O Medo do “B” da Sigla LGBT – Estereótipos e Invisibilidade Bissexual na Mídia

Entenda como homens e mulheres bissexuais têm uma representação deturpada nas produções seriadas e como isso contribui para o apagamento da comunidade bissexual.

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Em 23 de Setembro se comemora mundialmente o Dia da Celebração Bissexual. Essa data é frequentemente utilizada para combater a invisibilidade bi na mídia, na sociedade e na própria comunidade LGBT.

Muitas vezes o “B” da sigla LGBT é esquecido, apagado, ignorado. Até mesmo na comunidade LGBT o apagamento persiste. Um exemplo é o da cantora Lady Gaga, um ícone da causa, uma mulher assumidamente bissexual que é vista muitas vezes como uma “hétero que apoia o movimento”.

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Lembrando que bissexualidade é a atração por dois ou mais gêneros, e não como comumente se acredita apenas por homens e mulheres cis. O cavalo marinho não é um cavalo de verdade, não é mesmo? São bissexuais todas as pessoas que não se encaixam na monossexualidade, isto é, que sentem atração por mais de um gênero. Dentro do chamado “guarda-chuva” da bissexualidade podemos encontrar: pansexuais, polissexuais, queer…

Na mídia, a invisibilidade dessa comunidade não é diferente da vida real. Um relatório divulgado anualmente por uma ONG americana especializada em monitoramento das representações LGBT na mídia, o “The Where We Are on TV” (“Onde nós estamos na TV?” em português), analisa a diversidade em séries televisivas produzidas nos Estados Unidos e constata em termos percentuais o apagamento da comunidade bi.

O estudo revelou que, no período 2015-2016, dentre os personagens LGBT, 12 são mulheres bissexuais (17%) e apenas 2 são homens bissexuais (3%). Sendo que apenas 4% (35 no total) dos personagens recorrentes das produções seriadas dos EUA se identificaram como gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros.

“Você gosta de ambos igualmente, garotos e garotas?” – cena de Game of Thrones

 

Apesar dessa sub-representação, os dados dessa pesquisa mostram que o número de personagens bissexuais cresceu de 2% para 20% do período. Contudo, a reprodução de estereótipos prejudiciais a essa comunidade acompanha suas narrativas.

Assim, o apagamento da bissexualidade dos personagens é recorrente. Vamos fazer um exercício: qual é o seu personagem bissexual favorito? Não lembra de nenhum? Mas, quantos personagens bissexuais você consegue lembrar de cabeça? Indo mais fundo, tente pensar se esses personagens se identificaram como bissexuais ou você presumiu sua sexualidade…

*Atenção esse texto pode conter spoilers das seguintes séries: Glee, Grey’s Anatomy, American Horror Story, Skins, True Blood, Orange Is The New Black, Faking It e House.*

Reprodução de Estereótipos

A série adolescente da MTV, Faking It – apesar de ser famosa pela diversidade de seus personagens, tendo até entre suas personagens de destaque uma adolescente intersexual – pecou na representação de bissexuais várias vezes.

Em um dos episódios mais marcantes sobre essa temática, a série mostrou o interesse amoroso de dois personagens – um garoto gay (Shane) e uma garota hétero (Karma) – por um estudante novo (Wade) que chegou ao colégio. Depois de os dois ficarem confusos ao flertarem com ele e ambos serem correspondidos, o questionam pessoalmente e se surpreendem ao constatar sua sexualidade.

Eu sou bi […] vocês nem pensaram na possibilidade de eu ter correspondido vocês dois?

 

A série teve uma excelente oportunidade de quebrar estereótipos sobre bissexuais, mas no lugar disso caiu num lugar comum da bifobia com declarações como: “O rótulo ‘bi’ é apenas um passo no processo de saída do armário que vai de uma conexão embriagada, curioso, bi, gay, Elton John”, “Ele está preso na lagarta 10% bi-curious pego em transição”, “Ele só pensa ele gosta (de mulheres)… Ele é como uma borboleta gay ainda não saiu de seu casulo”, “[Bissexualidade] é como o Pé Grande. As pessoas falam sobre isso, mas ninguém tem qualquer prova”.

2A bifobia explicita de seu personagem fez com que os roteiristas da série declarassem em seu Twitter uma nota: “Nota: os pontos de vista de Shane sobre pessoas bi não refletem a opinião dos roteiristas da série!! Personagens podem ter opiniões que são erradas”.

