Agatha Christie – Crime, Investigação e uma Revolução para Personagens Femininas em Romances Policiais

Em uma época improvável, Agatha Christie criou detetives memoráveis independente do gênero – e sim, muitas assassinas memoráveis também.

agatha christie

No começo do mês foi lançado o primeiro trailer de Assassinato no Expresso do Oriente, a adaptação mais recente do clássico da dama do crime, Agatha Christie.

Se você é fã da autora como eu, provavelmente já deve estar se remexendo de ansiedade para ver o detetive Hercule Poirot em ação na telona novamente, encarnado dessa vez na pele de Kenneth Branagh. E se é fã de uma boa história de mistério e investigação, mas nunca abriu um livro da Agatha Christie, me perdoe, mas sou obrigada a perguntar: MOÇA(O) COMO ASSIM MEL DELS O QUE VOCÊ ESTÁ ESPERANDO????1!!1

Assiste aqui ao trailer enquanto eu me recupero. 

 

Bem. Você vai me desculpar a indignação, mas é que Agatha Christie é muito importante pra mim. Lembro claramente da primeira vez que descobri as suas obras. Eu tinha por volta de dez anos e andava pela casa à procura de um livro pra ler. Naquela época, o apartamento onde morávamos tinha um daqueles armários embutidos no corredor, que servia para guardar todo tipo de tralha. Lembrei de ter visto alguns livros por lá em outra ocasião e fui fuçar lá dentro, sem muita expectativa. Foi então que descobri aquele que seria a minha porta de entrada para o mundo do romance policial.

agatha christieEi-lo.

 

Sim, ele ainda está comigo; a capa meio pendurada, as páginas amareladas. Tenho uma relação afetiva com esse livro, porque além de me introduzir à autora, foi ele o responsável pela minha descoberta da “Seção Reservada” da biblioteca da minha escola. Não, não era uma seção com livros que falavam sobre horcruxes ou que ensinavam a fazer a poção polissuco, mas sim que abrigava as obras mais adultas. Até aquele momento eu já tinha lido praticamente todos os livros disponíveis na biblioteca para crianças da minha idade, e só tinha visto de longe a sala com as prateleiras que ficavam atrás da mesa da bibliotecária.

Tudo mudou, no entanto, no dia em que parei na frente dessa mesa e perguntei: “tem outros livros dessa autora aqui?”, mostrando timidamente Depois do Funeral. A bibliotecária então sorriu e me levou lá para atrás, para as prateleiras desconhecidas – algumas delas cheias de livros da Agatha Christie.

Esse dia foi loko.

 

Mas bem, estou falando demais sobre mim mesma. Porque me engano quando digo que Agatha Christie foi muito importante para mim, e somente para mim. Na real, Agatha Christie foi muito importante para todos nós.

Britânica, Christie nasceu em 1890 e passou uma vida inteira escrevendo. De fato, ela escreveu mais de 80 livros, além de peças teatrais e adaptações de suas obras para o cinema e televisão. Aliás, o livro que deu origem ao atual Assassinato no Expresso do Oriente é provavelmente a sua obra mais famosa, e já foi adaptada inúmeras vezes em filmes e séries. Uma delas rendeu inclusive um Oscar a Ingrid Bergman, em 1974.

Com tudo isso, Christie se tornou a romancista mais bem-sucedida da História em número de livros vendidos: no total, foram mais de 4 bilhões de cópias, ficando atrás apenas do total de Shakespeare e da Bíblia. Seu livro mais vendido (e mais aterrorizante, na minha opinião) – E Não Sobrou Nenhum – vendeu mais de 100 milhões de cópias e se tornou a obra de romance policial mais vendida da História, e um dos livros mais vendidos de todos os tempos, independente de gênero.

E nada disso foi à toa. Christie trouxe em suas histórias de assassinatos precisos e bem elaborados diversos elementos inovadores que renovaram o gênero e fizeram com que ela recebesse o apropriado apelido de Rainha do Crime. Com plot twists nunca antes escritos e um olhar aguçado e crítico na vida doméstica e familiar dos vilarejos britânicos, Christie criou assassinos dos mais improváveis, e detetives mais improváveis ainda – mesmo para os dias de hoje. E não, não estou falando de Hercule Poirot, seu mais querido e irritante detetive belga, com seu paladar delicado, células cinzentas geniais, estômago sensível e bigode perfeito. Estou falando, é claro, de ninguém menos que Miss Marple.

agatha christieEla mesma.

