uma boa oportunidade de trazer um questionamento para a personagem sobre as suas ações nas Gêmeas – afinal, não é como se todos os Frey tivessem todos a mesma culpa pelo Casamento Vermelho. Certamente, muitos estavam apenas seguindo ordens, da mesma forma que aqueles soldados Lannisters. Seria por isso a expressão impactada da garota ao ouvir os rapazes?

Mas isso seria forçar a imaginação. Não dá para esperar por tamanha sutileza por parte dos roteiristas de Game of Thrones. Aliás, vale lembrar de um trechinho de Inside the Episode da temporada cinco, se não me engano, em que eles dizem que a Arya se vê como um instrumento de vingança e que a Agulha é a forma como ela vai executar essa vingança – o que desvia bastante dos livros, que dizem exatamente o que a Agulha significa para Arya:

“A Agulha era Robb, Bran e Rickon, a mãe e o pai, até Sansa. Agulha era as muralhas cinzentas de Winterfell, e o riso do seu povo. Agulha era as neves de verão, as histórias da Velha Ama, a árvore-coração com suas folhas vermelhas e seu aspecto assustador, o cheiro quente de terra dos jardins de vidro, o som do vento do norte estremecendo as janelas do seu quarto. Agulha era o sorriso de Jon Snow. Ele costumava despentear meus cabelos e me chamar de ‘irmãzinha’, recordou, e de repente lágrimas brotaram em seus olhos.”

Nos resta torcer para que D&D tenham lido essa parte de novo antes de escrever o roteiro dessa temporada e mandem a personagem para o norte, para tudo aquilo que realmente importa para ela. Acho que vou me decepcionar, mas sou uma otimista até o último momento.

Bran

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Em uma cena rápida vemos Bran e Meera chegando (finalmente) de volta à Muralha. Meera está acabada, coitada. Se tem uma heroína nessa história, é essa garota. Eu gostei muito da forma como ela foi retratada ali – pálida, com a pele toda quebrada, adoentada, cambaleante. Carregando o Bran na neve há não sei quantos episódios, faz todo o sentido ela chegar mais morta do que viva.

Eles são recebidos por Edd Doloroso, que pergunta se eles são selvagens.

dragonstoneDroga, Edd, isso importa?

 

Meera se identifica e a Bran, que desde que virou o corvo de três olhos, adotou um ar mais solene e sem emoção. Quando Edd questiona a veracidade do que Meera disse, ele o convence falando sobre Durolar e os caminhantes brancos. E acrescenta que eles estão vindo – coisa que nós mesmos vemos pela visão de Bran, momentos antes. Vale observar que o exército de mortos também tem gigantes, o que é… bem, preocupante. Edd deixa eles passarem e agora eu estou aqui feliz, pensando que a Meera vai finalmente poder sentar a bunda numa cadeira e colocar os pés na frente do fogo. Pelo menos por uma noite.

Jon e Sansa

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Enquanto isso, Jon e Sansa estão novamente no salão de Winterfell com todos os senhores do Norte discutindo os próximos passos. Essa cena me perturbou porque a disposição das pessoas é praticamente a mesma de quando Jon é coroado rei do Norte na temporada passada, que faz parecer que é uma continuação daquela cena. Mas não pode ser, porque em todos os outros núcleos o tempo passou consideravelmente. Achei descuidado por parte da produção, deviam pelo menos ter variado a posição das pessoas, iluminação, etc. É o mesmo tipo de descuido que trouxe Varys usando a mesma roupa em Dorne e em Mereen no último episódio da temporada passada – dois lugares a milhares de distância um do outro. De qualquer forma, os roteiristas fizeram uma salada tão grande com a linha do tempo da série que eu nem sei mais.

Enfim, Jon fala a todos que vidro de dragão mata os caminhantes brancos e que todos devem começar a minerar o material e a fazer armas com ele. Também acrescenta que todos – homens e mulheres, meninos e meninas – devem aprender a lutar para a grande guerra, ao que o Lorde Glover se revolta. Lyanna Mormont, sendo Lyanna Mormont, o enfrenta.

dragonstoneInfelizmente, como nossa leitora Rayanne bem comentou, ela o faz menosprezando uma atividade estereotipicamente feminina, porque, afinal, estamos falando de Game of Thrones.