 

A fala de Shane (personagem homossexual) reflete a comum negação da sexualidade bissexual pela comunidade LGBT, como se ela fosse apenas um passo no caminho para uma sexualidade real (monossexual). Esse episódio, além de ter mostrado a bifobia explícita, poderia ser uma excelente oportunidade de quebra de preconceitos, mas não o fez. Além disso, trouxe a fala também de um personagem hétero: “Homens não podem ser bissexuais”, mostrando que nenhum lado se salva nessa história.

O problema não é mostrar um comportamento errado, o problema é não discuti-lo ou no mínimo apontar sua problemática. Esse episódio poderia ter utilizado uma vivência tão comum da comunidade  bissexual – a bifobia da própria comunidade LGBT – para educar o público sobre esse assunto, como frequentemente foi feito na série de maneira didática com ideias preconceituosas que são atribuídas a intersexuais.

bissexuaisCena de Skins em que as personagens comentam sobre a sexualidade não monossexual de Franky.

 

Uma campanha americana de apoio a jovens bissexuais de 2014 mostrou dados alarmantes sobre os adolescentes bissexuais. Um terço desses jovens foram perseguidos na escola e cerca de 56% disseram que não tem um adulto que os suporte na família. Além disso, eles enfrentam taxas de bullying maiores que outros jovens, o que não é uma surpresa, já que esses adolescentes são rejeitados de “ambos os lados”.

Uma série adolescente teen que busca “ser liberal e quebrar padrões” poderia ter representado de forma mais correta esse contexto e dado a oportunidade para esses jovens de reconhecer sua sexualidade como válida, mas em vez disso reforçou a bifobia que esses jovens já sofrem.

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Mas as representações prejudiciais de bissexuais em Faking It não param por aí… Uma das protagonistas, Amy, é uma adolescente que está descobrindo sua sexualidade e que acaba se apaixonando por sua melhor amiga.

Ao longo da série, Amy é pressionada desde os primeiros episódios a escolher um lado, mesmo demonstrando em vários momentos que sente atração tanto por garotas, quanto por garotos. Ela até sai em uma viajem para ajudar a definir sua sexualidade, mas em nenhum momento parece válido aceitar que, sim, ela é bissexual e tudo bem.

Em um dos episódios, Amy é explicitamente constrangida a definir sua sexualidade. Mas, a personagem se recusa, se utilizando do frequente argumento “no label” (“sem rótulo” – em português), pois não consegue escolher um lado. Ou seja, Amy não consegue se classificar nem como hétero, nem como gay.

Na série a possibilidade de ela ser bi nunca nem sequer é cogitada, até porque assumir uma sexualidade – mesmo que controversa – quebraria a narrativa de uma personagem confusa com sua sexualidade. E se assumir bissexual, diferente do que o senso comum diz, não é ser confuso.

“E ninguém deve ser pressionado a se encaixar em um rótulo” – diz Amy sobre ter que definir sua identidade.

 

Então, é preferível não se rotular. Amy não pode definir sua sexualidade porque não se encaixa nas duas aceitáveis (hétero/gay). Aceitar que ela não precisa ser monossexual (gostar de apenas um gênero) não é colocado em pauta.

Algo parecido acontece com a personagem Soso de Orange Is The New Black, que diz que não se atrai por gêneros e sim por pessoas. Não haveria problema nenhum em não querer se rotular, se a “moda da negação dos rótulos” também não significasse uma invisibilidade política.

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Se dizer bissexual é afirmar que essa é uma identidade sexual válida. Muitas vezes homens e mulheres bissexuais preferem não se rotular para não sofrerem os estigmas que carregam esse grupo. Muitas vezes bissexuais escondem sua sexualidade para não serem rejeitados por possíveis parceiros.

bissexualNa terceira geração de Skins, ao ser questionada sobre sua sexualidade Franky responde que gosta de pessoas – descrição usualmente usada por pansexuais (que, como vimos, estão dentro do guarda-chuva da bissexualidade).

 

Esse tipo de narrativa mostra como as representações midiáticas dos bissexuais acabam perpetuando os preconceitos já existentes na sociedade. Estigmas que, inclusive, não são exclusivos por parte dos heterossexuais, pois como mostrado a bifobia também é recorrente na própria comunidade LGBT. Isso faz com que a representação correta da comunidade bissexual tenha uma dupla importância de conscientização.

