BGS 2016 – O que nos Contam as Mulheres Desenvolvedoras de Jogos no Brasil

Saiba mais sobre a participação de mulheres na produção de jogos eletrônicos e confira entrevistas com as desenvolvedoras Juliane Andrezzo e Camilla Slotfeldt na BGS 2016.

bgs 2016

A Brasil Game Show é a maior feira de games da América Latina e reúne, desde 2009, empresas que anunciam novidades na área dos jogos eletrônicos e apreciadores do mundo dos games. O evento, também conhecido pela sigla BGS, aconteceu este ano entre os dias 01 e 05 de setembro e contou com a presença de grandes e pequenas empresas, desenvolvedores, youtubers, cosplayers, entre outros. É o lugar perfeito para pequenas equipes de desenvolvedores independentes exporem seus projetos inovadores ao público, e entre eles estão as incríveis desenvolvedoras de jogos que tive a oportunidade de entrevistar.

A participação da mulher no desenvolvimento de jogos acontece desde os primórdios do videogame. Carol Shaw é conhecida como a primeira mulher a trabalhar com desenvolvimento de jogos. Começou sua carreira na área em 1978. Seu jogo mais conhecido é o River Raid, lançado em 1983. Mas a história dela e de outras mulheres da área de desenvolvimento tem sido ofuscadas e acaba não sendo referência para meninas que desejam trabalhar na área.

desenvolvedorasCarol Shaw e o seu jogo mais conhecido, River Raid.

 

Esta falta de representatividade se reflete na indústria brasileira, onde apenas 10% dos desenvolvedores são mulheres, de acordo com a pesquisa da incubadora Labindie realizada em 2012 pela Univille. Embora a pesquisa possa ser considerada velha, afirmo por experiência própria que senti uma presença feminina muito mais forte este ano do que no ano passado. Representatividade importa, por isso nada melhor do que dar destaque às desenvolvedoras brasileiras, suas obras e inspirações, né? Confira abaixo as entrevistas feitas com a sound designer Juliane Andrezzo e a diretora de arte Camilla Slotfeldt.

Juliane Andrezzo

desenvolvedorasJuliane Andrezzo, sound designer do jogo Keen.

 

Juliane compõe trilhas sonoras para jogos e já tem no currículo os jogos Dream Swin e Dino Zone. Seu novo projeto que foi divulgado na BGS – chamado Keen – tem uma trilha sonora que mistura elementos orientais com os anos 80, e casa maravilhosamente com a proposta do jogo. Nele acompanhamos a história de uma menina de 12 anos ninja, que anda de patins. Ela precisa salvar o vilarejo de uma empresa que faz lavagem cerebral nas pessoas e as transforma em zumbis assassinos. Seu treinamento é feito pela sensei que é a vó dela. O jogo está em sua fase pré-alfa e encontra-se disponível para download no site da empresa Cat Nigiri.

Como referência feminina da área de sound design, Juliane citou a canadense Karen Collins que tem sido uma das suas fontes de pesquisa. Confira a entrevista:

                                                                                                                                                     Edição: Kiliano Lopes

Camilla Slotfeldt

desenvolvedorasCamilla Slotfeldt, diretora de arte do jogo Holodrive

 

Camilla é diretora de arte da equipe do Holodrive, um jogo de tiro em 2D com robôs carismáticos que têm roupas e armas customizáveis. Os combates do multiplayer online acontecem em arenas. O jogo está disponível para compra no Steam.

Antes deste projeto, Camila havia trabalhado com design e animação e nos últimos 3 anos se dedicou ao desenvolvimento do jogo que foi divulgado na BGS pela empresa BitCake. Como suas referências femininas no desenvolvimento de jogos, destacou Thais Weiller e Melibellule. Confira a entrevista:

Edição: Kiliano Lopes

Como é ser mulher e desenvolver jogos no Brasil

Desenvolver jogos de forma independente no Brasil é pensar no mercado mundial, já que o mercado nacional tem dificuldades se sustentar sozinho. Então muitas desenvolvedoras acabam tendo uma visão geral da forma que cada país trata as mulheres da área.

Camilla viajou para os Estados Unidos, Europa e Ásia para divulgar o Holodrive e conta como a indústria de jogos no Brasil, por ser nova e pequena, é mais tranquila em comparação com as outras:

“A Ásia é o mais tenso, de longe. […] Eu era a única mulher, eles apertavam a mão de todo mundo e não apertavam a minha. Eu ia ativamente e tentava apertar a mão deles. Eles são pessoas educadas, mas é que eles não esperam que a mulher que estava na sala seja desenvolvedora também. Eles assumiam que eu era secretária ou estava acompanhando.”

O Brasil se assemelha a China quando se trata do contato entre as desenvolvedoras e o público:

“No Brasil […] as pessoas não esperam que você esteja ali trabalhando naquilo também. Então, às vezes, eu estou aqui no stand e as pessoas vêm e me perguntam: ‘Você desenvolve o jogo?’. Eu estou com a camisa do jogo, dentro do stand, eu desenvolvo o jogo. […]  Por que rola a dúvida? Só porque eu sou mulher.”  

Esse clima acaba gerando na mulher uma competitividade muito grande que tem seu lado bom, mas com uma motivação ruim vinda de uma sensação de inferioridade. Juliane diz o quanto é difícil para as mulheres e compartilha o que ela pensa sobre o assunto:

“Eu vou ter que ser muito, muito, muito boa, muito superior a alguém que já trabalha na área, que tem a mesma experiência que eu, para ter credibilidade.”

Camilla aconselha as meninas que sonham em trabalhar com games:

“Não se sintam inseguras. […] Se você se sentir diminuída, acuada, se sentir que as pessoas não estão falando com você, estão desviando o olhar só por você ser mulher, simplesmente vai, dá um passo à frente e mostre que você está ali também. Porque muitas vezes as pessoas assumem, não é nem por mal, é por costume. É um mau hábito muito feio, muito mal educado, […] mas ela não estão fazendo isso conscientemente.”

Edição: Kiliano Lopes

A mulher tem uma participação constante no mundo dos jogos desde a sua origem, nas mais diversas áreas do desenvolvimento. Todas as barreiras encontradas pelas mulheres nesse mercado são fruto de machismo e de uma mídia que insiste em dizer que “as mulheres invadiram o mundo gamer”. Esquecem, é claro, que o mundo gamer também nos pertence.

Leia também Nerdsplaining – O Silenciamento da Mulher na Cultura Nerd.