Representatividade Feminina em Suits – Uma Reflexão (sobre a 1ª Temporada)

Mesmo não sendo protagonistas, as personagens femininas de Suits têm muito potencial a ser explorado, sem que suas histórias precisem girar em torno de Mike e Harvey.

A personagem Jessica Pearson, da série Suits.

*Leves spoilers da primeira temporada da série. 

Suits é uma série fantástica. Apesar de ter dois advogados (malas e convencidos, vamos jogar a real) como protagonistas, a série também abre espaço para abordar a presença de mulheres em um ambiente historicamente dominado pelos homens. O assunto ainda é muito importante em um cenário em que a diferença salarial chega a 35% no meio jurídico, segundo uma pesquisa realizada pela Catho no Brasil.

Eu só assisti a primeira temporada, mas já me apaixonei pelas personagens femininas. Independentes, fortes e inteligentes, são tão bem planejadas quanto os personagens principais. Ainda assim, fiquei incomodada durante a série, com a sensação de que foram pouco exploradas, ou que por vezes acabaram caindo em estereótipos e clichês de representação feminina. Para um olhar mais específico, vamos a elas:

Jessica Pearson

A chefe da porra toda é interpretada por Gina Torres: mulher, negra e com mais de 40 anos – indo na direção contrária à tendência de Hollywood de silenciar mulheres mais velhas, principalmente as que não são brancas.

O papel de Jessica poderia ter seu gênero ou etnia mudados sem grandes alterações no roteiro. A série acertou ao não pensar a personagem como um homem branco, como ocorre na maioria das produções audiovisuais, principalmente quando não há especificações no roteiro que indiquem a raça ou gênero do personagem. Outro acerto foi não cair em estereótipos que costumam retratar mulheres negras como empregadas, escravas, barraqueiras ou de maneira hipersexualizada.

No entanto, a escolha do gênero feminino facilitou para que a série a retratasse como a Team Mom dos personagens masculinos. Em alguns momentos, Jessica deixa de parecer a chefe para assumir uma postura maternal, a todo tempo podando as brigas infantis de Harvey e Louis e apartando competições pela sua atenção.

Harvey ainda passa constantemente por cima de sua autoridade, desobedecendo a ordens diretas. O pior é que as ideias geniais de Harvey sempre funcionam no final e terminamos o episódio com a sensação de que ele estava certo em desconsiderar sua autoridade. A inteligência dele e sua eficácia ao lidar com os casos difíceis o coloca em um pedestal ao mesmo tempo em que a figura de líder da Jessica é invalidada.

O lado positivo é que essa arrogância do Harvey é apontada durante a série pela Jessica que, apesar de reconhecer sua inteligência e capacidade, ainda não o promoveu porque sabe que ele precisa mudar de atitude.

Não é você quem manda aqui. Sou eu.

No geral, apesar da relação com o Harvey, a construção da personagem da Jessica foi muito acertada. Em 2017 a atriz se despediu do elenco de Suits para ganhar um spin-off só para ela. O sucesso da personagem é uma prova de que sim, há espaço para protagonismo feminino negro e, se tiverem oportunidades, não faltarão talentos.

Rachel Zane

Outro ponto positivo da série foi a escolha da Meghan Markle. A atriz, além de ser porta-voz das Nações Unidas para igualdade de direito das mulheres, também é a noiva do Príncipe Harry e futura princesa do Reino Unido, porque sim, é possível ser feminista e princesa ao mesmo tempo. E também qualquer outra coisa.

A construção da personagem da Rachel também é maravilhosa: futura advogada, muito inteligente e muito ambiciosa. Tem como objetivo crescer na carreira e sabe que é capaz, mas precisa superar alguns obstáculos para poder chegar aonde quer.

No entanto, esse plot acaba perdendo espaço na trama para o relacionamento que surge entre ela e o Mike. A história de Rachel, forte e independente, tentando alavancar sua carreira, vira apenas um pano de fundo para a aproximação dos personagens.

Simone de Beauvoir, em seu livro “O Segundo Sexo”, define o conceito do Outro: quando a mulher não é definida por si mesma, mas por um homem e pela visão de um homem. O homem, sem conseguir se desprender da sua própria visão, se coloca em primeiro plano e dá às mulheres os papéis que conhece em relação à sua vida: mãe, esposas, secretárias. Sempre categorizadas como o Outro, nunca como seu igual.

