O L em LGBT

Sofremos, como lésbicas, uma dupla opressão: uma que se dirige ao nosso gênero e outra à nossa sexualidade.

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“Quedê as lésbicas desse rolê?”. Sempre que saía pra balada com os meus amigos, era isso que eu me perguntava. Não é possível! Será que existem mais homens gays do que mulheres lésbicas? Ou será que estão todas casadas? Às vezes, eu tinha a sensação de que estavam todas escondidas em algum bar muito legal, que só eu não conhecia.

Mas, com o tempo, fui descobrindo que muitas delas ainda estão no armário. E existem muitos tipos de “armário”. Talvez algumas já tenham se assumido para si mesmas e até mesmo para os mais próximos; outras talvez morem há anos com outra mulher. Mas uma porta continua sempre fechada: ainda lhes carece a força de bater no peito e reivindicar seu lugar na sociedade.

E quem pode culpá-las? É, sim, verdade que os direitos LGBT avançaram consideravelmente nas últimas décadas, mas a sigla é o único lugar onde as lésbicas vêm em primeiro.

Sofremos, no mínimo, uma dupla opressão: aquela que se dirige ao nosso gênero (como mulher) e outra à nossa sexualidade (como lésbica). Pra além dessas, ainda poderíamos falar de muitas outras – racial, social, estética -, mas foquemos nas duas primeiras.

Alguém aí já disse que ser mulher é nascer com um alvo na cabeça. E ser lésbica é ainda mais problemático, principalmente porque exclui o homem da equação. Já parou para pensar? Nada contra homem (tenho até amigos que são, rs), mas de onde será que vem a absurda idéia de que ele é parte essencial de um relacionamento romântico? E não me venha com esse papo de reprodução da espécie, por favor, porque todos sabemos que ela está bem garantida (e que não tem nada a ver com a maior parte do sexo que todo mundo está fazendo).

Você já parou pra pensar em quanto da opressão sofrida pelas lésbicas está associada ao homem ou à ausência dele? Quem é lésbica sabe que andar de mão dadas com uma mulher na rua é um exercício de extrema paciência. Além do assédio com o qual, infelizmente, todas nós mulheres já nos acostumamos, o fato de ser lésbica e estar disposta a demonstrar isso em público parece autorizar os homens a todos os tipos de ofensas. Ouve-se de ‘quem é o macho da relação?’ a ‘isso é falta de pica’ ou ‘posso entrar no meio?’.

E o que todos esses comentários têm em comum? Advinha.

Com sua lógica fálica, o patriarcado nos faz crer impensável que uma mulher possa satisfazer plenamente outra sem a participação de um homem. Daí a força da pornografia que coloca duas mulheres (em geral brancas, magras e ‘femininas’) interagindo de maneira superficial até a chegada do homem ‘para terminar o serviço’.

Não raras vezes temos que ouvir um homem nos dizer que de viado ele não gosta, mas que lésbica ele até acha legal. Ou quando dizemos que namoramos uma garota, temos que aguentar um sorrisinho sacana seguido de um ‘adoro lésbicas, acho lindo’. Que cara bonzinho, né? Só que não.

A fetichização da nossa relação sexual NÃO é aceitação. É apenas mais uma forma de colocar o corpo e o desejo da mulher a serviço de um homem (outra vez). Para muitos deles, o relacionamento entre lésbicas não tem a mesma validade do que um relacionamento entre um homem e uma mulher – e por isso, não merece o mesmo respeito. Ou vocês acham que um homem sugeriria um “ménage à trois” a um casal hétero que viu passando na rua? Ou mesmo a um amigo, cuja namorada ele achasse atraente?

O nosso relacionamento só é tolerado se tiver um propósito para os caras. A partir do momento que você recusa (ou não é ‘feminina’ o suficiente para o padrão masculino), essa “aceitação” logo se transforma em um “sapatonas”, cuspido boca afora com desprezo.

Isso é apenas parte do que enfrentamos como lésbicas na sociedade. Afinal, se o homem não for necessário, como manter a lógica de opressão da mulher?

Culturalmente – nos filmes, livros, novelas ou rodas de conversa -, nossas qualidades são reduzidas a palavras como “frágeis”, “fúteis”, “ingênuas”, “doces” e naturalmente aptas a cuidar do outro (no caso, sempre um homem). Além disso, não são poucos os filmes que favorecem a ideia de uma ‘natural’ rivalidade entre as mulheres. Muitas de nós ainda não entendemos a força e autonomia que podemos ter juntas, unidas. E não é à toa: nos contam essa história há tanto tempo que começamos a acreditar. Mesmo mulheres lésbicas, às vezes, têm dificuldade de se desprender da ideia de que suas vidas só tem valor se forem mães ou esposas. Como se a sua orientação significasse um fracasso, por vezes inaceitável, como mulher.

Mas será que fracassamos? A existência lésbica não é novidade. Não foi inventada junto com o caminhão e a pochete. Na Grécia antiga, a poeta Safos tocava a harpa com os seus dedos, enquanto mantinha relacionamentos com outras mulheres. Por toda a história, sempre se soube de mulheres que amavam mulheres. E mesmo na natureza, como nas comunidades matriarcais dos macacos bonobos, nada é mais natural e comum do que duas fêmeas juntas.

Não teria sido então a sociedade a fracassar conosco, nos mantendo à margem por séculos? Não teria esta falhado em entender que a nossa existência acontece de muitas formas, não só uma, e que daí vem a beleza e a força de ser mulher? Mulher que pode, também, amar outras mulheres.

Pois temos direito de amar. De reivindicar o nosso lugar, o nosso espaço na sociedade. Já passou da hora de estarmos nas ruas, nos livros, nos filmes, nas baladas, na educação dos seus filhos. De sermos tratadas com respeito e naturalidade. Quantos séculos mais vocês precisam para “se acostumar” com a ideia?

Nossa existência como mulher, algo tão bonito e tão único, não pode ser reduzida à costela de alguém. Diminuída socialmente a ser sempre o “par”, a sombra vulnerável do Homem. Invisibilizadas até na comunidade LGBT (que, às vezes, soa mais como GGGG).

Dica: não somos gays. Somos mulheres e somos lésbicas.

Existimos e resistimos.
Juntas.

Autoras:

Melissa de Miranda: Sapata feminista, esquerdista, ecologista, ativista (de rua e de sofá), desarmamentista, ateísta, abortista e muitos outros “istas” para além de jornalista. 

Maiara BeckrichFormada em Ciências Sociais, lésbica, indígena de descendência boliviana e feminista. Desconstruindo e resignificando nas rodas de militância e mesas de bar.

Foto: Parminder Sekhon