Machismo Irônico e Por Que é Preciso Ter Cuidado com Ele

Machismo irônico acontece quando alguém reveste atos ou falas machistas com ironia para torná-las mais palatáveis.

machismo irônico

Dia desses eu escrevi um texto explicando o clássico duplo padrão machista “Homem é Pegador, Mulher é Vadia” através de um episódio de How I Met Your Mother. A discussão em si era sobre o comportamento do Marshall no episódio em questão, mas obviamente muitos leitores aproveitaram a deixa para criticar a série em geral, principalmente por causa daquele que é um dos personagens mais machistas da televisão: Barney Stinson.

Pois bem, é claro que na esteira dessas críticas certeiras apareceram vários defensores da série, que de formas variadas expressaram basicamente o mesmo argumento: que o machismo que HIMYM apresenta através do Barney é irônico. Que é algo feito conscientemente como uma piada, porque, ha ha, não é como se caras que pensam como o Barney existissem na vida real, né?

Pera, quê?

 

Mas calma. Antes de falar mais sobre HIMYM, eu queria me aprofundar um pouco mais nesse conceito de “machismo irônico”. O que é, onde vive e do que se sustenta o machismo irônico, afinal?

Em suma, machismo irônico acontece quando alguém besunta ironia em atos ou falas machistas para torná-las mais palatáveis. É um tipo de machismo consciente de si mesmo, sendo que a piada reside justamente no fato de a pessoa saber que o que está fazendo ou falando é degradante para mulheres de alguma forma, mas o faz mesmo assim porque pressupõe que evoluímos o suficiente como sociedade para relevar e achar aquilo engraçado.

E onde ele vive? Bem, o machismo irônico prospera como erva daninha principalmente em círculos ditos mais “esclarecidos”. Não à toa ele também é conhecido como “machismo hipster” ou “machismo liberal”, ambos termos que entregam bem o seu habitat natural.

Então o machismo irônico acontece, por exemplo, quando aquele seu colega de trabalho que se diz feminista pergunta se você está de TPM quando está irritada com algo, mas logo em seguida solta uma risada, porque ele está só brincando é claro. Ou quando o seu marido desconstruído brinca que você não está cumprindo seus deveres como esposa porque não tem comida na geladeira, mas com muito bom humor, né, porque óbvio que ele não está falando sério! Ou mesmo quando aquele seu amigo barbudo de esquerda compra uma daquelas camisetas toscas com trocadilhos toscos sobre mulheres e seus corpos – mas DE BRINCADEIRA, poxa!

É tudo muito irônico e engraçado, entende, porque quem pensa assim hoje em dia, não é? Certamente não eles, ha ha!

Aproveitando, vou só deixar isso aqui.

 

O conceito de machismo irônico não é nada novo, tendo sido inspirado por reflexões similares sobre racismo irônico (sabe, quando alguém faz uma piada sobre escravidão, por exemplo, porque racismo é tão coisa do passado!), um termo cunhado por Carmen Van Kerckhove, em 2007. Mais recentemente, o conceito voltou à tona com um texto da Alissa Quart, na NYMag. De acordo com ela:

“Machismo Hipster consiste na objetificação de mulheres, mas de uma forma que usa zombaria, aspas e paradoxo: coisas que você aprendeu na aula de literatura.”

Quart opõe o machismo irônico ao que ela chama de machismo clássico – sabe, do tipo que fala a sério que o papel da mulher é cuidar da casa, ou que a culpa pelo seu estupro é toda sua porque mulher não tem nada que usar saia curta e ir pro bar sozinha. Ambos são nocivos, mas ao se esconder por trás de uma camada de ironia, o machismo irônico se isenta de responsabilidades e ganha uma espécie de imunidade a críticas e revoltas. Afinal, é fácil se revoltar contra o machismo clássico justamente porque ele é tão abertamente discriminatório e explícito. Já se revoltar contra o machismo irônico, com suas piscadelas marotas e sorrisinhos de lado que dizem “é só uma brincadeira, eu não penso isso de verdade”, quase certamente lhe renderá o título de exagerada, sem graça ou louca.

Estraga-prazeres. Nada de bolo pra você.

 

Dessa forma, o machismo irônico ajuda a manter a estrutura machista ao permitir que os seus ideais sejam reforçados e reproduzidos de forma menos explícita – o que é bem traiçoeiro, já que é muito mais difícil identificar e condenar o que está nas entrelinhas. E essa dificuldade vale tanto para situações na vida real, como para as mídias que consumimos, que se apropriaram com gosto do machismo irônico para continuar objetificando mulheres sem serem responsabilizados por isso.

Um caso que me vem muito à cabeça é o da música Blurred Lines, do Robin Thicke. Com versos como “Eu sei que você quer”, “Vou te dar algo grande o suficiente para rasgar sua bunda em dois”, e um videoclipe que é quase um pornô com três mulheres peladas junto com três caras totalmente vestidos, Blurred Lines pode ter sido amplamente criticada como “música de estupro”, mas também foi a música mais tocada de 2013. Entre os seus muitos defensores foi argumentado que tanto a música como o clipe são irônicos; uma defesa levantada também por Thicke:

“Tentamos fazer tudo que era tabu. Bestialidade, drogas, e tudo que é completamente degradante para mulheres. Porque nós três somos homens bem casados com filhos, pensamos ‘Somos os caras perfeitos para tirar sarro disso’. As pessoas dizem ‘ei, você acha que isso é degradante para mulheres?’ e eu fico tipo ‘Claro que é. Que prazer que é degradar uma mulher. Eu nunca pude fazer isso antes. Eu sempre respeitei mulheres”.

