Mulheres Loucas: A Superficialidade da Representação da Saúde Mental Feminina na Cultura Pop

Ou como a visão masculina por trás dos jalecos e das câmeras criou uma série de estereótipos negativos ou romantizados sobre a saúde mental da mulher.

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O que faz uma mulher ser louca, afinal?

Historicamente, a loucura sempre esteve de alguma forma associada ao feminino. Quando não eram as suas causadoras (com bruxarias, maldições, pecados e todo o tipo de estereótipo medieval e religioso), as mulheres eram sempre consideradas mais vulneráveis a distúrbios psicológicos devido a uma natureza supostamente “sensível e fraca”.

Hoje, no entanto, entendemos que a maioria dos diagnósticos de histeria feitos em meados do século XIX eram baseados em ignorância e misoginia. Afinal, era muito mais simples supor que as mulheres sofriam com delírios do que admitir que a condição delas na sociedade não era das mais favoráveis.

mentalCena do filme Um Método Perigoso que retrata a história da relação entre Carl Jung e Sigmund Freud com a paciente Sabina Spielrein, diagnosticada com psicose histérica e, mais tarde, uma das primeiras mulheres psicanalistas.

 

Mesmo assim, muitos dos sintomas usados para diagnosticar a condição dessas mulheres viraram estereótipos usados para caracterizar personagens mentalmente instáveis em filmes, séries e livros. A receita é simples e se limita ao uso de clichês reutilizáveis relacionados a loucura feminina: a mulher com sexualidade aflorada, aquela com personalidade obsessiva, a senhora solteira e com mais de 50 anos, a ex-namorada do protagonista.

mentalNa comédia Minha Super Ex-Namorada, o mocinho acaba atormentado por Jenny, sua ex que, ironicamente, é a identidade secreta da super-heroína G-Girl.

 

Personagens que se encaixam em pelo menos uma das categorias citadas costumam pender ou para o mal, ou para o ridículo. Muitas são as vilãs, que caçam homens inocentes e atormentam mocinhas puras e virginais. Quase nunca possuem um final feliz, e se conseguem, é graças a uma redenção, ou em casos bem específicos, à própria esperteza.

Já na esfera que abrange a categoria das mocinhas temos outros clichês, como o da mulher depressiva, que geralmente cabe a figuras femininas frágeis, sensíveis e poéticas. Aliás, a Mulher Triste é um conceito que se aproxima muito das manic pixies dream girls. Elas não são femme fatales e nem apresentam nenhum tipo de perigo para o protagonista masculino. Muito pelo contrário.

Um exemplo muito preciso desse tipo de personagem seria o das irmãs Lisbon, de As Virgens Suicidas. A razão da tristeza delas (e, principalmente, da morte) fica totalmente no campo especulativo, já que os meninos do bairro passam muito mais tempo ocupados fantasiando com o pouco que sabem sobre as irmãs.

mentalOs complexos das personagens que dão título ao filme permanecem um mistério.

 

Sobre a romantização da tristeza das irmãs Lisbon, vale citar um trecho desse texto das Valkirias:

“Já as garotas tristes são fascinantes. A vulnerabilidade que pega tão mal nos homens torna as mulheres mais interessantes, posto que nelas a dor não é fraqueza, mas sim uma coisa do gênero — esse, sim, fraco por natureza. As Virgens Suicidas nunca foi sobre as irmãs Lisbon como é sobre os garotos da vizinhança que se encantaram por essas irmãs misteriosas, confinadas em casa com seus camisolões brancos. Por isso é tão simbólica a imagem de Lux Lisbon em tons pastéis dançando hula-hula no meio do mato: ela é o sonho perfeito da garota bonita, triste e que implora por um resgate.”

Curiosamente, há uns dias atrás eu me deparei com um texto da Vice sobre homens que fetichizam mulheres depressivas. Não, você não leu errado. Em uma sociedade em que a mídia romantiza a tristeza feminina a todo momento pode parecer previsível que uma hora ou outra iria aparecer uma galera fissurada em parceiros depressivos.

Enfim, apesar de  entender que há abuso de ambos os lados, o artigo falava especificamente da depressão feminina. Mas afinal, o que há de tão mágico e especial em mulheres tristes? 

Spoiler: Nada. Absolutamente nada. O que realmente acontece com mulheres nessa situação é: vulnerabilidade.

O próprio texto da Vice aponta essa questão ao expor uma conversa entre dois usuários de fórum. Nela, um deles argumentava que:

“Se você tem uma garota que já é feliz e segura de si, não tem muita coisa que você possa melhorar, e você não vai afetar muito a vida dela. Mas se ela tem depressão ou uma vida escrota em casa, você tem a chance de ser uma das poucas coisas boas na vida dela e ela vai gostar mais de você.”

Outro usuário apontava que “minas loucas são selvagens na cama”.

Ou seja, a vulnerabilidade emocional e psicológica de mulheres nessa situação acaba sendo um apelo para caras que acham que jamais teriam chance com qualquer outra menina se dependessem do próprio charme, personalidade ou apelo físico. A obsessão masculina por mulheres mentalmente instáveis diz mais sobre a insegurança deles do que qualquer coisa. Não coincidentemente, quando representadas na mídia, essas mulheres acabam sendo alvo de personagens tidos como “losers”.

A personagem Noelle de “Se Enlouquecer não se Apaixone” é um exemplo. 

 

Como já foi dito, a fórmula é muito parecida à usada na construção das manic pixie dream girls. Em ambos os casos, são personagens planas, superficiais e usadas somente com o propósito de construir o plot do personagem principal. Muito dificilmente encontraremos personagens mais complexas e com um plot que também as desenvolva.

mentalGarota Interrompida pode ser um bom exemplo de filme em que o plot principal é focado nas personagens femininas mentalmente instáveis. (Não à toa, o filme foi baseado no livro de memórias homônimo de Susanna Kaysen).

 

É importante notar, no entanto, que na maioria dos casos da vida real, mulheres consideradas mentalmente instáveis são constantemente abandonadas e marginalizadas. Quando não, vivem com a insegurança e o medo de que seus respectivos parceiros às deixem devido às suas condições, o que as torna ainda mais suscetíveis a relacionamentos abusivos.  

Estamos mais próximas da Redoma de Vidro do que de qualquer filme.


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