Efi Oladele, Orisa e Representatividade em Overwatch

Nada de personagens femininas sem profundidade e com pouca roupa. Overwatch mostra que os games caminham para uma direção muito mais acolhedora e representativa.

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No mês de março a comunidade de Overwatch ficou frenética com a chegada da nova personagem Orisa, que acrescenta novas estratégias de composição de time e histórias para a construção do mundo do jogo. Mas para além das mudanças no jogo, é importante destacar a importância que personagens como Orisa, e sua criadora, Efi Oladele, trazem em termos de representatividade.

Antes de falar delas, no entanto, vamos entender um pouquinho melhor do que se trata Overwatch.

Conhecendo o jogo

Overwatch é um jogo cooperativo estilo FPS (sigla para First Person Shooter, também chamado de Tiro em Primeira Pessoa) desenvolvido pela  Blizzard Entertainment e inspirado em jogos como Team Fortress 2 e de MOBA (Multiplayer Online Battle Arena) como DotA e LoL.

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Em Overwatch  acontecem combates entre dois times com seis competidores cada e os  jogadores podem escolher entre 24 personagens para composição do time. Apesar dos personagens serem extremamente diferentes, eles podem ser divididos em quatro categorias: ofensivos, defensivos, tanques e suportes. A composição do time é de extrema importância para o desenvolvimento e varia de acordo com o modo de jogo, o cenário e a posição (defesa ou ataque).

O FPS não tem modo história, mas conta com outros recursos como vídeos e HQs para contar mais sobre seus personagens cativantes. Frases ditas durante a partida também entregam um pouco mais da personalidade e história de cada um.

Diversidade em Overwatch

Ao contrário de sua principal inspiração, Overwatch tem uma preocupação com a variedade de seus personagens que vai além das habilidades de cada um em jogo. Os 24 personagens se distribuem de forma diversa em gêneros, etnias e orientação sexual. Existem também os que não são humanos, mas que tem características humanas e levantam questionamentos filosóficos de como a humanidade agiria se dividíssemos o planeta com outros seres igualmente inteligentes.

overwatchEstá faltando Ana, Sombra e a novíssima Orisa nesta fanart fofinha das garotas de Overwatch – por Nakanoart.

 

Os personagens carregam elementos da cultura de seu país, mas não se prendem a estereótipos. Sombra, por exemplo, é uma mexicana da cidade de Dorado que é hacker, tem um sistema próprio para fazer a contagem de balas da arma e tem interesses próprios que vão além das disputas entre ômnicos e humanos, ou se a Overwatch deveria voltar ou não.

overwatchSombra poderia estar usando sombreiro ou fazendo movimentos de Luta Livre, mas felizmente a Blizzard deu profundidade à personagem.

 

Outro acerto da empresa foi na representatividade LGBT. A empresa já tinha anunciado que haveria heróis homossexuais, fazendo a comunidade levantar várias hipóteses, mas a revelação de que o primeiro deles era a Tracer surpreendeu muito, já que ela e o Winston são os principais rostos do jogo.

overwatchHQ especial de Natal revelou que a Tracer tem mau gosto pra estampa de cachecol.

 

Essa escolha é bem vanguardista, pois a maioria das formas de entretenimento escolheria personagens secundários e bem estereotipados para representarem o Vale.

Agora sim, sobre Efi Oladele e Orisa

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Em fevereiro a empresa soltou no site oficial do jogo uma entrevista com a pequena gênia Efi Oladele que indicava um lançamento de um novo personagem. A garota de 11 anos vive na cidade fictícia de Numbani, localizada na Nigéria, também conhecida como “Cidade da Harmonia”, pois lá os ômnicos e humanos vivem em paz. O local é um dos mapas do jogo e sofreu alterações depois da confirmação da nova personagem chamada Orisa.

