4 Argumentos a Favor do Cavalheirismo que Provam que Cavalheirismo é Machismo

Cavalheirismo é machismo, afinal? A julgar pelos argumentos usados por quem o defende, tudo indica que sim. 

cavalheirismo

Ao longo dos últimos novecentos anos, o termo cavalheirismo já significou muitas coisas. Nos seus primórdios, ele era a alma da romantização da ação ridiculamente cruel e violenta dos soldados durante as Cruzadas. Mais tarde, ele se tornou um código de conduta ético, moral e religioso extremamente rigoroso para cavaleiros medievais – idealizado e cumprido apenas dentro da cabeça de romancistas ultra-imaginativos da época, é claro.

cavalheirismoNada realmente baseado em fatos reais.

 

Hoje em dia, no entanto, usamos o termo cavalheirismo em relação a atos de gentileza praticados exclusivamente por homens para benefício exclusivo de mulheres. Obviamente, porque essas “exclusividades” registram uma diferença de tratamento entre homens e mulheres, as motivações por trás do cavalheirismo vêm sendo estudadas já há algumas décadas, e identificadas como resultado de uma mentalidade machista. E como é de se esperar, muita gente fica revoltada com isso.

cavalheirismoQuisera eu que todo mundo se enfurecesse assim com assédio de rua, disparidade salarial entre homens e mulheres ou o fato de uma mulher ser estuprada a cada 3 horas no Brasil, mas beleza.

 

Fascinada com essa indignação seletiva, resolvi investigar a fundo por que muita gente se revolta quando falamos que cavalheirismo é baseado em machismo. Por isso fiz o impensável: respirei fundo, tomei um antiácido e mergulhei de cabeça em seções de comentários ou textos com títulos como “Cavalheirismo não é Machismo! ps: feministas são ridículas”.

Previsivelmente, o primeiro argumento que encontrei é quase certamente resultado de má-fé. De acordo com ele, o cavalheirismo é uma questão de gentileza, de educação. “Porra, quer dizer agora que ser educado é ser machista, então?”, é a frase que mais vi por aí em discussões sobre o tema. Agora, eu não ia falar nada sobre isso, mas acho importante deixar registrado para as pessoas tomarem vergonha na cara e pararem de ser fazer de tontas:

Cavalheirismo não é a mesma coisa que gentileza.

Ninguém fala “nossa, que cavalheira!”, quando uma mulher segura a porta pra alguém. Mulheres não podem ser cavalheiras. Gentis, sim. Mas cavalheiras? Claro que não. Da mesma forma, quando homens praticam gentileza com outros homens, eles estão sendo gentis. Nunca cavalheiros. Isso porque, como já foi dito, o cavalheirismo moderno é entendido exclusivamente como a prática de atos de gentileza de homens para mulheres. Se você acha que ser cavalheiro é ser gentil e educado – não só com mulheres, mas com todas as pessoas – então é muito simples: você está falando de gentileza e bons modos, não de cavalheirismo. E contra gentileza e bons modos, ninguém tem nada contra.

Bom, tirando esse “mal-entendido”, o que realmente me surpreendeu nessa pesquisa foi que os principais argumentos usados em favor do cavalheirismo basicamente provam que ele é resultado de machismo. Estou falando de argumentos como…

“Qual o problema em achar que mulheres precisam ser cuidadas e protegidas?”

Er. Preciso me alongar muito nesse? É praticamente autoexplicativo, mas vamos lá. O que está escrito nas entrelinhas desse argumento é: “mulheres são mais frágeis e menos capazes do que os homens”. Esse cavalheiro em especial carrega coisas pesadas para uma mulher porque acredita que ela é mais fraca. Ele paga a conta porque acredita que ela tem menos dinheiro. Ele “cuida dela” porque ela não sabe se cuidar sozinha.

Eu queria fazer uma pausa aqui e lembrar que a ideia de que mulheres são frágeis e incapazes foi o que motivou o fato de nós só termos conseguido direito ao voto em 1932 e de termos sido consideradas literalmente incapazes do ponto de vista civil até 1962.

cavalheirismoEssa mulher precisou da autorização por escrito do marido para poder comprar uma máquina de costura, em 1934.

 

“Então quer dizer que não posso nunca mais ajudar minha esposa, que é visivelmente mais fraca do que eu, a carregar as compras, é isso?” – alguém aí está dizendo.

Claro que não é isso. Você deve sempre ajudar quem precisa de ajuda, seja essa pessoa homem ou mulher. O problema está em não fazer as mesmas gentilezas por homens mais fracos que você e em achar que mulheres em geral sempre precisam de ajuda, simplesmente por serem mulheres.

cavalheirismoVou só colocar isso aqui…

 

“Mas eu sou cavalheiro porque amo as mulheres! Elas são maravilhosas, verdadeiros anjos que merecem reverência e veneração eternas!”

É estranho pensar que admiração extrema pode ser algo ruim, mas lembre-se que existem duas formas de desumanizar uma pessoa: inferiorizando-a ou idolatrando-a. Colocar uma mulher em um pedestal pode parecer nobre e louvável, mas é apenas mais uma forma de objetificá-la e justificar comportamentos controladores e superprotetores.