A promiscuidade das mulheres bissexuais

Glee, outra série famosa por propagar mensagens de aceitação e ter representantes da comunidade LGBT em seu elenco, mesmo trazendo o avanço de ter uma personagem bi em destaque não é inocente quando se trata de reproduzir estereótipos negativos sobre bissexuais.

Brittany e Santana (Glee).

 

Como Elilyan Andrade lembrou recentemente no Conversa Cult, Brittany tem vários relacionamentos ao longo da série com Artie, Sam, Santana… Na quinta temporada Santana (sua ex) comenta com sua nova namorada que: “Finalmente eu tenho uma namorada com quem não preciso me preocupar se vai correr atrás de pênis”.

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Esse comentário em específico reforça ideia corrente na comunidade lésbica de que mulheres bissexuais não são confiáveis para se namorar, pois podem (vão) trocar as namoradas por homens a qualquer momento. Isso resulta, na vida real, em comportamentos bifóbicos como lésbicas que se negam a se relacionar com bissexuais, invalidam seus sentimentos ou mesmo negam sua sexualidade e vivência.

E quem não lembra da bela Dr. Ramy Hardley (Thirteen/Treze) de Dr. House? A personagem apareceu pela primeira vez na quarta temporada, mas sua bissexualidade só foi confirmada na quinta. Apesar de aparentemente a equipe de médicos aceitar a sexualidade de Treze (tirando os comentários ácidos típicos de seu chefe), houve vários episódios de perpetuação de estereótipos e comentários bifóbicos.

Em entrevista para o HuffPost, a atriz Olivia Wild comenta que sempre é lembrada pelas personagens bissexuais que interpretou.

 

Um desses episódios foi quando Kurtner pergunta a Foreman como ele se sente seguro com Treze já que ela como bissexual poderia “trocá-lo por uma mulher a qualquer momento” fortalecendo o estereótipo de que bissexuais não são fiéis e nunca estão satisfeitos com apenas um gênero.

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Outro episódio mais explícito, aconteceu durante um “jogo da verdade” no qual Dr. Wilson questiona Treze se ela já tinha feito um ménage e ela responde que não. Ele fica surpreso e ela questiona: “Só porque eu sou bissexual? […] Você sabe o que bissexual significa? Não é que nós fazemos sexo com duas pessoas ao mesmo tempo.”

Você ao menos sabe o que significa ser bissexual?

 

Apesar da sagacidade das respostas de Treze, a personagem é constantemente hiper-sexualizada e também sua representação contribuiu para o estereótipo de que “bissexuais ficam com todo mundo e não se apegam a ninguém”.

Outra médica, de Grey’s Anatomy, sempre está envolta em reviravoltas emocionais. Na série, Callie engravida de Sloan durante o término com sua então namorada Arizona e logo após reata com sua ex. Não é preciso dizer que esse tipo de comportamento reforça o estereótipo da promiscuidade da mulher bi, da ganância por não querer escolher e ainda a insegurança de seus parceiros que tem que ficar atentos para não serem trocados por alguém de outro gênero.

Esses rótulos da promiscuidade e infidelidade muito presentes na representação das mulheres bissexuais são constantemente utilizados na constituição de personagens. Outros exemplos são Kalinda Sharma (The Good Wife) e Angela Montenegro (Bones), que tem a sua sexualidade como um “adendo” a constituição de personagens, digamos, alternativos.

“Sua irmã parece interessante. Sim, você pode prendê-los?”

 

No caso de Kalinda há o “plus” da caracterização uma “mulher exótica”. Como uma personagem não-branca, ela é fetichizada, hiper-sexualizada e sua bissexualidade e promiscuidade fazem parte desse conjunto para montar a sua personagem.

Isso também acontece no caso de Angela, que desde os primeiros episódios é tida como um espírito livre, uma artista, alguém que dá amor sem ver a quem. Mais uma vez a bissexualidade é parte de uma caracterização, um traço a mais de um tipo de mulher diferente/incomum.

Mulheres bissexuais não são mais aceitas que homens gays ou lésbicas.

 

Assim, as mulheres bissexuais são constantemente hiper-sexualizadas e fetichizadas, voltadas a satisfazer o desejo masculino e o imaginário do público com seu comportamento sexual depravado. A caracterização dos personagens bissexuais fica à mercê desses rótulos pervertidos. Uma mulher bissexual é vista como menos ameaçadora para o público masculino do que uma lésbica, porque para eles ela está disponível para ser usada.