Dentro da história do jogo, Efi é uma entusiasta da área de robótica que ganhou o “Prémio de Gênio” da Fundação Adawe devido aos seus êxitos. Na entrevista ela revela seu desejo de construir um robô que garanta a segurança das pessoas e que os seus pais deram a ela uma viagem como recompensa por ter ganhado o prêmio.  No entanto, no dia da viagem um vilão chamado Doomfist faz um ataque no aeroporto e os bots OR15 conseguem impedi-lo. Nenhum civil foi ferido e a Efi Oladele presencia tudo e tira fotos.

overwatchA imagem foi postada pelo twitter oficial do Overwatch.

 

O evento fez com que Efi colocasse a mão na massa para fazer uma robô chamada Orisa que protegesse a população de Numbani. A personagem Orisa se encontra disponível para jogar desde o dia 21 de março.

Vídeo contando a história pelo ponto de vista de Efi Oladele.

 

Efi e as meninas da Nigéria

O tempo presente do jogo Overwatch se passa no ano de 2075 e nem tudo são flores neste universo. Houve uma guerra entre humanos e as inteligências artificiais (chamadas de ômnicos) que dividiu o mundo, e por isso ainda há muita discórdia em relação à convivência com esses seres. Mas também é possível perceber que o mundo avançou em questões voltadas para os direitos humanos.

A Nigéria, país de Efi Oladele, atualmente pode ser considerada “o gigante da África” se tratando de população e economia, mas deixa muito a desejar com relação à forma como as meninas e mulheres do país são tratadas. A violência sexual, sequestro, tráfico humano, feminicídio e os altos índices de analfabetismo entre as meninas ganharam os olhos do mundo em 2014, quando o grupo terrorista Boko Haram invadiu a Escola Secundarista para Meninas e sequestrou mais de 200 garotas. O grupo terrorista é formado por fundamentalistas islâmicos que acreditam que a educação ocidental é prejudicial para o mundo, principalmente para as meninas. A mídia demorou a noticiar o evento, talvez porque o próprio governo da Nigéria tenha demorado a admitir que as meninas haviam sumido. Algumas delas conseguiram fugir ou morreram, outras foram trocadas pela libertação de membros do grupo terrorista em negociações entre o governo e o Boko Haram, mas a maioria das garotas continua como refém.

Também há problemas culturais como casamento infantil e a mutilação genital, que destrói a vida de meninas não só na Nigéria, mas também em outros países pelo mundo.

Amparado pelo machismo de seu país, o presidente, durante a uma visita a Berlim, teve coragem de dizer na frente da chanceler alemã Angela Merkel as seguintes palavras: “Não sei exatamente a que partido minha mulher pertence. Na verdade, seu lugar é em minha cozinha, na minha sala e nos demais cômodos da minha casa”. Essa frase repulsiva surgiu porque um jornalista lembrou ao presidente que sua esposa, Aisha Buhari, não o apoiaria se ele não reformasse o Governo.

Diante de tantos fatos desagradáveis relacionados a machismo e misoginia na Nigéria, nossos corações se aquecem com a possibilidade de que uma garota nigeriana, interessada em robótica, usando pintura facial da tribo Efik e recebendo todo apoio dos pais e do Governo possa ganhar destaque por seus feitos e construir uma robô para a segurança da população e chamá-la de Orisa, que em iorubá significa orixá. Além de ser muito importante por questões de representatividade,  isso também  nos faz refletir como a desigualdade social, de gênero e questões religiosas acabam nos custando grandes gênios e heróis.

Efi e Orisa são um marco de representatividade. Elas resgatam a cultura de tribos africanas, servem de espelho para meninas negras do mundo todo e mostram que, em um mundo não tão distante, nós mulheres poderemos mostrar ao mundo todo o nosso potencial sem obstáculos sociais.

overwatch“Grandes heroínas precisam de um nome de verdade! Que tal… Orisa!” – Efi Oladele toda poderosa para a sua criação.

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