Quem disse que Mulheres tem que ser Belas?

A ditadura da beleza nos transforma em seres inseguros, de baixa autoestima e eternamente dependentes de aprovação externa.

beleza

Era uma vez uma bebezinha. Sua mãe gostava de enfeitá-la com lacinhos e vestidinhos, e seu pai se enchia de orgulho toda vez que alguém falava:  – Que linda ela é!

Assim começa a história de muitas mulheres. Mal colocamos a cabeça para fora da barriga de nossas mães e já somos soterradas por elogios dos mais variados.  

“Que linda!”

“Como é bonita!”

“Que cabelo lindo!”

“Que roupinha linda!”

“Como você está bonita!”

Ok, talvez não tão variados assim. Na verdade, nada variados. “Que linda” e variações são, em muitos casos, os únicos tipos de elogios que meninas recebem ao longo dos seus primeiros anos de vida (mais tarde entram outros tipos de elogios, nada melhores). A menina pode ser super carinhosa, engraçada, inteligente, inventiva, criativa. Mas logo ela aprende que nada disso importa. O que importa é como o cabelinho dela é bonito, olha os cachinhos! Ou o rostinho, olha que linda que ela é, que princesa! Com isso, logo no começo da vida, a maioria das meninas já entende que beleza é o que elas têm de mais importante.

Essa mensagem da beleza como fator soberano na vida das mulheres é reforçada de várias formas. Ela não só vem embutida nos elogios tediosos e superficiais dos adultos, como também aparece de supetão com as Barbies lindas e deslumbrantes, com os pequenos e perversos kits de maquiagem de brinquedo, com as princesas perfeitas da Disney e com todo e qualquer fragmento do mundo de mulheres adultas que alcançar os olhos e ouvidos de menininhas desavisadas.

Agora, eu não sou psicóloga nem nada, mas penso que é nesse primeiro momento, em que somos altamente suscetíveis a todas essas mensagens, que internalizamos inconscientemente a ideia de que o objetivo principal de uma mulher é ser bela. E é a partir daí que a coisa começa a descambar. Em primeiro lugar, porque as mensagens vão ficando cada vez mais fortes. Por volta dos doze anos de idade, por exemplo, muitas meninas já estão com uma Atrevida ou uma Capricho na mão (aprendendo rotinas de beleza que nem garotas pré-adolescentes têm tempo de seguir – dica: prefira uma Capitolina); e já são público de uma caralhada de filmes que pregam que tudo o que uma garota precisa para ser feliz é de uma boa e velha makeover.

belezaGente, eu sei que tá batendo uma nostalgia, mas foca aqui!

 

Em segundo lugar, a coisa descamba porque conforme as meninas crescem, a cobrança da beleza toma proporções monumentais. Como eu disse lá no começo do texto, quando somos crianças pequenas, somos soterradas com elogios à nossa aparência. Eles vêm fácil, porque crianças são naturalmente adoráveis. Mas conforme vamos deixando a infância para trás, o mundo começa a nos mostrar – sutilmente ou não – que, de alguma forma, não nos encaixamos no ideal de beleza feminino que é pregado. E isso é feito de maneira tão perversamente orgânica, que ficamos com a impressão que a culpa é nossa, quando na verdade, ninguém alcança esse ideal, porque ele é absolutamente MALUCO.

belezaNem quem está na capa das revistas consegue!

 

É fácil pensar simplesmente que mulheres são loucas superficiais obcecadas com a aparência e atribuir nosso comportamento a uma falha ou fraqueza de caráter. Mas a verdade é que essa obsessão é trabalhada e incutida em nós desde o berço. Não, não tem ninguém com uma arma em nossas cabeças nos obrigando a colocar silicone nos peitos, ou a fazer as unhas toda semana, ou a gastar uma fortuna em cabeleireiros, roupas, maquiagem e clínicas de estética. O que tem é um discurso incessante, terrorista e implacável que diz que mulheres devem ser belas, mas ao mesmo tempo eleva a beleza a um padrão impossível de ser alcançado pela esmagadora maioria de nós.

Por esses motivos, talvez a ditadura da beleza imposta sobre as mulheres seja a engrenagem sexista que mais sutilmente nos destitui de poder. Em primeiro lugar, porque coloca como o ideal mais importante de nossas vidas algo que é subjetivo, variante e efêmero.

Vídeo ótimo do Buzzfeed que mostra ideais de beleza feminino ao longo dos séculos.  

 

Em segundo lugar, porque arranca de nós tempo, energia e recursos que poderiam ser utilizados em outras ocupações e melhoramentos pessoais mais importantes. E por último, mas não menos importante, porque cria seres inseguros, de baixa autoestima e eternamente dependentes de aprovação externa.

O coquetel perfeito para a submissão.

E é por isso que, no meu entendimento, a questão da beleza tem uma posição tão central para o empoderamento feminino. Os inúmeros movimentos atuais que pregam a aceitação e a beleza do corpo feminino em todas as suas formas, cores e tamanhos são fundamentais para quebrar a parte do ciclo que coloca a beleza em um patamar inatingível. O próximo passo é atacar aquela primeira parte do ciclo, que faz com que a beleza seja tão importante para nós em primeiro lugar. Será que conseguimos?

belezaÉ urgente, pessoal.

 

Leia também sobre as partes do meu corpo que eu não odeio mais e sobre o mito do corpo perfeito