Mulher-Troféu: A Mulher como Recompensa do Herói na Cultura Pop

Por mais que a gente roa as unhas, nunca há dúvida: o herói sempre ganha a mocinha no final. Como será que esse “direito” do herói se traduz para a vida real?

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O tema da donzela em apuros é milenar. Tradicionalmente, a donzela é sempre mulher, bela e dependente de um herói, que sempre a salva de algum vilão terrível. O herói, por sua vez, é sempre forte, destemido e homem, que sempre recebe como recompensa pelo seu ato heróico a própria donzela. Durante séculos, a historinha da mulher que precisa ser salva populou o imaginário popular e legitimou, com uma boa dose de romantismo, a crença perversa e debilitante de que mulheres são inferiores e devem ser “cuidadas” pelos homens.

heróiDroga, Marieta, eu mal descanso os olhos e lá vai você de novo se meter com dragões!

 

A humanidade avançou e as histórias mudaram. Hoje, os heróis já não precisam mais ser tão corajosos, fortes ou corretos. Já as donzelas, embora na maioria das vezes ainda precisem ser belas, também não precisam mais ser tão indefesas assim.

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Uma coisa, no entanto, permaneceu imutável e manteve vivo para as novas gerações o teor sexista da fábula original: não importa o que aconteça, o herói sempre ganha a mocinha no final. Esse “direito” do herói de sempre ganhar uma mulher como recompensa se reproduz por todos os cantos da cultura pop, especialmente em livros, videogames e, como não, filmes. O Shrek ganha a Fiona; o Peter Parker ganha a Mary Jane; o Shia LaBeouf ganha a Megan Fox; o Homem de Ferro ganha a Pepper Potts; o Karate Kid ganha a garota mais popular da escola; o Adam Sandler sempre ganha uma mulher em seus filmes, não importa o quão babaca ele seja; e até os meninos de índole e moral duvidosas de Superbad ganham garotas legais no final.


heróiÉ com você mesmo, Emma, não adianta disfarçar.

 

Ou seja, a fábula moderna da donzela em perigo não a vê mais necessariamente como incapaz e incompetente, mas ainda a enxerga como um prêmio que é do herói por direito. Oh, pode ser que a mocinha relute e tenha suas dúvidas antes de se entregar ao herói, mas todos nós sabemos que ela vai ceder no final. Essa construção da mulher-troféu na cultura e nas artes não só reflete os valores de uma sociedade que ainda julga que os homens devem dominar sobre as mulheres, como também fortalece e solidifica essas crenças e práticas.

O grande problema é que a vida não é um filme. E quando os meninos crescem acreditando que mulheres são suas por direito (já que eles são os heróis de suas próprias vidas), mas não as conseguem tão facilmente assim, eles ficam bravos.

Como assim, você não quer ficar comigo? Vaca!

Como assim, você quer ser só amigos? Vadia!

Como assim, você recusa os meus avanços? Frígida!

A verdade é que muitos homens não sabem lidar com a rejeição feminina, porque no fundo eles acreditam – e essa crença é reafirmada não só pela cultura pop, como no próprio cotidiano da sociedade – que mulheres não têm o direito de rejeitá-los. Principalmente quando eles fazem “tudo certo”.

heróiMas eu comprei flores! Como assim você não quer transar comigo?

 

E embora alguns deles cultivem o seu ódio por mulheres discretamente – deixando para usá-lo de maneira passiva-agressiva em algum comentário misógino no Facebook ou rindo com gosto de alguma piada machista no trabalho – outros ficam realmente violentos. Será coincidência o fato de o mundo nerd viver de histórias de heróis que ganham a garota (em filmes, livros, quadrinhos e videogames) e ao mesmo tempo ser um antro de hostilidade contra mulheres a ponto de alguns de seus membros se referirem a elas como “depósitos de porra”? Nesse caso, o problema é agravado ainda pelo fato de muitos nerds serem meninos e homens que têm problemas de autoestima e dificuldades para se relacionar com mulheres e que, portanto, demonizam ainda mais a sua rejeição (seja ela real ou não).

Por esse e outros motivos é tão importante que as histórias se atualizem. É por isso que festejamos quando Hollywood lança um Star Wars com uma mulher como protagonista, por exemplo. E é por isso que pedimos mais espaço, destaque e reconhecimento para mulheres escritoras, roteiristas, diretoras, quadrinistas. Cabe a nós, afinal, revogar qualquer direito que os heróis – e homens que os encarnam na vida real – pensam que tem sobre as nossas vidas.

*Leitura complementar: Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans (Brasil Post).

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