Eu Preciso do Feminismo Porque Comprei um Móvel Novo pra Cozinha

Escolhi, escolhi até decidir. E mesmo comprando um móvel novo pra cozinha minha vida continua um inferno.

cozinha

Eu comprei um móvel novo pra cozinha. Fiquei escolhendo, escolhendo até que finalmente decidi e comprei um móvel novo pra cozinha. Minha aflição é que mesmo assim nada mudou. O móvel ainda não chegou. O prazo é de 39 dias úteis. Arrisco dizer que ainda vão plantar a árvore… Mas não tem nada não, porque troca a casa, troca o carro, troca o emprego, troca o móvel, troca até a cidade. Nada muda.

O estranho disso tudo é que o pensamento era só ser feliz, porque no começo era tudo colorido. Parecia coisa de filme. O vento soprava certinho no momento do beijo e enquanto nossos olhos estavam fechados, meus cabelos voavam e voavam e voavam – isso tudo sem embaraçar. Esqueça! Eu nunca vou ser romântica. Estava bem longe disso, mas do nada eu me vi num conto, num poema desses que enchem nosso peito de esperança. Desses que você se permite viver. Era difícil apontar o que era melhor, se era o sexo, o companheirismo e/ou os sonhos em comum. No momento que finquei a aliança no meu dedo – tudo tão rápido como jamais aceitei que fossem as coisas na minha vida – o filme romântico teve o seu the end. Era um curta metragem, o início de uma maratona de drama, terror e suspense – com algumas doses de comédia.

Seria eu tola se dissesse que não existiam bons momentos. Sim, existiam. E o mais bizarro é que soa como um feitiço que até aquele que julga ser o mais fodão cai como um patinho. Digo isso porque sempre fui do tipo de pessoa sem paciência para os conflitos infinitos das minhas amigas. “Termina”, “Esquece”, “Para de chorar”, sempre estiveram tão presentes no meu repertório de conselhos que às vezes quando eu paro pra pensar meu coração se enche de remorso. Todas sabem o enorme afeto que eu sinto por elas, mas quando eu as via sofrer, pelo mesmo motivo, de forma espiral, aquilo me deixava um bocado sem paciência.

É… Vivendo e aprendendo, manas… Hoje cá estou eu, um pouco amarga, presa numa situação que eu não consigo me livrar, e parece que quanto mais eu tento sair, mais eu me afundo. Qualquer pessoa que ler isso vai pensar: “Você não está presa coisa nenhuma. Pare com isso e saia dessa já”. Sim, esse é o conselho sensato, justo e previsível, mas nem tudo é como vemos de fora. Posso afirmar com categoria que me sinto mais forte, mais preparada para o dia D. O dia que eu vou pedir minha carta de alforria e dizer: “Tô fora”. Tem vezes, que no ápice da minha coragem, eu ensaio na frente do espelho tudo aquilo que eu pretendo dizer. Não, eu não quero falar das vezes que ele me chacoalhou e me deixou marcada nos braços, não quero lembrar o dia que ele me trancou no quarto, muito menos de quando meu pai ficou doente e ele cagou solenemente. Também não vou argumentar sobre o dia do enterro do meu pai, que antes de sairmos de casa ele disse coisas horríveis pra mim. Não vou relembrá-lo do pior aniversário da minha vida, nem de quando ele, com olhar de repulsa, falou coisas tenebrosas sobre o meu corpo. Não vou falar dos xingamentos, que se tornaram corriqueiros: puta, vagabunda, inútil, lixo. No meu discurso eu não vou dizer nada sobre as vezes que ele me largou sozinha na rua, em festas, em bares, na casa de amigos, porque eu discordei de algo que ele disse. Não falarei jamais sobre a família permissiva dele. Eu ensaio na frente do espelho pra dizer uma só palavra: ACABOU.

Não pensem vocês que eu nunca tentei terminar. Foram muitas vezes, principalmente depois que me dei conta que eu não me reconhecia mais. Não pensem vocês que ele não tentou terminar comigo. Foram muitas vezes. Eu me tornei respondona e insolente, mas ainda sim chorava e dizia: “Como nos perdemos? Nós éramos tão perfeitos. Eu sabia que íamos brigar, mas dessa forma? Desse jeito?”. O que eu não percebia é que nós não tínhamos nos perdido. Ele não conhecia o significado da palavra ‘respeito’. Substantivo masculino. Consideração, estima. Ele não sabia, e não sabe, o seu conceito. Nunca soube e hoje percebo isso através de sua família. Desses clichês que a gente lê por aí, nos textos da vida, é unânime: a receita para um relacionamento saudável é o respeito. Acontece que eu não precisei da internet pra descobrir isso. Fez parte da minha educação e dos meus relacionamentos anteriores dialogar e medir as palavras diante dos impasses. Quando não era assim, não era mais.

Poderia dizer que eu fui enganada, que ele é um lobo na pele de cordeiro, mas prefiro me refazer aos poucos. E nessa busca incessante pela minha paz tem horas que eu olho ao redor e penso: “A maioria das pessoas nem imaginam o que se passa na minha vida”. É verdade, elas nem sonham. Amigos, parentes, irmãos… Nem sonham. Já tentei me enganar:

“Ah poxa, eu não vivo um relacionamento abusivo. Ele só me xinga e me dá umas chacoalhadas quando está nervoso. Ele só grita e bate a porta na minha cara às vezes. Nada demais isso… Ele se acomoda porque confia em mim e sabe que no final eu vou resolver”.

Enquanto isso, eu fui tentando melhorar pra estar de acordo com aquilo que ele espera. Segurando as pontas, compreendendo os rompantes, trabalhando demais, pagando praticamente todas as contas. Mas eu tô cansada. Eu cansei, sério. E é por isso que eu ensaio. Na frente do espelho, enquanto lavo a louça ou tomo banho. Eu ensaio. Porque eu comprei um móvel novo pra cozinha. Escolhi, escolhi até decidir. E mesmo comprando um móvel novo pra cozinha minha vida continua um inferno. O prazo pra chegar são de 39 dias úteis. Arrisco dizer que ainda vão plantar a árvore. E eu? Eu espero não estar mais aqui. Espero estar recomposta, distribuindo sorrisos para aqueles que me amam e tanto se preocupam com a minha mudança repentina. Eles não sabem, talvez um dia saberão. Enquanto isso eu me dou uma trégua. E espero pacientemente o móvel da cozinha.

*A autora desse texto preferiu não se identificar. 

Leia também “A Insustentável Leveza da Submissão” (ou “A Hora da Fraqueza”).