 

Resolvido isso – sim, porque Lyanninha sempre convence todo mundo, inclusive a coroar um bastardo rei do Norte mesmo com a herdeira legítima (oi Sansa) sentada ali do lado -, Jon coloca os selvagens para guarnecer os castelos na Muralha e faz com que os filhos dos traidores Karstark e Umber, mortos lutando por Ramsay, se ajoelhem e jurem fidelidade e ele. Sansa questiona a sua decisão abertamente, dizendo que ele deve punir as duas famílias entregando os seus castelos aos senhores que foram leais aos Stark. Jon diz que os filhos não devem ser culpados pelos erros de seus pais, e os jovens Alys Karstark e Ned Umber são perdoados.

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dragonstoneArya discorda.

 

Será que a decisão do Jon foi feita para nos fazer refletir sobre as ações da Arya nas Gêmeas? É possível, embora eu preferisse que isso fosse feito no arco da própria garota. Até porque, a sugestão oposta a de Jon, proposta por Sansa, é bem mais branda do que a morte, o que acaba enfraquecendo o link com o destino dos Frey.

Enfim, uma coisa que eu gostei muito nessa cena foi o fato de terem escolhido duas crianças como as últimas sobreviventes das famílias Karstark e Umber. Mais uma vez, o episódio trouxe à tona as consequências da guerra ao nos apresentar Alys e Ned, duas crianças amedrontadas obrigadas a assumir a posição de adultos. Achei chocante, triste e em sintonia com a mensagem que os livros trazem.

Bom, depois disso vemos Jon e Sansa discutindo em privado – ele reclamando de ela tê-lo questionado na frente de todo mundo (o que eu concordo), e ela advertindo-o e dizendo que ele precisa ser mais inteligente do que Robb e o pai foram (o que eu também concordo). Nisso, Jon encarna o esquerdomacho escrotão e escarnece dela, dizendo “E como eu posso fazer isso? Ouvindo você?”.

Peraí Jon, pera que eu tenho um negocinho da hora aqui pra você.

 

Jon se esquece que não ouvir a Sansa já deu muito ruim para ele antes, mas beleza. Nós lembramos, Jon, e estamos só esperando a hora que a sua patada desnecessária vai voltar pra te dar nos corno.

De qualquer forma, na sequência chega uma mensagem da Cersei ordenando que os Stark vão para Porto Real jurar fidelidade a ela. Jon não se abala, mas Sansa sim, e num déjà vu da última temporada, diz a ele que conhece a Cersei e sabe que ela não vai descansar enquanto não os matar. Jon diz que parece que Sansa a admira, ao que a irmã responde apenas que aprendeu muito com Cersei.

O que pensar dessa fala? É difícil dizer, porque a Sansa da série se distanciou demais da Sansa dos livros. Nos livros, se há algo que Sansa aprendeu com Cersei foi justamente o que não fazer.

“- Outra lição que devia aprender, se tem esperança de se sentar no trono ao lado de meu filho. Se for branda numa noite como esta, terá traição estourando por toda a sua volta, como cogumelos depois de uma chuva forte. A única maneira de manter seu povo leal é assegurando-se de que a temem mais do que ao inimigo.

–  Vou me lembrar, Vossa Graça – Sansa respondeu, se bem que sempre tivesse ouvido dizer que o amor era um caminho mais seguro para a lealdade do povo do que o medo. Se chegar a ser uma rainha, farei com que me amem.”

Mas na série, Sansa protagonizou uma cena de violência grotesca contra Ramsay e saiu sorrindo dela, então eu não sei mais. Será que ela está se encaminhando para a vilania, como uma antagonista de Jon? Realmente espero que não.

De qualquer forma, por enquanto parece estar rolando uma treta entre os irmãos, mas nada muito grave, apenas divergências normais e bastante interessantes até. Mais tarde, vemos Mindinho tentando envenenar a mente de Sansa, como sempre, mas felizmente ela não parece se abalar, e ainda distribui umas patadas. Vi um comentário de alguém na internet dizendo que a Sansa estaria enfrentando Jon abertamente de propósito, com o objetivo de manter o Mindinho por perto e sob seu controle, já que a promessa de treta entre os Stark é o que está motivando o personagem no momento. Sansa inclusive declara nesse episódio que sabe exatamente o que o Mindinho quer e, como aprendemos, saber exatamente o que o seu inimigo quer te dá todas as ferramentas para jogar com ele. Vamos torcer.