O maior problema com esse argumento, no entanto, é que a realidade nos mostra que esse cavalheirismo baseado em admiração é condicionado ao quanto a mulher corresponde ao que se espera dela socialmente. Basicamente, espera-se que uma mulher seja delicada, atraente, recatada, gentil, meiga, adorável, boa mãe, etc. Dificilmente mulheres fora desses moldes usufruem de atos de cavalheirismo. Raros são os homens cavalheiros-por-admiração que tratam a empregada doméstica da mesma forma como tratam a namorada. Ou a colega “fácil” da mesma forma como tratam a colega recatada. Vemos isso todo dia quando respondemos negativamente a uma cantada na rua, por exemplo. Vamos de lindas a vadias em um instante, por nos recusarmos a fazer o que se espera socialmente de nós: sorrir, ficar lisonjeada, e bem quietinha.

cavalheirismoA vontade é de responder assim.

 

Da mesma forma funciona o cavalheirismo-por-admiração: como uma troca muito da injusta, em que a mulher abre mão de si mesma por algumas gentilezas insignificantes. Nós não queremos que paguem a conta no restaurante para nós, mas sim que nos paguem salários iguais aos dos homens para realizar as mesmas funções. Não queremos que carreguem as compras para nós, queremos que se responsabilizem também pelas tarefas domésticas e pela criação dos filhos. Não queremos que andem do lado de fora da calçada para nos proteger, queremos poder andar na rua sozinhas sem correr o risco de sermos assediadas ou estupradas. Não queremos que segurem portas, mas sim que nos respeitem, não nos agridam e, principalmente, não nos matem. 

cavalheirismo

E depois querem que a gente acredite que realmente nos admiram.

 

“Faz parte da conquista, entende? Você tem que fazer de tudo pra conquistar a mulher que deseja!”

Um problema claro com esse argumento: ele parte do pressuposto de que mulheres são prêmios a serem conquistados. E dá margem a todo tipo de escrotice. Esse é o cavalheiro que acha que a mulher lhe deve por aceitar suas gentilezas.

Ou o “cara legal” que acha que as mulheres são vadias interesseiras porque não quiseram ficar com ele depois de todas as gentilezas que ele fez por elas.

cavalheirismoComo assim você não quer transar? E todas aquelas portas que eu segurei pra você? As compras que eu carreguei?

 

Bem, deu pra entender por que esse cara é um bosta, né?

“São as mulheres que querem homens cavalheiros! Elas pedem!”

Ah, o que dizer de homens que se defendem de acusações machistas dizendo que a culpa pelo machismo é das mulheres?

cavalheirismoUm gif ilustra melhor o que eu tenho a dizer a esses caras.

 

Não, mas sério agora. Pensa aqui comigo. Mulheres também estão imersas nessa cultura machista e absorvem desde o berço uma porrada de conceitos e ideais equivocados sobre o que significa ser homem e o que significa ser mulher. Em relação a toda essa questão do cavalheirismo, é fácil entender por que muitas ainda prezam essa característica em homens. Ao contrário dos homens, nós somos criadas na dependência. Recebemos menos liberdade de nossos pais, nossa sexualidade é controlada, somos levadas a acreditar que o evento mais importante de nossas vidas é o casamento. Aprendemos até a amar aquela bandalheira toda de passar das mãos do pai para as mãos do marido na cerimônia de casamento.

Tudo isso e muito mais abala a nossa autoconfiança e faz com que muitas de nós acreditem que necessitam de proteção, que não dão conta sozinhas. É a socialização torta que a que as mulheres são submetidas que faz com que elas reproduzam e aceitem muito do machismo. E nada disso é culpa delas.

Um dos principais estudos sobre a relação entre cavalheirismo e machismo também diz algo muito interessante sobre essa coisa de mulheres gostarem e exigirem que homens sejam cavalheiros. Depois de coletar dados de mais de 15.000 pessoas de mais de vinte países diferentes, os pesquisadores Peter Glicke e Susan T. Fiske descobriram que quanto maior o nível de machismo nu e cru em um país, maior também é a aceitação do chamado “machismo benevolente” (cavalheirismo) entre as mulheres desse país. Isso porque, como são constantemente confrontadas com reações hostis toda vez que não se conformam aos ideais socialmente construídos de gênero, essas mulheres veem no machismo benevolente a possibilidade de proteção e apreciação. Basicamente, se elas pedem, é porque a coisa está bem complicada em termos de machismo hostil onde elas vivem. O machismo benevolente na forma de cavalheirismo é uma ilusão de valorização da mulher, quando a realidade é muito mais sombria do que isso. 

Agora, pode ser que mulheres independentes, poderosas e feministas estejam me mandando calar a boca, porque não veem problema em serem bem tratadas. E pode ser que homens também estejam me xingando, porque querem continuar tratando bem suas namoradas. E não tem problema nenhum, sério! Minha intenção não é fazer com que tudo isso acabe, mas sim que todos pensem nos motivos pelos quais fazemos e aceitamos certas coisas. Existem trocas normais entre casais, existem preocupações genuínas e válidas com um ente querido e existe machismo. O importante é estarmos dispostos a fazer essa reflexão.

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