Culpar Mães pelo Machismo é o Mesmo que Culpar Negros pelo Racismo

Existe um motivo categórico para não culpar as mães pelo machismo de seus filhos: não se culpa o oprimido pela reprodução inconsciente de sua opressão. Entenda como esse ciclo funciona. 

mães

“A família sempre foi pensada na História do Brasil como a instituição que moldou os padrões da colonização e ditou as normas de conduta e de relações sociais desde o período colonial” (Samara,2002)

“A história do feminismo como tal é antiga, como bem exemplificado pelo movimento sufragista nos Estados Unidos. Tenho, porém, de admitir que foi apenas nos últimos 25 anos que observamos uma insurreição maciça e global das mulheres contra sua opressão, embora com diferente intensidade dependendo da cultura e do país. Tais movimentos tem causado impacto profundo nas instituições da sociedade e, sobretudo, na conscientização das mulheres. […] Essa é a mais importante das revoluções, porque remete às raízes da sociedade e ao âmago no nosso ser.” (CASTELLS, 2008, p. 170.)

É recorrente em qualquer conversa com pessoas que se dizem pró-feminismo, feministas iniciantes ou veteranas assumidas, não feministas e principalmente homens quando são surpreendidos dando vazão livremente ao seu machismo, culpar as mães pelo sexismo manifestado pelos seus meninos.

Recentemente – e não é a primeira vez – o respeitado e maior formador de opinião negro do país, Mano Brown do Racionais Mc’s, disse isso com todas as letras em uma entrevista:

– O machismo existe por culpa das mães. Quem cria os filhos? É as mães, morô?

Ele sempre é questionado sobre o seu machismo (que aliás não dá sinais de questionamento e desconstrução, infelizmente!) e ao invés de tentar refletir sobre o porquê dessa pergunta, se protege numa atitude que não combina com seu posicionamento corajoso diante do racismo. E lutas sociais à parte, ele não é o único a dizer/pensar assim. Homens usam esse argumento com a mesma frequência com que usam o banheiro. Mulheres também dizem, sem se dar conta de que chamam para si um peso a mais na balança das cobranças a que estamos expostas e que já pesa, sozinha, toneladas de absurdos.

Como dói ouvir a propagação de uma ideia(?) tão superficial, tão desprovida de raciocínio lógico. E de criatividade também, porque sendo uma muleta para disfarçar a ignorância sobre o assunto, ela poderia ser melhor elaborada para pelo menos ser mais bem humorada ou técnica. Existe um motivo categórico para refutar esse não-pensamento:

NÃO SE CULPA O OPRIMIDO PELA REPRODUÇÃO INCONSCIENTE DE SUA OPRESSÃO.

Mas podemos destrinchá-lo de forma simples, quase desenhada, para aqueles que se recusam a entender esse processo.

No modelo tradicional de família que se arrasta ao longo de anos de história, temos uma hierarquia que se repete na sociedade e é absolutamente patriarcal, ou seja, a ‘Lei’ é associada ao pai. Para a mãe ‘sobra’ o lugar secundário associado a afetividade, ou aquilo que é menos importante. Pai se impõe – conforme reza a cartilha – protege, sustenta e direciona, estabelecendo um comando intuitivo; já a mãe acolhe, aceita, pondera e atua nos bastidores da criação dos filhos, muito mais como fiscal do que como formadora.

Com isso, podemos prever que aquele menino, ainda que tenha figura materna atuante por mais tempo no seu dia-a-dia (realidade cada vez mais escassa), vai absorver a função intuitiva do provedor material apto a manter a ‘lei’. Para a menina cabe a reprodução, também intuitiva, das funções familiares imposta às mães na hierarquia familiar. Uma vez que a ‘lei’ atribuída ao pai é imposta, cabe a mãe tratar de fazê-la sempre presente. Nós crescemos dentro desse esquema, gerações inteiras foram formadas com essas referências. Muitas e muitas mães reproduzem aquilo que foi assimilado e passado de geração pra geração. Mesmo aquelas que saíram e ocuparam os espaços sociais, elas ainda reproduzem nos seus lares o modelo que passeia no inconsciente coletivo.

Então elas inibem manifestações afetivas vindas dos meninos, permitem brincadeiras e coisas ‘de meninos’, montam enxovais azuis e verdes, compram bolas e carrinhos, enfim, reproduzem ciclicamente todos os estereótipos que caracterizam o universo infantil masculino. Quando esses meninos crescem e chegam na adolescência, mais um festival de estereótipos é incentivado no comportamento deles. Por que? Porque é assim que nosso ‘chip’ social está programado para agir, porque esse é o lugar comum que cabe no micro (família) e macro (sociedade) a que estamos condenados a viver se os devidos questionamentos e ajustes não vierem à tona nas rodas de conversas.