Cersei e Jaime

Um dos pontos mais fracos do episódio pra mim foi o núcleo Porto Real, porque nada ali faz mais sentido algum. Em um primeiro momento, vemos Cersei observando um pobre coitado pintar o mapa de Westeros no chão, enquanto ela caminha sobre ele. Jaime chega e prossegue no seu papel de capacho da irmã.

dragonstoneHELLO-O, ACORDA PRA VIDA, JAIME, ELA EXPLODIU A CORTE TODA!

 

Eu não entendo o que o Jaime está fazendo ali ainda, quando sabemos que ele se tornou um regicida para impedir que o rei Aerys fizesse basicamente a mesma coisa que a Cersei fez. O ponto positivo é que pelo menos ele age de forma descrente, apontando todas as falhas nos planos da rainha e como ela não tem noção de como eles estão desprotegidos. E tenta inclusive falar da morte do Tommen, mas ela o cala, dizendo que garoto os traiu quando decidiu se matar, o que é bem pesado. No geral, Cersei age como se tivesse uma carta na manga, e logo descobrimos que essa carta usa rímel e delineador.

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Sim, Euron Greyjoy reaparece para pedir a mão de Cersei em casamento em troca de sua frota de mil navios, que ele conjurou sabe-se lá de onde, da noite pro dia. Nos bastidores, antes da temporada começar, alguém da HBO disse que o Euron seria um vilão pior que o Ramsay, ao que, olha, eu não sei nem o que falar além de: não tenho mais idade, nem estabilidade emocional pra essas coisas. Mas, se não tem jeito, que ele seja pelo menos bem construído e não apenas mais um cara mau. Oremos.

Bem, no fim Cersei o rejeita (por quê???) e ele parte a fim de lhe trazer um presente para convencê-la. O que será esse presente? Nos livros, o Euron tem um berrante que supostamente é capaz de controlar dragões, mas imagino que na série o tal do presente vai ser qualquer um dos inimigos da Cersei. Como praticamente todos os personagens da série são inimigos da Cersei, o jeito é esperar para ver.  

Cão

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Inesperadamente, logo nesse primeiro episódio temos uma longa sequência com o Cão de Caça, Sandor Clegane, com o bando de Beric Dondarrion e Thoros de Myr. E mais inesperadamente ainda, essa é uma das melhores partes do episódio.

Inicialmente, vemos o grupo a cavalo na neve, se aproximando de uma cabana estranhamente familiar. Sim, se você tem memória de elefante, reconheceu a casa do homem e sua filhinha que deram abrigo ao Cão e a Arya algumas temporadas atrás, e que logo em seguida foi roubado pelo Cão e deixado à própria sorte.

Arya o nomeia de pior merda dos Sete Reinos por isso.

 

Quando reconhece a casa, o Cão fica desconfortável e não quer se abrigar nela, mas seus companheiros seguem em frente e ele vai atrás. Logo de cara, ao entrar nela, os homens veem dois corpos já meio decompostos no chão ao canto, de um homem abraçado a uma menininha. O Cão obviamente fica abalado com aquilo e Dondarrion diz que o homem provavelmente matou a menina e a si mesmo para evitar o sofrimento da fome. Como o Cão é o Cão, ele fica mais carrancudo do que de costume, e pergunta a Beric o que ele tem de especial para ter voltado da morte tantas vezes. Dondarrion diz que se pergunta isso todos os dias, ao que Thoros, que está a beira do fogo, chama o Cão para olhar as chamas. Depois de muita hesitação e mau humor, o Cão se aproxima e olha as chamas. No começo não vê nada, mas logo em seguida diz ver a Muralha e milhares de mortos caminhando. Dondarrion então aproveita a deixa para perguntar: “Acredita em mim agora, Clegane?”.

Mais tarde, Thoros acorda no meio da noite com um barulho do lado de fora, e quando sai se depara com o Cão cavando uma cova para o homem e a menina. O sacerdote então pega uma pá e o ajuda a enterrá-los.

É uma cena muito bacana, não por causa do repentino poder do Cão de Caça de ver coisas nas chamas, mas sim por resgatar duas vítimas – da guerra e do personagem – de temporadas atrás. É a terceira vez no episódio que o tema anti-guerra aparece, e de forma muito bem construída. Pra mim essa foi a cena que mais conectou o episódio com As Crônicas de Gelo e Fogo, pois nos livros Martin nunca nos deixa esquecer as atrocidades que narra e suas consequências. Espero mesmo que os outros episódios da temporada continuem nessa mesma linha.