Passei a série inteira com a sensação de que Rachel tinha sido concebida pela visão de um homem: linda, sexy, provocativa, inteligente – mas não tanto quanto os homens. Está lá para cumprir seu papel como o interesse romântico de Mike, com pouco espaço para desenrolar sua história pessoal. A história de fundo de Rachel foi usada como pretexto para que os dois se aproximassem e em seguida foi deixada de lado para dar espaço ao relacionamento deles.

Rachel também assume o papel de mocinha a ser salva. Precisa constantemente da ajuda de Mike: que ele prove sua inocência quando é acusada injustamente, recupere seu emprego, a incentive a voltar a estudar e a se inscrever no SAT e ainda precisa de um sermão do lindo para entender que seria errado colar na prova – coisa que ele vem fazendo a vida inteira, mas agora quer ser o exemplo da moral.

Rachel ajuda Mike também, mas na maioria das vezes em coisas que não exigem tanto da sua inteligência ou de suas habilidades. Ela o auxilia fingindo ser sua esposa para visitar apartamentos, ajuda a escolher o melhor restaurante para sua festa, se oferece para digitar por ele para que não precise diminuir o ritmo de seus pensamentos. Ajuda essa que, em geral, parece remeter aos tempos em que as mulheres tinham suas habilidades associadas à atividades relacionadas ao lar, nunca em pé de igualdade com os homens.

Donna

Donna, interpretada pela Sarah Rafferty, é esperta, sarcástica e manipuladora, basicamente a versão masculina de Harvey. A personagem, no entanto, acaba caindo no conceito de Cool Girl, a garota que não é como as outras: é engraçada, não é “frescurenta”, não tem “mimimi” e não demonstra sentimentos.  Praticamente uma versão de um dos caras – só que gostosa.

Mas mesmo sendo a versão mulher do personagem principal, aparentemente com habilidades e capacidades semelhantes, escolhe ficar à sombra dele, nunca desvinculada da sua imagem, e sempre disposta a satisfazê-lo.

Eu te seguirei até o fim do mundo.

 

Além disso, Suits também peca na representação feminina de outras maneiras. Durante a primeira temporada, a série não passa no Teste de Bechdel. Nenhuma das personagens principais conversa entre si sobre algo que não seja Mike ou o Harvey, mesmo trabalhando no mesmo escritório e mantendo relações entre si de colegas de trabalho e até de melhores amigas, no caso de Rachel e Donna.

A série também reforça a crença de que um “não” dito por uma mulher é na verdade um “talvez, se você insistir”. A primeira coisa que Rachel faz ao conhecer Mike é deixar bem claro que não está interessada. É claro que alguns episódios depois eles estão apaixonados.

Harvey faz a mesma coisa no primeiro episódio, chamando a garçonete para sair. Ela responde que não importa se ele é o melhor advogado do mundo, ela não tem interesse de ir para a cama com ele. Não sei por que ainda me surpreendi quando, na cena seguinte, os dois aparecem juntos na cama.

Entendo que o objetivo da cena seja mostrar o poder de persuasão de Harvey, mas, nas palavras da Lara Vascouto, esses gestos:

“(…) acabam reforçando a noção (machista e bem real) de que mulheres são coisas a serem “conquistadas”, e de que ‘não’ na verdade significa ‘você não está tentando o suficiente’. E para mulheres, o fato de todos esses gestos serem tão açucarados com caras dreamy e finais felizes pode nos fazer relevar comportamentos abusivos dos nossos próprios parceiros românticos na vida real.”

Em resumo, as mulheres de Suits são colocadas na primeira temporada da série como papel de apoio para dar suporte e satisfazer as necessidades dos personagens principais, sem que tenham um desenvolvimento próprio desvinculados deles. No entanto, mesmo não sendo protagonistas, as personagens femininas têm muito potencial a ser explorado, sem que a história precise girar em torno de Mike e Harvey, como provou Jessica Pearson ao ganhar um spin-off só para ela

A boa notícia é que enquanto a primeira temporada contava com somente uma roteirista mulher, responsável por apenas um dos dez episódios, na última temporada esse número subiu para cinco mulheres roteiristas, responsáveis por metade dos episódios. A tendência é que, com mulheres no comando, a série se desvincule do olhar masculino e coloque mais as mulheres em evidência. Muita gente assistiu até o fim e aprovou a evolução, mas a série ainda divide opiniões. E vocês, o que acharam?


Leia também The Good Wife: Protagonismo Feminino e Muito Girl Power.

Comentários do Facebook