Heroínas Masculinizadas e a Síndrome da Mulher “Mais Macho que Muito Homem”

Por trás das heroínas masculinizadas está o poder que frases (nem tão) inocentes têm e a dose de machismo que elas carregam. 

heroínas

Então, vamos começar esse texto falando um pouquinho sobre a autora: eu sou bem jovem. Isso significa que eu cresci nessa geração que veio, de uns anos pra cá, virando de cabeça pra baixo (ainda bem). Agora que eu tenho 18 anos, eu acho que posso me chamar de adulta – eu ainda não me decidi sobre isso – mas lá na minha adolescência (vamos chamar isso de 2012) eu lembro dos dias quando não questionávamos a cultura machista. Então, nas épocas de outrora, quando eu ouvia alguma coisa do tipo: “Você é mais macho que muito homem” eu ficava muito orgulhosa, e eu nem sabia exatamente o porquê. A única coisa que eu sabia é que eu tinha ganhado a admiração (geralmente de um amigo homem) e estava sendo reconhecida como igual na sociedade estudantil (ou seja, no grupinho).

O tempo passou  e eu nunca mais pensei nisso, até que me disseram algo desse tipo num grupo de amigos em que eu era a única mulher e, ao invés de me sentir aceita e especial, tudo o que eu senti foi um gosto amargo na boca. E lembro de não entender o porquê. O que tinha mudado?

Demorou um pouco pra eu entender que tudo tinha mudado. De uns anos pra cá, eu construí uma identidade. E no meu cartão de visita consta ser mulher. Meu cérebro e meu corpo estão perfeitamente de acordo neste quesito e, quando eu me pergunto quem eu sou, eu respondo que sou uma menina – é, eu definitivamente não aceitei ser adulta ainda – de X anos, atendo por um nome feminino que me serve muito bem e no futuro serei muitas coisas enquanto continuo sendo uma mulher. Eu nasci assim e me tornei assim; foi com os anos que eu reafirmei meu gênero e assumi minha identidade. E foi tudo isso que me levou a perguntar por que eu tinha ouvido aquilo. Foi então que cheguei à conclusão de que ser homem é um elogio.

heroínas

Considerando a cultura em que vivemos, é quase natural que seja assim. A indústria cultural é dominada por homens e, até mesmo quando vemos uma representação feminina, ela é na maioria das vezes inferiorizada, idealizada por homens e para homens. Isso significa que o protagonismo masculino é bem mais significativo, os personagens masculinos são mais trabalhados e com isso criamos um estereótipo do que significa agir como um homem – e é evidente o quanto isso pode prejudicar os homens também – e encaixamos os diferentes modos de agir na visão patriarcal.

Desse modo, crescemos vendo homens sendo protagonistas, tomando decisões, pensando por si próprios, tendo coragem, sendo valorizados e tendo seu lugar ao Sol e, quando uma mulher age desse jeito, o elogio que ela recebe é um certificado de macheza. Parabéns, agora sua existência é quase tão importante quanto a existência de um homem!

Nesta campanha da Always, é evidente o quanto essa visão interfere em nossa vida desde que nos conhecemos por gente.

 

Isso tudo se torna muito claro quando vemos uma personagem feminina ser masculinizada para assumir o protagonismo. Muitas vezes, essa personagem enterra sua feminilidade e nutre um profundo desprezo por tudo que seja, por assim dizer, “coisas de mulher”. Ela não se permite experimentar – e quem dirá gostar – dessas coisas e até mesmo ridiculariza as outras personagens femininas que se encaixam no padrão, o que contribui para a crença da superficialidade e futilidade da mulher. A popularidade dessas personagens é grande até mesmo quando elas não são, de fato, protagonistas: Arya Stark, uma guerreira nata, é incrivelmente popular entre os fãs de Game of Thrones (e de fato, a Arya é uma personagem feminina extremamente forte e que tenta quebrar todos os padrões que lhes são impostos) mas tamanha popularidade se resume majoritariamente ao fato de que ela é “badass” e “age feito homem” – e isso a torna melhor do que sua irmã lady Sansa, por exemplo.

heroínasVale muito a pena você ler esse texto sobre a Sansa Stark.