Sam

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Enquanto isso, lá na Cidadela, somos presenteados com uma montagem nauseante do treinamento do Sam, que consiste basicamente em limpar comadres, servir lavagem, organizar livros e querer vomitar. A ideia da montagem foi boa, mas achei que se estendeu demais. Na metade eu já estava, ok, já entendi, pode parar. Enfim, logo descobrimos que tem uma área da biblioteca que o Sam não pode acessar, e que provavelmente possui todos os livros sobre os caminhantes brancos e horcruxes.

dragonstoneHarry Potter feelings, alguém?

 

Na sequência, Sam está servindo o professor Slughor…quer dizer, um meistre durante uma autópsia ou algo parecido com isso, e pede a ele acesso aos livros, falando novamente sobre os caminhantes brancos. O meistre diz que acredita no Sam, mas ao invés de lhe dar uma chave, ele lhe dá um discurso sobre como os meistres são a memória do mundo e como a Muralha sempre resistiu a tudo e continuará resistindo. O que provavelmente significa que a Muralha vai cair, ou algo assim. Seria legal.

Enfim, felizmente o Sam não cai nesse papinho, rouba uma chave e leva um montão de livro pro cafofo que ele divide com a Gilly e o pequeno Sam. Tenho muitas perguntas sobre isso – onde é esse cafofo? O que a Gilly faz o dia inteiro? – mas provavelmente nada disso será revelado. De qualquer forma, numa cena cômica de tão didática, o Sam se depara com um mapa de Pedra de Dragão que mostra que há uma montanha de vidro de dragão por baixo do castelo – coisa que o Stannis, que MORAVA EM PEDRA DO DRAGÃO, já tinha dito para o Sam há umas duas temporadas. Mas ok. Ele então escreve para o Jon para avisá-lo.

Em uma cena mais tarde, Sam está coletando cumbucas em um corredor de celas fechadas na Cidadela, quando um braço escamoso surge de dentro de uma delas e o seu dono pergunta se “a rainha dos dragões já chegou”. O dono do braço é, claro, ninguém menos que Jorah Mormont, em busca da cura contra o seu escamagris. Ou esperando para morrer. Das duas uma.

Daenerys

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Logo depois do susto que o Jorah dá em Sam, temos a última sequência do episódio, que finalmente mostra a chegada de Dany em Westeros.

A cena começa com ela observando o castelo do mar, com Tyrion, Missandei e Varys. Vindos de trás, seus três dragões voam em direção a Pedra do Dragão e a música estoura e eu me arrepio toda, uma porque eu amo essa trilha (se eu não me engano é uma versão de Blood of my Blood) e outra porque a paisagem é belíssima.

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A cena prossegue com a chegada deles na praia, ao que Dany se agacha e toca o chão, sentindo a areia entre os dedos. Eles se aproximam do castelo andando e temos outra cena deslumbrante quando os imaculados abrem os portões externos e nos deparamos com uma escadaria que sobe a encosta até o castelo. O grupo sobe tudo aquilo sem ofegar e chega lá em cima para encontrar o castelo completamente abandonado. A caminho da sala do trono, Dany puxa um dos estandartes mofados do Stannis e o observa cair com uma expressão bem sutil de desprezo.

Quando entram na sala do trono, Dany pára um momento na frente dele e segue em frente, em direção à sala que têm a mesa que é um mapa de Westeros. Ela passa os dedos sobre a mesa, pára na sua ponta, olha para frente e diz a primeira e última fala dessa sequência toda: “Vamos começar?”.

Pessoalmente, eu achei essa sequência inteira muito bela. Totalmente silenciosa, a não ser pela trilha sonora, com cenário incrível e expressões muito tocantes por parte da Dany (um misto de determinação e missão cumprida, sem rompantes de emotividade, o que me parece certo, já que ela saiu dali ainda bebê), foi o fechamento perfeito para o episódio. Eu sei que muita gente reclama da atuação da Emilia Clarke, mas eu, pessoalmente, penso que o problema real é o roteiro, que há temporadas não desenvolve a personagem e a resume a frases de efeito. Ainda vai ter um texto Livro x Filme sobre a dificuldade que os roteiristas de Game of Thrones tem de escrever a Daenerys, me aguardem.

