Pânico – Um Clássico de Terror Feminista pra Chamar de Seu

Pânico não só renovou o gênero como incorporou diversos elementos feministas no que se tornaria um clássico do terror de assassinatos.

pânico

*Contém spoilers

Esse ano eu me diverti horrores assistindo as duas temporadas de Scream na Netflix – a série da MTV baseada na quadrilogia Pânico da década de 1990. Não tinha como ser diferente. Nascida no fim da década de 1980, o fim da minha infância foi recheado com muitos gritos e sustos bem-humorados, cortesia da famosa Ghostface – a máscara usada pelos assassinos em todos os filmes da franquia. 

Olha ele aí!

 

Claro que quando eu vi Scream lá na fila de lançamentos da Netflix, eu não esperava que fosse mais do que um ótimo entretenimento trash. Afinal, por mais que Pânico tenha renovado o gênero do terror de assassinatos (os famosos slasher movies), isso foi há mais de quinze anos! Tudo o que a trilogia original introduziu ao gênero já foi replicado e satirizado centenas de vezes, então dificilmente a série traria aquele sentimento de novidade e inovação que os filmes trouxeram (digo trilogia original, porque o quarto filme da franquia saiu em 2011).  

Eu não estava errada, mas isso não significa que a série seja ruim. Quer dizer, é ruim, mas do tipo bom, saca? Que nem quando falam “nossa, mas aquele cachorrinho é tão feio que fica fofo”. Isso é tipo o que acontece com Scream: é tão trash que fica bom! Atuações sofríveis, mortes espetacularmente absurdas e personagens que adoram ir ver “que barulho foi esse” – tudo isso faz com que Scream seja uma pérola trash que eu vou proteger! Sério, tem uma hora que um personagem resolve que a melhor coisa a fazer em uma balada lotada em que o assassino está espreitando é desligar todas as luzes! Tem como não amar?

 Vocês não se assustariam tanto se fossem mais espertos, pessoal.

  

Pois bem, acontece que mesmo sendo uma história nova (e mesmo ignorando tudo o que o Randy da trilogia original diz pra não fazer em um filme de terror para sobreviver), eu senti que a série Scream conseguiu manter até que bem a essência dos filmes originais. As referências aos clichês dos filmes de terror estão lá, o passado obscuro dos personagens está lá, a heroína que sobrevive está lá (apesar de ficar no chinelo, se comparada com a Sidney) e sim, mesmo que em doses homeopáticas, o feminismo também está lá.

Sim, minhas caras e meus caros, porque mais do que um clássico de terror, a quadrilogia Pânico é um clássico de terror feminista. Vem comigo que eu explico.

Temos uma heroína que não é virgem, chuta muitas bundas e ainda zoa os assassinos

Ter uma heroína sobrevivente que enfrenta o assassino no final nunca foi exclusividade de Pânico em slashers. As mulheres sempre foram as preferidas para interpretar esse papel, justamente por sua vulnerabilidade ser capaz de induzir mais terror na plateia. Esse recurso sempre foi tão usado, que em 1992 Carol J. Clover cunhou o termo Final Girl para esse tipo de personagem. Só que até Pânico chegar, a Final Girl sempre se encaixava exatamente dentro dos estereótipos conservadores de como uma mulher deve ser: era sempre uma garota virgem e recatada, que não bebe, não fuma e não usa drogas. Ah, e sempre tradicionalmente morena, em contraponto a alguma personagem loira, peituda e promíscua que morre logo no começo.  

Pois bem, com Sidney as coisas mudaram e sexualidade parou de ser um definidor da sobrevivência das personagens. Sidney perde a virgindade no meio do primeiro filme, e ainda assim sobrevive pra contar a história nesse e em outros três filmes na sequência.

Além disso, Sidney nunca cai no estereótipo da mina histérica e descontrolada. Apesar de ser constantemente perseguida por um maluco com uma faca, ela sempre mantém o sangue frio e segura as pontas até ter a oportunidade de virar o jogo. O que sempre acontece. Sempre rola uma cena no final em que ela atormenta os assassinos de alguma forma. E eu amo isso!  Sidney fica aterrorizada, sim, mas é uma badass sem tirar nem pôr.

Pare de me tratar como se eu fosse de vidro, Dewey. Eu não vou quebrar.