 

Em outros casos, mesmo negando a vaidade, a personagem conta com um sexappeal natural e que serve também para alavancar sua popularidade e estimular o imaginário masculino. De certa forma, esse tipo de personagem é ainda mais inatingível para as mulheres: são aquelas que lutam com os vilões sem borrar a maquiagem, sem ganhar nenhuma cicatriz e sem sair um fio do lugar além do que já tinha sido previsto. Em todo o caso, esse é o tipo de heroína que até pode ser uma heroína e ter habilidades tipicamente masculinas, mas ela também tem que servir de símbolo sexual pros homens.

heroínasRealmente só sendo uma super heroína para conseguir combater o crime vestida assim.

 

Isso tudo também contribui para a rivalidade feminina. Geralmente essa protagonista é cercada de personagens extremamente superficiais que a invejam e ela, por sua vez, despreza. Dessa forma, grande parte de seus relacionamentos são com homens. Não foi incomum, nos meus tempos de adolescência, ouvir dizer que amizades masculinas são melhores do que as amizades femininas porque as mulheres não são tão confiáveis ou sinceras como os homens. Essa desconfiança que mulheres são estimuladas a ter em relação à outras mulheres (e por que não mencionar; em relação à si mesmas)  não permite que elas se unam.

Ou seja, frases “inocentes” sobre a macheza de certos atos contém raízes muito mais profundas do que podemos imaginar. Dizer a uma mulher que ela faz algo como um homem é quase como parabenizar alguém dizendo: “Que atitude ótima a que você tomou, nem parece que partiu de você.”

Pausa para citar Clarice Lispector, em seu conto Mensagem:

“Sobretudo a moça já começara a não sentir prazer em ser condecorada com o título de homem ao menor sinal que apresentava de… De ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava, ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz exatamente por não julgá-la capaz.”

É uma forma sutil – e fácil de ser usada no cotidiano – de subestimar e inferiorizar tudo que seja convencionalmente classificado como feminino. É dizer aos homens que desconfiem de tudo que parta de uma mulher (a escritora J.K Rowling foi aconselhada a assinar com suas iniciais devido à crença de que leitores meninos não se interessariam por uma história escrita por uma mulher), dizer à eles que mulheres são muito complicadas (em suas superficialidades, é claro) e que é dever delas buscar compreendê-los, e nunca ao contrário – por isso, talvez, nem seja realmente necessário escutá-las. É dizer às mulheres para ou se encaixarem nesses padrões ou renegá-los completamente, mas sem esquecer do objetivo principal que é agradar e conquistar a admiração de um homem. É dizer à uma mulher que, pra ela ser boa o suficiente, é necessário que ela abra mão de parte de sua identidade; e que prove constantemente isso.

heroínasUm brinde às mulheres fortes. Que nós possamos conhecê-las. Que possamos sê-las. Que possamos cria-las.

 

Quando você é uma mulher, ou melhor, está crescendo para ser uma mulher, frequentemente você se pergunta qual tipo de mulher você vai escolher ser. Você vai ser a badgirl? Vai ser a princesa? Você está disposta a abdicar do que for preciso para se encaixar nessas personagens?

Na maioria das vezes não estaremos. Porque ser mulher faz parte de ser quem você é, e não o contrário. Porque não existem tipos de mulheres, existem mulheres. Mulheres duronas que choram vendo filmes, mulheres sensíveis que sabem sim ter pulso firme, mulheres que rejeitam as imposições da sociedade mas acabam se encaixando no padrão de vez em quando e ainda assim continuam sendo elas mesmas. Ser mulher, ou ser homem, não é qualidade – é uma condição.

Por agora, por questões que vem do nosso histórico machista, campanhas como o #doitlikeagirl e girl power são extremamente importantes para, num mundo onde crescemos chamando as mulheres de “o sexo frágil”, mostrarmos que estamos aqui, não iremos à lugar nenhum e nossa existência é completa e significativa. Que somos capazes. Mas, se a mídia nos representar de forma mais honesta e realista, se dermos espaço para mulheres em todos os setores mostrarem sua competência – um espaço honesto, um espaço que realmente tenha interesse e preste atenção na nossa participação, que pasmem, não é só decorativa; um espaço igualitário – talvez um dia sejamos somente nós, sendo quem somos e fazendo o melhor que pudermos.


Update: O texto não critica a Arya ou qualquer outra personagem, e sim o apelo junto ao público de personagens que rejeitam o que é socialmente construído como “feminino”. 

Leia também Beleza Interior? A Misteriosa Síndrome dos Caras “Feios” com Minas Gatas na Cultura PopDe Sonsa a Sansa – Como Fomos Criadas para Odiar Sansa Stark.