Certo. Então a lógica de Thicke é que é divertido objetificar e degradar mulheres de vez em quanto contanto que você as respeite na maior parte do tempo. Hum. Já uma das modelos que participou do clipe, e também a sua diretora expressaram visões diferentes (mas também parecidas):

“Eu dirigi as meninas para olharem para a câmera, isso é muito intencional e elas o fazem a maior parte do tempo; elas estão na posição de poder. Eu não acho que o vídeo é machista. A letra é ridícula, os caras são bobocas pra caramba. Dito isso, eu respeito as mulheres que criticam imagens negativas na cultura pop e que acham a nudez ofensiva, mas eu acho o video meta e divertido”.  – Diane Martel, diretora de Blurred Lines.

“É muito importante para jovens mulheres hoje em dia terem essa confiança. O vídeo está na verdade celebrando mulheres e seus corpos. […] Música pop é ótimo, mas tem muita besteira sobre a atitude dos caras serem super gangster – por isso o vídeo é tão bobo. Está tirando sarro de si mesmo”. – Emily Ratajkowski, modelo.

Clássico machismo irônico, certo? “É só uma brincadeira, pessoal!”. Mas como bem disse a Elisabeth Plank em um artigo da Mic:

“Então o que acontece quando a modelo na música não acha que o vídeo a objetifica, mas outras mulheres sim? Em outras palavras, se uma mulher é objetificada pelo público, mas ela própria não está se objetificando, ela ainda assim é um objeto? Se uma árvore cai na floresta, mas não escuta o próprio barulho, o barulho aconteceu?”

O fato é que a galera toda por trás do clipe e da música pode ter tido a melhor das intenções ao tentar ser irônico, mas no fim eles falham porque é muito difícil ser bem-sucedido nesse jogo em uma sociedade em que o machismo ainda é uma realidade tão violenta para as mulheres. Mulheres ainda são amplamente objetificadas e degradadas na mídia, então que tipo de subversão o Blurred Lines esperava trazer ao apresentar três mulheres objetificadas em seu clipe? Na realidade, tudo o que a música trouxe foi mais do mesmo.

Aqui uma versão muito mais subversiva do que a original.

 

E aqui voltamos para o machismo irônico de HIMYM. Sim, eu não tenho dúvidas de que o machismo apresentado através do Barney é pra ser uma ironia. Que a intenção é que a gente ria do personagem, porque ele é ridículo e absurdo. Mas como eu disse, é muito difícil jogar o jogo do machismo irônico, e HIMYM prova isso ao falhar nesse jogo de diversas formas.

Explico.

Como eu já disse em outro texto, opressões devem sim ser retratadas na ficção, pois a mídia e a cultura pop em geral são ferramentas de comunicação essenciais, que podem trazer à tona discussões muito necessárias. No entanto, é preciso muito cuidado para não acabar endossando-as sem querer. Ao não tomar esses cuidados, produções como HIMYM acabam fracassando e reproduzindo as opressões que pretendem (ou não, sei lá) criticar. Então, no caso de Barney, pensemos:

O personagem autor do comportamento problemático é o protagonista? O personagem autor do comportamento problemático é carismático? Ele é construído de forma a inspirar a simpatia do público? A história nos mostra claramente as consequências negativas resultantes do comportamento problemático? O comportamento é questionado/condenado pela produção de alguma forma? De que ângulo o comportamento problemático é retratado? Temos um amplo entendimento do ponto de vista das vítimas dele? 

Meeeerda.

 

Quer dizer. Barney é um protagonista em HIMYM, ele é extremamente carismático – tanto que é um favorito do público -, além de ser extremamente humanizado em diversos momentos. Apesar de alguns de seus comportamentos serem condenados por seus amigos, ele nunca sofre consequências reais pelos seus atos, e as suas vítimas nunca têm voz nenhuma. Então né, mesmo que em alguns momentos a série nos diga que o que o Barney está fazendo é errado, ela nunca se compromete e sempre acaba voltando a retratá-lo como um creep de bom coração. Machismo irônico fail.

Agora, não é porque é difícil de fazer que não dá pra usar machismo irônico como crítica ao machismo. Um caso bem-sucedido que me vem à mente é uma sequência do recente Caça-Fantasmas. Na cena, as protagonistas postaram um vídeo no YouTube da sua interação com um fantasma, e a Abby chama Erin para ver os comentários de gente que também viu fantasmas. No entanto, sem saber onde olhar, Erin lê um dos primeiros comentários, que diz algo como: “vadia nenhuma vai caçar fantasma”. Abby diz logo “não, esse não”, acha o comentário certo, e elas seguem em frente, prontas para, sim você acertou, caçar fantasmas.

É uma cena brilhante na sua simplicidade, pois refuta com um dar de ombros toda uma campanha da vida real que reuniu milhares de caras machistas contra o filme, simplesmente porque ele foi protagonizado por mulheres. Eu ri – mas eu ri muito nessa cena de 2 segundos – que conseguiu usar o machismo a seu favor, sem endossá-lo de forma alguma.

Então acho que pra concluir, fica essa dica aí. Se for pra fazer piada, faça direito. Todos agradecem.


Leia também A Diferença entre Retratar e Endossar Opressões em Obras de Ficção (e como identificar cada caso); e O Duplo Padrão “Homem é Pegador, Mulher é Vadia” Explicado Através de um Episódio de How I Met Your Mother.