Os tempos são outros e de acordo com dados do IBGE coletados entre 2000 e 2010, o número de mulheres chefiando lares já somam 38,7% dos 57,3 milhões de domicílios. Saímos de casa para trabalhar, estudar e articular posições na sociedade, e ganhamos algum poder econômico, considerando a enorme diferença de oportunidades e ganhos entre homens e mulheres. Mas intuitivamente, a estrutura em que fomos criadas ainda permeia o cerne das nossas famílias, ainda que essas nem sejam mais tão tradicionais quanto já foram um dia. As mulheres ainda se colocam como provedoras da emotividade dos seus filhos, tal qual lhes foi culturalmente ensinado.

Há um esvaziamento do lugar do poder paterno, mas não de sua lembrança enquanto dominante da composição hierárquica. Logo, mães manifestam suas fragilidades em lidar com a criação de meninos, sendo sim permissivas com as manifestações sexistas que eles apresentam.

Mas devemos considerar que nossos filhos saem do ninho também, cada vez mais cedo, e se colocam em contato com outras realidades. E uma dessas realidades é o machismo que corrói como uma ferrugem as engrenagens sociais. Não ‘estamos’ capazes de lidar com o esquema familiar que assimilamos geração após geração e reproduzimos automaticamente, ciclicamente, intuitivamente. Para feministas já é difícil, imaginem para não feministas que sequer se dão conta de que podem e devem exercer o poder familiar em toda sua totalidade. Esse esquema familiar é tão impregnado nas nossas relações, que cansamos de ouvir, diante de casais homo/lesboafetivos a fatídica pergunta (sempre às escondidas, claro! Porque também faz parte da constituição familiar social a hipocrisia e a covardia.):

– Mas quem é o pai/mãe da relação? Ou ainda – Quem é o marido/esposa da relação?

Como se houvesse uma necessidade de se estabelecer os papeis familiares que nos sãos passados culturalmente e que, sem ela, algo perde a capacidade de funcionar. Ainda pensando na estrutura familiar que estabelece até que ponto a mulher consegue exercer seu poder, mesmo na ausência total/parcial da figura masculina, o comportamento do pai (biológico ou social) vai sempre servir de referência para a formação do menino ao longo da vida. Pouco (e melhores, cabe ressaltar) serão aqueles cujo a mãe conseguirá se impor como formadora do comportamento, pelas questões acima citadas.

E devemos também lembrar que mães, enquanto poder secundário, estão no inconsciente coletivo como menos capazes que os pais nos momentos onde impor a ordem e fazer valer a ‘lei’ são exigidos. É natural que meninos, já contaminados pelo machismo que presenciam na escola, nas festas familiares, nas rodas de amigos e em todos os espaços sociais, desrespeitem ou desconsiderem a opinião de suas mães, devidamente codificados como sinônimo de fragilidade e alocados no lugar ‘menos importante’ da sociedade. E, independente de terem crescido em uma família chefiada por homens ou mulheres, terão incentivo de outros machistas para desenvolver seu poder. Aliás, que exerce lugar de privilégios na sociedade. Assimila isso desde cedo, ora, pois existe um chão totalmente fortalecido que permite isso, há racismo e machismo em todos os espaços infantis, mostrando para a criança desde cedo que o poder é branco e é masculino.

Essa é mais uma faceta do estigma da família tradicional que atua silenciosamente hoje em dia, mas que já foi bastante ruidosa no passado e ainda dita as regras. Todas essas questões colocam o pensamento culpabilizador da mulher frente ao machismo de seus meninos, no mínimo, questionável. É urgente que se desconstrua esse pensamento nas mulheres, mas é igualmente urgente que quando vindo da boca de um homem, seja duramente combatido. No caso da mulher é ignorância e falta de consciência sobre as armas que estão apontadas para si. No caso do homem, é uma maneira cruel e infantil de jogar a sua responsabilidade total diante do machismo que o privilegia.

É a reprodução dos momentos de infância onde o menino busca o colo materno quando está com medo de alguma coisa. Nesse caso, ao invés de buscar o colo, ele busca as costas maternais para descarregar sua falta de argumento e seu medo em encarar que seu comportamento sexista deve ser radicalmente derrubado. E ao invés de culpar a mulher lhe imputando a responsabilidade pelo machismo de seus filhos, devemos discutir um caminho novo para a reformulação das bases sociais, pautadas em outros termos, na família tradicional descobrindo, combatendo e questionando até onde isso influencia nosso modus operandi na estrutura social e como ele pode ser definitivamente eliminado.

Temos aí, nas novas manifestações familiares contemporâneas, que embora tímidas, se proliferam a cada dia, uma nova chance, um novo olhar, muito mais colorido e responsável para avaliar e aprender sobre como a vida longe das tradições falidas pode ser mais feliz.

Texto postado originalmente em Imprensa Feminista. 

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