Menstruação na Cultura Pop – Terror, Histeria e Catástrofe

Em pouquíssimos casos a menstruação é retratada como um elemento neutro do ciclo reprodutivo feminino.

menstruação

Se a vida fosse como filmes e séries, ficar menstruada seria bem diferente do que é na realidade. Pra começo de conversa, o tímido parabéns do meu avô quando tive a minha menarca (primeira menstruação) não teria sido a parte mais constrangedora da coisa toda. Não, provavelmente a pior parte teria sido toda a possessão, os poderes malignos e os demônios do inferno que a minha vagina sangrante teria liberado no mundo naquele dia.

Da mesma forma, o meu período menstrual atualmente também seria bem diferente dos dias taciturnos e levemente melancólicos que o sangue me traz todo mês. Se minha vida fosse um filme, minha menstruação seria fonte constante de constrangimentos, humilhações e explosões histéricas, seguidas de explicações embaraçosas sobre como “sabe como é, eu estou naqueles dias, hê hê”.    

Eu vou ser franca aqui. A forma como a mídia aborda a menstruação é bem problemática. Desde aquele absurdo líquido azul nas propagandas de absorventes, até as possessões e piadinhas em filmes e séries, ela não traz nada além de desinformação e o reforço de um tabu baseado fortemente em misoginia, que prejudica consideravelmente a vida das mulheres em todo o mundo.

Em 2012, a cientista política Lauren Rosewarne, da Universidade de Melbourne, pesquisou mais de duzentas cenas do cinema e da televisão desde a década de 1970, e constatou academicamente o óbvio: existem pouquíssimos retratos neutros ou positivos de menstruação na cultura pop. De acordo com a pesquisadora, na maioria dos casos essa parte natural do ciclo reprodutivo feminino é vista como uma situação traumática, constrangedora, desesperadora, ofensiva, catastrófica ou hilária.


911? Minha amiga está sangrando pela vagina!

 

Durante muito tempo, foi costumeiro associar a menarca a eventos sobrenaturais e demoníacos. Em Carrie, a Estranha, por exemplo, a presença constante de sangue na tela cria essa associação entre menstruação, poderes perigosos e violência (muito embora o filme traga um questionamento importante e necessário sobre repressão feminina). Algo parecido acontece no filme Audrey Rose, que mostra a possessão de uma garota de doze anos de idade apenas horas depois de ela conversar sobre menstruação com sua mãe.


O demo chegando.

 

Além disso, a possessão da garota traz também uma boa dose de sexualização – algo que traz seus próprios terrores, dado que a sexualidade feminina é entendida como algo ruim, constantemente reprimida pela sociedade. Sem contar, é claro, que fortalece a ideia de que a menstruação marca o início da atividade sexual na vida de uma garota, o que é bastante problemático em uma sociedade com tantos problemas relacionados a pedofilia e erotização infantil.

Numa linha similar a essa temos o filme Meu Primeiro Amor, que traz uma cena em que a protagonista, uma garota de quase doze anos, fica menstruada pela primeira vez. Sem erro, nas cenas seguintes vemos Vada passando batom pela primeira vez e sugerindo ao seu amigo, Thomas J., que eles treinem beijar na boca.

menstruaçãoPronto, agora você que você é mulher, tá na hora de gostar de garotos e passar batom.

 

Além disso, o que acontece logo depois que Vada fica menstruada também reforça  alguns estereótipos ruins. Depois de demonstrar descontentamento pela injustiça que é o fato de meninos não ficarem menstruados, Vada empurra e derruba Thomas J. na varanda quando ele aparece para chamá-la para nadar. E ainda grita: “Não! Sai daqui! E não volte por cinco a sete dias!”. Não só temos nessa cena a ideia de que menstruação é um sinal de inferioridade e injustiça, como também vemos repetido o cansativo estereótipo de que mulheres menstruadas são irracionais, violentas e descontroladas.

Bem, mais tarde a tendência foi mudando para estacionar no que mais vemos com frequência na televisão hoje em dia: menstruação como fonte de constrangimento, nojo, descontrole e histeria feminina – todos usados, frequentemente, em situações de comédia.

Em Superbad, todos riem muito de um personagem que, depois de dançar colado com uma garota, percebe que tem sangue menstrual na calça. Enojado, ele exclama: “Vou vomitar!”. Em Family Guy, Stewie lê um livro sobre menstruação e anuncia que “é a coisa mais nojenta que já vi na vida!”. Em Para Maiores, uma garota tem sua menarca durante um encontro na casa de um menino, para pânico geral dos homens da casa. Em mais séries e filmes do que eu seria capaz de contar, a menstruação é retratada a partir do ponto de vista dos personagens masculinos, que ou se desesperam ou constantemente acusam as mulheres de estarem agindo de forma descontrolada, agressiva, burra ou irracional porque “estão naqueles dias”. E mesmo quando são as personagens femininas que falam sobre ela, o tom é geralmente o mesmo. 


Quero me enrolar em um buraco e morrer.

 

Em pouquíssimos casos a menstruação é retratada como um elemento neutro do ciclo reprodutivo feminino. Pelo contrário, através da cultura pop o tabu da menstruação é reproduzido e reforçado, trazendo inúmeras consequências negativas para mulheres na vida real. Afinal, vale lembrar que em todo o mundo, milhares de mulheres sofrem discriminação por causa de crenças infundadas que dizem que o sangue menstrual as deixa impuras ou contaminadas.

menstruaçãoRecentemente, meninas no Nepal tiraram fotos de tudo que elas não podiam tocar durante a menstruação por estarem “impuras”. Tal crença faz com muitas famílias tranquem as meninas fora de casa durante o período menstrual.

 

E não pense você que essas crenças são exclusividade de vilarejos isolados do outro lado do mundo. Na nossa sociedade, por exemplo, esse tabu existe como resultado de séculos de desinformação e demonização da menstruação na Europa, cortesia de leituras literais de livros religiosos como a Bíblia e a Torá. Ao longo dos últimos cinco séculos, mulheres européias já tiveram sua liberdade restrita porque seu sangue menstrual era tido como “venenoso”, o que as tornava “impuras e perigosas” durante a período menstrual, capazes de “azedar o vinho, estragar sementes, murchar frutas e enferrujar bronze e ferro”. Até o século XX, existia a crença entre médicos que engravidar durante a menstruação faria com que a mulher gerasse uma criança monstruosa.

Apesar de ainda serem fortes em diversas partes do mundo, essas crenças não fazem mais parte de nossa sociedade hoje em dia, mas perduram de outras formas. Mulheres ainda se sentem sujas, constrangidas, inadequadas e, de alguma forma, deficientes por causa de suas menstruações. Da mesma forma, elas ainda têm suas queixas, reivindicações e argumentos frequentemente ignorados ou ridicularizados por causa da crença de que a sua biologia faz com que elas ajam de forma irracional.

menstruaçãoQuem lembra da reportagem misógina da Isto É?

 

Por isso é importante discutir e combater a representação negativa da menstruação na mídia e cultura pop. Afinal, ela é em grande parte apenas mais uma face do machismo, misoginia e controle do corpo feminino. E mesmo nisso é bom que todo mundo saiba: nosso corpo, nossas regras.  

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