4 Heróis Românticos que Eu Não Queria na Minha Vida nem Pintados de Ouro (Parte 3)

Desmascaramos mais quatro embustes disfarçados de heróis românticos para a sua apreciação.

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*Contém spoilers de todas as produções citadas.

Sim, é isso mesmo que você está pensando. Cá estou novamente para jogar seus heróis românticos favoritos na lama e pisar no seu pobre coração iludido.

Mas não, você sabe que isso não é verdade. Não faço o que faço para acabar com seus sonhos e filmes mais queridos, mas sim para abrir nossos olhos para a quantidade de embuste disfarçado de herói romântico que Hollywood nos enfia goela abaixo ano a ano, criando expectativas doentias em relação ao amor romântico até no ser mais consciente. Detesto ser a pessoa que curte o próprio comentário, mas sobre isso vou ter que citar a mim mesma:

“Sim, todos sabemos que a vida não é como num filme. Sabemos diferenciar a realidade da ficção. Mas mesmo assim esses filmes acabam moldando nossas percepções e expectativas em relação ao amor romântico na vida real. Para homens, os grandes “gestos românticos” do cinema acabam reforçando a noção (machista e bem real) de que mulheres são coisas a serem “conquistadas”, e de que ‘não’ na verdade significa ‘você não está tentando o suficiente’. E para mulheres, o fato de todos esses gestos serem tão açucarados com caras dreamy e finais felizes pode nos fazer relevar comportamentos abusivos dos nossos próprios parceiros românticos na vida real.”

Então vamos lá. Coragem! O filme até pode ser ótimo, mas melhor ainda é conseguir identificar os closes errados para não cair em cilada também na vida real.

Nas partes 1 e 2 deste texto, cobrimos alguns heróis problemáticos clássicos como: Henry Roth (Como Se Fosse a Primeira Vez); Noah Calhoun (Diário de uma Paixão); Edward Lewis (Uma Linda Mulher); Edward Cullen (o vampiro que brilha no escuro de Crepúsculo); Sam Coulson (Nunca fui beijada); Jake Perry (Doce lar); Severo Snape (Harry Potter) e Christian Grey (50 Tons de Cinza).

Agora, na parte 3, pedi a ajuda de vocês, caras leitoras, que se mostraram à altura do desafio e indicaram alguns reconhecidos Caras Legais™ do Cinema e da Televisão. Caras como…

Ross Geller (Friends)

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A História

Ross sempre foi apaixonado por Rachel, desde o colégio. Depois de adultos, eles se reencontram e a paixão de Ross ressurge com força total, iniciando uma longa jornada romântica cheia de altos e baixos que o casal trilha ao longo de dez anos.

O Horror

O casal Ross e Rachel foi um dos principais plots de Friends (se não o principal) e marcou de forma definitiva a televisão nos anos 1990-2000. Eu mesma fui fã da série durante toda a minha adolescência e torci muitas vezes para que o casal finalmente se entendesse e ficasse junto. Hoje em dia, no entanto, toda vez que eu lembro do Ross é para pensar puxa vida, mas que cara escroto.

As escrotices são muitas e extrapolam o relacionamento dele com a Rachel, mas vou me ater a ele para tentar simplificar. Para não me perder, vou listar as ofensas mais problemáticas, quais sejam:

  • Ele interfere negativamente na trajetória profissional da Rachel mais de uma vez

Quando Rachel consegue o emprego dos sonhos na Bloomingdale’s, Ross passa boa parte do tempo fazendo-a se sentir culpa, reclamando que ela não tem mais tempo pra ele e deixando claro que acredita que a área pela qual ela é apaixonada (Moda) é fútil e inútil.

Bem Ross, enquanto sua namorada tinha uma posição subalterna e não-ameaçadora como garçonete você estava de boa, mas quando ela consegue ascender profissionalmente você fica incomodado? Babaca.

 

Mais tarde, quando Rachel consegue um emprego na Louis Vuitton, em Paris, Ross tenta fazer com que ela desista do cargo para ficar perto dele em Nova York. Ele desiste brevemente, mas no último segundo corre até o aeroporto para professar o seu amor, o que faz com que Rachel desista dos seus planos e fique em Nova York.

  • Ele é ciumento e possessivo

Além de ficar incomodado com Rachel por ela estar dedicando mais tempo ao seu crescimento profissional, o incômodo de Ross com o seu emprego na Bloomingdale’s tem também a ver com um dos colegas dela, um cara boa pinta chamado Mark, de quem ela fica amiga. O ciúmes de Ross fica tão fora de controle que ele ultrapassa todos os limites básicos do respeito ao tentar “marcar seu território”, enviando presentes extravagantes para o escritório dela e invadindo o local enquanto ela trabalha, tentando farejar uma traição.

Off: Em seu relacionamento com Elizabeth, tem um episódio em que ele pira porque ela vai usar um biquíni perto de outros homens.