E atenção, isso não significa que sua sexualidade é mais aceita, ou que mulheres bissexuais desfrutam de privilégios “por não escolherem um lado”, como muitos argumentam. Esse tipo de visão faz as mulheres bissexuais serem vítimas constantes de abuso, pois leva a acreditar que mulheres bissexuais tem que aceitar qualquer coisa na cama, já que são “umas safadas”.

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Não é por acaso que os dados apontam que mulheres bissexuais são mais propensas (que lésbicas e mulheres heterossexuais) a sofrer abusos e a apresentarem transtornos mentais e psicológicos (mulheres bissexuais têm 64% mais probabilidade de enfrentar distúrbios alimentares, 37% mais chances de ter comportamentos de automutilação e são 26% mais vulneráveis à depressão).

O mau-caráter dos homens bissexuais

Se as mulheres bissexuais são constantemente hiper-sexualizadas, tidas como infiéis e promíscuas… Os homens bissexuais, que raramente são representados na mídia (são apenas 3% dos 4% de personagens LGBT), quando aparecem carregam estigmas obscuros de seu caráter. Para os homens, a bissexualidade é só um tempero nas suas personalidades deturpadas e libertinas.

“Nós vamos destruí-los”

 

Em House Of Cards, Frank Underwood tem relações sexuais com homens e mulheres, contudo se House of Cards não tem medo de mostrar sexo, a bissexualidade ainda é tabu. Nas palavras desse personagem “sexo é poder” e para ele, poder é tudo. Assim, a sexualidade de Frank é jogada para debaixo do pano sendo só mais uma faceta de um homem que quer controlar a todos e nunca abre mão de seus desejos.

Algo parecido aparece com o breve, mas celebrado personagens de Game of Thrones, Oberyn Martell, conhecido como Víbora Vermelha. Comentando sobre a sexualidade do personagem, Pedro Pascal declarou que Oberyn: “não discrimina em seus prazeres. Esta é a forma como ele entende a vida, vivê-la ao máximo. E limitar-se em termos de experiência não faz qualquer sentido para ele, o que é bonito”.

“Quando se trata de amor, eu não escolho lados” 

 

O príncipe dornês, dessa forma, tem sua sexualidade apagada. O personagem não é alguém que é bissexual, mas sim um homem que tem um apetite sexual insaciável e por isso não discrimina gêneros. Sua sexualidade é um simples meio de caracterização de um personagem hedonista que busca o prazer em todas as suas formas, seja sexual, físico ou acadêmico.

Essa forma de representação é muito conveniente pois transforma bissexualidade, uma característica renegada socialmente, em uma faceta de um tipo de masculinidade aceitável: um homem que busca prazer de todas as formas e não abre mão de seus desejos.

Já na série Mr. Robot, Tyrell Wellick é casado com Joanna e claramente sexualmente ativo com ela. Porém, assim como Oberyn e Frank, Tyrell utiliza relacionamentos para ganhar poder. O personagem frequentemente descreve suas iniciativas com outros homens como “going gay” (algo como “pagar de gay” em português).

“Eu quero você onde você pertence: aqui comigo”

 

Os objetivos de Tyrell com essas “empreendimentos” são frequentemente voltados a obter ganhos pessoais como assegurar uma promoção tanto com homens como com mulheres. A bissexualidade desse personagem é mostrada, então, como uma ferramenta prática para ele atingir seus objetivos gananciosos, não como uma sexualidade saudável como qualquer outra. Temperando tudo com a infidelidade, já que ele é casado, mais uma vez mostrando que a bissexualidade é uma parte de uma falha de caráter maior.

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Há uma ideia nos bastidores das produções audiovisuais (e na sociedade) de que um homem não pode se interessar por homens e também por mulheres. Alguns acreditam que essa ideia resulta do pensamento de que a masculinidade requer o desejo da “conquista” de mulheres, muitos até aceitam a ideia da homossexualidade… Porém, há sempre uma resistência de que possa haver orientações diferentes de hétero e gay, sendo julgado como impossível se atrair romanticamente pelos dois sexos.

bissexuaisTrecho do HQ Constantine

 

Podemos ver esse apagamento e até negação da bissexualidade masculina na adaptação do anti-herói Constantine, que é claramente bissexual nos quadrinhos, mas na adaptação televisiva esse aspecto de sua identidade é completamente ignorado. A produção da série definiu a sexualidade desse personagem como “um aspecto curioso desse personagem”, mas que não é definidor do que ele é.