Conclusão

Resumindo, esse primeiro episódio trouxe coisas legais e outras nem tão legais assim. O que mais me marcou e me chamou a atenção foi que em três momentos somos lembrados da futilidade da guerra e de suas consequências nefastas, o que aproximou bastante o episódio da essência dos livros. Com isso em mente, fecho esse texto com um trecho de O Festim dos Corvos, que resume bem tudo isso:

“- Sor? Senhora? – Podrick os interrompeu. – Um desertor é um fora da lei?

– Mais ou menos – Brienne respondeu.

O Septão Meribald discordou.

– Mais menos do que mais. Há muitas espécies de fora da lei, assim como há muitas espécies de pássaros. Tanto um borrelho, quanto uma águia marinha tem asas, mas não são a mesma coisa. Os cantores adoram cantar sobre bons homens forçados a sair da lei para combater um senhor malvado qualquer, mas a maioria dos fora da lei são mais parecidos com esse Cão de Caça voraz do que com o senhor do relâmpago. São homens maus, movidos pela ganância, amargurados pela maldade, que desprezam os deuses e só se preocupam consigo. Os desertores são mais merecedores de nossa piedade, embora possam ser igualmente perigosos. Quase todos são plebeus, gente simples que nunca tinha estado a mais de uma milha da casa onde nasceu até que algum senhor veio levá-los para a guerra. Mal calçados e malvestidos, partem marchando sob seus estandartes, muitas vezes sem melhores armas do que uma foice, uma enxada afiada ou um martelo que eles mesmos fizeram atando uma pedra a um pedaço de madeira com tiras de pele de animal.

‘Irmãos marcham com irmãos, filhos com pais, amigos com amigos. Ouviram as canções e as histórias, e por isso vão se embora de coração ansioso, sonhando com as maravilhas que verão, com as riquezas e as glórias que conquistarão. A guerra parece uma bela aventura, a melhor que a maioria deles alguma vez conhecerá. Então experimentam o sabor da batalha. Para alguns, essa única experiência é o suficiente para quebrá-los. Outros resistem durante anos, até perderem a conta de todas as batalhas em que lutaram, mas mesmo um homem que sobreviveu a cem combates pode fugir no centésimo primeiro. Irmãos veem os irmãos morrer, pais perdem os filhos, amigos veem os amigos tentando manter as entranhas dentro do corpo depois de serem rasgados por um machado. Veem o senhor que os levou para aquele lugar abatido, e outro senhor qualquer grita que agora pertencem a ele. São feridos, e quando a ferida ainda está apenas meio cicatrizada, sofrem outro ferimento. Nunca há o suficiente para comer, os sapatos se desfazem devido às marchas, as roupas estão estragadas e apodrecendo, e metade deles anda cagando nos calções por beber água ruim. Se quiserem botas novas ou um manto mais quente ou talvez um meio-elmo de ferro enferrujado, têm de tirá-los de um cadáver, e não demora muito para que comecem também a roubar dos vivos, do povo em cujas terras combatem, homens muito parecidos com os que eram. Matam suas ovelhas e roubam suas galinhas, e daí é um pequeno passo até levarem também suas filhas.

E um dia, olham ao redor e percebem que todos os seus amigos e familiares se foram, que estão lutando ao lado de estranhos, sob um estandarte que quase nem reconhecem. Não sabem onde estão nem como voltar para casa, e o senhor para quem combatem não sabe seus nomes, mas ali vem ele, gritando-lhes para se posicionarem, para fazerem uma fileira com as lanças, foices e enxadas afiadas, para aguentarem. E os cavaleiros caem sobre eles, homens sem rosto vestidos de aço, e o trovão de ferro de seu ataque parece encher o mundo…E o homem quebra. Vira-se e foge, ou rasteja para longe, depois por cima dos cadáveres, ou escapole na calada da noite e encontra um lugar qualquer para se esconder. Toda noção de casa está perdida a essa altura, e reis, senhores e deuses significam menos para ele do que um naco de carne estragada que lhes permita sobreviver mais um dia, ou um odre de vinho ruim que possa afogar-lhes o medo durante algumas horas. O desertor sobrevive dia a dia, de refeição em refeição, mais animal do que homem. A Senhora Brienne não erra. Em tempos como estes, o viajante deve ter atenção aos desertores, e temê-los…mas também deve ter piedade por eles.’

Quando Meribald terminou, um profundo silêncio caiu sobre o pequeno bando.”


Confira a nossa seção Livro x Filmes, que comparam as personagens femininas nos livros e nas suas adaptações para a televisão.