Rogue One e a Persistência do Princípio Smurfette

Ter uma Smurfette como protagonista – isto é, uma única personagem feminina em um mar de homens – pode até ser bom, mas não significa que o machismo acabou.

smurfette

Ahh, o Princípio Smurfette! Mesmo se você não faz ideia do que é isso, eu tenho certeza que você já se deparou com ele inúmeras vezes, ao longo de toda uma vida de consumo de cultura pop. E que maneira melhor de falar sobre esse famigerado fenômeno de tokenismo* feminino do que em relação ao último lançamento da franquia Star Wars, o empolgante Rogue One?

Jyn, eu te adoro, mas preciso fazer isso.

 

Mas me adianto. Antes de mais nada, quero dizer que a crítica feita pela nossa colaboradora Roberta aqui mesmo no Nó de Oito me representa completamente. Eu achei o filme ótimo, saí do cinema super empolgada e inspirada a me tornar uma revolucionária badass. Além disso, gostei muito da representatividade étnica entre os personagens principais. Mas assim como a Roberta, também me incomodei profundamente com a falta de representatividade feminina no filme. Eu sei, é surpreendente, mas é completamente possível amar uma obra e mesmo assim ter problemas com ela.

Mas Lara, a Jyn é a protagonista do filme! Como você pode achar que faltou representatividade feminina?

Bom, por vários motivos, o mais simples deles sendo a matemática. Se a gente olhar o núcleo principal de personagens (a galera que dá nome ao filme e estampa o poster), temos cinco personagens masculinos para uma feminina. Cinco personagens complexos, com características distintas entre si – uma variedade grande de tipos para os garotos se identificarem – e apenas uma mulher branca dentro do padrão como representante de todo o gênero feminino.

smurfetteColocar o carão dela maior não muda os números.

 

Não que eu não tenha gostado da Jyn, claro. Ela é incrível! Mas a gente fica se perguntando né. Cadê as outras mulheres da galáxia? Porque mesmo se a gente levar em conta a figura decorativa da Mon Mothma, líder dos rebeldes, e algumas outras pequenas aparições femininas ao longo do filme, ainda assim a conta não fecha. Será que alguém consegue me explicar por que um universo completamente inventado parece ser regido pelas mesmas convenções machistas do nosso mundo?  

Mas essa é uma pergunta besta, é claro. Porque a resposta é óbvia: quem inventou esse mundo reproduz nele as noções machistas da nossa própria realidade. E o que dizem as noções machistas da nossa realidade? Oras, que homem é o padrão do ser humano, enquanto mulher é apenas uma variação – ou seja, uma versão desvirtuada do homem.

Lembra de Adão e Eva? Eva criada a partir da costela do Adão e tals? Que como se não bastasse ainda é desobediente e vai lá comer o que não deve e é a grande culpada pelo surgimento do pecado, expulsão do paraíso, dor de parto, pão que cai com a manteiga virada pra baixo e melancolia de fim de domingo? Pois então. E não pense que isso é só coisa do cristianismo. A inferiorização e demonização da mulher está presente em, ó, um tantão de religião mundo afora.

smurfetteO nome desse fenômeno misterioso que acomete as religiões organizadas é ‘patriarcado’.

 

Pois bem, como os homens são entendidos como “padrão da humanidade”, e como esses grupos também dominam os meios de comunicação (devido a uma série de privilégios advindos do fato de terem sido considerados “padrão da humanidade” ao longo de séculos), o que acabamos mais vendo na mídia e no entretenimento são eles. Na maioria dos casos, a menos que uma história traga uma temática estereotipicamente feminina (como romance, casamento, maternidade, moda e consumo desvairado – porque, né, “mulheres são fúteis e materialistas”), a escolha dos personagens é majoritariamente masculina.

Mas aí, acontece que de vez em quando a galera está fazendo um filme “não-de-mulherzinha” e pensa: Poxa, mas não dá pra fazer um filme só com caras, né? Coloca uma personagem feminina aí no meio, pô, tem que ter diversidade!