“Nós não somos nada mais ou menos do que nós escolhemos revelar” 

 

O mesmo ocorre quando a sexualidade de Frank de House of Cards é questionada. O criador da série, Bear Willimon, alega que o personagem não dá muita importância para esse tipo de rótulo, completando que ele é um homem com “um homem com um grande apetite”.

Invisibilidade da Sexualidade

A bissexualidade intimida a narrativa heteronormativa, de uma maneira mais incisiva do que a homossexualidade. Isso porque quebra diretamente a narrativa binária da nossa constituição da identidade baseada em dicotomias: homem/mulher, branco/negro, rico/pobre, hétero/gay.

Assim, a bissexualidade é uma afronta a monossexualidade aceita como único modelo de envolvimento romântico. Pois, reconhecer a sua existência é uma constatação de que a sexualidade é bem mais complexa do que apenas sentir atração sexual por um determinado gênero (ou mesmo genital).

Sabemos que existem poucos personagens bissexuais na TV e em filmes, mas na maioria das vezes sua sexualidade é apenas presumida. A palavra “bissexual”, o “B” da sigla LGBT, parece que não deve ser dita em voz alta na identificação dos personagens, o que é mais uma forma de invisibilidade.

Quando não caracterizamos bissexuais como bissexuais e somente adivinhamos com base em seu comportamento muitas vezes esses personagens tem sua sexualidade apagada de várias formas. A não-rotulação desses personagens de maneira clara dá margem para caracterizações como: “heteros curiosos” ou “confusos” ou até “no caminho para sair do armário”.

O “bi” é apenas um passo do processo de sair do armário.

 

Mesmo em séries renomadas por serem inclusivas, a bissexualidade permanece apagada e mal interpretada. Na aclamada Orange Is The New Black, a personagem principal Piper (baseada em uma personagem real que se identifica como bissexual) nunca utilizou a palavra bissexual para se identificar.

bissexuais“Eu gosto de garotas gostosas e eu gosto de garotos gostosos. O que eu posso dizer, eu sou superficial” – Na cena de OINB Piper descreve sua sexualidade como “rasa”, mais uma vez tendo uma visão pejorativa da bissexualidade, como se fosse antagônico a ela ser uma pessoa profunda, digamos, com sentimentos.

 

Na série, o mais perto que Piper chegou de assumir sua sexualidade foi em um flashback enquanto namorava Alex em sua juventude em que dizia: “Eu gosto de garotos quentes e gosto de garotas quentes”. Contudo, a personagem ainda foi classificada em outros momentos: por Alex (sua ex) como “uma garota hétero”, por Larry (seu noivo no começo da série) como lésbica e por ela mesma como ex-lésbica…

Regra número um. Nunca se apaixone por uma garota hétero.

 

Piper é a personagem principal de uma série com temática LGBT, mas mesmo assim, pode-se dizer que é uma das personagens bissexuais mais mal representadas da história da televisão. Além de ser chamada de hétero por sua ex, Alex, ela é assim rotulada por outras personagens da série que claramente sabem de seu envolvimento com homens e mulheres. Sua atração por mulheres é constantemente deslegitimada, vista como uma “armadilha”, uma coisa passageira, um passatempo até que ela eventualmente “volte aos homens”.

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Nessa mesma linha, a invisibilidade/negação da bissexualidade é tamanha que a possibilidade de uma pessoa ser bissexual nunca é levantada, quando estão em um relacionamento homo são considerados homo e quando estão em um relacionamento hétero, héteros.

Quando Piper está em um relacionamento com Alex, ela é considerada lésbica. Mas, no momento que ela termina com Alex ou declara seu amor por Larry, ela automaticamente passa a ser rotulada novamente como uma mulher hétero.

bissexuais“Você não simplesmente vira gay, você cai em algum lugar em um espectro [da sexualidade] como a Escala de Kinsey” – nessa cena Piper tenta explicar que não escolhe a sua bissexualidade e faz referência a Escala de Kinsey. Essa escala tenta definir o comportamento sexual de um indivíduo e é frequentemente criticada. O questionamento da comunidade bissexual faz referência ao tipo de classificação que a escala reproduz como: “Predominantemente homossexual, apenas eventualmente heterossexual” e para esses críticos essa classificação é inadequada, pois qualquer pessoa que se atraia por mais de um gênero deve ser considerada bissexual.