  • Ele se faz de vítima e é incapaz de se responsabilizar por seus próprios erros

As cobranças e ciúmes obsessivo de Ross acabam sobrecarregando Rachel, que pede um tempo. No dia seguinte (menos de doze horas depois), ela muda de ideia e vai atrás dele para se reconciliar, mas como o Ross é um babaca, ele já dormiu com outra mulher.  

Ross, você é um péssimo ser humano.

 

Quando Rachel descobre, ela termina de vez, mas Ross não larga o osso e se torna um disco furado, repetindo para quem quiser ouvir ao longo de dez temporadas que ele não tem culpa pela traição porque eles estavam dando um tempo.

Em determinado momento, Rachel escreve uma longa carta para ele pedindo que ele assuma a culpa pelo término do namoro como condição para que eles voltem a ficar juntos, mas Ross é incapaz de sequer ler a carta, dormindo na metade e mentindo para ela no dia seguinte, dizendo que leu. Uau, isso porque você é apaixonado por essa mulher, hein amigão? De qualquer forma, quando ele descobre o que a carta diz, fica revoltado e diz que não vai assumir culpa nenhuma, o que faz com que continuem separados.

Off: Há vários outros momentos em que Ross se faz de vítima. Apenas a título de exemplo, em determinado momento descobrimos que ele criou um clube para odiadores da Rachel no colégio, espalhando boatos simplesmente porque ela não gostava dele.

Como eu disse, optei por falar só dos pontos principais da relação desse embuste com a Rachel, mas ao longo de dez temporadas vemos o suficiente de sua personalidade fora dele para querer ficar bem longe. Ross tem visões bem machistas quando se trata da criação de seus filhos, por exemplo – ele pira quando seu filho quer brincar com Barbies e, mais tarde, pira de novo quando Rachel contrata um excelente babá para a filha deles, só porque ele é o Freddie Prinze Jr. (isto é, um homem).

“Não dê ouvidos ao Ross, Freddie! Ele é um babaca!”

 

Além disso, ele faz várias escolhas egoístas em detrimento de outras pessoas. Lembra quando ele termina com a Bonnie durante uma viagem para a praia, para ficar com a Rachel na própria viagem? E quando ele diz o nome da Rachel no seu casamento com a Emily e, não contente, ainda a convida para ir para a lua-de-mel com ele, já que Emily, desconsolada pelo fiasco no casamento, não apareceu no aeroporto?

Resumindo: babaca. Babaca do dedão do pé até o fio do cabelo.

Tom Hansen (500 Dias com Ela)

A História

O sonho de Tom Hansen é encontrar sua alma gêmea e se apaixonar. Já Summer Finn não acredita no amor romântico e prefere não se relacionar seriamente com ninguém, preservando sua independência. É por ela que Tom se apaixona.

O Horror

Logo no início somos informados de que essa não é uma história de amor, mas sim uma recapitulação do relacionamento de Tom com Summer, do seu início glorioso ao amargo fim.

Em suma, a relação entre os dois se desenvolve da seguinte forma: Tom se encanta por Summer assim que a vê, mas porque ela é muito bonita e aparentemente não deu bola para um cara randômico no escritório, ele conclui que ela deve ser uma vaca e resolve esquecê-la. Tudo muda quando ela puxa papo com ele um dia no elevador e eles descobrem que têm o mesmo gosto musical. Um tempo depois, eles começam a ficar juntos, mas desde o início Summer diz que não acredita no amor e que não quer um namoro sério. Ela repete isso várias vezes ao longo do filme, e mesmo a relação deles sendo casual, ela não fica com outros.

Tom quer mais – ele é um romântico por natureza e acredita que pode mudar a opinião dela. Sabe, porque ele é um cara tão legal. Ele acata o que Summer quer, mas ao mesmo tempo cobra um comprometimento que ela diz múltiplas vezes não poder entregar. Mesmo assim, ele fica chocado quando ela resolve terminar e entra em uma depressão paralisante, vilanizando Summer por não querer ficar com ele. Pra você ter uma noção, essa é a conclusão que ele tira do término:

Certo, Tom, você claramente tem uma opinião muito modesta sobre si mesmo. (Na imagem, Tom diz: “Ou ela é um ser humano mau, sem emoção e desprezível, ou…ela é um robô”.)

 

No fim, Tom é o clássico Cara Legal™. Ele opta por ignorar tudo o que Summer lhe diz e decide unilateralmente que ela é sua alma gêmea. Quer dizer, foda-se o que ela quer ou o que sente, não é? E pior: ainda fica chocado quando ela não se encaixa na versão idealizada de par romântico que ele construiu para si.

Por mais que o filme tente criticar o comportamento do Tom, ele falha ao apresentar a história inteira pela perspectiva dele e não nos oferecer nada sobre Summer além de suas visões sobre relacionamentos. Aliás, não sabemos nem por que Tom se apaixona por ela, além do fato de ele gostar muito de sua aparência – o que, aliás, é outro motivo para querer ficar longe do personagem.

Mulheres não são enfeites, Tom.