 

Eu não tenho nem como descrever o meu amor por Miss Marple. Detetive amadora, a mais famosa “solteirona” da literatura resolve casos em doze dos romances de Christie, fazendo uso de sua mente afiada e do seu profundo conhecimento sobre a natureza humana, adquirido após décadas vividas no fictício vilarejo de St. Mary Mead.

Miss Marple é um personagem genial, não só porque é inteligente, mas porque forneceu uma das maiores quebras de estereótipos femininos em romances policiais do século XX – uma quebra que ainda se faz necessária hoje em dia. Nada de femme fatale, nada de garota intrépida em busca de aventura, nada de beleza rara que sabe atirar e encanta pelos olhos e pela mente. Miss Marple é simplesmente uma senhora idosa que por acaso também resolve crimes usando nada mais que o próprio cérebro. E o melhor de tudo são as alfinetadas que Christie inclui em seu texto aos eventuais leitores que farão pouco caso de uma mulher idosa como detetive.

Uma delas diz respeito ao tratamento que Miss Marple recebe de vez em quando nos livros. Sendo ela uma senhorinha amável e frágil, muitos personagens (a maioria homens) subestimam a sua inteligência e só lhe dão ouvidos quando ela prova que merece ser levada a sério. O interessante é que apesar de não se intimidar facilmente, Miss Marple costuma fazer o jogo desses caras e frequentemente atribui a sua inteligência à “intuição feminina”. Se ela realmente acredita nisso ou não é outra história, mas o fato é que a uma leitura mais atenta identificamos que o que Miss Marple chama de intuição não passa de percepção e observação – habilidades que nada têm a ver com gênero. Não é à toa, aliás,  que tanto Miss Marple como Hercule Poirot – ambos pessoas com mentes extremamente lógicas – fazem uso dessas mesmas armas em suas investigações.

Miss Marple não é, no entanto, a única personagem feminina de destaque de Agatha Christie. Ariadne Oliver, Tuppence Cowley, Bundle Brent e outras várias detetives ocasionais conquistaram o seu espaço nas investigações de assassinatos da autora, quebrando outros vários estereótipos femininos e ajudando a transformar o gênero do romance policial ao longo de todo o século XX.

agatha christieAriadne e Tuppence, em suas adaptações televisivas.

 

Claro que além de suas heroínas, Christie também traz vários heróis, e esse talvez seja o aspecto que mais chama a atenção no seu trabalho para mim, hoje em dia: esse equilíbrio que ela conseguiu alcançar entre homens e mulheres. Em uma época improvável, a autora conseguiu criar detetives memoráveis independente do gênero. E sim, muitos assassinos e assassinas memoráveis também – outro elemento inovador em uma sociedade que até hoje tem dificuldade em reconhecer que mulheres são capazes de tanta violência quanto os homens. 

Vale notar que nada disso significa que Christie não tenha feito uso de estereótipos diversos em suas obras – eles estão lá sim, talvez não tão abundantemente, mas estão. E isso dificilmente poderia ser diferente, pois apesar de à frente do seu tempo, Christie também foi um produto dele – e justamente por isso, é possível ler nas entrelinhas de sua escrita um registro das forças que atuaram contra e a favor das mulheres ao longo de toda a sua vida. Da mesma forma, seus livros também trazem o ocasional personagem racista, anti-semita ou xenófobo, o que lhe rendeu críticas justas, embora muitas vezes eles fossem apresentados de forma cômica ou como parte de sua sátira da sociedade britânica daquela época.

Somando todos os seus acertos e falhas, no entanto, no final o saldo é positivo. O legado de Agatha Christie para os romances policiais é indiscutível e com certeza abriu portas – tanto para as personagens dentro deles, como para as mulheres do lado de fora.


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