 

Esse é um caminho muito perigoso que reflete a visão predominante da bissexualidade em nossa sociedade: mulheres bissexuais só querem se “divertir” enquanto não acham o homem certo para “voltar a ser hetero”. Ao mesmo tempo, se uma mulher bissexual sai de um relacionamento hetero e acaba se relacionando com uma mulher, ela “se torna lésbica”.  Orange Is The New Black reforça esses dois estereótipos.

Piper é mostrada como uma mulher confusa, que não tem certeza de sua sexualidade e que não é incapaz de controlar seus desejos. Ela é mal vista porque não pode escolher e por isso não pode ser confiável. Um dos argumentos do porquê Piper não usar a palavra com “B” para se identificar é que essa orientação não é tida como válida ou até existente – não é uma possibilidade.

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Além do caso de Piper, Orange Is The New Black ainda traz a narrativa das amigas Flaca e Share que “brincam de lésbicas” se beijando em uma das cenas e de Soso, que se envolve romanticamente com outra personagem e ao definir sua sexualidade diz que não se atrai por gêneros e sim por pessoas, como Frank de Skins. Duas outras oportunidades de representar de forma correta a bissexualidade ou até a panssexualidade, mas será que nas próximas temporadas isso vai acontecer?

Outro personagem bissexual mal representado é Callie, de Grey’s Anatomy. Na série, a médica se “descobre lésbica” quando passa a se relacionar com Érica Hahn, mas posteriormente “descobre” (quantas descobertas) que ainda tem atração por homens quando “testa” sua sexualidade com Sloan. Ou seja, o que a faz na verdade bissexual.

Arizona e Callie (Grey’s Anatomy) 

 

Em um dos episódios, Callie conversa com Chief sobre sua namorada na época, Arizona, ser uma melhor lésbica que ela. Ou seja, no lugar de assumir sua bissexualidade, a personagem se definiu como “uma lésbica falha” porque se sentia também atraída por homens, o que não é ser lésbica (nem falha, porque não existe sexualidade “falha”).

Não é só diversidade pela diversidade

Quando não se reconhece e não se representa a bissexualidade é muito mais fácil perpetuar a ideia que homens e mulheres bissexuais são simplesmente confusos ou depravados.

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Apresentar personagens LGBT na lista de personagens não é uma tarefa difícil hoje em dia, mas a diversidade pela diversidade não é suficiente. Demandar diversidade significa que essas representações sejam corretas e consigam humanizar e naturalizar a presença de identidades tidas como desviantes na sociedade.

O reconhecimento da importância de se atentar para a não reprodução de estereótipos prejudiciais sobre homens e mulheres bissexuais é reconhecer sua existência.É dar um suporte para que esse grupo se reconheça e se sinta incluído, e para que sua sexualidade, que é constantemente apagada e invalidada, seja reconhecida além do fetichismo e da libertinagem.

Segundo um relatório de 2011, cerca de metade da comunidade LGBT se identifica como bissexual. Mesmo assim são apenas 20% (GLAAD) dos personagens LGBT (4% do total) de produções seriadas e suas representações muitas vezes só prejudicam a sua visibilidade enquanto grupo.

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As representações de pessoas bissexuais na mídia propagam a concepção que bissexualidade é uma escolha imoral, uma depravação, um tipo de diversão ou até experimento, o que ajuda que essa sexualidade siga no patamar de mito.

A mídia, quando não simplesmente se nega a reconhecer a atração por mais de um gênero como válida, distorce a imagem dos personagens bissexuais objetivando dar material para o imaginário do público. Os despersonaliza e os coloca na categoria de simples devassos de caráter duvidoso.

A invisibilidade bissexual mostra como é desigual os avanços das temáticas LGBT em todo o mundo. Isso acontece com outros grupos também, como os transexuais, que só agora estão começando a aparecer, e os assexuais que nem mesmo fazem parte da sigla.

