Violência Contra a Mulher e a Indústria Pornográfica

A forma como a pornografia vem sendo produzida e consumida contribui para uma cultura brutal de insensibilização em relação ao sexo. 

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Dia 25 de Novembro é Dia Internacional Luta pelo Fim da Violência contra a Mulher. Durante os 16 dias de ativismo na luta contra a violência à mulher, blogs envoltos pelo #feminismonerd se propuseram a discutir as problemáticas em torno da representação de mulheres como uma matriz que reitera os discursos de violência e ódio, quanto veículos que visibilizam a discussão. Sabemos que apenas a exposição e discussões possibilitam o combate direto, a resolução e identificação do problema. Como reitera a escritora e teórica feminista Audre Lorde: “é preciso transformar o silêncio em linguagem e ação”.

Um estudo indicou que homens que pagam por sexo são mais propensos a cometer estupros. O motivo? Seu relacionamento com sexo é impessoal: só interessa o seu próprio prazer, não o da outra pessoa. É dissociado, as minas são vistas como um utensílio descartável. De acordo com a reportagem, “outros estudos já tinham associado essa falta de empatia com atos de violência contra a mulher. Muitos especialistas, hoje, encaram a prostituição como uma forma de abuso sexual. E esperam que os resultados desse estudo ajudem a derrubar o mito de que consumidores de prostituição são ‘caras legais, apenas sexualmente frustrados’”.

O problema vai além disso. Sim, eu vou encher o saco sobre o seu pornôzinho. Desculpa aí! Como diriam as publicações gordofóbicas insuportáveis de dieta pós-Ano Novo, “você é o que você consome” e eu não sei se quero viver numa sociedade assim.

A pornografia foi colocada num pedestal pós-moderno. Toda crítica é moralismo. Mas a forma como esse conteúdo vem sendo produzido (machista, irreal e cada vez mais hardcore, graças à livre concorrência) e consumido em massa (na internet) também contribui para essa cultura de insensibilização para o sexo.

A humanidade do outro é secundária ao seu tesão. Não importa o que aparece na tela ou os seus bastidores grotescos, o importante é gozar. Não importa como aquela garota ou aquele “vídeo caseiro” chegou lá, o importante é gozar. Não importa como o filme foi feito e, definitivamente, não importa se a mulher está gostando. A probabilidade, hoje em dia, é que você vai fazer mais sexo com seu computador do que com uma garota. Então… Quem se importa com a garota?

E não venha me dizer que a maior parte da pornografia é de boas. Porque não é. Fico imaginando meninos de 12 anos vendo mulheres humilhadas na cara, com a garganta engasgada, usadas por mais de um, agindo como crianças inocentes e sendo seduzidas, corrigidas ou coagidas e submetidas a todo tipo de estripulia, de posição não-prazerosa que culmine no orgasmo do ator homem. Ou lendo títulos como “comendo duas vadias” e “banho com adolescente”, a la XVideos.

Somos coniventes com a pedofilia, com esse falocentrismo. Com uma sexualidade agressiva, com vídeos em que o orgasmo feminino é irrelevante e ridicularizado. “Todo mundo sabe que a mulher não está gostando”, “ela finge muito mal”… Tá. Então por que estamos assistindo? Se você abrir qualquer site de pornô gratuito e observar todas as fotos, todos os anúncios, todos os termos usados nos títulos, eu duvido que você se sentirá bem sobre ser mulher. E se você é homem, talvez nem se importe.

Boicotamos um macarrão Barilla porque o CEO fez um comentário homofóbico, mas não boicotamos sites com anúncios misóginos, humilhantes e agressivos. Com conteúdo P E D Ó F I L O. Sabe?

E aí vêm me dizer: “Ah, não tem outra opção” ou “Me masturbar é muito importante”. E eu me pergunto se é realmente uma escolha tão vergonhosa ou “último recurso” assim, se falamos abertamente sobre a pornografia que consumimos e fazemos piada com os sites que frequentamos, sem problematizar.

Então penso na minha adolescência, em mim mesma e em amigas em relacionamentos heterossexuais, fazendo sexo sem sentir prazer durante anos. Algumas mulheres pela vida inteira. Se submetendo desde jovens a todo tipo de posição sem realmente estar confortável ou entender aquilo, só para agradar… Para ver o cara feliz. Contentando-se com o contato físico, com o carinho, e não com o sexo em si. Colocando seu orgasmo em segundo plano, porque (assim como nos filmes) uma mulher não sentir prazer é culturalmente aceito.

Quem liga? Certamente não os caras que cresceram achando que minas têm que ser putas na cama. Ou que viram nos vídeos que é só colocar o I no O que o trabalho tá feito. Certamente não o cara que tem tesão em ménage a trois e assedia garotas em relacionamentos lésbicos. Nem o namorado bacana que fica chateado porque não ganhou sexo e “poxa, né, amor…”. E menos ainda o mano que convence a namorada a fazer sexo anal mesmo que ela sinta um pouco de dor.

Por que as mulheres estão nessa posição? Se desdobrando e se submetendo? Por que essa falta de empatia com elas? Como o mundo pode usufruir tanto da sexualização feminina e não dar a mínima para as garotas?

Os donos do Xvideos também não se importam. Nem os seus usuários. E sequer vou entrar no mérito dos vídeos amadores e do revenge porn, porque aí é provocar a ira dos defensores da pornografia online.

Ou concordamos com o conteúdo desses sites (e muitos concordam), ou somos coniventes. Você provavelmente se autodenominaria como da segunda categoria. Dos que ignoram a pedofilia em sites de pornografia. Ou o sucesso da categoria “teen” (atualmente, é o termo pornô mais buscado no Google), porque mentalmente não compactua com esta cultura e confia que a sociedade tem discernimento. Muito discernimento. Ou ainda dos que não se incomodam que a agressividade em vídeos pornôs seja direcionada 6% a homens… e estimados 94% a mulheres.

São diferentes tipos de violência de gênero, todos alimentados pela mesma cultura. Uma cultura que não tem empatia com as mulheres. Que faz tanta menina transar sem tesão e tanta mulher depender da indústria da pornografia e da prostituição para viver.

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E acreditem: isso tem menos a ver com “emancipação feminina” e mais com 70% do tráfico humano mundial ser de mulheres, escravizadas ou forçadas à prostituição. Dados da ONU, não meus.

A exceção não faz a regra neste caso. A maioria daquelas mulheres não está por cima, mas isso não parece gerar empatia. O distanciamento cresce. E eu entendo que todos temos hipocrisias ideológicas em nossas vidas, mas poucas delas estão filmadas e colocadas bem na nossa cara.

Que o tesão também seja problematizado.

Sobre o estudo: http://bit.ly/1JZnV7nO estudo em si (inglês): http://bit.ly/1PLPypcRelatório da ONU sobre tráfico humano: http://bit.ly/1MVDGMMTEDx – “Por que parei de ver pornô”: http://bit.ly/1S630HCDados sobre a indústria pornô e depoimentos de diferentes atrizes sobre os abusos e a “iniciação”: http://bit.ly/1O6O3BkDados da organização Stop Porn Culture:http://bit.ly/1PgSirG

BLOGS QUE PARTICIPAM DESSA INICIATIVA:

Nó de Oito
Collant Sem Decote
Momentum Saga
Ideias em Roxo
Preta, Nerd & Burning Hell
Delirium Nerd
Vanilla Tree
Prosa Livre
Kaol Porfírio
Psicologia&CulturaPop
Valkirias
Minas Nerds
Pac Mãe
Iluminerds

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