 

Vale dizer que os outros personagens (inclusive a polícia, que costuma desconfiar e agir contra personagens como a Sidney) nunca a questionam e, por mais ineptos que sejam, são sempre seus aliados.

As vítimas não são apenas rostinhos bonitos com peitões

Agora, é verdade que a Sidney é morena e a maioria das vítimas mulheres do Ghostface são loiras. Mas Pânico subverte essa tropo ao não sexualizar essas personagens e ao mostrar que elas não são nada burras.

Tatum, a melhor amiga de Sidney no primeiro filme, seria a que melhor se encaixa no estereótipo, mas não o faz: ela é inteligente, corajosa e uma ótima amiga. Tanto que se tornou uma favorita dos fãs.

Isso é tão machista. O assassino pode facilmente ser mulher. Instinto Selvagem?

 

A personagem de Drew Barrymore é viciada em filmes de terror e se sai muito bem até o último segundo, assim como a de Sarah Michelle Gellar, que é bem esperta, mas não rápida o bastante, infelizmente. Aliás, vale notar que o fato de terem sido escolhidas celebridades para interpretar esses papéis não pode ter sido por acaso, dado que isso também ajuda a subverter o estereótipo.

E sem contar, claro, que além das meninas, também tem muitas vítimas masculinas. Na verdade, tem mais caras mortos do que minas, se fizermos o balanço de todos os filmes. Não tem disparidade de gênero nas matanças do Ghostface, não. Todo mundo tem as mesmas chances de morrer.

Além de Sidney, todos os filmes contam com uma segunda heroína (detestável, mas muito amada): Gale Weathers

Gale Weathers, a jornalista cuzona e inescrupulosa interpretada por Courtney Cox, é uma das melhores coisas de Pânico. Junto com Sidney, Gale sempre participa de toda a ação do final e sempre sobrevive, além de ser a personagem que faz as maiores descobertas sobre a identidade dos assassinos ao longo dos filmes. Em um mundo que teima em se contentar com uma personagem feminina forte no meio de um mar de caras, ter uma dupla feminina que chuta a bunda dos assassinos é maravilhoso. E o melhor de tudo é que Gale é um ser humano meio que detestável. E melhor ainda? Não se importa nem um pouco com isso.

Quer dizer, uma personagem feminina que se distancia quilômetros de todos os ideais femininos de submissão e docilidade, não é punida por isso e ainda ajuda a salvar o dia? Fala sério, Pânico fez escola. E já que estamos falando nisso…

Temos assassinas mulheres

Não vou me alongar muito aqui pra não me afundar muito nos spoilers. Basta dizer que, sim, temos assassinas mulheres, e sim, elas são tão cruéis e psicopatas como os caras. Aliás, talvez até um pouco mais. E isso é lindo! Afinal, mulheres são tão seres humanos quanto homens – tanto para o bem, como para o mal.

E por último, mas não menos importante:

Os filmes são um grande dedo do meio erguido na cara do slut-shaming

Slut-shaming é uma forma de restringir e controlar a sexualidade feminina com xingamentos ou fazendo com que a mulher se sinta culpada, humilhada ou inferior por determinados comportamentos sexuais – como ter vários parceiros, transar sem compromisso, usar roupas curtas, etc.

Dito isso, basta pensar um pouco sobre os motivos dos assassinatos em Pânico para perceber que os filmes são um enfrentamento ao slut shaming. Tudo gira, basicamente, em torno da vida sexual da mãe de Sidney no passado, com a maioria dos assassinos identificando no comportamento de Maureen a fonte de todos os seus problemas. A boa notícia é que Pânico se esforça para mostrar como isso é ridículo, como esses assassinos são patéticos por pensar isso, e ainda finaliza fazendo a Sidney, a filha da tal ofensora, zoar e eliminar todos eles, um por um.

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Dito tudo isso, é importante lembrar que Pânico não é perfeito. Pra uma franquia que fez fama subvertendo estereótipos, é uma grande pena que os filmes sejam compostos majoritariamente por personagens brancos e que os poucos não-brancos sejam mortos ou estereotipados. A série da MTV, infelizmente, seguiu esses passos também.

De qualquer forma, aproveita que é mês de Halloween e faz lá uma maratona de Pânico (e se quiser algo muito trash, veja a série Scream da MTV também). Um pouco de terror feminista cai muito bem.

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