Uma luz no fim do túnel

True Blood, a série de vampiros da HBO, trouxe vários exemplos de personagens bissexuais complexos, como Pam, uma vampira que se relaciona com homens e mulheres. Na série, Pam tem uma tendência a se relacionar com mais mulheres e acaba se envolvendo com outra garota bissexual, Tara. O que faz as personagens se destacarem, além de serem duas bissexuais que tiveram um envolvimento complexo, é que seus sentimentos em nenhum momento são colocados como menos válidos por serem bissexuais.

Você não me conhece tão bem assim. Minha cara de brava e minha cara de feliz é a mesma.

 

Além disso, Tara se envolve com outra garota, Naomi, e demonstra por ela sentimentos profundos, o que ajuda a quebrar o estigma que mulheres bissexuais não amam mulheres de verdade, somente as usam. A série ainda apresenta outras personagens bissexuais como a rainha vampira Sophie-Anne e o vampiro James Kent.

No caso de James, a bissexualidade do personagem é revelada quando o vampiro trai sua namorada Jessica com Lafayette. Porém, em vez de pura libertinagem, como normalmente é mostrada a narrativa dos homens bissexuais, James é um personagem complexo, sensível e protetor que é amparado por Lafayette quando Jessica o deixa de lado. O que não justifica uma traição, mas com certeza humaniza o personagem. Contudo, a única vez que a palavra com “B” aparece em True Blood é quando fazem uma piada sobre ela: “Deixe o passado, ser passado; meninas bi ser meninas bi”.

Em True Blood, James quebra o estigma do homem bissexual que é usualmente representado como devassos hedonistas. 

 

Já em American Horror Story: Hotel, ano passado, o personagem Will Drake deu um importante passo para a representação correta de bissexuais. Will conversa com seu filho que ficou surpreso ao descobriu que ele se casaria com uma mulher e por isso explica sua sexualidade: “Seu pai é bissexual. As pessoas pensam que essa palavra significa algo sujo, mas não é assim. Isso significa que eu gosto de homens e eu gosto de mulheres – igualmente. As pessoas não entendem por isso, elas me tratam como se eu fosse estranho ou como se eu estivesse tentando esconder algo. Ou que…”. Seu filho responde: “Que você só fica com caras?”.

Com esse diálogo, American Horror Story: Hotel dá uma aula de representação bissexual. Além de usar a tão temida palavra com “B”, ela quebra os estereótipos recorrentes sobre a comunidade bissexual. No episódio, Drake ainda responde seu filho e declara seu amor por sua futura esposa: “Sim, algo assim. E se você tiver sorte, uma vez na sua vida, você vai encontrar alguém que realmente te entende. Eu não acreditava que alguém como ela existia para mim. Até que eu conheci a condessa. Ela é “the one” [“a pessoa”]. E quando você encontrar a pessoa, segure-a firme e nunca a deixe escapar”.

Essa declaração, embora em um contexto de um suposto relacionamento padrão entre homem e mulher, por conta de Drake ter se assumido bi com todas as letras, seu personagem é humanizado e os estigmas de libertinagem e incapacidade de amar atribuídos à bissexuais são quebrados. Sem a identificação clara e explícita da bissexualidade, Drake poderia ter sido lido simplesmente como homem hétero ou um homossexual que tenta renegar sua sexualidade para se adequar aos padrões (“voltar para o armário”).

É esse tipo de representação que a comunidade bissexual precisa. Só quando sua individualidade e identidade for respeitada, poderá ocorrer uma representação real da diversidade em toda a sua complexidade, não apenas em números para o relatório GLAAD.

*Esse texto foi escrito sob uma perspectiva intersecional.  A negação teórica da bifobia não faz com que o preconceito contra bissexuais deixe de existir. Sob essa perspectiva, bissexuais estando em relacionamentos com pessoas do mesmo sexo podem ser vítimas de homo/lesbofobia, mas nem por isso deixam de sofrer – a bifobia – também por episódios específicos por serem bissexuais (não monossexuais). Assim como uma mulher negra sofre racismo e machismo, um não anula o outro, somente se sobrepõe, e isso não é uma competição de quem sofre mais (!!). Considerar o conceito de monossexualidade como inválido, ou seja, não acreditar que pessoas que se atraem por apenas um gênero tem privilégios estruturais não  autoriza ninguém a invalidar os argumentos e a vivência da comunidade bissexual e nem as vertentes que defendem sua existência. Aliás, está sendo bifóbico, nesse momento quem desconsiderou todo um texto que mostra os estigmas da comunidade bissexual porque “bifobia não existe”. Sabia mais aqui.

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