 

Além disso, a suposta crítica fica ainda mais difícil de engolir quando lembramos que o filme abre com um disclaimer que diz o seguinte:

Nota do autor: o filme a seguir é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é pura coincidência. Especialmente você, Jenny Beckman. Vaca.

Quer dizer, antes mesmo da personagem principal ser apresentada, já somos influenciados a pensar algo ruim sobre ela. Alguém manda para o roteirista o nosso texto sobre a diferença entre retratar e endossar opressões, faz favor.

Ted Mosby (How I Met Your Mother)

A História

Ted Mosby, um romântico incorrigível, passa nove temporadas contando aos seus filhos adolescentes a história de como conheceu a mãe deles.

O Horror

Não é por acaso que coloquei o Ted logo depois do Tom: os dois são muito parecidos. Assim como o Tom, tudo o que o Ted mais quer é encontrar sua alma gêmea, com a diferença de que para ele é muito importante constituir família. Ele acredita no amor, ele é um adepto de grandes gestos românticos, ele…é um Cara Legal™.

heróisNa imagem, aquela vez super normal em que ele roubou uma trompa azul e disse “eu te amo” para a Robin no primeiro encontro. #sqn

 

Como tal, Ted é uma versão do Tom (e, em alguma medida, do Ross). Na minha opinião, uma versão mais leve, é verdade, mas ainda assim ele idealiza a mulher dos seus sonhos e se ressente quando as mulheres reais com quem ele se relaciona não correspondem à expectativa. Então, quando as coisas inevitavelmente dão errado, ele entra em uma espiral eterna de autocomiseração.

Mas, no entanto, todavia, porém…embora, isso seja ruim por si só, existem outros dois motivos pelos quais eu ficaria bem longe do Ted. O primeiro deles tem a ver com a própria razão de ser do seriado e como ele termina. Ted inicia a série falando aos filhos adolescentes que vai contar como conheceu a mãe deles. Aí ele passa nove temporadas falando de todas as outras mulheres com quem ele ficou. E como se não bastasse, no final descobrimos que a mãe dessas pobres crianças está morta e que a história toda na verdade foi sobre como ele ama a Robin.

heróisPor que você faria uma coisa dessas com seus próprios filhos, seu babaca sem consideração?

 

Já o segundo motivo é esse cara:

Isso mesmo, um dos melhores amigos do Ted é um cara nojento que trata mulheres como lixo. E pior: não só ele nunca confronta ou questiona seriamente o Barney sobre o seu comportamento, como também participa ocasionalmente de suas ciladas. Fica a dica: o fato do seu carinha aceitar de boa a misoginia e o machismo dos amigos é um mau sinal.

Jim Preston (Passageiros)

A História

Jim está em sono criogênico em uma nave espacial junto com milhares de pessoas que compraram um pacotão para migrar para outro planeta. No entanto, uma falha técnica faz com que ele acorde 90 anos antes do que deveria. Desesperado, ele fica sozinho na nave durante cerca de um ano, quando se encanta por uma das moças adormecidas e decide acordá-la.

O Horror

Na real, acho que não preciso me alongar muito, porque o terror é bem visível logo na sinopse, mas vamos lá.

Jim deu muito azar. Muito azar mesmo. Ele está condenado a viver sua vida inteira sozinho dentro de uma espaçonave sem nunca conseguir chegar ao seu destino. Eu sinto muito por ele, de verdade. Consigo imaginar o desespero. O que eu não consigo entender é por que o seu ato egoísta de condenar a vida de Aurora é romantizado pelo roteiro.  

Passageiros não devia ser um romance, devia ser um filme de terror. Ou no mínimo algo que levasse à reflexão, ao invés de nos apresentar um final bem cretino em que Aurora não só o perdoa, como opta por não voltar a dormir, para que eles vivam felizes para sempre sozinhos dentro de uma fucking espaçonave.

Aurora não deu azar – ela teve sua vida roubada de si por um cara que ficou obcecado enquanto ela dormia. Jim Preston é basicamente o que aconteceria se o Tom Hansen acordasse de um sono criogênico noventa anos antes do que deveria e esbarrasse com a Summer dormindo pacificamente rumo a um novo planeta. Ele decidiu unilateralmente que aquela era sua alma gêmea e sacrificou a vida dela em prol da sua.

heróisAssim como Tom com Summer, a obsessão de Jim por Aurora tem muito a ver com o fato de ela ser gata e gostosa, o que torna toda a história ainda mais nojenta, com um subtexto que nos remete à cultura do estupro.

 

Com isso, por mais futurista que Passageiros pareça, ele é na verdade solidamente fundamentado em velhos e antiquados ideais machistas. Afinal, abrir mão da própria vida para viver em função de um cara é exatamente o que se espera de mulheres dentro dos moldes tradicionais. Que Jim Preston tenha sido vendido como herói romântico em pleno 2016 é no mínimo desanimador.


Leia também a Parte 1 e a Parte 2. Obrigada a todas que indicaram nomes para esta postagem!

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