Eis que entra o Princípio Smurfette. Cunhado por Katha Pollitt em um artigo do The New York Times de 1991, o termo faz referência à prática comum na cultura pop de ter exatamente uma única personagem feminina dentro de um grupo variado de homens (esse grupo pode ser todo o elenco, ou um subgrupo significativo dentro de narrativa). A inspiração para o nome veio, claro, dos Smurfs – pequenas criaturas azuis que viviam só entre caras até que o malvado Gargamel criou uma versão feminina para ferrar com eles, que no fim foi transformada pelo Papai Smurf em uma smurf real, boazinha, loira e fã de salto alto.

smurfetteA Smurfette foi durante muito tempo a única smurf mulher e sua principal característica é ser estereotipicamente feminina.

 

E a partir desse, conseguimos identificar vários outros exemplos do princípio Smurfette em ação.

smurfetteA própria franquia Star Wars (com exceção d’O Despertar da Força)…
smurfette…é especialista na prática
smurfetteMas não pense que isso é só coisa de ficção científica
smurfetteTipo
smurfetteEstamos falando de uma prática
smurfetteMuito comum mesmo
smurfetteColocar lá uma só moça
smurfetteE achar que tá bom.
smurfetteRepresentatividade feminina
smurfetteé muito mais
smurfettedo que isso
smurfetteOk?

 

As implicações negativas do Princípio Smurfette são várias, sendo a falta de representatividade a principal delas. Durante muito tempo, as Smurfettes também foram retratadas de forma estereotipada, como acessórios engraçadinhos ou peças de decoração, sem valor significativo nas tramas das quais faziam parte.

Atualmente, no entanto, muitas obras que trazem esse tropo trazem também a ideia de que mulheres precisam ser excepcionais para participar de aventuras “masculinas”. Afinal, somente garotas “fora da curva” (que não são estereotipicamente femininas, de preferência), conseguem um espaço entre os caras. E de acordo com essas obras, elas são pouquíssimas.   

A discussão que Katha Pollitt trouxe já tem quase três décadas, mas infelizmente continua super atual. Ainda somos entendidas como versões desvirtuadas de homens  e ainda temos que cobrar exaustivamente representatividade feminina significativa e livre de estereótipos machistas na cultura pop. Lamentavelmente, as palavras de Pollitt soam tão verdadeiras em 2017 quanto soaram em 1991:

“Garotos são a norma, garotas a variação; garotos são centrais, garotas são periféricas; garotos são indivíduos, garotas são tipos. Garotos definem o grupo, sua história e seu código de valores. Garotas existem apenas em relação a garotos. (…)

Meninas aprendem a dividir sua consciência, filtrando os seus sonhos e ambições através de personagens masculinos, enquanto admiram as roupas da princesa. As mais privilegiadas e ousadas podem sonhar em se tornar mulheres excepcionais em um mundo masculino – Smurfettes. As outras são ensinadas a aceitar o destino mais usual, que é o de ser um carro de passageiros levado ao longo da vida por um motor de trem masculino. Garotos, que raramente são confrontados com histórias em que personagens masculinos têm um papel secundário, aprendem uma lição mais simples: garotas simplesmente não são tão importantes assim”.

Dentro desse cenário, como se encaixa Rogue One, que tem uma Smurfette como protagonista? Bom, não é como se Smurfettes nunca fossem protagonistas. Esse geralmente é o caso nos poucos filmes de ação e aventura que temos mulheres protagonistas. Nesses casos, assim como no caso de Rogue One, o fato de termos mulheres nesses papéis não é o suficiente para eliminar as implicações negativas de se ter apenas uma personagem feminina significativa no meio de um mar de caras bacanudos. Por isso, embora eu ache o protagonismo da Jyn lindo, importante e significativo, ele não é o suficiente.

Nesse sentido, a Smurfette como protagonista acaba simplesmente sendo uma variação do Princípio Smurfette. À primeira vista, parece uma super mudança – e sob muitos aspectos, é mesmo! – mas no fundo acaba caindo no velho tokenismo nosso de cada dia. Sabe quando a gente diz que as coisas que estão mudando, só que a passo de formiguinha? Pois bem, é desse tipo de coisa que estamos falando.

*Tokenismo vem do inglês ‘token’ (símbolo) e consiste na prática de fazer pequenas concessões a um grupo minoritário para evitar eventuais acusações de preconceito ou discriminação.


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